Manifesto

Helena Paix 27/07/2009 13

manifestopor Helena Paix em Reflexões de uma Pollyanna Militante

No mundo jornalístico há uma máxima: a notícia não é quando o cão morde o homem, mas quando o homem morde o cão.

Até aí, percebe-se algo que parece que nos é inato: o incomum nos fascina; desperta partes famintas de nós; traz à tona muitas vezes áreas nossas que não são nada nobres.

Entendo que sejamos seres fracos; entendo que cada um de nós tenha momentos mesquinhos, em que somos nada além de humanos: dos seres errôneos e bobos que realmente somos.

Entendo que nos interessemos pelos porquês do músico que mudou de cor e cara; entendo que todos corram para ver a foto da atriz que apareceu vinte quilos mais gorda; entendo que o mundo inteiro noticie sedento o escândalo sexual do casal de atores: a vida é verdadeiramente difícil, entende? E a desgraça alheia sempre chama atenção: seja para compadecer-se, seja para se ver que os outros também têm problemas; seja para dar graças por não se estar no lugar do azarento, seja para se ter um assunto sobre o qual opiniar…

Acontece que tudo é tão complexo… e há uma linha espessa e bem definida entre o observar e o julgar. entre o entender e o apontar.

Há um conceito moral que na verdade reside em todos os humanos e que, se usado, realmente separa o joio do trigo.

Esse, na realidade não está em voga: encontra-se escondido em preceitos humanos e filosóficos tão antigos quanto a nossa própria existência.

À ele, dá-se um nome que, ironicamente, é bem conhecido: RESPEITO AO PRÓXIMO.

Carlos Drummont de Andrade tem uma frase que acho a base de todo e qualquer entendimento humano: “Respeite a dor que os passantes levam consigo.”

A questão é que o mais infame de nós é capaz de reconhecer a dor. Porque todo e qualquer ser humano em algum momento da sua vida a experimentou.

No seriado americano “Betty, a Feia”, a atriz protagonista diz ao chefe rico que ele jamais poderia entender os problemas que uma família pobre passa. Ao que ele respondeu: “Posso não ter vivência dos seus problemas, mas tenho vivência dos meus“.

O ponto é, queridas, que acho que é precisamente aí que cabe a questão do preconceito. Em especial, falo do preconceito que mais nos atinge: a homofobia.

Temos algo recorrente em nós: tememos o que não entendemos. e na maioria das vezes repudiamos o que tememos, o que desconhecemos.

No filminho animado “Os Sem-Floresta”, quando um grupo de animais acorda da hibernação, acha um muro-sem-fim separando-os do que agora é um condomínio fechado. Uma das personagens, assustada e sem saber o que é aquilo, diz: “Eu teria menos medo se eu soubesse como se chama.”

Eu divido a minha reação sobre as pessoas que têm preconceito conosco, homossexuais, em duas: as que me dão pena e as que me dão raiva.

As que me dão pena são geralmente pessoas que quero bem, pessoas que eu queria que pudessem enxergar além, pessoas que eu gostaria que transcedessem ao ponto de perceber a complexidade do ser humano. Que eu desejo que entendessem que o amor jamais teve uma só forma; que todo homem e toda mulher carrega em si a capacidade de amar um igual, e que esse amor apenas difere de cada um para cada um: às vezes se ama como amigo, às vezes como amante. Eu queria que eles fossem elevados o suficiente para celebrar o amor em qualquer forma que ele pudesse ter. Eu queria que eles entendessem que ser diferente não é uma ameaça, não é um pecado, não é nada além de uma característica, como o é ser alto ou baixo. Eu queria que eles tivessem tamanho entendimento por sobre a vida que os fizesse capazes de perceber que o que forma cada um é sua essência, não sua orientação sexual. Eu queria que eles me vissem pelo que sou, porque só assim eles me teriam por completo e eu os poderia ter por completo.

As que me dão raiva são as que, além de serem intolerantes, são rasas o suficiente para incitar o ódio, o desprezo, o julgamento e a injustiça. São esses indivíduos que soltam as frases mais vis, são eles que agem como falsos paladinos de uma noção absolutalmente errada sobre o que é certo ou não. São eles que vêm com tochas nas mãos e ódio na boca, são eles que julgam sem sequer olhar direito. São eles que machucam o mais indefeso. São eles que se juntam aos mis, para atacar apenas um. São eles que colocam lençóis nas cabeças e atiram pedras gigantes sobre os que não podem se proteger. São eles que se aproveitam de uma legislação pobre e extremamente falha para lançar seus direitos de ódio e de uma questionável normalidade. São eles que ousam falar em nome de um Deus que jamais nos castigou por sermos quem somos. São eles que são almas mesquinhas, absolutamente incapazes de saber o sentido da vida. Eles deveriam me causar pena, mas me causam raiva por ainda serem maioria, por convencerem os fracos, por liderarem os que não sabem direito o que pensam.

