por um desejo torto como as árvores do cerrado!

tate 20/05/2009 5

por Tate em Cotidiana

pornografia, uma questão feminista1

nessa segunda semana de maio, diária, fizemos a primeira reunião pró/pré-corpuscrisis 2009. com a coletiva se rearticulando depois de 04 anos de trabalho juntxs, num momento muito especial de novas aproximações polítcafetivas y encontros com outras coletivas y mulheres (tipo minha ida a recife, a viagem das gringas pra peru-bolívia-chile-argentina, a conclusão de mestrado da lice etc) – apesar a partir de tantos descaminhos y desencontros, nos achamos mais uma vez. corpuscrisis é uma coletiva de micropolítica megalomaníaca feminista, que sabota o patriarcado racista de capitalismo especista cisgênero cristão heterossexual devastador, desertificante y que não sabe dar risada. começou em 2004 com inspirações, influências, heranças do zine la carnissa y do carnaval revolução, finadxs; sole acontecer no feriado móvel de corpuschristicrisis; tem essa proposta periférica de ser divertido, dançante, emocionante, combativo, faça-você-mesma, autônomo (apesar de toda carga individualista que a gente tenta apagar, rola um esforço de ressignificar autonomia como uma capacidade de precisar do maior número possível de pessoas pra funcionar. depois de conversar com a lice sobre isso, a gente meio que combinou que é perda de tempo tentar ressignificar alguns termos, mais massa seria achar ou criar outro – coisa que uma outra alice, a walker, falou um pouco depois de plantar a palavra mulherismo (tradução de womanism) -, y rapidinho lembramos de “simbiose”, que além de ser mais gostoso de falar evoca uma carga orgânica, de natureza! essa, outro tema que tem me preenchido bastante os pensamentos/conversas, principalmente com lice mas também com michelli: sobre a adesão de alguns feminismos a uma idéia de essencialismo estratégico que retoma o antigo debate divisor de mulheres y homens – desde/para a oposição que foi cimentada entre

natureza cultura

negritude brancura

sujeira  assepsia

barbárie civilização

pra que seja criada mais y outra vez -, reforçado na reivenção, na tentativa de vencer por insistência. mas repetir uma mentira trinta bilhões de vezes não constrói uma verdade, por mais que às vezes pareça, desesperadamente, que sim. como o lado esquerdo daquelas divisões polares tem sido histórica-culturalmente desvalorizado, depreciado, colonizado, conquistado, a parte estratégica do tal essencialismo (que ou aposta em algum tipo de determinismo – espiritual, cultural, biológico. ou o aceita didaticamente como ponto de partida – até mesmo pra um seu desmonte -) dá um pulo da gata no sentindo de se reapropriar, com orgulho, dessas ditas vulnerabilidades pra que sejam transformadas em fortaleza.

“eu recebi seu tik

quer dizer, kit de esgoto a céu aberto

e parede madeirite

de vergonha eu não morri

tô firmão, eis-me aqui

você não, você não passa

quando o mar vermelho abrir

eu sou mano, homem duro do gueto, Brown Obá

aquele louco que não pode errar

aquele que você odeia amar

nesse instante

pele parda e ouço funk

e de onde vêm os diamantes?

da lama.”2

essa é a ferramenta de muitos movimentos identitários, do “negro é lindo” ao “we can do it” às paradas de orgulho lgbt y a fuga do armário como ferramenta de luta, que nos trazem mais uma vez ao famoso “o pessoal é político”, abrindo uma fenda pra falar sobre pornografia depois dessa introdução longa e desse parêntese enorme)

eu nunca tinha gostado de me masturbar, antes.

