Confira!
Capa >> Colunas >> Será que ela é?

Será que ela é?

por Diedra Roiz

Com certeza todas já ouviram a seguinte palavra: GAYDAR.

Uma espécie de sexto sentido que nos permitiria detectar nossas “semelhantes” só de olhar.

Será que isso realmente existe?

Verdade ou mito?

Como perceber quando uma mulher é ou não é entendida?

Nem tudo que reluz é ouro. As aparências enganam. E nem todas dão bandeira.

Existem sinais. Ah, vocês sabem que não estou mentindo…

Porém, a vida é feita de incertezas.

- Como você sabe?

Minha irmã sempre me pergunta isso.

Minha resposta é sempre a mesma:

- Não sei.

Assim mesmo, com duplo sentido.

Não sei como eu sei – quando consigo perceber.

E às vezes não sei mesmo – se tem quem consegue esconder para si mesma, para os outros então…

Enganar e ser enganada. Confesso: já aconteceu comigo.

Quando eu trabalhava em telemarketing, treze anos atrás.

Minha P.A. (posição de atendimento) era ao lado da de uma garota super simpática, de quem rapidamente fiquei amiga. Ela falava o tempo inteiro do namorado.

E eu da minha… ops, quer dizer: meu – fazia um esforço incrível para trocar todos os pronomes e adjetivos para o masculino.

Não me entendam mal. Eu era assumida sim, mas… Imagine um ambiente de trabalho opressivamente convencional. Eu não via propósito em me expor. Chocar a garota para quê?

Já antecipadamente pensando que ela não ia aceitar, muito menos compreender. Preferia fingir que era hetero durante as 6 horas de expediente.

Sim, o medo e o preconceito eram meus. Apesar de eu sequer perceber.

Eu trabalhava de manhã. Minha então esposa – aquela que a mãe dizia que éramos uma dupla, lembram? – de tarde. Não sei explicar porque, só tínhamos uma chave de casa – talvez uma vontade inconsciente de dar pinta, quem sabe?

Ela me entregava o chaveiro na troca de turnos. Eu saindo e ela entrando. Os olhos falando sem que pudéssemos impedir.

Minha amiga observava de um jeito estranho, mas nada dizia.

Um belo dia, do nada, soltou a seguinte frase:

- Ontem fui numa boate gay. Com um amigo bicha.

Um daqueles momentos em que se eu estivesse bebendo algo teria cuspido, sabe?

Pânico.

Suor frio.

Mãos geladas.

Fiquei paralisada.

Estaria ela desconfiada?

A menina prosseguiu:

- Uma garota pediu pra ficar comigo.

Eu tensa, olhando fixamente para a tela na minha frente. Ela então completou:

- E eu fiquei.

Nem assim minha paranóia desapareceu. Pensei: “Ela tá me testando! Só pode ser!”

E respondi a coisa mais ridícula:

- Que horrível!

Horrível foi a cara que ela fez. Totalmente sem graça, concordou:

- É… Não sei o que me deu…

A partir dali, nossas conversas se tornaram constrangidas e difíceis. Como se minha reação fosse algum tipo de empecilho.

Até que ela esqueceu o casaco em casa – onde trabalhávamos fazia muito frio – e ligou para uma amiga. A tal amiga veio da Barra na hora do intervalo só para entregar o casaco para ela.

Era isso mesmo?

Comecei a entender. Tive certeza quando as vi juntas.

De volta as nossas P.A.s, confessei:

- Também sou.

Ela riu. Um pouco aliviada, um pouco revoltada:

- Eu achava que era, mas depois do seu: – que horrível! – conseguiu me despistar direitinho.

Tudo bem. Mesmo com nós duas fingindo, uma empatia inexplicável surgiu. Coincidências não existem.

Assim como do meu outro lado tinha outra pessoa, no outro lado dela também. Então o que nos atraiu?

“Gambá sente cheiro de gambá!” – meu pai sempre dizia.

