A 28 e a 72 – Capítulo V
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por Caicai em Muito Longe de Mim
O Silêncio
(Leia o Capítulo VI)
Elas resolveram tirar férias. A Vinte e Oito deixou o estúdio na mão de um amigo de confiança. A Setenta e Dois conseguiu um mês de folga do trabalho. O Tiradentes ficou com um casal de amigas. Óbvio que passaram pelo menos uma semana discutindo para onde iriam. Uma queria interior. Outra queria litoral. Uma queria paz. Outra queria agito. Uma pensava em acampamento. Outra imaginava um belo hotel. Quase decidiram no cara e coroa. No final, passaram uma semana em cada lugar. Uma não gostou de ter que passar litros de repelente antes de dormir. Outra não gostou das regras do hotel. Uma se surpreendeu com a delícia de viver no meio da natureza. Outra adorou os banhos de piscina nas madrugadas. Elas não tiravam fotos. Não filmavam nada. Tudo ficava somente nas lembranças. Se não podiam lembrar de tudo, lembravam do que realmente tinha sido importante. Em casa, nenhum porta-retrato. As únicas fotos em que elas apareciam juntas eram as que os amigos tiravam. Não precisavam ficar olhando retratos para que se lembrassem do que sentiam. Bastava apenas fechar os olhos para sentir o perfume e o gosto da outra. A própria memória sempre foi suficiente para a Vinte e Oito, e também para a Setenta e Dois.
Os meses passavam e elas, sem perceber, tinham se transformado em adultas responsáveis. Até mesmo nas aventuras inconsequentes mantinham uma seriedade diferente da de qualquer outra pessoa. Sabiam o que faziam. E sabiam sempre o porquê faziam. Tudo se resumia em viver. E elas viviam. Mas a cada dia que ia embora, viviam de maneira diferente. Mudava o gênero do filme preferido. Mudavam as músicas com que acordavam. Mudava a roupa preferida da Setenta e Dois. Mudava o corte de cabelo da Vinte e Oito, que estava cada dia mais empreendedora e menos revolucionária. A Setenta e Dois estava cada dia mais exigente, e cada dia menos preocupada com futilidades. Elas cresciam juntas. E, por estarem juntas, amadureciam uma pela outra. Não, não perderam o pensamento de liberdade, de não se deixar levar pelos padrões tradicionais da sociedade. No fundo, nunca tinham deixado de ser duas jovens amantes do underground que ficavam em filas de apresentações alternativas. Mas por fora cresceram. Foram obrigadas a evoluir, mesmo que essa evolução representasse a quebra de valores que um dia fizeram tanto sentido. E, de repente, nada mais fez sentido.
A Setenta e Dois não sabia como aquele momento tinha chegado. Mas sentiu que era uma manhã diferente. Ela não teve vontade de ligar o rádio. Não teve vontade de acordar a Vinte e Oito sorrindo, embora seu sono angelical a fizesse sorrir. Ela sentiu que tudo havia mudado. Sentiu que nada mais seria igual e que a hora era aquela. Sem saber os porquês, ela simplesmente sentiu e soube que o fim estava ali, estampado sobre os lençóis azulados. A Vinte e Oito dormia ainda com a mesma feição apaixonada da noite anterior. A Setenta e Dois passou a mão pelos cabelos da Vinte e Oito. De leve, beijou os lábios da mulher que tinha sido só dela por tanto tempo. Sussurrou no ouvido da Vinte e Oito palavras exclusivas, que o mundo nunca tinha ouvido e jamais conheceria. Guardou algumas roupas em uma mochila, separou o que era dela e rabiscou, com as mãos trêmulas, despedidas no verso de um papel qualquer.
Ela sabia que jamais tomaria sorvete napolitano do mesmo jeito, se preocupando em dividir os sabores. Sabia que sentiria falta dos carinhos do Tirinha. Que o furão seria a única a distração da Vinte e Oito por muito tempo. E sabia que sentiria mais falta ainda dos carinhos da Vinte e Oito. Sabia que jamais conseguiria ser alternativa como era há alguns anos. Ela sabia que poderia até mesmo se arrepender. E sabia também que nem assim voltaria atrás. Sabia que a Vinte e Oito não iria procurá-la. Sabia que ela não entenderia, mas aceitaria. Sabia que nunca mais ouviria música sem lembrar dela. Sabia que nenhuma ida ao cinema seria tão divertida como eram as idas com ela. Sabia que as discussões não teriam mais a mesma intensidade e as mesmas conseqüências. Sabia que a última noite tinha sido a melhor que tivera na vida. Sabia ainda que era a última noite. Sabia que era a hora. Sabia que sempre teve medo que essa hora chegasse. E sabia que a Vinte e Oito também temia. Sabia que foram os melhores anos da vida dela. E sabia também que nunca mais viveria algo assim. Ela sabia que estava certa, mesmo sabendo que estava errada. Ela sabia que a saudade apertaria. Sabia que tomaria alguns porres nos próximos meses. Ela sabia que as filas sempre teriam outro significado. Sabia que os números se tornariam sem graça. Ela sabia que acordar ao lado de alguém nunca mais seria tão prazeroso. Sabia que não iria apagar aquela roqueira de calça xadrez. Sabia que a Vinte e Oito jamais apagaria a garota da saia listrada. Sabia que estariam sempre coladas uma na outra. Sabia que seria assim para sempre, mesmo longe. Sabia que talvez se casaria. Sabia que a Vinte e Oito continuaria a vida sem compromisso. Sabia que brigaria com os filhos quando tentassem fazer o que ela mesma fez na sua sabedoria juvenil. Sabia que um dia teria que enfrentar alguém como a Vinte e oito. Ela sabia que não havia mais nada a ser feito. E sabia, por fim, que o amor, mesmo tendo acabado, jamais acabaria. A Setenta e Dois deixou a chave sobre o tapete da porta de entrada, embrulhada em um bilhete de despedida manchado com uma lágrima. E partiu.
