silêncio demais

tate 15/07/2009 7

cotidiana11_destaquepor Tate em Cotidiana

silêncio é coisa de branco
então deixe vir a negra cor
espalhar seu pretume no papel

silêncio é coisa de macho
que brote então o ruído das mulheres
pintando tudo de vermelha primavera

cotidiana11_001diária querida,
às vezes o silêncio chega. e eu não quero falar nada, só ficar calada, fechada no mundo de mim mesma. também não quero escrever, o que é muito estranho porque escrevo desde que entendi minha necessidade de existir, escrevo nos sonhos, escrevo pra não ficar louca ou pra deixar inteligível minhas loucuras, escrevo, escrevo, escrevo por minha vida.
mas às vezes não dou conta nem de escrever. essa é uma delas. procuro um jeito de me convencer, me animar, porque pras mulheres negras a palavra é questão de sobrevivência.
esse silêncio é um pouco de tristeza, um tantão de saudade, e outro pouco de cansaço. inclusive cansaço de falar. mas não é de silenciamento, então não é grave. é mais cerimonial que grave.
fui procurar motivos pra sorrir. às vezes acordo com um nó na garganta, os olhos pesados. tem uma menina nos meus sonhos todas as noites. eu contei isso pra ela. ainda não aprendi como lidar com isso de ter conhecido a mulher dos meus sonhos mas não ser a mulher dos sonhos dela.
então eu fico calada. às vezes chega um poema.

cotidiana11_002“motivos”

o céu rosa e cinza me deixa tonta de felicidade e emocionada
no fim do dia

acordei buscando motivos pra sorrir que pra chorar
já temos demais
o céu rosa e cinza no fim do dia é essa coisa linda de se ver
me faz sentir grata por estar viva
me enche a boca de sorriso
não é algo que se possa pegar
é uma experiência a ser vivida naquele momento instante

o céu rosa e cinza no fim do dia
como esse amor entre você e eu no momento em que a vida
muda de cor

não é algo que se possa pegar
é uma experiência a ser vivida naquele momento instante

a paixão é uma insistência
nesse tipo de amor
lindo e fugidio como o céu rosa e cinza no fim do dia

e então sinto sua falta até o fim do dia seguinte

cotidiana11_003outras vezes ouço minha música mais favorita de todos os tempos, que dancei com ela na primeira noite em que a gente se beijou, e outro dia quando eu ainda tinha disposição emocional de encontrá-la sem me cortar toda por dentro. é da ellen, ellen oléria, que lançou um cd lindo chamado “peça”. o nome da música é “só pra constar”.

hoje entre nós
chão
mas abra o portão
e não
não some de mim

cotidiana11_004mais recentemente tenho ouvido também a tracy chapman, com seu lindíssimo disco novo, “our bright future”. não quero só o futuro brilhante, quero agora, quero agora, mas no máximo o que brilha são meus olhos cheios de lágrima. credo, diária. ficar bem, feliz, inteira e se manter combativa e esperançosa é ação direta contra o patriarcado racista!
e eu sou uma guerreira, filha de Iansã. filha do vento. quero logo que chegue esse vento que vai levar essas cinzas embora.
enquanto não chega tenho participado de muitos encontros do FAD(A), o grupelho de auto-ajuda que montamos por aqui. “feministas que amam demais (antas!)”. é importante ter comunidade pra conversar sobre esses tentáculos pegajosos do romantismo, que é historicamente datado e foi construído pra aprisionar ainda mais as mulheres e colonizar o amor.

cotidiana11_005mas não tem fórmula roxa mágica pra viver relações não-colonizadas. eu tenho me ocupado de militância feminista extrema (tome projeto, debate, mini-curso, publicação, tradução…) pra desobrigar meu coração de pensar só em como esquecer, como apagar, como parar de bater acelerado quando escuta a voz da ela, quando vê uma foto, quando encontra.
é difícil porque esse mesmo esquemão iluminista e capitalista que definiu os termos do romance como o conhecemos hoje (subserviência, noção de complementariedade dependente e esvaziante do amor próprio, exclusivismo da relação, centralidade do par, a idéia mesma de ‘par’, irracionalidade tratada como negativa etc), cantado nas novelas, na bossa-nova, nas revistas “femininas”, é um materialista, centrado na razão, no desafeto, na acumulação, na propriedade privada…
então tenta criar meios de acorrentar, a partir dessas ferramentas, aquele jardim de sentimentos que têm asas. que respiram afeto, apego (muito diferente de acumulação!), partilha (muito diferente de propriedade!)…

cotidiana11_006a gente vive numa cultura que exacerba o romance romântico e constrói como indiscutível uma necessidade humana de viver em pares (românticos complementares, não basta ter uma grande amizade), ao mesmo tempo em que não garante o canteiro pra se plantar romance como uma relação baseada em afeto e amizade, em cuidado.
cuidado vira controle.
afeto vira dependência.
amor vira alguma coisa a se dizer, e se dizer tanto que não dá tempo de sentir, compartilhar, viver, dar.

amor vira moeda de troca: se você me ama, faça isso. se eu te amo, não posso viver sem você. enquanto sinto que amor por alguém podia ser um encontro, um oceano… por que esse deserto, por que tanta perda?

cotidiana11_007(essas coisas são as que fico pensando enquanto sinto muita saudade da minha amor)
(diária querida, não é fácil ser uma feminista romântica apaixonada numa relação assimétrica, não vou mentir dizendo que isso tudo é simples porque não é. e eu não quero mais escrever sobre isso, preciso de silêncio. silêncio pra ouvir o vento dentro de mim.)