a pornografia é um dos projetos pedagógicos do patriarcado, é um sistema formal de educação sexual que se presta a determinados fins. se vivemos em um pedaço de mundo que é heterossexista, falocentrado y misoginamente violento, então assim será boa parte da produção pornográfica (a parte “hegemônica”, “canônica”, “clássica” ou “que vende mais”). alguém pode dizer que é só uma questão de imaginário, um conjunto de ilustrações, um mecanismo de sublimação de desejos que, depois de filmados ou fotografados ou desenhados ou pintados ou escritos ou falados, vão ficar fechados ali naquele formato – o que impediria de que eles fossem “realizados”, como se pensamento y ação fossem dois mundos incomunicáveis quando a gente pode saber, se quiser saber isso, que ação y pensamento não só bebem água na mesma fonte quanto dão-se água uma ao outro. pelo menos desde os anos 70 – que é a década seguinte aos movimentos ocidentais de liberação sexual – algumas feministas, em grupos ou individualmente, têm se movimentado pra:

  1. criticar a pornografia hegemônica como lugar de reprodução de violências, especialmente  contra mulheres;
  2. criticar a pornografia hegemônica pela separação que faz entre protagonistas do desejo (“homens”) y objetos do desejo (“mulheres”), ao mesmo tempo em que define um tipo muito estreito de desejo;
  3. propor novos fazeres pornográficos, em que a violência contra mulheres não esteja misturada às esferas de produção y execução pornográfica;
  4. pensar pornografias que dêem conta dos desejos das mulheres: quem somos? que corpos temos? como gozamos? com quem gozamos? o que nos dá tesão? que tipo de representação podemos fazer a partir dessas descobertas etc

quando conheci ela, amei ela ser roliça. não gordinha, mas roliça mesmo. os braços bem roliços, as pernas roliças, a cintura não muito estreita, o pescoço. toda carnuda, a pele como uma embalagem justa.

além desses pontos, há muitos outros que passam por algum filtro feminista; mas hoje escolhi esses pra escrever sobre. a pornografia que mais vende nas bancas, nas locadoras, nos sites de internet, insiste em representações de sexo que precisam ter um par oposto/complementar com hierarquização dos papéis, dos desejos, das práticas: pra um ativo existe uma passiva, quando se trata de pornografia ht; ou pra um efeminado passivo existe um machão ativo, quando é material gay; ou pra uma butch ativa existe uma femme passiva, pro caso de pornografia lesbiana. tenho procurado mais filmes de lésbicas em que essa relação seja desfeita, mas geralmente é isso aí mesmo. recentemente vi um filme muito bonito, felizmente, que me fez ter mais esperança. mas o que de fato essas “ficções” fazem é não só comprovar, mas reafirmar um esquemão heterossexista de relação em que o papel “mulher” ou “homem” vai se infiltrar em outras combinações que não o envolvimento ht, fingindo então ser absoluto, natural, invariável: o modelo copiado, com os ajustes necessários.

finge tanto essa absolutidade até que ela pareça verdadeira! então ela se espalha pra outros pedaços de nossas vidas, como quando você tá no bar y acha uma menina muito atraente, mas fica ressabiada de chegar nela porque você não é “feminina” o suficiente – isto é, patricinha -, então ela, que é “um bofinho”, não vai querer nada com você. essa possibilidade não é a pior; acho bastante triste, também, quando mulheres que se aproximam mais da “feminilidade” olham pras “bofinhos” com ar de desprezo y tecem comentários do tipo “eu nunca ficaria com essa mina, se eu quisesse homem ficava com um”. não quero dizer que é a pornografia que inventa essas divisões, mas quero dizer sim que ela é um dos mecanismos, quando não o mais explicitamente eficiente, pra dizer que essa separação dá certo, é verdadeira, e que dela depende todo o funcionamento da máquina de relações humanas: porque a pornografia fala sobre desejo.

quando conheci ela, amei ela ser roliça. não gordinha, mas roliça mesmo. os braços bem roliços, as pernas roliças, a cintura não muito estreita, o pescoço. toda carnuda, a pele como uma embalagem justa.

quando vi ela entrando na sala no meio daquelas outras mulheres queridas, lindas, sorridentes, foi que nem num filme bobo de sessão da tarde: os barulhos ficaram mais baixos, a cena em câmera lenta.