Nenhuma conexão pessoa a pessoa é por acaso, não é verdade? Estamos interligadas com todos que passam em nossas vidas.

Apostos gigantes à parte…

Será que ela é? Como saber?

Existem mulheres masculinas que não são lésbicas. E lésbicas extremamente femininas.

Está no olho! – já ouvi muitas pessoas afirmando.

Sou obrigada a concordar com isso.

Não com relação a um efeito qualitativo.

Explico: tem quem fale que mulheres que tiveram ou têm experiências com mulheres carregam no olhar um misterioso sei lá o que. Que sabem mais, etc e etc…

Discordo. Sexo não é um jogo de Playstation.

Não dá para pontuar:

Sexo com homem = 10 pontos

Sexo com mulheres = 15 pontos

Como comparar bananas e laranjas? Um não é mais do que o outro. É apenas diferente. Impossível mensurar o que num orgasmo se compartilha com a outra – ou o outro.

Então o que eu quero dizer com:

Está no olho! – é:

Quando uma pessoa te olha – realmente te olha – revela muito mais do que mil palavras.

Talvez por isso tantas pessoas conversem olhando para cima, para baixo, para os lados… Não tem nada que me incomode mais… Adoro ver o que brota das pupilas e escorre pelas córneas…

Voltando ao gaydar: talvez até exista, talvez não… Quem sabe?

Algumas de nós preferem deixar claro, outras não. Revelar ou não. Escolha pessoal, direito incontestável de cada uma. Ninguém tem nada com isso.

Tudo bem, realmente existe uma certa felicidade em cada vez que descobrimos: Mais uma! Mais uma!

Mas como boa ex-atriz que sou, confesso: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”…

Não gosto de nada óbvio, dogmático ou stand. Acho divertido poder optar entre botina e sandalinha. Confesso: eu adoro variar de figurino e papel…

Versatilidade para mim é palavra chave.

Na real? Sem ser a mulher que eu amo (essa tem que ser, por motivos óbvios! – ruiva, se você não fosse eu tava ferrada!) pouco me importa.

Não escolho as pessoas pela opção sexual, isso não as faz menos ou mais queridas.

Tirando uma superficialíssima identificação inicial – ela também gosta de meninas – pode ser que não tenha nada a ver comigo.

Muitas devem estar se perguntando: mas e se eu estiver platonicamente apaixonada e não sei se invisto?

Com relação a isso, a única coisa que posso fazer é me desculpar, porque… não faço a menor idéia. Nunca tive esse dilema.

Sou sagitariana. Paixões platônicas não fazem nem nunca fizeram parte da minha vida. Me apaixono pelo toque, pela voz, pelo cheiro. Por aquilo que a pessoa tem por dentro. Coisas que a distância não me permite perceber.

Sou adepta do palpável, do real. Dos erros e defeitos. Da humanidade visceral que a pessoa amada transpira.

E quando chegamos a esse ponto, não sabemos, sentimos. Não precisamos procurar sinais, eles são naturalmente emitidos.

Mas para o bem de todas e felicidade geral da nação lés, vamos tentar destrinchar alguns sinais básicos:

1. Unhas curtas.

Conheço várias lésbicas com unhas compridas e vermelhas… e heteros que roem as unhas…

Aviso: isso não passa de lenda urbana, não quer dizer nada!

Continue a pesquisa.

2. Opinião sobre homens.

Puxe o assunto como quem não quer nada.

Se ela falar mal, de um jeito: impossível viver com eles, impossível viver sem eles, provavelmente é hetero.

Se falar mal com uma raiva quase irracional… Pode ser que seja. Por outro lado, pode ser feminista radical ou estar revoltada com alguma traição do ex ou do atual…

Se falar muito bem, de forma exagerada, principalmente se ficar repetindo: “eu adoro um pau” – como quem tenta convencer a si mesma, suspeite!

Se não se interessar muito pelo assunto, aí sim, já é mais na cara.

