muito pra dentro

tate 12/11/2009 4

por Tate em cotidiana

diária querida,

estou muito pra dentro.

não sei nem o que conversar com você.

estranhamente, apesar de estar pra dentro, tenho viajado muito. amanhã vou pro rio participar do encontro da diversidade sexual na universidade federal rural, e ainda no rio participar do seminário lgbt do complexo da maré.

também vou ver minha mãe fátima y minha amiga anie.

e o sol e o mar.

cotidiana21-dentrodiária, eu amo o mar.

às vezes tô andando pela rua aqui no meio do cerrado e sinto um cheiro de mar me ocupando as narinas, a cabeça, o coração, tudo.

acho que é como amar alguém que preferiu ir embora, mas o cheiro dela vem e me arrebata apesar da contagem dos dias crescendo sem ela. aumentando a distância física a cada dia. um mar como ponte.

é estranho.

mas a vida é muito maravilhosa, então tenho sorrido muito e cuidado dos lírios na varanda agora mirrada de plantas na casa da minha mãe, esperando as flores voltarem. lírios passam por momentos muito interessantes, diárias, assim: depois daquela explosão de beleza e perfume, as flores caem e as folhas bem verdes vão caindo também, e a planta parece que morre.

é que ela se deu tanto pra fazer as flores mais lindas e perfumadas que existiram, que agora precisa descansar. umas semanas depois as folhas vão nascer e crescer de novo. e algum outro tempo depois, mais flores, completamente entregues.

pra si mesmas, pro seu próprio viver. não é pra mim, não é pra minhas lembranças de uma amor ida embora mais uma vez, não é pra encher minha alma (mesmo que encha), é porque elas existem.

é apaixonante.

e pra mim, mulher de Oyá que sou, a paixão é fundamental.

tô aprendendo, diária, aprendendo a me aprender. como o encontro que encontra o encontro, desencontrada de tantos desencontros. mas cada vez mais achada.

aí alguém pode perguntar:

o que isso tem a ver com uma coluna pública sobre feminismo?

respondam aí, leitoras queridas.

o que isso tem a ver com feminismo?

4 Comentários »

  1. karen 12/11/2009 at 21:50 - Reply
    Querida, tudo o que eu vivi e aprendi com vocês no corpus crisis não saí da minha cabeça, parece nóia ou praga que vai se espalhando até se espraiar no corpo inteiro e dizer: eu sou assim! Posso completar com Paulinho da Viola, “se quiser gostar de mim, eu sou assim, assim morrerei um dia, não terei arrependimento… ou o peso da hipocrisia!”
    O que as flores e o mar tem a ver com o feminismo? Talvez porque para descrever o cheiro de uma flor você tenha que ir fundo em si mesma, abrir com coragem uma fresta de pieguismo romântico, e lá se balançar manera, ir se levando com onda, se deixando abater e bater, tocar de novo num possível novo que desponta na gente, ainda, sem nome. Nem sempre o discurso da razão nos basta, é, aliás, muito pouco, é fácil se alienar no saber, isto ou aquilo, os ideais, renovar os ideais, mas subvertê-los propriamente pelo que há não de reativo, mas de afetivo, eis a questão, uma política dos afetos, mas os afetos não são feitos unicamente da matéria política, mas do non sense do amor.
  2. VanB 12/11/2009 at 22:18 - Reply
    Nós também devemos descansar um período para depois florir novamente … para nós mesmas … para o nosso próprio viver.

    Ei Tate … seu momento “muito pra dentro” rendeu um belo texto. Sua descrição da impressão do cheiro do mar e a observação sobre a vida dos lírios são quase um poema.

    Sei lá o que isso tem a ver com feminismo … só sei que minha alma feminina gostou e muito!

    Bjs

  3. Rosana 13/11/2009 at 09:17 - Reply
    “o que isso tem a ver com feminismo?” Sensibilidade. Você simplesmente assumiu a sua verdade. Me supreendeu a sua sensibilidade. É isso o que nós precisamos. bjo
  4. lice 16/11/2009 at 14:06 - Reply
    tenho uma palavra pra você e é: espéculo!

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