por Diedra Roiz
Sábado saí com duas amigas muito queridas que são namoradas e que se beijam na boca, onde quer que estejam. Sabem o que aconteceu?
Deixem-me contar o caso com detalhes para vocês:
Estávamos eu, a ruiva, essas duas amigas que são namoradas e mais uma outra amiga nossa tomando umas cervejinhas e trocando idéia num barzinho em Laranjeiras.
De vez em quando as duas namoradas se beijavam, nada demais. Beijos carinhosos, sem nada de obscenos. Do tipo que não faria ninguém gritar:
- Arrumem um quarto!
Absolutamente.
Tanto que na hora, ninguém olhou feio, nem disse nada abertamente. Tudo até muito discreto. Foi o que eu achei.
Mas…
Assim que elas saíram, nossa outra amiga disse que a dona do bar (que é amiga dela) disse que um cliente disse para ela dizer para elas pararem porque estava se sentindo incomodado.
Por aí vocês já podem ver que o negócio era um enorme disse-que-me-disse.
Inacreditável.
Eu pulei na cadeira.
Aparentemente calma, mas fervendo por dentro.
A primeira coisa que perguntei, sem alterar o tom de voz, foi:
- Quem foi que reclamou?
Nossa amiga, muito sem graça e tensa:
- Não sei. Não devia nem ter falado, né? Mas sabe como é, minha amiga ficou numa posição chata, sem saber o que fazer, e…
Nem deixei ela terminar. É, eu já tinha bebido, e… se sóbria eu já falo pelos cotovelos, imaginem alegre…
Comecei:
- Diz pra sua amiga da próxima vez falar pra quem reclamar que elas tem todo o direito de se beijar e que se ela viesse aqui falar qualquer coisa daria uma merda federal.
Então nossa amiga foi, na maior boa vontade, chamar a amiga, dizendo:
- Explica você pra ela?
E veio a dona do bar sentar na nossa mesa. Primeiro ela falou:
- Gente, não é preconceito. Eu já não gosto de homem e mulher beijando aqui dentro…
E eu – apesar de estar muito mais do que na cara de que era sim, preconceito:
- Tá, tudo bem. Só que se você viesse aqui falar, reclamar ou expulsar as meninas, elas poderiam processar você. (Nem sei se é verdade, mas joguei). Mais ainda: poderia vir todo o movimento gay pra cá ficar se beijando no seu bar em sinal de protesto.
A mulher arregalou os olhos. Sério. Acho que ela estava imaginando a cena: dezenas de bandeiras – tanto as de pano, do arco-íris, quanto às ao vivo e a cores (o povo LGBT todo se pegando e beijando).
Carnaval em Janeiro…
Começou a empalidecer quando a ruiva – quem conhece sabe o quanto ela é empolgada, principalmente depois de umas cervejas – completou, em tom de discurso:
- É isso mesmo! Vai vir um monte de gay e lésbica ficar se beijando aqui! Isso aqui vai virar o bar do amor!
E repetia, quase gritando:
- O bar do amor! O bar do amor!
Um engraçadinho, já cheio de más intenções, retrucou:
- Então porque não começam se beijando vocês?
E a ruiva, sem sair do salto, nem perder a pose:
- Beijo quando quero, e não pra dar show, meu bem!
A dona do bar ainda tentou se defender:
- Mas beijar em público é tão feio…
Retruquei:
- Feio é atirar a filha pela janela. Feio é arrastar uma criança pelo cinto de segurança não sei quantos metros. Feio é combinar com o namorado matar os pais batendo com um cano de ferro na cabeça deles.
E a ruiva mandou:
- No filme pornô ninguém se importa, pelo contrário! Sacanagem pode. Amor ninguém quer ver!
Repetiu para o bar inteiro novamente:
- Amor ninguém quer ver! Amor ninguém quer ver!
Pronto. Instaurou-se um verdadeiro debate. Todo mundo quis dar opinião.
Incrivelmente, o tal homem que reclamou – se é que ele existe mesmo – não se manifestou. Aliás, acreditam que ninguém ficou do lado da dona do bar?
Os tempos e as cabeças estão mudando? Ou tivemos sorte?
Não sei de dizer.
O fato é que veio até um carinha falar que a tia preferida dele também era lésbica, e beijava as namoradas na frente de todo mundo e se estivesse ali ia apoiar a gente.
E porque resolvi contar isso?
Porque suscitou milhares de questões em minha mente, que gostaria de compartilhar com vocês.
Por incrível que pareça, não estamos em Amsterdan, e esse ainda é um assunto polêmico.
Beijar ou não beijar… Eis a questão!
E por trás, muitas coisas, não é não?
Bom, a ruiva e eu não nos beijamos assim, na rua, onde quer que estejamos. Por que? Não sei. Estabelecemos assim desde o começo.
