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onde você guarda seu racismo?

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20 agosto 2009 as 12:48 pm 1.023 visualizações 9 ComentariosImprimir este texto Imprimir este texto

por Tate em cotidiana

cotidiana, número 13: auto-ajuda feminista y dicas de beleza parte 01.

diária querida,

inventei de publicar semanalmente, agora, ao invés de a cada quinzena.

ando bem ocupada – envolvida em 4 coletivos, com um emprego de 8h/dia, o máximo de créditos no meu semestre de formatura, mudança de casa, mudança de estação… por dentro ando um turbilhão de pensamentos/sentimentos/emoções-conflituosas/saudades-pegajosas/resoluções-difíceis/presenças-fantásmicas(fantásticas!), mas por fora ando bem tranqüila como todo mundo anda dizendo, e muito bonita.

bonita como sempre, porque entendi que boniteza é um tipo de destino. algumas pessoas ficam chocadas com minhas afirmações contundentes sobre mim mesma, uma altíssima auto-estima, me sinto muito gostosa e interessante e inteligente e maravilhosa e tem gente que realmente se espanta em me ouvir dizer isso, afinal, sou uma mulher gorda, que não se depila, que veste roupas com combinações lindamente esdrúxulas (muito calculadas, que sou bem vaidosa), cheia de tatuagem tosca; e afinal sou uma mulher negra – todxs sabemos que a negritude tem sido forçada a andar do lado da contra-beleza, e já escrevi sobre isso (na dicionária da confabulando).

é por isso mesmo que acredito e sinto, do fundo de meu coração negro como o coração negro que tenho tatuado no peito, do fundo de meu útero vermelho, do fundo de minha cabeça que às vezes dói de pensar, do fundo de minhas veias mas também em toda minha superfície, do fundo de meu coração cheio de saudade da minha amor, minha preta, o que sinto transbordantemente que é justamente porque a negritude tem sido o lugar por excelência da abjeção que afirmar e celebrar minha beleza contundentemente, escandalosamente, sensual e sensorialmente é ação direta contra o patriarcado racista .

cotiana13_01_arme-de-guerrequem se incomoda que se enxergue. e se veja maravilhosa também.

mulheres todas que somos, vivemos num regime patriarcal secular que tenta sufocar qualquer expressão de felicidade plena e liberdade que exerçamos. mulheres todas que somos, se não nos achamos lindas como ferramenta de luta contra esse patriarcado, o que vai nos restar pra acharmos de nós mesmas?

passei muito tempo achando que minha pele era feia, que meu corpo gordo era feio, que minha voz era feia, que o que eu pensava era feio, que o que eu sentia era feio e errado. aí eu lembro de baby suggs, recontada pela melhor contadora de histórias de todos os tempos: toni morrison. tem uma pregação que baby suggs, escravizada liberta e pregadora, faz no meio do bosque. o livro é “amada” (beloved, de 1987):

“Aqui”, ela disse, “nesse lugar mesmo, somos carne; carne que chora, gargalha; carne que dança descalça na grama. Amem isso. Amem isso com força. Porque lá eles não amam sua carne. Eles desprezam ela. Eles não amam seus olhos; eles arrancariam eles assim que pudessem. Amam menos ainda a pele de suas costas. Lá eles esfolam vocês. E oh, gente minha, eles não amam suas mãos. Essas eles só usam, amarram, acorrentam, decepam e largam vazias. Amem suas mãos! Ame elas. Levantem elas e beijem elas. Toquem outras pessoas com elas, batam palmas com elas, esfreguem elas no rosto, porque eles também não amam elas não. Vocês têm que amá-las, vocês! E não pensem que eles adoram a boca de vocês. Eles, lá fora, eles vão vê-la quebrada e vão quebrá-la de novo. O que você fala com ela eles não vão prestar atenção. O que você grita com ela eles não vão ouvir. O que você coloca nela para nutrir seu corpo, eles vão arrancar e te dar as sobras no lugar. Não, eles não amam sua boca. Vocês têm que amá-la. É da carne que estou falando aqui. Carne que precisa ser amada. Carne que precisa descansar e dançar; costas que precisam de apoio; ombros que precisam de braços, braços fortes é o que eu digo. E oh, gente minha, lá fora, me escutem, eles não amam seu pescoço livre e ereto. Então amem seu pescoço; ponham uma mão nele, façam carinho e toquem ele e o mantenham firme. E todas as suas vísceras, que eles iam usar como lavagem pra porcos se pudessem, vocês têm que amá-las. O fígado escuro, escuro – ame ele, ame ele, e o coração cansado e pulsante, amem ele também. Mais que os olhos ou os pés. Mais que os pulmões que ainda vão sorver ar livre. Mais que seu útero segurador de vida e as partes íntimas que plantam vida, me escutem agora, amem seu coração.”

