A diferença dentro da igualdade

Silvia Kiss 29/11/2009 15
armario1por Silvia Kiss em Universo Butch

Quando os opostos se atraem e os iguais também.

Abro este espaço com o espírito leve e inspirado a compartilhar a dor e a alegria que só uma butch (lésbica masculina) pode ter. Mas antes, gostaria de apresentar a minha visão sobre a nossa querida e tão polêmica diversidade sexual.

A ignorância é um dos piores inimigos da humanidade e com a sua queda outros monstros cairão em seguida, como o preconceito e a cegueira que gera o ódio e a violência contra grupos. Parto do princípio de que toda generalização é burra, mas algumas características estão muito presentes na maioria de nós. Uma delas é a dificuldade de lidar com mudanças, sejam elas quais forem. Somos educados para seguir um ideal de família. O casamento só existe se constituído por um homem e uma mulher, e filhos só são bem vindos se forem oriundos desse casamento. Claro que os passos do tempo inexoravelmente deixam para trás tudo aquilo que for difícil de ser mantido, que deixa de ser uma verdade universal. A família ideal está caindo aos poucos, já que o número de famílias constituídas por segundos casamentos, agregando filhos e enteados, estão aumentando. Ser mãe solteira deixou de ser sinônimo de irresponsabilidade e vergonha para galgar um status de mulher moderna e independente, mas falta muito ainda.

Mesmo dentro de um grupo de homossexuais a velha idéia taxativa de como um gay ou uma lésbica deve ser e se portar permanece e gera conflitos desnecessários. Somos diferentes e temos dificuldade em aceitar outras diferenças. Para alguns é feio e estranho ser travesti, transexual, bissexual. Lésbica masculina só pode ficar com feminina, transexuais são gays ou lésbicas que negam a sua homossexualidade – transformando-se no sexo oposto, bissexuais são indecisos e só querem aventuras, e tantos outros mitos e absurdos que ainda reinam por aí e que devem ser extirpados através da informação e observação minuciosa dos fatos.

Todos nós temos as duas polaridades em graus diferentes - yin-yang, feminino-masculino - presentes em nossas características físicas, em nossos pensamentos, em nossas vontades e gestos. Não há fórmulas determinantes da sexualidade de alguém e se houver, deve ser uma fórmula pra lá de complexa e cheia de variáveis, pois a diversidade de tipos, de graus de feminilidade e masculinidade, da química e atração de cada um por diversos tipos de pessoas, acabam por desconfigurar qualquer tentativa de explicação da causa dessas variações.

Precisamos somar apenas o que nos faz crescer e ter a consciência de que tudo se transforma. É necessário destilar a beleza de cada lição, de cada problema, de cada jeito de ser, e seguir em frente trajando apenas a transparência e a liberdade de escolha pelo melhor caminho, que é individual e intransferível. Ninguém pode escolher e trilhar por você.

Mesmo que muitos não entendam, hoje sou o que chamam de butch ou de lésbica “quase transexual” e se amanhã eu mudar de opinião ou de jeito de ser, ninguém terá nada a ver com isso, pois a única coisa que não me permitirei mudar é a felicidade que sinto ao mostrar a minha verdadeira face. Não posso deixar de observar, só para finalizar, que ter conhecimento não é ter sabedoria. Sabedoria é saber formatar todo o seu conhecimento através de algo maior, chamado amor.

15 Comentários »

  1. Priscila Sancle 29/11/2009 at 21:08 - Reply
    Parabéns pelo texto. Você conseguiu organizar e traduzir para Português, todos os meus sentimentos. Obrigada.

    Sou Bi e feliz com isso, de verdade. Porque amo pessoas, independetemente da forma na qual elas de apesentam.

    “Precisamos somar apenas o que nos faz crescer e ter a consciência de que tudo se transforma.”

