por Tate em cotidiana
diária querida,
dedico esse texto à querida feminista eco-queer Sandra Michelli, uma mulher negra que me presenteou, hoje, com uma notícia de justiça sendo feita (por ela!) e uma frase linda:
derrubar o Mato é um ato fundante da cultura heteropatriarcal – e o início da deserotização e defeminilização da Natureza Queer
são 22:35 da terça-feira 17 de novembro, 03 dias antes da sexta-feira 20, 20 de novembro, dia da consciência negra. tenho que escrever dois textos até amanhã, dia 18, e esse é o começo do primeiro.
faz uns 20 minutos que cheguei na casa da minha mãe, e hoje foi um dia que começou com uma oficina frustrada de leitura e produção de textos pra uma associação de travestis (elas não sabiam que era hoje); passou por uma ida rápida à unb pra tentar pegar caixas de camisinha feminina (ida também frustrada, porque o pólo de prevenção dst/aids tava fechado); continuou, depois do almoço, com uma oficina na contag pra umas 60 pessoas do movimento de trabalhador@s rurais (sobre direitos sexuais e direitos reprodutivos); e finalmente começou a se encerrar com uma reunião, no cfemea, da recente e motivada articulação de mulheres no df, com rearticulação do fórum de mulheres do df.
na ida rápida à unb encontrei a maravilhosa, inspiradora e companheira de luta Jacira da Silva, que ia fazer uma fala sobre mídia e comunicação na semana da consciência negra que a nova gestão do CASO, o c.a. de sociologia da unb, tá fazendo. a nova gestão tem a presença da querida Misha, parceira de sapataria, pretinha muito arretada y querida, feminista comunista, que ficou famosa recentemente no caso do ato nu em solidariedade à estudante que foi ameaçada, por um monte de macho, de estupro.
quando falei pra Jacira que ia, à tarde, dar essa oficina na contag, ela perguntou por quem a contag tinha me chamado. tipo, que entidade a contag convidou, quando me convidou… eu fiquei sem saber o que responder mas depois lembrei que era ‘sapataria’, porque tá assim meu nome, na programação: “Tatiana – Sapataria”.
todas as vezes que faço uma fala pública em eventos como esse, começo minha apresentação dizendo que “sou tatiana, estou no Fórum de Mulheres Negras do DF, na Sapataria – Coletivo de Lésbicas e Bissexuais do DF, na Frente contra a criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto“, e às vezes, ainda, digo que estou no Geraju, o grupo de Educação e Políticas Públicas em Gênero, Raça/Etnia e Juventude, e outras vezes ainda mais escassas, digo que estou no nedig, o núcleo de estudos da diversidade afetivo-sexual e de gênero da unb.
quando tô muuuito apaixonada naquele momento digo, ainda, que sou do corpuscrisis, o coletivo de micropolítica feminista que serve de terra fértil, preta, plantada de flores y verduras deliciosas, pra boa parte dos meus modos de pensar, sentir, agir y me movimentar, íntima-pessoalmente, pelo mundo. em tudo isso pensei, sem conseguir responder a tempo – porque Jacira já tinha que ir pro microfone.
mais tarde, lembrei que na semana passada, quando estive em curitiba no IV Seminário “Mulheres Negras e Saúde”, promovido pela Rede de Mulheres Negras do Paraná, tivemos uma discussão, em alguma das mesas, sobre as pontes de carne que existem entre nossas diversas militâncias – lá tinha muitas mulheres que militavam, ao mesmo tempo, no movimento lgbt, no movimento negro, no movimento de mulheres, no movimento sindical, em partidos…
então falamos rapidamente sobre como é impossível desconectar os ativismos, as disposições, apesar de ser muito comum que os debates mais relacionados ao corpo fiquem do lado de fora da política (como é possível, ma jah?) – e aí a militância lgbt acaba perdendo espaço pra outras, em muitos casos. lá, por exemplo, muitas mulheres lésbicas não falaram, em momento algum, sobre sua lesbiandade. num evento sobre saúde de mulher preta, como é possível deixar de citar sua orientação afetivo-sexual?
às custas de que esse silenciamento isso é feito? e esse silêncio, protege quem? (salve, audre lorde. minha musa!)
numa viagem anterior, aquela bem maravilhosa pro ceará em outubro, fiz uma oficina de “corpo, gênero e sexualidade” (acho que era esse o nome) com Neusa das Dores (Coisa de Mulher), grande, maravilhosa, plena referência, ancestralidade, fonte de sabedoria e aprendizado. era uma oficina bem parecida com aquelas de “ginecologia faça-você-mesma” que fazemos por aqui, com os espelhinhos, os papéis pra desenhar a buceta, os momentos de lembranças, confissões, desejos… num momento da oficina ela disse que tava de cara com a forma que tanto o movimento negro como o movimento feminista tinha conseguido expurgar o corpo de debates, agendas, movimentações políticas…
como fazer política feminista sem falar de vagina?
ela falou, bem irritada mas de um jeito engraçado também, que o movimento agora só queria se falar, se saber, se pensar da boca pra cima. mas pensamento só se faz na cabeça? ou pensamento a gente sente pelo corpo inteiro, e muitas vezes pra além dele? heranças nefastas de um academicismo cartesiano, iluminista, racista, misógino, positivista… o que nós, feministas negras, vamos fazer com essa herança?