cotidiana13_02_toni-morrisonauto-estima não é conversa fiada de revista feminina. é questão de sobrevivência, é ação direta contra o racismo e a misoginia, é uma arma de guerra!
nessa semana vai ser votada a ação de inconstitucionalidade das cotas que o dem ajuizou no stf. estou apreensiva mas “durmo pronta pra guerra”. salve, racionais.

nessa semana a programação do Mês da Visibilidade Lésbica de Brasília ficou pronta. estou cansada e muito satisfeita. salve, aliança sapataria e coturno.
nessa semana eu comecei cantando e acordei sorrindo. meu coração sabe porquê. é um motivo que faz rir mas também tem feito chorar. e como fico mais bonita rindo, vamos lá retomar as gargalhadas. salve, minha amor. pra você, meu olhar de infinito.

cotidiana13_03_auto-retratopsiu. agradeço às pessoas que postaram comentários que nos permitem conversar e debater sobre racismo e ação afirmativa pro enfrentamento dele no brasil, mas às pessoas que tentam esconder a perversidade do racismo afirmando que ele não existe e querem resolver um problema racial com um disfarce raso de pobreza, galera, isso não resolve nem o racismo nem a pobreza. é contra essas vozes da dissimulação que estendo a minha. “fraternidade universal” porra nenhuma, eu quero é sororidade negra, respeito às particularidades… eu sei contra quem minha voz se eleva. cada qual que aprenda a dirigir a sua contra quem incomoda. oras!


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9 Comentarios »

  • Hi disse:

    Á mim, incomodam todos aqueles que incitam o ódio, a segregação e dizem coisas como “foda-se”, “Dane-se”,”heil Hitler” e etc.

    Ps. Sim, estar a favor de si e dos seus é melhor que estar contra quem quer q seja… Legal a coluna semanal: vc me ajuda a lembrar quem sou :D

    ADOruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!

  • black phanther disse:

    hum sabe apesar de ser Negra sou meio alheia a essas coisas!!!
    Não costumo ver com esses olhos ou melhor dizendo fecho os olhos pra essas coisas pois de ferida e dor ja tenho muitas não quero mais essa!!!
    Tenho uma namorada branca que diz não ser racista ela me ama isso eu sei e sinto mas ela insiste em fazer brincadeiras como dizer meu feijãozinho.Na minha cabeça passa o seguinte se ela não é racista não esquenta com cor pq é que sempre lembra que ela é branca e eu preta?Não é bem lembrar mas me lembrar algo assim ja cansei de falar não gosto disso pra não magoar ela ja pasei a levar na esportiva mas não sei ate onde isso vale apena!!! Pq qundo eu fico brava ela fala i amor to brincando q coisa não sou racista.é gente só eu sei o quanto ela fez por mim e q nada mais q amor faria as pessoas fazerem o q ela fa e um racista nao suporta ver um negro dobrar a esquina imagina dormir ao lado grudado ops isso ja ta indo pra outros assuntos rsrss mas e então gnte se nao pé racismo o que é?

  • FLÁVIA disse:

    texto fantástico, que linguagem excelente. Aprisiona a gente e só nos libertamos até chegar até a últimap palavra. Viceral.