  2. Aninha 29/11/2009 at 21:10 - Reply
    A-M-E-I seu post – até porque lembra um do meu blog: http://aovelhacolorida.blogspot.com/2009/09/uni-duni.html

    Eu me descobri agora há pouco e, apesar de ainda não ter sofrido o preconceito na pele, vejo as opiniões por aí sobre os bissexuais e acho simplesmente ridículo. Eu me apaixono pelas pessoas, e isso não faz de mim indecisa ou volátil – principalmente porque eu quando gosto, GOSTO de verdade, fico cega para o resto do mundo. As pessoas têm necessidade de rotular, categorizar, classificar e dar sentido a tudo que existe, é incrível. Abuuuuso, affs! ¬¬’

    Parabéns pelo texto, adorei!

    Beijos

    • Marcia 07/06/2011 at 15:45 - Reply
      Gostaria de ter sua amizade.
  3. Patrícia 30/11/2009 at 01:13 - Reply
    Acho q isso foi um desabafo… rs
  4. Miriam 30/11/2009 at 01:44 - Reply
    Um desabafo com uma explicação, um pensamento realista, tudo lindO! xD
  5. joyce 30/11/2009 at 01:49 - Reply
    Sabedoria é saber formatar todo o seu conhecimento através de algo maior, chamado amor.

    Sabedoria essa é a palavra

  6. Rosana 30/11/2009 at 09:40 - Reply
    Silvia, parabéns pelo texto, excelente, nos convida a refletir sobre nossas atitudes e opinões. É um incentivo de um olhar de cuidado e respeito com o outro, com a diversidade sexual. Sinceramente, à todas vcs, o meu mto obrigada por existir este espaço, pelo trabalho das colunistas nessa luta linda, por ter esse espaço aberto p/ essa troca.. bjo off. eu gostaria de dx um poema nesse tópico tbm, de Quintana.

    “As costas de polichinelo arrasas
    Só porque fogem das comuns medidas?
    Olha! Quem sabe não serão as asas
    De um anjo, sob as vestes escondidas…”

  7. anavic 30/11/2009 at 10:51 - Reply
    silvia kiss, eu entendo perfeitamente oque vc quis dizer, também sou butch e o pior gosto das butch e eu escuto várias vezes a mesma coisa “á, mas se vc é butch tem que ficar com femme”. A grande verdade é que as pessoas gostam de rotular e vão rotulando por toda parte, com os rótulos vem essas bobagens que contruimos como esse lance que dizem que bisexual é uma lesbica enrustida ou que só está querendo uma aventura.As pessoas são diferentes até dento desses rótulos todos e cada pessoa é difrente. bjs, gostei mt do seu texto.
  8. Claudinha 30/11/2009 at 15:50 - Reply
    Wow…. Arrasou no posta hein e na tentativa de derrubar mitos
  9. Marcia 30/11/2009 at 19:55 - Reply
    Muito bom o texto..parabéns!!!…li uma vez uma frase que se enquadrou com o meu ponto de vista “Quando me apaixono, me apaixono por um ser humano. Eu não vejo um homem ou uma mulher, uma pele negra ou branca, um adolescente ou um cinqüentão, mas uma alma da qual sou o complemento.”
    e na “boa” rótulo não está com nada
  10. Sara 01/12/2009 at 16:10 - Reply
    Amei o texto! Eu sou feminina e só me sinto atraída por butch. Mais de uma vez, contudo, já sofri discrimanação por isso. Ocorre que muitas lésbica femininas acreditam que a butch adota um comportamento masculinizado por necessidade de auto-afirmação. Isso é puro preconceito; que é ainda mais feio quando parte de um grupo de pessoas que deveria ter aversão a preconceitos.
  11. MaRi 10/12/2009 at 22:43 - Reply
    ADOREI O TEXTO ISSO É >FATO<
  12. Débora 22/12/2009 at 11:43 - Reply
    “Ocorre que muitas lésbica femininas acreditam que a butch adota um comportamento masculinizado por necessidade de auto-afirmação. Isso é puro preconceito; que é ainda mais feio quando parte de um grupo de pessoas que deveria ter aversão a preconceitos.”