- FIM -
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To olharzinho triste… Da uma vonta de gritar “Volta pra ela mulééé” >.<”
Nossa…toh com um nó na garganta…uma vontade de chorar, mais n posso pois estou no meu trabalho.
Poxa!!! pq ela fez istoh????????
Pri
N gostei delas terem terminado… Mta bobeira o que a Setenta e Dois ta fazendo >.<
Ái Caicai, pára com isso.
Eu SUPER depressiva achando que leria um lindo capítulo e você vem com um trem desses.
……………………..
morri.
… snif.
E tinha que acabar?
Quer dizer, ela sabia que tinha acabado… mas e a outra?
É triste…
Ainda compreenderei pq eu sofro tanto com contos…ai ai.
To aqui imaginando a 28 acordando e vendo que a 72 simplismente partiu…coração partido é sofrido demais.
Boa história…até a próxima.
Bjs
Muito triste, da vontade de chorar, mas estou adorando a história. Bjs
Ai! que final cortante isso doi viu?
xau! caicai bezo
aaaaaaaah naao!
viso que choreiii qndo liiii…
seraa q acaboou mesmooo???
ôrr. =(
ooo-to ate chorando eu nao deixaria o amor da minha vida por nada morreria au lado dela, da ate vontade de ir la e resolver essa parada
buááááááááááááááááááááááá!!! q fim triste!!!
to imaginando (e sentindo) a dor das duas…
meu amor me deixou tb
Ah neeeim. “/ Que tristee. Mas foi uma bela história.
acabou???
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
nossa qe historia incrivel….
e para as muitas perguntas feitas a cima,,,
a vida é assim cheia de misterios e revoltas, cheias de encontros e desencontros, cheia de alegrias e tristezas…
cheia de insertezas….´
por isso viva intensamente…
não importando pra tantos Porqes qe a vida nos imponha..
PERFEITO…
Adoro esses finais não-felizes
Parabéns, Caicai! O texto ficou uma delícia de ler… Sua história realmente me prendeu. Beijooos!
BBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBBUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
terminei de ler esses relatos e uma profunda tristeza veio a meus olhos.
Mas no final todo mundo sabe que o “FIM” chega as vezes sem ter mesmo um começo ou outras vezes sem esquecer do meio. Mas o mundo continua “voando”
ps: Voçe escreve muito bem
aaaaaaaaaaahhhhhhhhh
poxa…
adorei a história, não queria que acabasse…
caicai, vc não pode continuar a história da 28 e da 72? Nem que seja pra contar os rumos que as duas tomaram?
ai tava tão boa a história, fiquei fascinada com o modo como vc escreve, muito bom mesmo.
bjinhus
Eu chorei [juro]
eu li e percebi 2 coisas:
que não existe o para sempre -
e tudo que é bom [acaba]
você escreve muito bem (bjins)
Aain tinha que ser tão triste
a setenta e dois e louca ?
pq ta indo enbora ! ¬¬
Muito bom…muitas vezes pensamos que tudo aconteçe do jeito que queremos.
Caicai, parabéns!
Adodei este conto.
Abraços.
Parabéns Caicai *-*
o conto é lindo, é amplo e
muito bem escrito, disse tudo!
perfeito!
Abraço.
gosto de final feliz….
a vida ja tem tantos desencontros, q quando leio algo quero sair de mim rir entrar na historia e me sentir bem depois…
mas gostei muito da historia!
parabens achei bastante original.
A questão é que, independente do que a outra sentia, todo relacionamento é feito de dois… Se ela ficasse seria por acomodação, que é o retrato de muitos relacionamentos. Esse foi intenso, puro e eterno, enquanto durou…
Muito lindo!
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