desejo, esse pulsar obscuro que, herdeiro do “instinto”, se torna inquestionável. daí vira uma questão de “desejo” ou “gosto”, o outro nome que “desejo” ganha: “não é preconceito, é só questão de gosto, e eu não gosto de mulheres masculinizadas”. trazendo pra outros termos, a afirmação daria cadeia: “é só questão de gosto, eu não gosto de mulheres negras”, por exemplo – não esqueçamos que racismo é crime, mas a misoginia ainda não é. e, sim, insisto!, a gente pode não saber que tá agindo com essa motivação, mas desde o taxar uma mulher que tem cabelo curto, usa calça y camisa social, boné, tênis como “masculina” até o afirmar que ela “é masculina” e quer ser homem há um chão misógino fundamental. porque a aversão ao feminino, às mulheres, não se dá só na forma de violência física, ou as referências a nós como “rachas”, nem às “piadas” que insistem que somos burras ou frágeis demais ou neuróticas, mas ela também mora na lesbofobia ao reforçar papéis determinados às mulheres, confinando nossa expressividade estética, ou de vestuário, ou comportamental, a um modelo totalizante. como se houvesse um jeito “certo” de ser lésbica (uma preta andou insistindo comigo que há um jeito “certo” de correr, y como ela tem lua em touro eu não quis insistir (taurinas podem ser muito teimosas)).

e a pele dela… os poros da pele. os poros da pele da coxa, mais escuros do que a pele toda. a pele com algum tipo de cor negra como um pingado com mais café, mas café-com-canela, e uma colherzinha de chocolate, pra ficar doce. marrom escuro avermelhado brilhante e doce.

comecei a sonhar acordada com a coxa dela se enchendo de pequenos montículos de contato brotando no escuro dos poros, quando eu encostasse sem malícia pra contar a parte mais crucial da conversa.

nos sonhos ficamos sempre conversando. ela ri, eu rio, mas posso pegar mais demoradamente na coxa dela, posso falar que acho lindo os poros serem tão grandes, que gosto dela ter muitos pelos.

no sonho ela pergunta se gosto mesmo de pelos, e eu respondo passando a mão na perna dela desde o joelho até onde o short enforca um pouquinho a coxa.

obviamente que muitas lésbicas ditas bofes agem mesmo como macho escroto, e acho que isso tem a ver com o que franz fannon chamou de “dupla consciência”: quando a opressão é internalizada, passando a fazer parte de nossas práticas. desconfio com tristeza que a pornografia é uma dessas práticas de internalização de consciência opressivas quando ela opera de modo a naturalizar não só um desejo misógino, mas a própria noção de que o desejo é absolutamente natural. do jeito que ando hippie, consigo sentir que “desejo” tem a ver com trocas energéticas, até espirituais mesmo, mas não sou leviana a ponto de achar que não tem nada a ver com elaborações sociais cabulosas, insistentes, seculares. não acho surpreendente não ser considerada uma mulher atraente, apesar de me saber-ver-sentir-perceber-achar linda, gostosa, interessante, y muito sensual, porque há uma máquina antiga que funciona pra dizer que bonitas gostosas atraentes sensuais são mulheres brancas, louras, magras, de cabelo liso, y não uma negra gorda como eu. só que a indústria pornográfica é esperta, sabe ganhar dinheiro com tudo. inclusive com corpos desviantes do tipo que vende como ideal, ou com condutas tidas como bizarras: bestialismo, coprofagia, s/m. o sadomasoquismo é uma dessas vedetes da “subversão”. “urrul, isso é muito massa, subverte pra caramba, porque as mulheres que são sempre inferiores socialmente, que só ocupam papéis subalternos, vestem-se como dominatrix y mandam na/o parceira/o”.

mas é um sonho, não quero que o short seja de lycra, então vira um shortezinho branco folgado, confortável, de domingo, por onde eu poderia enfiar mais um pouco os dedos.

mas não faço isso porque não sei se ela quer, nem sei como perguntar. no sonho eu perguntaria se ela depila a buceta, o que ia fazer a gente rir mais um monte de risadas soltas, mas explosivas, um pouquinho carregadas de desejo.

