o pólen púrpura da palavra
Avalie este texto:diária querida,
nesta semana acontece, de 27 a 29 de novembro, o 1º encontro nacional de negras jovens feministas em salvador. na lista de pré-inscritas tive uma surpresa feliz de ver os nomes de algumas amigas do df, especialmente o da póli. esse texto é uma homenagem a ela, poliana preta, que é amante da poesia, guerreira no mundo, amiga no coração, que tem, como nós, um romance com a palavra. & que escreveu: “Eu é que sei de mim, dessa coisa que é a palavra no meu íntimo”. e está escrita. um texto que postei antes, o calaboca já morreu, eu também dedicaria pra ela. pra ela y pra Nina Simone, nessa foto linda em que ela tá com uma expressão bem quem manda na minha boca sou eu!, o microfone é meu. a palavra é nossa, pretas!
tem sempre alguma coisa pra ser dita
e a palavra é mágica:
uma vez a terra pronta,
ela cresce que nem capim
diz o que tem que ser dito
abre portas emperradas
tira poeira escondida nos tapetes
dos bons-costumes, da vergonha, do medo
a palavra arrebata
quando corta a carne da mentira abrindo um rasgo que nem navalha
de dentro da mentira, jorra o lindo sangue da verdade em vermelho
ou da profundidade
ou da absurda mentira
(se a carne for de rasidão
se a carne for de honesteza
etc)
aí vem a palavra & toca
como um sopro de vento bem fino que conta no tato da pele
uma história pequena, quase sussurada
a palavra é ousada
mas finge discrição
e nesse tocar tão de-leve que parece de-mentira
fica o assombro da impressão
a dúvida
será?
será que não?
lá vai ela, palavra
segue solta pelo mapa
plantando pontes entre as contas dos desejos,
dos discursos
dos não-ditos
procura o próximo pescoço em que vai
se fazer arrepio ambíguo
cada ponto eriçado de pele é
uma interrogação
será?
mas por que não?
pega o lápis pela mão
mancha os dedos com sua polpa de carvão
traz um brilho de grafite na pele de escuridão
se insinua bem alta pelas brechas e vãos
se espalha pegajosa como pó-de-condão
porque sempre tem alguma coisa esperando ser falada
e a palavra é mágica
etc
etc
mágica e também é desaforada. como eu. e como boa desaforada, não agüento desaforo. eis que hoje, 19 de novembro, falando sobre cotas étnico-raciais no ensino superior pra umas turmas de 1º ano na escola de uma amiga professora, me aparece um sujeito pra conversar sobre “vitimização”.
os debates sobre cotas costumam ter perguntas muito parecidas, principalmente aquelas que questionam o sistema de ação afirmativa. eu tava, basicamente, falando sobre os mesmos pontos que já apresentei aqui mesmo nessa coluna, no texto “chora, elite branca”, lembram?
perguntas que já ouvi antes surgiram, eu respondi – pensando em coisas novas, outros argumentos, às vezes os mesmos. e eis que esse sujeito me aparece nos 47 do segundo, quando eu já arrumava minha trouxinha pra ir simbora almoçar, pra me falar que gostou muito da minha palestra, muito mesmo; que estaria mentindo se dissesse que não gostou.
MAS um incômodo, pra ele, era a maneira “vitimizada” com que nós, “negros”, sempre falávamos sobre racismo. “por que não falar sobre as coisas boas de vocês, negros?”, ele me perguntou. “por que não falar sobre a música…? sobre… sobre a voz do negro, que é tão linda? por que não falar sobre a dança?”, continuava ele.
e emendava essas perguntas com as críticas às “vitimizações”, que vinham com um ar pesaroooso, meio arrastaaado, compadeciiiido… fiquei chateada. “chateada” porra nenhuma, fiquei foi puta mesmo. pensei em responder do jeito desaforado que costumo responder essas coisas. pensei em responder: “ok, professor, da próxima vez que eu for convidada pra fazer uma palestra sobre cotas, trago umas amigas vestidas de mulata e a gente faz uma apresentação de samba, que tal?”