Às vezes acontece.
No Ano Novo ou em algumas despedidas.
Como aquela lendária vez na fila de embarque gigantesca para Goiânia do aeroporto Tom Jobim (mais conhecido como Galeão).
A ruiva entrega o cartão para um daqueles seguranças de terno, daqueles estilo MIB (Man in Black), se vira para mim, me tasca o maior beijão na boca, daqueles de tirar o fôlego, e… entra. Protegida por aquele vidro fume que separa a esteira e o detector de metais do resto do aeroporto.
Eu fiquei ali, acho que roxa de vergonha. Todo mundo olhando para a minha cara (pelo menos foi a impressão que tive), o tal segurança com um sorrisinho safado no rosto.
Verdade seja dita? Sinceridade?
Adoraria fazer como minhas amigas. Mas não acho tão fácil assim.
Lembram da história da vez em que vi a velhinha e desviei do beijo nos lábios?
Pois é. Existe mais, muito mais enraizado, aprofundado em nossas mentes e corações. Dúvidas, medos, receios, culpas. Quem pode dizer que está completamente livre deles?
Ao nos assumir rompemos muitas barreiras com tudo que nos foi ensinado desde muito cedo, mas… bem lá dentro, os resquícios de nossa criação permanecem.
Saber respeitar as diferenças talvez seja a tarefa mais difícil da sociedade contemporânea, pois a mesma sociedade é que homogeneíza a partir da construção de modelos pré-estabelecidos.
Por isso a visibilidade acaba sendo não só importante, como também nosso melhor meio de quebrar tabus e preconceitos.
Só na freqüência e na qualidade do contato com uma realidade diferente as pessoas conseguem evoluir a esse respeito.
Por isso, apesar de não fazer, apoiei minhas amigas completamente. Não por querer aparecer, ou algo do gênero.
Mas porque eu aprendi que na vida, não podemos nunca, jamais ficar neutros, permitir que as injustiças aconteçam, por mais que num primeiro momento pareça mais confortável não se expor. Porque às vezes, esse pequeno momento de conforto pode custar muito sofrimento para várias pessoas depois.
Não se trata de levantar bandeiras.
É mais, muito mais.
“Pensando grande e fazendo pequeno,
Um pouco a cada dia e todos os dias um pouco,
Porque são pequenas gotas d’água
Que fazem todo grande oceano.” (Autor Desconhecido)
Fazer com que nosso espaço exista realmente.
Sermos aceitas? Conseqüência. A realidade é que precisamos existir primeiro.
Exterminar o cruel sofrimento que é se sentir e ser excluída. Não importa o motivo.
Ser um fantasma, um espectro, uma sombra que não tem direitos nem voz ativa pode ser uma violência tão grande ou maior do que ser fisicamente agredida.
A invisibilidade mata por dentro.
E…
Quem cala consente.
Como diria Martin Luther King:
“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”
Realmente.
Porque – para construir de fato um mundo melhor, tolerante, sem preconceitos, que aceite cada um com suas particularidades e diferenças – temos que, como disse Mahatma Gandhi:
“Ser a transformação que queremos no mundo”.


















a gente se indigna qdo se depara com preconceito, mas é dificil bater no peito e enfrentar de frente… eu tb nao beijo em publico, é fato… acho tb q ficar se amassando é mto feio, mas pq um casal hetero pode demonstrar carinho com alguns selinhos e a gente parece q vai morrer por causa disso? eu nao beijo em publico pq nao quero enfrentar esse tipo de situação, covardia? pode ser, mas prefiro me preservar e preservar qm está cmg… mas nao q seja certo, deveria enfrentar essa situação, pq vai chegar a hora em q será normal casais gays na rua demonstrando carinho e ngm nem vai notar…
Brigadíssimo pelo comentário!
Assino embaixo de tudo que vc disse. Realmente, visibilidade é imprescindível e inadiável, mas… não é fácil, né?
Mas nada cai do céu, nem cairá…
BJUS!
Wind,
Sempre uma honra ter um comentário seu, né?
BJ GDE!
Rapha,
Tava sumida mesmo, amiga!
Ainda bem que voltou e com uma coluna de arrasar! Adorei seu texto de hj, tudo a ver, né?
Beijar não tem nada de mais.
Já dizia o ditado: por onde o peixe apodrece primeiro? Pela cabeça.
Da mesma forma as pessoas.
BJIN!
Prisccila,
No Habib’s?
Essa eu queria ter visto!
BJAUN!
annahsito,
É mesmo chocante. Mas… infelizmente a cruel realidade em que ainda vivemos.
Bom, eu divulgo pra todos os meus amigos heteros e muitos deles acompanham e adoram.
BJ GDE!
Juliana Mell,
Brigadíssimo!
Como ter outra postura, né? Não dá!