A verdade é que não sei por que sou lésbica.
Mas SOU LÉSBICA.
Não preciso entender isso. No entanto, precisei eu mesma aceitar.

Precisei eu mesma ficar em paz com essa realidade, assim como se precisa ficar em paz com o rosto que se tem ou com o corpo que se tem.

E realmente entendo que o mundo ainda não está no lugar ou tempo de perceber como iguais aqueles que tacharam de homossexuais.
Da mesma forma que o mundo não estava preparado para aceitar como iguais os negros na época da segregação racial.

A questão é que quando os brancos não aceitavam os negros, o mundo na realidade era extremamente mais burro.
Ele ficou um pouco mais inteligente, embora ainda vejamos exemplos cotidianos de preconceitos raciais.

Mas um longo caminho foi trilhado desde que Martin Luther King Jr. disse que tinha um sonho.

Ou que o Dragão do Mar ou os quilombos brasileiros lutavam por essa tão sofrida e esperada igualdade.

O que eu espero?
Eu espero que o mundo aprenda a ser ainda mais inteligente.
Que veja que quando apontamos diferenças como um defeito, que quando condenamos essas diferenças, estamos sendo na realidade absolutamente limitados e míopes.

Martin Luther King Jr. disse: “Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.”

O sonho dele se realizou em parte, mas o mundo AINDA não é capaz de julgar pelo conteúdo do caráter.
É fato que são muitos os que precisam de óculos. São muitos os que precisam aprender a enxergar almas e não rótulos.

Eu também tenho um sonho: eu sonho com um mundo que seja capaz de ver que o que mais se precisa é do amor e que, quando acontece dele surgir, ele deve ser celebrado e não condenado. Eu sonho com um mundo que seja sábio o suficiente para reconhecer que o que nos define sequer pode ser nomeado: que é o que nos bate no peito que nos dá nossa verdadeira forma e essência.

Até lá, sejamos fortes e nos apoiemos uns nos outros: porque temos a missão de sermos exatamente quem somos e de nos orgulharmos disso.

Imagem de Amostra do You Tube

Twitter da Helena: http://twitter.com/helenapaix

13 Comentários »

  1. Thais 27/07/2009 at 18:55 - Reply
    Inspirada.

    posso saber de onde surgiu tudo isso? o q desencadeou essa postagem?
    ou apenas sentou pra escrever sobre?

  2. Cah 27/07/2009 at 20:50 - Reply
    simplesmente PERFEITO!!!!

    parabéns pelo texto…. pela inspiração…

    ADOREI!!!

    bjos

  3. Ariel 27/07/2009 at 20:54 - Reply
    Esse foi o melhor texto que já li nesse site. Obrigada por expressar tudo o que somos, tudo o que passamos, tudo aquilo que nos cerca das injustiças e do amor verdadeiro que cultivamos. Em textos assim eu acredito, pois são escritos com a pureza da alma e dos calamos que aferem. Obrigada por dar voz a tantos sentimentos que se camuflam em nosso cotidiano tão frenético.
  4. Dani B. 27/07/2009 at 21:34 - Reply
    Parabéns Helena, belíssimo texto. Confesso que fiquei com um nó na garganta.
  5. LIKA 27/07/2009 at 22:27 - Reply
    INGRIVEL.
    É,MAS QUE PALAVRAS, E ALIMENTO PRA ALMA. FORÇA PRA SEGUIR EM FRENTE.
    APOIAR MESMO SENDO JUGADA POR ALGO QUE AS PESSOAS DESCONHECE, ÀS VEZES REPITO UMA FRASE,
    REPRESENTO AQUILO O QUE ELES, MAS TEME.
    A PROPRIA IGNORANCIA.
    POIS EU SOU IGUAL A TODOS SIM.
    MAS COM UMA COISA BEM DIFERENTE É NÃO E MINHA PREFERENCIA SEXUAL, TÃO POUCO O QUE FAÇO PRA VIVER.
    MAS SIM MINHA POSIÇÃO DIANTE DAS PESSOAS QUE NÃO SABEM RESPEITA O PROXIMO.
    DIANTE DA SUA PROPRIA IGNORÂNCIA.
    DESUS PERDO-AVOS, POIS E BURRO DE, MAS.
  6. Glauce 27/07/2009 at 22:31 - Reply
    Helenaaa!!!

    Depois de um tempo sem aparecer por aqui, você voltou com tudo, hein?!