Informações ainda insuficientes, prossiga!

3. Opinião sobre mulheres.

Bom, digamos que obviamente, o interesse que heteros e lésbicas tem com relação a mulheres bonitas é bem diferente…

Fale sobre Angelina Jolie. É básico…

O importante aqui é o subtexto, ler nas entrelinhas. Aliás, como tudo nesse passo a passo…

Se ela disser: é, a Angelina Jolie é realmente bonita. Com um certo despeito, não está interessada. Meio travada: pode ser mentira. Lembre-se: o que vale é o tom utilizado…

Se ela entrar em detalhes, tipo: que boca é aquela? Tesão de mulher! – uhm… pode ser, mas… Já vi heteros dizerem: Eu dava pra ela! – Angelina Jolie é Angelina Jolie, não é verdade?

Não desista ainda, vá anotando os fatos.

4. Entender tudo de futebol.

Só um mero gostar, ser doente, fanática, daquelas que chega a brigar por causa de futebol. Isso não quer dizer nada, mas…

Saber em que posição cada jogador atua, quem são seus substitutos diretos, o que pode ser mudado em esquemas táticos… uhm…

Isso a torna muito, mas muito suspeita. A menos que ela seja professora de educação física.

Porém, ainda não temos como saber de fato.

5. Falar: “a pessoa” ao invés de usar o gênero masculino: “ele” ou “meu namorado”.

Na maioria dos casos é infalível, mas… toda regra tem sua exceção.

Não é certeza, mas é quase. 99%

Continue analisando os dados.

6. Achar Cássia Eller, Ana Carolina, Zélia Duncan e Isabella Taviani o máximo.

Não é necessariamente um sinal.

A não ser se ela cantar pra você: “você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que seja eu!” – aí, não precisa de mais nada…

Por favor, não levem a sério esse “Guia Prático”. É que eu não podia perder a piada…

Brincadeiras à parte…

Como tudo que diz respeito ao ser humano, não existem regras nem fórmulas. Os sinais são individuais, subjetivos e mutáveis. Variam caso a caso.

A grande pergunta aqui é: Por que você quer saber?

Só por saber? Perda de tempo, não acha?

Está a fim? Quer investir? Interessada? Apaixonada?

Aí é outro caso. O que importa então, na verdade, é se ela também está.

Se ela for, e não estiver interessada, adianta? E se não for, não pode resolver experimentar?

Repito:

- Está no olho!

A gente sabe, a gente sempre sabe.

O problema é que muitas vezes, não queremos ver a verdade.

Outras vezes ficamos esperando – nada cai do céu, nem cairá – ao invés de tomar a iniciativa, por medo de decepções e rejeições…

O melhor a fazer, como diria Cazuza, é: “ganhar ou perder sem engano…”

“Quem não arrisca não petisca!”

“Viver com medo é viver pela metade!”

“Quem tá na chuva é pra se molhar!”

Acreditem: ouvir um sonoro “NÃO” faz parte.

Mas antes de chegar junto – ninguém aqui é “Kamikaze”, vou mais uma vez repetir:

- Está no olho!

Espelhos da alma.

Que exigem retorno.

Se está interessada, não espere olhar, olhe você.

Não tem como errar, se lembrar:

O quanto se vê é proporcional ao quanto estamos dispostas a mostrar.

Sobre Diedra Roiz

Escritora carioca radicada em Blumenau - Santa Catarina. Publicou seu primeiro livro, o romance O LIVRO SECRETO DAS MENTIRAS & MEDOS em Novembro de 2009 e o segundo BOLEROS DE PAPEL em novembro de 2011. Todos os contos, crônicas, romances e poesias de sua autoria encontram-se reunidos no blog DIEDRA ROIZ - DIZENDO AO QUE VIM: www.diedraroiz.com

Deixe seu Comentário

Scroll To Top
Copy Protected by Chetans WP-Copyprotect.