    Muito bem dito.
    Estamos sendo nós mesmas. Assim como as femininas que gostam do jeito que são, e são o que querem. Nós também estamos sendo o que queremos e fazendo o que queremos. Acontece que como somos muitas ganhamos um nome. Se fossemos poucas não seriamos notadas, e seriamos uma excessão que talvez nem chamasse a atenção, sendo assim não seriamos rotuladas. Mas como somos várias, chamamos a atenção e sofremos com isso a grande generalizaçao. Não vejo problema em uma butch querer ser um pouco masculina, tavez por admirar algo no comportamento mais seguro, forte e presente que as vezes um homem possa passar.
    Isso na verdade não interessa. As pessoas são diferente não adianta dar nomes e separar em grupos, não somos potes em conserva. Somos seres humanos tentando viver as NOSSAS vidas, da melhor maneira possível.

    É vergonhoso, eu ver lésbicas femininas pedirem tanto que o preconceito se acabe, quando elas mesmas são preconceituosas. É o típico “sou o umbigo do mundo”. Se é comigo, que se faça algo se é com os outros não me interessa.
    A ignorância está em todos os lados. Antes de julgar e dizer que NÃO ENTENDE. Tente entender. É simples.

  13. Beatriz 05/11/2010 at 14:01 - Reply
    olá bom a todas,

    olha posso dizer que tenho enorme prazer de ler todas as enquetes da PL, mas algumas realmente merecem minha atenção e reflexão.

    Sou de curitiba, e vim morar em são paulo-sp, pois nunca me adequei a limitação provinciana que existe nessa região. Sou lesbica, e tenho uma filha de quatro anos linda, não é facil enfrentar algumas situações, mas a educação é o ponto inicial de qualquer debate, aos 3 anos ela me “questionou” se fulana era minha namorada, pois ela tinha cabelos curtos e sempre passeavamos juntas, na hora tive muito desconforto, mas não neguei nenhum fato, pois pretendo que a geração após a minha sejam de pessoas mais humanas, e depois observei que minha filha não estava questionando, ela estava aprendendo, na cabecinha dela tudo está em formação, embora ela adore historias de cinderela com principes, ela é toda meiga e já diz que tem namorado, não quero e nem desejo recriminar toda e qualquer informação que parte dela para mim.
    Acredito que pessoas que julgam pessoas, devem em algum momento terem sido julgadas por alguem, o problema é que não aprenderam a lição que a carne sente, mas sim o “modo” como a vida flui, e não procuram aplicar o oposto doque sofreram.

    por isto afirmo o maior desafio que existe no planeta: Educação é tudo, é o inicio o meio e o fim. Já diz-se desde muito tempo: Educai as crianças e não será necessário punir os homens.

    obrigada pelo espaço.

    Beatriz

  14. Tibet 18/11/2010 at 00:25 - Reply
    oi Silvia, oi Beatriz, oi meninas… pois é um post de 11/2009, fazendo um ano e ainda polêmico, instigante e necessário para a visualização do universo Butch, ainda muito pouco visivel.O que nossas companheiras de trincheira muitas vezes não ” entendem” é que as butchs são as mais criticadas e discriminadas no dia a dia de nosso mundo contemporâneo… são as que mais precisam de cumplicidade e aconchego quando em nossos espaços chegam precisando baixar a guarda, relaxar e ser simplesmente sem precisar se fazer entender… o que muitas das jovens les ainda em conflito com seus sentimentos e desejos não compreendem é que não precisam se definir a partir de ser ou não ser como esta ou aquela, somos todas unicas e singulares, e temos o direito de nos reinventar ou radicalizar na medida de nossa necessidade de nos experimentarmos.Uma atitude generosa e um olhar mais demorado pode revelar o que há de melhor em cada uma de nós!

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