será mesmo simples assim? é mesmo subversivo pra caralho buceta? ou é mais um mecanismo de conformação à subalternização/hierarquização, porque cria uma válvula de escape (sexual) a elas, anestesiando outras necessárias subversões (não sexuais)? me pergunto, mesmo: o que a gente quer é só inverter papéis entre quatro paredes? ou a gente quer sentir outras formas de desejo, que não erotizem as desigualdades de poder, fazendo nascer prazer de lugares y relações não-viciadas, novas, descobertas em conjunto (duplas ou trios ou uma galera mesmo, mas também na deliciosa masturbação eu-y-eu)? digo “a gente” porque desejo y pornografia não são só questões “pessoais”: não podemos perder de vista que vivemos em comunidade, y se algumas práticas que temos feito (deliberadamente ou só por estar no fluxo) insistem, sustentam, recriam ou reforçam situações que, no imaginário ou nas relações efetivas, dividem violentamente as pessoas em grupos de oprimidas y opressoras, então temos que assumir a responsabilidade de repensar essas práticas, questioná-las, criar outras.

meu desejo não tem nome, não é que quero pegar na buceta dela nem que ela pegue na minha.

é que eu queria que ela pudesse entrar dentro de mim pra sentir minha cabeça ficando arrepiada do lado direito, só do lado direito, quando vou subindo a mão pelos poros da coxa dela, também virando pequenos montes arrepiados de negrura e desejo, até parar um pouco depois debaixo do tecido leve.

pornografia é educação sexual explícita; mesmo que não tenhamos nunca assistido, o homem desconhecido que passa a mão no seu peito na rua, ou o homem conhecido que não respeita seu “não” y continua forçando até te violentar, têm o respaldo de uma escola antiga que diz pra eles que SEMPRE estamos disponíveis sexualmente, e que quando dizemos não estamos na verdade querendo dizer sim: tá nas novelas, na capa das revistas, nos vídeos impróprios pra menores, nos contos, nas piadas, em todo lugar. (infelizmente não são só homens que pensam isso de mulheres, y há muita reprodução de violência nas relações lesbianas. até a lei maria da penha tem um tópico sobre isso.)

além de ensinar determinadas coisas, ela não-ensina outras. não ensina o respeito pelo corpo da outra; não ensina que algumas coisas a gente só vai saber perguntando mesmo, apesar de toda a “química”; não ensina que penetração anal precisa de muita preliminar; não ensina que relação sexual não é só penetração pênis-vagina (com um conseqüente ensinamento idiota de que tudo que acontece além dessa penetração é “preliminar” ou “não é sexo”)… agora, a culpa é da pornografia? foi a pornografia que inventou a violência? é leviano pensar que, simplesmente, sim. porque aí parece que o próximo passo é eliminar a pornografia e pronto, tudo vai se resolver. mas essa solução, além de deixar arrepiadas (não eroticamente) aquelas que têm horror a qualquer tipo de censura, pensa a conseqüência como causa. pornografia hegemônica é um recurso de um sistema muito estruturado de distribuição de poderes, saberes, fazeres. algumas vão pensar em outras formas de fazer pornografia como contra-ferramenta, pra sabotar y destruir esse sistema. uma tentativa nesse sentido foi a criação da coletiva pornós, que começou no carnaval revolução de 2003 ou 2004, numa oficina sobre pornografia y feminismo, resultando em muitos desenhos, poemas, vídeos, y finalmente uma coletiva, mesmo, que depois saí então não sei como anda nem o que aconteceu. outro projeto desses é o http://girlswholikeporno.com/ (“garotas que gostam de pornô ponto com”). tem algumas questões, mas é bacana. recentemente descobri o ifeelmyself.com (“eu me sinto ponto com”); também tem lá suas questões (que considero graves, tipo: cadê as mulheres não-brancas? cadê as bucetas não-depiladas?), mas tem alguns vídeos lindíssimos y é um site pra documentar orgasmos femininos. demais!!

me arrepio de pensar na fenda entre a coxa e a buceta, mais escura ainda que os pequenos poros enormes dela, lá onde os pelos vão começando a ficar mais grossos e embaraçados.

