diária querida,
estou muito pra dentro.
não sei nem o que conversar com você.
estranhamente, apesar de estar pra dentro, tenho viajado muito. amanhã vou pro rio participar do encontro da diversidade sexual na universidade federal rural, e ainda no rio participar do seminário lgbt do complexo da maré.
também vou ver minha mãe fátima y minha amiga anie.
e o sol e o mar.
às vezes tô andando pela rua aqui no meio do cerrado e sinto um cheiro de mar me ocupando as narinas, a cabeça, o coração, tudo.
acho que é como amar alguém que preferiu ir embora, mas o cheiro dela vem e me arrebata apesar da contagem dos dias crescendo sem ela. aumentando a distância física a cada dia. um mar como ponte.
é estranho.
mas a vida é muito maravilhosa, então tenho sorrido muito e cuidado dos lírios na varanda agora mirrada de plantas na casa da minha mãe, esperando as flores voltarem. lírios passam por momentos muito interessantes, diárias, assim: depois daquela explosão de beleza e perfume, as flores caem e as folhas bem verdes vão caindo também, e a planta parece que morre.
é que ela se deu tanto pra fazer as flores mais lindas e perfumadas que existiram, que agora precisa descansar. umas semanas depois as folhas vão nascer e crescer de novo. e algum outro tempo depois, mais flores, completamente entregues.
pra si mesmas, pro seu próprio viver. não é pra mim, não é pra minhas lembranças de uma amor ida embora mais uma vez, não é pra encher minha alma (mesmo que encha), é porque elas existem.
é apaixonante.
e pra mim, mulher de Oyá que sou, a paixão é fundamental.
tô aprendendo, diária, aprendendo a me aprender. como o encontro que encontra o encontro, desencontrada de tantos desencontros. mas cada vez mais achada.
aí alguém pode perguntar:
o que isso tem a ver com uma coluna pública sobre feminismo?
respondam aí, leitoras queridas.
o que isso tem a ver com feminismo?



















O que as flores e o mar tem a ver com o feminismo? Talvez porque para descrever o cheiro de uma flor você tenha que ir fundo em si mesma, abrir com coragem uma fresta de pieguismo romântico, e lá se balançar manera, ir se levando com onda, se deixando abater e bater, tocar de novo num possível novo que desponta na gente, ainda, sem nome. Nem sempre o discurso da razão nos basta, é, aliás, muito pouco, é fácil se alienar no saber, isto ou aquilo, os ideais, renovar os ideais, mas subvertê-los propriamente pelo que há não de reativo, mas de afetivo, eis a questão, uma política dos afetos, mas os afetos não são feitos unicamente da matéria política, mas do non sense do amor.
Ei Tate … seu momento “muito pra dentro” rendeu um belo texto. Sua descrição da impressão do cheiro do mar e a observação sobre a vida dos lírios são quase um poema.
Sei lá o que isso tem a ver com feminismo … só sei que minha alma feminina gostou e muito!
Bjs