7 Comentários »

  1. Fernanda 16/07/2009 at 00:28 - Reply
    é esse dom que me encanta e que me deixa com saudades, mesmo estando perto ela está sempre presente, esperando mais uma gargalhada sua, que espalha tanta graça e conforto.

    linda!

  2. laura 16/07/2009 at 01:38 - Reply
    CARALHO TATE..
    e é mesmo CARALHO.. pq é pra mim algo muito escroto ler seu sofrimento dessa maneira (inda mais sabendo qual ou quem é o motivo desse sofrimento)!

    Tudo o que eu queria era sentar agora ao teu lado e não falar nada.. talvez nem fosse te tocar, não te daria um abraço, nem um tapa, nem faria cara de brava ou de ahhh.. relaxa que isso passa!.. acho que dessa vez apenas ficaria te olhando, fitando seu jeito.. olharia seus cabelos, suas mãos, suas formas, tentaria olhar em seus olhos, ver a maneira como vc senta com as pernas pra frente, joelhos dobrado e fica os os dedos dos pés bem grudados no chão enquanto segura uma mão com a outra.. eu pensaria nas milhares de coisas que gostaria de te falar.. só que ainda assim, dessa vez, me deixaria em jejum absoluto de palavras ditas em voz alta, as diria apenas com o olhar!

    Acho que vc me conhece um pouco a ponto de saber o que penso só de me olhar.. e talvez me conheça a ponto de saber até mesmo sem me olhar o que é que eu penso sobre algumas coisas né?! Sou simples as vezes, e as vezes me faço mais simples ainda!

    Tate.. enfim.. ao final da nossa conversa sem abraços, sem afagos e sem palavras eu me levantaria e te falaria apenas: ahhh.. tateee.. cê que sabe, cansei de te falar o que penso!!!

    E É EXATAMENTE ISSO QUE EU TENHO PRA TE FALAR:

    TATEEE.. CÊ QUE SABE!!!

    só que eu vou complementar aqui: MANDA ESSA MINA TOMAR NO.. AFINAL, SE ELA AINDA TE FAZER SOFRER DEPOIS DE TUDO O QUE JÁ ROLOU, ELA NÃO TE MERECE MESMO! VAI SER FELIZ!!! E NÃO SE PREOCUPE COM CORES.. O AMOR NÃO VESTE UMA COR! OLHE A SUA VOLTA COM ATENÇÃO, CERTEZA QUE ALGUÉM TE AMA INTENSAMENTE!

    PS.: AINDA TÔ PUTA COM O LANCE DA APOSTA!

  3. Anak 16/07/2009 at 10:43 - Reply
    cuidado vira controle.
    afeto vira dependência.
    amor vira alguma coisa a se dizer, e se dizer tanto que não dá tempo de sentir, compartilhar, viver, dar.

    Tate, depende de nós não entrar na vibração do controle, da dependência, da posse. Todas somos frutos dessa sociedade e por mais que nos afastemos, tendemos a apresentar esses comportamentos hora ou outra. Mas podemos mudar a nós mesmas. Como você mesma diz que está fazendo, utilizando as ferramentas do racional para equilibrar o emocional.

    Sobre relacionamentos, muitas vezes estamos numa vibração com determinada pessoa e em um instante isso muda. Faz parte de nossas experiências, da nossa existência. A pessoa simplesmente não esta mais na nossa vibração (ou nos não estamos na da dela) e essa é a grandeza, deixar ir e vir, ou seja, fluir. É terrível sempre que estamos no olho do furacão, sentindo esse silêncio, no entanto, sua existência é mais do que isso… é isso e muito mais, muito mais vivências, experiências, emoções, afetos, etc.

    Transformar em palavras as emoções que sufocam e os sentimentos que dilaceram é sempre uma boa terapia. Faça o caminho inverso: o controle, transforme em cuidado; a (co-)dependência, transforme em afeto; os dizeres de amor em sentir, compartilhar, viver e dar. Quando o outro não está em nossa sintonia, que vá… assim encontramos alguém que se afinize melhor.

    Beijos, luz, harmonia e força pra lidar com as transformações.

  4. Vêh 16/07/2009 at 14:59 - Reply
    - “por que esse deserto, por que tanta perda?”

    acho que essa é uma das perguntas que faço para mim mesma todos os dias.

    E todas essas palavras pareceu descrever totalmente todos os sentimentos… *-*

    só que as vezes o silêncio me sufoca, ao mesmo tempo que me deixa pensar…
    ao mesmo tempo que pergunto… Porque amar faz sofrer tanto?

  5. lice 18/07/2009 at 01:21 - Reply
    adorei o deseinho e a poesiasinha com sualetratudojunto.
  6. Tatiana Monteiro 18/07/2009 at 15:36 - Reply
    Engraçado como sempre venho aqui, leio e não comento suas postagens.
    Será que é por que me encaixo perfeitamente em 99,9% das coisas que você escreve?
    Beijos!
  7. lice 13/09/2009 at 00:27 - Reply
    tate,
    quando venho aqui ler suas novas postagens e olho de relance pra imagenzinha dessa postagem SEMPRE acho que é o encarte da demozinha do silente. SEMPRE. incrível.
    outro dia sonhei que a gente tocava. foi fera.
    :*

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