devo confessar que ainda não consegui sentir tesão, diária, ao ver esses filmes/sites. ficou no plano da apreciação estética, mesmo… mas tenho essa coisa com pornografia como didática, que acaba funcionando a ponto da quase plena alienação erótica. estranho demais, principalmente pra uma pessoa como eu, que tá sempre falando de retomar as conexões perdidas, roubadas, colonizadas, fragmentadas pelas instâncias diversas da vida. eu sei que parece estranho, mas também pode ter mais a ver com uma noção muito intimista de prazer sexual do que com uma assimilação de rupturas externas. tipo, pra mim, considerada por opiniões anônimas como uma pessoa bastante mergulhada no esquemão de romance romântico, prazer sexual tem a ver com partilha, com compartilhar meu orgasmo, meu desejo. não com uma pessoa aleatória, mas costuma ter a ver com algumas pessoas bem específicas. como se eu precisasse de um canal por onde filtrar meu desejo, um canal humano, conhecido.

então fica difícil criar essa empatia com pessoas desconhecidas, distantes, que tão aparecendo numa tela brilhante. também já aconteceu de eu dar conta de ficar excitada lendo alguma coisa (quadrinhos ou não), e sem querer racionalizar demais isso, acho que pode ter alguma coisa a ver com o suporte abrir mais espaço pra interação imaginativa, pra formatar dentro da minha cabeça os corpos, os fluidos, os ruídos… criar uma superfície de contato mais minha, que não tenha a ver com aqueles corpos ali já dados: ter espaço pra construir meu desejo. também a mesmice dos corpos me faz ver a maioria das pornografias bacanas a que tive acesso com olhos mais analíticos que ávidos: não é só trocar os corpos magros pelos gordos que vai fazer funcionar – tenho medo mesmo de que isso possa cair no fetiche do “bizarro” já citado. vi recentemente um vídeo “lesbiano” de duas mulheres negras que me deixou triste. não só porque nossa sexualidade já tem sido explorada demaaaais pro prazer alheio, mas principalmente porque entendi uma coisa importante: desejo não se fabrica, não se finge. acho que não tem escola de teatro que ensine a fingi-lo.

na penumbra do meu quarto bagunçado os olhos dela parecem pretos, mas são castanhos. ela pode ficar tremendo de vergonha e vontade de me beijar sem que a gente se beije. na penumbra, minha respiração caminha com a dela até ficar ritmada numa respiração nossa.

ou ele tá ali, ou não está. eu quase nunca vejo um filme em que o desejo me pareça verdadeiro, em que as pessoas envolvidas na cena estejam envolvidas uma com a outra, com seus prazeres, com trocar fluidos y compartilhar afetos eróticos. pelo contrário, há uma fuga constante dos olhares pra câmera, há uma auto-análise da performance quase o tempo todo. como se a pessoa estivesse trepando com ela mesma, só usando a outra como adereço ou parte do cenário. quando são as duas pessoas agindo assim, então, é quase cômico – mas aquele cômico carregado, triste-; qualquer semelhança com a vida real é mera insistência…

penso muito em fazer filmes pornôs feministas como uma pedagogia outra, uma contra-pedagogia, que abra espaço pra desejos femininos, lesbianos, mais livres. penso em fazer um filme em que duas mulheres ficam molhadas só de conversar uma com a outra, num dia de sol, sobre um gramado. o quadro bem fechado no quadril delas não porque quero repetir o esquadrinhamento que a pornografia hegemônica faz dos corpos femininos, tornados bucetas y só, ou só cus, ou só caras retorcidas a receberem uma gozada. mas porque nesse filme imaginário as cenas se revezam como se uma tivesse olhando muito pro quadril da outra, as duas vestidas. mas uma de saia, deitadas de lado uma de frente pra outra, alguma com a mão no quadril, conversando assim qualquer bobagem ou alguma coisa muito séria. queria que não desse pra entender as palavras, só ouvir a modulação das vozes daquele jeito que dá pra saber se é uma interjeição, se uma pergunta, se uma afirmação contundente, se uma dúvida cuidadosa. então elas vão conversando, dá pra ver o pedaço da coxa de uma delas: uma coxa gordinha com alguma celulite. elas ficam tão molhadas que a roupa vai ficando com aquela mancha mais escura.

não sei como acaba, é só uma cena.