Qto ao prêmio, só posso agradecer novamente, porque… na verdade eu não fiz nada, vcs é que ganharam pra mim.
Muito, mas muito obrigado mesmo!
BJUS!
Yaya,
Nem sei como te agradecer. Brigadú, viu?
Eu tb não gosto de altos amassos em público, seja quem for. É meio constrangedor, né?
Mas beijinho? Por favor!
Mas ainda chegamos lá!
BJIN!
Qualquer coisa, vira um mundo de fofoca e preconceito..
Bom, se eu estivesse no seu Lugar, Sendoo ou nao LEsbica eu teria dado BAFON tambem acho q respeito está acima de tudo..independente de qualquer coisa.
Tem tipo de coisa q não dá para aceitar..
A maestria com que vc aborda os assuntos é ímpar. Nos faz refletir e rir ao mesmo tempo… parabéns!
Super beijos de uma fã incondicional,
Luciana
Brigadú pelo comentário, viu?
Pois é, não dá pra aceitar mesmo.
Até porque: “quem cala consente”
BJ GDE!
Lu_Vida,
Só posso te agradecer, né?
Muito, mas muito obrigado mesmo!
E por favor, agora que tá de volta, continue comentando, ok?
BJUS!
Belissíma, adorei a reação que foi uma das melhores! hushasuahsuahsuas’
Eu já vivi algo bem parecido, estavamos eu, minha neném e dois casais de amigas nossas, fomos usar o banheiro do bar, quando um dos caras de lá começou a falar besteiras e minha amiga que é bem esquentadinha ouviu, começou no bate-boca com o cara e todas nós fomos para cima. Uns amigos nossos queriam partir para a violência, mas agente não deixou, porque realmente perde a reação e não resolve nada, mas é lamentável esses fatos ainda acontecerem.
Eu particularmente não sou muito de beijar em público, mas porque eu acho feio até mesmo um casal de heteros se ‘desentupindo’ no meio da rua, sempre achei vulgar, existem lugares e lugares para isso.
Sempre ando de mãos dadas com a minha neném, dou uns selinhos quando dá vontade e carinho, beijos de verdade só em lugares mais nossos, como na casa dela ou na minha, festas de amigos e vale até em shows e baladas, mas quando estamos em meio á amigos também nos comportamos direitinho, não é para querer provar nada a ninguém, simplesmente é a maneira em que agente se sente bem, até porque você não tem que esfregar na cara de ninguém que é lésbica.
E também não é o fato de me esconder, jamais! Até porque as mãos dadas, alianças, carinhos e uns ‘amor!’ sempre deixam bem claro quem eu sou.
Gostei muito do artigo de hoje e acho que falei demais já, né?
hsuahsuashaushaus’
Beijos Diedra, para você e para a sua ruiva!
*–*
parabens!
Levantar bandeira nem sempre é tão importante quanto ser justa e verdadeira com o que você sente e quer.Não importa o lugar ou quem esteja ao seu lado…ter um posicionamento digno de uma mulher que ama outra, e que poderia estar na mesma situação é fundamental para que os olhares e as atitudes um dia sejam diferentes.
Mas devo dizer que Rio de Janeiro esta mais liberal que Porto Alegre…
Estava em um bar, não totalmente Gay, mas alternativo, já que as donas são Les…
Quando duas gurias beijaram-se em outra mesa, conhecidas nossas, uma das gurias que estava na minha mesa comentou que achava de mal tom, acreditem ela e Lés…
Comentei: olha eu ainda não consigo ser tão liberal assim, venho de uma época que tinha que esconder…as meninas bem mais novas e liberadas, não vejo nada de mais, uma demonstração de carinho, se fosse um casal hetero… tu não ligaria!?
Se as proprias gurias do meio Gay são preconceituosas o que esperar do resto…
PARABÉNS PELOS TEUS TEXTOS!!
Td bem?
Só pra dizer que meu segundo conto – AMOR ÀS AVESSAS – está sendo postado nas Histórias Abertas (não precisa assinar para ler) do abcLes:
http://www.abcles.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=103&page=1
Se puderem conferir, comentar e ajudar a divulgar, eu agradeço muitíssimo, ok?
BJ GDE!
Eu pude ver a cena e me irritar com ela.
Bom, nao sei se voce vai ler esse comentario porque o post é meio antigo e, se ver, eu provavelmente nao vou voltar pra ver se voce me respondeu haha
Mas de qualquer forma eu deixo minha marca aqui dizendo que toda sua atitude foi louvável. A do momento e a de compartilhar com outrém pela internet.
Hm, nao sei se cabe nesse momento… mas… parabéns! (?) haha
o/
Acabei de ler.
Só posso te agradecer!
muito, mas muito obrigado mesmo!
BJ GDE!
adoro tudo isso po so que estou so por enquanto ajuda ai vai?