desmaterializar o Corpo é um ato fundante do racismo epistemológico – e o início da esterilização e embranquecimento da Natureza Negra
tem esses pontos de recalque nos movimentos. esses lugares de onde, a partir dali, nada se fala. outra questão sensível pro movimento negro é a questão da morenice. morena não é cor, mulata não é raça! precisamos conversar seriamente sobre os efeitos nefandos da miscigenação, no que ela tem de roubar, de pessoas negras, a possibilidade de identificação racial porque somos não-pretas. daqui a pouco o censo 2010 taí, e ainda há uma pá de gente que se acha “morena”, “morena escura”, “cor de jambo”. somos negras, pessoas! vamos nos enxergar, sem máscaras! sem máscaras embranquecedoras sobre nossas peles negras! negritude é amplitude!
tive essa conversa com uma das meninas que tava na oficina hoje. ela tem um professor que dá aula de africanidades na escola (i.e, a pessoa que se responsabilizou pela aplicação do artigo 26-A da ldb, conhecido como lei 10.639/03 e, um pouco depois, ampliada pela 11.645/08), e a proibiu de participar do desfile da beleza negra porque ela não é preta. ela é uma mulher negra parda, como eu. e ele negou a ela sua negritude. conversamos um bocado sobre isso, inclusive sobre essa noção de amplitude da negritude. amplitude que tem, obviamente, limites:
como muito bem falou a queridíssima e referencíssima Guacira César, do cfemea, quando são limites que dizem respeito a auto-afirmação e percepção/experienciação do racismo por conta de sua cor, seu pertencimento racial. quer dizer que aquele cara, aquele que era presidente do brasil, e que disse que “todo mundo tem um pezinho na áfrica”, não é negro. nem aquelas pessoas loiras, de olhos azuis, que vão pras filas do sistema de cotas dizendo que têm uma avó negra. que a avó se inscreva pro vestibular, então. porque racismo tem a ver também principalmente com a percepção que outras pessoas fazem de sua cor, de sua raça, e de como vão usar isso pra violentar você. e é um sistema de poder que diz respeito às opressões que, historicamente, pessoas brancas impuseram às negras.
e tem também aqueles outros casos, na contramão desses das pessoas brancas que se dizem negras pra tentar algum tipo de privilégio, benefício, ou mesmo só tentar desarticular nossa luta: às vezes a pessoa parece branca, diária, sabe? tem a pele bem clara mesmo. mas tem cabelo completamente crespo, tem boca carnuda, nariz largo, entre outros traços ditos negróides. e é óbvio que mesmo não sofrendo racismo com a mesma intensidade que uma pessoa negra preta, ainda assim ela sofre racismo.
minha outra mestra de feminismo lesbiano negro, Joelma Cezário, andou comentando recentemente que o racismo não poupa o povo sarará justamente por isso, por causa de certos traços que causam aversão racista. sarará é como chama, popularmente (eu não sei outro jeito), aquele povo menos preto, muitas vezes de olho claro, e cabelo crespão bem loiro – porque racismo também tem a ver, e muito, com aversão a nossos cabelos.
“sarará miolo”, salve, gilberto gil!:
sara, sara, sara, sarará
sara, sara, sara, sarará
sarará miolo
sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
de querer cabelo liso
já tendo cabelo louro
cabelo duro é preciso
que é para ser você, crioulo
as artimanhas do racismo no brasil é que montaram esse esquema perverso de embranquecimento como prática eugenista social (“limpar o ventre”, “melhorar a espécie” e “expurgar a mácula negra” foram políticas de estado tanto no brasil colônia quanto na nova república), que ao mesmo tempo servem pra menosprezar a negritude e tudo a ela relacionado (aparências, costumes, sensibilidades, espiritualidades, intelectualidades, corporalidades) e elevar o ideal da branquitude como meta a ser alcançada, não importa o que isso custe (auto-mutilação em chapinhas, alisamentos permanentes, plásticas no nariz, fugir do sol; genocídio da população negra; estupros; casamentos inter-raciais como ferramenta etc).
a branquitude como ideal, como meta, como exemplo e como espelho é que faz com que tanto pessoas negras-pretas quanto pessoas negras-pardas neguem sua negritude. eu “descobri” que era negra aos 23 anos. uma professora e mestra muito amada, querida e respeitada, negra como o escuro da noite, “descobriu” que era negra aos 21. e muitas outras histórias como essa podem ser contadas, recontadas, imaginadas…
às vésperas do 20 de novembro, dia da consciência negra, acho que cabe a gente pensar sobre a consciência que temos de nossa negritude. como movimento negro e como pessoas negras se movimentando por um mundo muito racista que quer roubar de nós os significados amorosamente políticos de uma data como essa, entender melhor como somos quem somos pode ser uma das ferramentas que nos faça ser mais, melhor, de forma mais plena y feliz, quem somos: pra ser a gente, crioul@s
salve Zumbi, mais lembrado, y salve Dandara, jamais esquecida. salve a luta do povo negro no brasil. essa história também corre no meu sangue, e transborda na minha pele! consciência negra é todo dia.


















mishaaaaa.. foi essa mesma que apontou o dedo na minha cara dentro da sua casa e falou: “vc não é negra. Vc é branca!” e disse ainda em tom de irônia e um pouco de rancor: “vc não sabe o que é sofrer preconceito!”
ai ai ai.. sua queridíssima amiga feminista, negou a mim a minha negritude tb tate? como o professor que dá aula de africanidades fez com a outra menina?
massss.. isso foi só uma provocaçãozinha viu?!
ADOREI SEU TEXTO!
ADORO VC!!!
Parabéns e obrigado pelo texto que somou alguns elementos para minhas reflexões. Massa demais.
Beijos
acredito que o caminho está em “entender melhor como somos quem somos “, pois, na maioria das vezes,até nossa história nos é negada..
Abraços…
continue..