um pedaço de cena, na verdade. quem sabe um dia eu faço. por enquanto, fica morando na minha cabeça como uma representação macia de desejo. talvez colocar em imagens, sejam elas cinegrafadas, fotografadas, ou desenhadas, me faça perder o tesão. talvez a gente precise abrir mão, por uns intantes, dessas imagens homogeneizadas, plasmadas que confinam demais os desejos. não pra reforçar a divisão forjada (e forçada) entre sugestão (entendida como “erotismo”) y explicitação (“pornografia”), mas pra deseducar nossos desejos. ao invés de plantar uma semente conhecida no terreno, esperar brotar alguma coisa trazida pelo vento. uma surpresa. uma expectativa de que a chuva venha molhar tudo.

“tarde pra sentir o aroma dos teus cabelos negros

negros como o tempo em dia que te vi partir

partir minha estrada vida, estrada de terra batida,

em antes e depois do dia em que te conheci

era leve o vento que senti roçar a pele

me arrastando como ao pólen

carregadas nuvens cobriam meu céu

choveu

choveu

molhando minha terra seca”3

sem imagens fixadas pra esse pedaço de diária. pra que a gente possa fabricar umas nossas, mais inéditas, menos viciadas.

5 Comentários »

  1. Camilla 20/05/2009 at 21:19 - Reply
    Muito bom esse texto e o assunto.
  2. juliana 21/05/2009 at 14:30 - Reply
    nossa gostei muito do assunto abordado no texto,afinal esse é um assunto que convivemos e nem percebemos e acabamos muita das vezes até aceitando o jeito que o “mundo hetero” nos ver e nos trata ,isso é em visivel nos filmes pornograficos como a autora mesmo sitou[...].Sexo não é só sexo tem muitas coisas que tem por trás como o proprio amor, sim amor ao ser tocada ao toca-la….
  3. Fernanda Berkanna 28/05/2009 at 10:58 - Reply
    Eu sempre me perguntei pq esses filmes pornôs não são interessantes… Parece tudo de plástico, sem cheiro, sem gosto, sem temperatura…

    Amei mais uma vez suas palavras… sempre q leio parece que estamos conversando na cozinha, como comadres…

    Bjo bjo.

  4. SheRa! 19/11/2009 at 14:05 - Reply
    O texto me tocou profundamente, sinto intensamente nele muitas de minhas vibraçoes e anseios. Demonstra que o desejo, por mais que seja constantemente moldado pelas mais tristes e discrimonatórias determinaçoes… é algo que existe de uma forma muito mais complexa e sensível do que é representado toscamente na pornografia, nao sei se os moldes em que ela se apresenta pode deixar alguém completamente satisfeitx e afim com o que vê, lá no fundo tem algo que late e quer algo mais coerente. Nota-se no texto a sensaçao que também tenho de que nosso desejo jamais poderá ser domesticado por completo, ele vibra numa intensidade que nao cabe em nenhuma gaiola, é algo que para ser real e reconfortante deve estar dentro de um elo íntimo e pessoal, que valoriza a pessoa como um todo em seus aspectos emocionais também, algo que é imprescindivel.

    AMANTES DO LIVRE GOZO

    VULVA LA REVOLUCIÓN!

  5. Viviane Mota 11/08/2010 at 14:21 - Reply
    Todas as vezes em que leio seus textos tenho a sensação de que minha mente se expande, é como se ainda houvesse – e há – ainda, muito a ser discutido. Você me faz ver além do que eu pudesse imaginar enxergar, e é tudo tão claro e óbvio que me espanta, e me espanto também de como cada detalhe cotidiano esconde uma intenção generalizada e de como as pessoas são tão culpadas e tão ingênuas por reproduzir e reproduzir todo o lixo e mentira nos próprios filhos.

    Eu viajei um pouco com o comentário, mas confesso que você me inspira e abre meus olhos a cada texto.

    É por isso que virei uma fã sua.
    Estou lendo seus textos mais antigos e descobrindo cada coisa maravilhosa.

    Espero que eu possa ler mais textos seus.
    E que você tenha mais fome de escrever.

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