  • andressa disse:

    andressa disse:
    Não sei se alguém leu a edição passada da revista veja, para ser mais exata a do dia 12 de agosto. Logo nas primeiras contem uma entrevista pela autora Rosânge Alves Justino, a manchete da entrevista é “Homossexuais podem mudar”, ela entrevista uma psicologa que diz que não existe pessoas que são homossexuais mas sim pessoas em estados homossexual. O que simplesmente me deixou extremamente perplexa , e muito nervosa e injustiçada é essa psicologa ter associado o pró-homossualismo com um movimento nazista “O ativismo pró-homossexualismo´está diretamente ligado ao nazismo. Todos os movimentos de descontrução social estudam o nazismo, porque compartilham um ideal de domínio político e economico mundial”.
    Ela associou o homossexualismo ao um movimento onde os homossexuais também foram um dos que mais sofreram, nos campos de concentração nazista milhares de gays morreram, mas isso ela desconhece. Não é.
    Ela afirma que lutar pelos direitos , querermos ser tratados com respeito, ser considerados cidadãos é uma “desconstrução social”, como assim domínio político e economico sendo que os partidos políticos raramente ouvesse falar de alguem defendendo a causa pró-homossexual? Todos os dias sofremos com humilhaçoes, desvalorização, mas pagamos impostos, cumprimos com nossos deveres, e ela vem dizer que queremos dominio.
    Agora te pergunto “doutora”, quando os alguns “brancos” começaram a lutar pelos direitos do negros, eles queriam era descontrução social? Quando os negros queriam ser representados no governo eles queria o dominio? Quando nossos avós, tios, sofreram com a titadura, eles queriam simplesmentes justiça.

    ESSE É MEU PROTESTO. REVEJA SUA OPINIÃO SOBRE O QUE É DESCONSTRUÇÃO SOCIAL.

    Quem leu a reportagem por favor me deêm suas opiniões, corrija-me se o que falei não condiz com nossa luta, pretendo montar um artigo e enviar para a revista veja mostrando o nosso lado da moeda.

    Conto com vocês.

    beijos.

  • lice disse:

    muito foda, tate.
    por essas e outras que te amo, xuxu.
    auto estima como ação direta contra o patriarcado. amei.
    como que tá o nosso placar feministas x patriarcado mesmo?
    e ó: red alert da fada, hein?
    =(

  • Le disse:

    Só não podemos esquecer que racismo é sinônimo de preconceito, não necessariamente preconceito do branco contra o negro.

    O negro que não aceita a possibilidade de, por exemplo, namorar com um branco também é preconceituoso. Assim como o negro que não namora outro negro também é preconceituoso.

    Que isso fique claro para aqueles que pensam que o preconceito se dá apenas no caminho: branco para com o negro.

    Abs.

  • lice disse:

    ê le.
    calma ae!

    é MUITO diferente quando atos de rejeição como esses que você relata são ou não amparados por um mecanismo social hegemônico.
    quando uma pessoa branca se recusa a ter contato afetivo, amizade, amor, seja lá o que for com uma pessoa negra ela está amparada por uma série de discursos e práticas corriqueiras, cotidianas que reforçam a supremacia branca.
    agora supor que uma ação parecida e no outro sentido (ou seja da pessoa negra para a branca) tem o mesmo efeito ou é a mesma coisa é muita falta de noção.

  • tatu disse:

    taten, vc arrasa ein sapatao…suficiorgulho dessa familia feminista nada consaguinea, ainda tava ouvindo tracy chapman enquanto lia, perfeita combinacao, ta, perfeicao
    nao existe mas vc e a tracy sim e ja é suficiente, puxa saco nao, aconchega-ovario, rerere

    quanto a materia da veja andressa, li sim, por acaso…e recomendo, muito engracada e sem lastro, adorei a ideia de hetero-destruicao, nao, brincadeira, acho mesmo que a gente tem que escrever alguma coisa, contra-argumentar e stales…o foda é que é tao absurdo que nao saberia por onde comecar…

    e le, muito cuidado com inversoes apressadas, dizer que o formato hegemonico de racismo (brancos e brancas contra negros e negras) é a mesma coisa que o seu contrario, é dizer que hegemonia e contra-hegemonia é a mesma coisa…e foi mal, uma pessoa negra que tem suas reservas de relacionarse com pessoas brancas nao é racista senao cuidadosa, entende? o “vice-versa” nao se aplica ai!

    beijin

  • karen disse:

    Gostosa, interessante, inteligente e maravilhosa!…

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