calaboca já morreu!!

tate 10/10/2009 1

por Tate em cotidiana

às vésperas de conferências distrital e nacional de comunicação, diária querida, o movimento de mulheres negras + o movimento lgbt + o movimento de mulheres + diversos outros movimentos sociais (estudantil, popular, do campo, de democratização da mídia entre outros) estão se juntando pra fazer as conferências livres de comunicação. no brasil, o privilégio de comunicar tem sido exclusivo de determinadas elites: no df, por exemplo, o dono do jornal de maior circulação é também dono da maior construtora da cidade e vice-governador. o resultado é uma mídia racista, hegemônica, lesbofóbica, corporativista, transfóbica, capitalista, misógina, homofóbica, reacionária. as conferências livres são um espaço de produção de outros diálogos, outras formas de fazer, pensar e consumir comunicação… o textinho seguinte foi feito por mim pro jornal das conferências livres, que tá pra sair.

a agenda tem, entre outros eventos, a Conferência Livre de Comunicação e Cultura da Negritude e Afro-religiosidade, dia 10 de outubro da Praia Verde (Candangolândia), e a Conferência Livre de Comunicação LGBT e de Mulheres, dia 23 de outubro no auditório da Fundação Cultural Palmares (setor bancário sul quadra 02, ed. Elcy Meireles). cotidiana19-01vamos nos reunir pra elaborar propostas e subsídios, com nossas demandas y desejos, às conferências distrital e nacional. quem tá lendo isso aqui e mora no DF, cola na gente! quem não mora no DF, se informe de como andam as coisas aí no seu estado.

retomar a mídia é retomar nossa voz! contra o silenciamento patriarcal: histeria coletiva, colorida e combativa.

mais informações sobre as conferências livres e a etapa distrital e nacional das conferências de comunicação podem ser lidas no blog do fórum de mulheres negras, e no blog da comissão pró-conferência de comunicação.

Quem fala de quem não fala de si?

Mulheres contra a lesbofobia, o racismo e a misoginia na mídia

tatiana nascimento dos santos*

O patriarcado, como sistema cultural antigo, tem mania de tentar silenciar as mulheres pra garantir nossa dominação por homens. Mas como antigo não é eterno – o patriarcado não existe desde sempre nem vai durar pra sempre–, e como desde pequena aprendi que CALABOCA JÁ MORREU, entendo que uma das ferramentas mais preciosas à luta pela liberdade das mulheres tem sido a retomada da palavra, ou seja, o exercício livre, pleno, autônomo e soberano da comunicação e representação.

cotidiana19-02

Algumas tentativas de desqualificação do discurso, da voz e da palavra de nós, mulheres, são recorrentes, tão antigas quanto o patriarcado, e bem conhecidas: de fofoqueiras a histéricas, de esganiçadas a escandalosas, temos sido caladas de maneiras simbólicas, como exemplificam esses termos que tentam desvalorizar nossa expressão, e físicas – essas sendo geralmente brutais, como estupros, espancamentos e assassinatos. Frida Kahlo pintou, em 1935, um quadro chamado “Unos cuantos piquetitos” (algo como “só uns cortezinhos”), inspirada na manchete lida em jornal que contava a história de um marido que esfaqueara 20 vezes a esposa, pra ver se ela “gritava menos”.

As imagens com que a mídia corporativa nos retrata nos levam sempre a esse lugar: somos representadas como vitimizadas pela violência, como incompetentes, ou nos infantilizam, exploram nossas sexualidades, nos pintam como burras, incapazes… Ou românticas desvairadas, que tudo fazem em nome de um único objetivo a ser experienciado na vida: o amor romântico por um macho, dentro do molde mais previsível, repetitivo e violento da heterossexualidade.

Ou nos tornam em pedaços de carne pra ser degustada, junto com churrasco, aos goles de uma cerveja bem gelada… Somos comparadas a cadelas, galinhas e vacas não porque essas pessoas não-humanas são maravilhosas, íntegras e vivem de maneira bem mais harmoniosa com o mundo que nós, pessoas humanas – mas porque, como animais têm sido historicamente exploradas(os), humilhadas(os) e assassinadas(os) pela parte branca, masculina e heterossexista da humanidade, querem que assim entendamos que a comparação nos torna, como elas e eles, seres a dominar, explorar, humilhar e matar, se for o caso (infelizmente é, muitas vezes).

Penso que, enquanto a produção da comunicação for privilégio daquele mesmo pedaço de humanidade – uma elite branca, machista, especista e capitalista que odeia as mulheres a não ser quando quer nos humilhar; que odeia as mulheres lésbicas a não ser quando nos quer fazendo pornografia alienante de nossos desejos, violenta e destinada pro prazer dos machos; que odeia as mulheres negras a não ser quando precisa da gente pra rebolar no carnaval e servir cafezinho pra protagonistas branc@s nas novelas –, o resultado vai ser um tipo de representação que insiste nos estereótipos e estigmas necessários a manter as coisas como estão: o poder nas mãos de quem não quer largá-lo, e de quem vai continuar humilhando e massacrando, desvalorizando e contando mentiras racistas, lesbofóbicas, misóginas sobre nós, nossas vozes, nossos desejos e corpos, nossas idéias, nossas vidas.

Retomar a palavra, tomar de assalto a comunicação, escrever nossas histórias e compartilhar nossa produção midiática não é unicamente um exercício de ampliar nossa auto-estima e nos tornarmos mais plenas: é ação-direta contra o patriarcado lesbofóbico, elitista, racista e silenciador que tenta a cada minuto nos calar.

O silêncio é muito precioso e necessário se assim escolhemos ficar, se queremos ou precisamos. Mas quando ele é imposto e garantido por estupros, assassinatos, violências materiais e simbólicas, sub-representações e estereótipos, então precisa ser alvo de nossas ações políticas, das mais íntimas às mais coletivas. Calaboca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!

* poetisa lésbica, negra feminista, y gosta muito de escrever! recentemente tem participado do Fórum de Mulheres Negras do DF, da Sapataria – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais do DF, da Frente contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto e, há mais tempo já, do corpuscrisis – coletivo de micropolítica feminista.

Um Comentário »

  1. Laura Cristina 10/10/2009 at 21:51 - Reply
    E fato!
    Sociedade articulada consegue resultados.
    É muito importante dar visibilidade ao que é diverso e desestimular as produções de modos de existência impostos pelas grandes mídias. Neste sentido, as minorias tem o papel de trazer a tona a subjetividade e é fundamental que os meios de comunicação de livre iniciativa como os do terceiro setor, por exemplo, dêem voz a subjetividade, ao diverso para que possamos assim afirmar a nossa identidade e nos negar a ser parte de uma cultura massiva e homogenia.

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