    Pareceu-me um tanto febril, indignada e com um forte grito de lamento e de “VAMOS À LUTA”…

    Há um transbordar…um frêmito de dor e angústia pululando nas entrelinhas do texto…É devastador, impossível sair incólume da leitura, pois ficou alguma coisa tremendo assim por dentro…

    Não sei o que você vivenciou, mas penso que a tocou profundamente e o que foi dito aqui foi um desabafo, um “lamento triste” ecoando, um certo “canto de revolta pelos ares”…

    É isto aí! Às vezes é necessário gritar prá ser ouvido…e…infelizmente a grande maioria não sabe o que é transcender a própria mesquinharia e os rótulos que só limitam a sua capacidade de ser grande.

    Afe!!! Como odeio os tais rótulos, de qualquer natureza!O ser humano é tão complexo: não cabe definições tão castradoras da liberdade e do livre-arbítrio.

    Como citou Nietzshe: “Quanto mais me enlevo menor pareço aos olhos de quem não sabe voar” e ainda “Aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

    Um Abraço Cálido!

    Glauce.

  7. Camila 27/07/2009 at 22:56 - Reply
    Parabéns Helena!
    Eu não costumo comentar sobre os textos que leio no site, tanto que esse é meu 1º comentário por aqui.
    Fico feliz por saber que existe pessoas que ainda acreditam em um mundo melhor, porque o pessimismo reina.
    Foram palavras que muitas de nós temos em pensamento, ótimo texto!
  8. Flor 28/07/2009 at 11:05 - Reply
    Li, reli, senti, pensei….continuo pensando…..
    O sonho de Luther King acho que é o sonho de todos que são oprimidos, as ditas minorias, considerados cidadãos de segunda categoria e tantos outros adjetivos.
    Ainda bem que existem almas corajosas que se indiguinam com este mundo insano, intolerante e individualista. Que maravilha!
    Sempre me martela na mente ” o que me assusta não é a gritaria dos injustos e sim o silêncio dos justos” a frase acho que é mais ou menos por aí né…
    Bom, seu texto me fez novamente pensar na dor de muitos …
    Conservar o otimismo “apesar de”, acreditar que de fato a humanidade está evoluindo ……
    Que Deus (que é expressão do amor no meu entendimento pessoal – independente de dogmas religiosos) te conserve assim como senti no texto – sensível, otimista, lutando por seu sonho, dando voz a muitos.
    Valeu a reflexão!
    Parabéns.
  9. Lia 28/07/2009 at 18:01 - Reply
    Nossa, um dos melhores textos que já li a respeito do assunto!
    Me deu vontade de imprimi-lo e vestí-lo, assim como fazem aquelas pessoas(mais fácil de serem vistos nas ruas de Sampa) que anunciam:”Compramos Ouro”, dirija-se ao endereço tal.
    Achei um “Texto de Ouro”, para apreciá-lo dirija-se ao Parada Lesbica e acesse: Helena Paix em Reflexões de uma Pollyanna Militante.
    Simplesmente Maravilhoso!Sugiro pixar os muros com seus dizeres e panfletá-lo também!!
    Arrasou Helena!! Parabéns!!!Sucesso!!
  10. Vania 28/07/2009 at 21:16 - Reply
    Mais que ouro! Uma verdadeira pérola negra! A única diferença é que não divido, a minha reação, em três a pena, a raiva e o respeito. Pq por mais que eu não goste quando alguém nos critica (claro que de modo respeitso,e não com as “tochas” em mãos)acabo respeitando a opinião contrária. Acho que isso é a minha necessidade de ter minhas opiniões e decisões respeitadas.

    Mas, PARABÉNS pelo texto!!
  11. Dri 29/07/2009 at 11:20 - Reply
    Li um texto seu algum tempo atrás e fiquei esperando uma outra postagem para ver se seu pensamento era realmente dignido de adimiração como me deu a impressão da primeira vez.
    E realmente é. Sua reflexão é digna da inquietude dos lutadores que caem e se levantam quantas vezes forem necessárias, dos que não desistem nunca mesmo diante de um muro de impossibilidades, dos que veêm esperança até naqueles que já a perderam.
    Obrigada por mais uma vez me fazer acreditar que o mundo pode ser diferente.

    Parabéns!
    Beijos com carinho.

  12. Helena 30/07/2009 at 11:37 - Reply
    Oi, meninas!!

    Obrigada por palavras tão doces e encantadoras!
    Estou viajando, então volto aqui depois para responder a cada uma como vocês merecem, mas peço que leiam esta notícia:

    http://paradalesbica.com.br/2009/07/dona-de-franquia-de-petshop-faz-declaracao-homofobica-em-jornal/comment-page-1/#comment-21833

    Foi quando a li a FolhaOnline que meu sangue ferveu a tal ponto que tive que escrever algo.

    Um beijo em cada uma.
    E obrigada pela força que me dão sempre!

    :*

  13. Camila 10/05/2010 at 19:06 - Reply
    Simplesmente perfeito o texto….

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