MAS tenho feito um treino interno de não ser tão ríspida. estrategicamente. então respondi a ele, de maneira polida, que eu sequer tinha usado os termos “vítima” ou “vitimização”, porque eles podem significar uma não-agência, uma receptividade inerte, uma falta de protagonismo, e eu tinha estado ali falando sobre nossa gloriosa história de luta e resistência, nós povo negro do brasil, com nossos 509 anos de história.
e lembrei que eu tinha SIM falado das “coisas boas”, que eu tinha sim apontado vários dos aspectos positivos, emocionantes e lindos de nossa trajetória desde o berço (nossa vanguarda na ciência – como no caso do povo egípcio, pioneiro na prática e registro de partos-cesariana; nas cosmovisões – com nossa espiritualidade inclusiva, nossa religiosidade ecológica; na epistemologia – com nossas culturas letradas seculares, por exemplo, ou na beleza fidedigna da força da palavra brotada na transmissão oral de cultura e tradição) até a contemporaneidade (a diáspora como redimensionamento cultural, seus reflexos na produção dos ‘novos mundos’, a profundidade da música negra seja no samba, no jazz, no axé, no blues, no maracatu, no jongo, no rap, vish, é coisa demais pra um parêntese)…
MAS que se nossa história tinha muita glória, também tinha muito sofrimento. sofrimento causado PELO RACISMO, que é um sistema de poder e privilégio que beneficia pessoas brancas em detrimento e às custas das não-brancas, expressivamente negras. lembrei, inclusive, que nossa cultura negra ensinava coisas como agregar e não o separar-pra-destruir do colonizador, e que mesmo entendendo que o racismo é o que nos mata, enlouquece e adoece, ainda assim nosso projeto de mundo é pra TODAS as pessoas, e não só pras que se parecem conosco. não queremos mandar ninguém pra campos de concentração ou senzalas invertidas e chicotear suas costas como as nossas foram chicoteadas.
toc
toc toc
toc
quem vem lá?
eu que não abria a porta se sabia que era pra você entrar
mas mesmo sem agô nem motumbá você ia passar
pra pisar no tapete mágico da minha língua
com suas botas de morte
pra sentar no céu encantado da minha boca
com suas ancas de chicote
rir do meu pranto
partir meu sorriso
e largar tudo rompido
eu ia caminhar
uma noite de 500 anos pra me remendar
mas uma hora você dorme,
não dorme?
ah, dorme…
uma hora você dorme
e eu não te espero acordar pra lascar minha língua de açoite nas costas do seu roubo secular
retomar
o ar
cheio do pólen púrpura da palavra
te sufocando
minha garganta
me libertando
justamente porque esse sofrimento é uma dinâmica social, política, cultural, econômica, discursiva, do imaginário, e vem a tal ponto incrustada em almas, corações, corpos, condutas e instituições, é que precisa ser 1. denunciado, 2. combatido e 3. superado (há outras enumerações possíveis, e essa nem é a ordem “certa”). e quem tá acostumado com privilégio vai ter que pensar em desacostumar. e quem tá sentado num trono de ouro vai ter que pensar em levantar. derreter o trono. fazer outras coisas com o ouro além dessa acumulação bizarra.
tá com medo de quê?
nunca foi fácil.
junta seus pedaços
e desce pra arena
racionais, “sou + você”
mas esperei 3 segundos antes de responder. e o que disse a ele, com muita polidez, é que talvez ele tivesse que repensar a crítica que fazia a mim, uma MULHER NEGRA LÉSBICA FEMINISTA EMPODERADA, AFIRMADA, PLENA E COMBATIVA, que não me sinto coitadinha nem vitimizada. que sempre fui guerreira. que sempre sorri e dancei e cantei. e talvez o problema fosse dele, e da escuta dele. talvez fosse um problema antiiigo dos opressores, que ensinam vícios até pra quem não quer ser racista, como acho que ele, realmente, não quer – e um desses vícios bem conhecidos é esse de desmerecer nossas denúncias, menosprezá-las como vitimização,
o famoso “engole o choro!”
não, não mesmo, essa crítica eu não aceito, não me cabe, e só tenta me sufocar.
quer falar de samba? vamo nessa. mas vamos falar *de verdade*. inclusive que essa divisão entre “pagode” e “samba” é arbitrária, classista e racista. e cantemos samba, dancemos. mas não vou me fantasiar de mulata nem calar minha boca das denunciações. porque cada coisa com seu momento, e uma palestra numa escola pública de ensino médio, numa periferia com maioria negra, é tanto espaço de denúncia quanto de anunciação. e da minha boca mágica também saem palavras de anunciação.
posso até conversar de samba, mas é perverso pensar que isso resolve o racismo no brasil, um problema social, cultural e bem entranhado, antigo. arraigado. mas como minhas raízes são mais fundas, peço ajuda de Elisa Lucinda. me ajuda, Elisa Lucinda?
Mulata exportação
Elisa Lucinda
“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado…”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual…
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!
Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!
me preocupa esse sujeito em sala de aula. o que vai fazer quando presenciar um caso de racismo na turma? vai falar pra pessoa atingida engolir o choro e parar de se fazer de coitadinha? vai fazer uma exposição, na semana da consciência negra, sobre comidas negras típicas e servir feijoada, acarajé? qual é o compromisso que a gente tem com o fim do racismo? é pra tratar o povo negro como macaco de zoológico?
se for assim, a rede globo ganha até prêmio. porque colocou uma atriz negra como protagonista da novela das oito! mas o prêmio que eu dou pra rede globo é de “excelência em racismo e sub-representação negra”, porque tem que ser muito racista pra colocar personagem negra de joelhos, tomando, da personagem branca, tapa na cara, em plena semana da consciência negra.
é isso que queremos? é disso que precisamos? é assim que o racismo é enfrentado?
não, obrigada. nem obrigada! chega de escravização!
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Incrivel o texto.
Eu vivo em Lisboa, e aqui assim como em Paris e no Brasil, maior parte da população é negra, vieram escravizados para construir os postais de Portugal.
E eu confesso que me sinto massacrada quando vejo o comportamento dos ‘brancos’ para com os africanos. São tratados como maquinas, sem sentimentos e necessidades. São ridicularizados a todo tempo, sempre com a mesma exclamação:”preto serve pra que, pá?”
Portugal é um país de gente velha, tradicionalista e moralista que ensinam seus filhos e netos que preto sempre será escravo – é assim que tem q ser. Este é um país que precisa muito de mudança, de gente jovem e negra para provar-lhes que somos iguais ou melhores que eles (porque somos), de pessoas que os ajudem a compreender que se não fosse o nosso sangue, eles nada teriam. Que hoje, devido a força e poder da nossa raça, podemos ser qualquer pessoa…Um ótimo mestre, um ótimo juíz, um ótimo médico, um ótimo engenheiro, que temos muito além da força braçal, temos intelecto!!!
Enfim, na terra de Dona Maria, no dia 21 de março temos um feriado que é o Dia internacional contra a discriminação racial. É na verdade um dia de comer bacalhau com batata, levar as crianças no shopping, jogar baralho nas praças (para os idosos)… e dia de folga para os negros. Ah, a caboverdiana Sara Tavares, canta em algum lugar de lisboa.
É triste.
Tate,
Cada dia vejo o quanto vc é maravilhosa.
Obrigada pela dedicatória, adorei o texto e compartilho com tudo o que vc disse.
Já estou cansada dessa história de que a gente só que falar de racismo para nos fazermos de vítimas.
As pessoas reacionárias, racistas… é que não querem ser solidárias( e de fato nunca serão, por isso que são racistas) e é a contra gosto que vão ouvir sim. Nossas palavras sairão de nossos corações, escritas ou ditas, pois sabemos o valor que elas tem.
A verdade é que muitas pessoas esperam que na semana da consciência negra a gente fale mesmo é da “figura preta” folclorizada por tantas pessoas brancas e não brancas. Fato é que por conta disso recebi várias ligações de amigas, me pedindo telefone de capoeristas, cantores, desenhos e ainda fui intimada a fazer um aparesentação artística. Fico puta!
Você vai ser meu modelo, minha inspiração para estrategicamente “manter a calma” o que nunca vai implicar em ser passiva.
Seu poema, eu já disse né? Muito, muito, muito!
ai, você escreve algumas das coisas mais lindas e sinceras.
vc é minha referência preta mais forte, combativa e latente!!!
sou sua fã-amiga!!!
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