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cotidiana 24

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9 dezembro 2009 as 9:36 pm 1.113 visualizações 10 ComentariosImprimir este texto Imprimir este texto

dani_por_pmatallopor Tate em cotidiana

de que matéria é feito esse silêncio que come dentro de mim

e me come por dentro fazendo-me sentir
calada?
se tudo que é vivo come e se esse silêncio me come às custas de me fazer parecer
deixada de viver,
se esse silêncio come crescendo por dentro minhas palavras e se engorda dentro de mim até me fazer querer vomitar
silêncio,
que forças eu vou ter de me alimentar de palavras?
e quanto mais me nutro delas mais ele as devora
crescendo dentro de mim
e viro uma consumidora de palavras como homens consomem pornografia porque
pensam que existe alguma distinção entre fantasia e realidade e que isso os impede de
sair por aí violentando a todas nós, mais ou menos parecidas com aquelas que ele compra
silêncio que me derrota
derrota meu desejo
não um silêncio de paz de desejo saciado
ou apaziguado
(que é desejo não-realizado mas que senta satisfeito só por existir, satisfeito em-si, sobre os próprios joelhos
dobrados)
mas um silêncio de derrota
de querer que eu me renda
e me arraste sob o peso dos costumes etiquetais e a maneira adequada de me vestir e me portar e sentar
de pernas fechadas porque estou de saia mas
se estou de calça
também de pernas fechadas porque senão diminui a distância entre a mulher da película
e a mulher de pele que sou

quando eu era mais nova um medo que eu tinha era deitar à noite em cima do meu ombro esquerdo porque
tinha medo de ouvir meu coração parar de bater caso tivesse um ataque cardíaco à noite
agora sou ainda mais nova mas acho a glória da vida ouvir o silêncio das batidas tranqüilas do meu coração
antes de dormir
ou se acalmando se vou dormir logo depois
de me divertir

quando eu era mais nova eu tinha mais medo era do silêncio do meu coração
achando que a pausa era Silêncio

e que a pausa podia durar mais tempo que eu poderia agüentar sem respirar

agora sou uma velha criança remoçando,
aprendendo coisas como se fosse uma menina
vendo de sentir saturno chegando cada vez mais perto com seus bambolês

mas agora,

se tivesse que responder numa entrevista,
o que eu teria mais medo seria
”o silenciamento do racismo patriarcal”
- essa seria a resposta quase politicamente correta
mas na verdade,
conversando com a dani depois dela ter sobrevivido a um
seqüestro-relâmpago

(miséria

traz tristeza

e vice-versa[1])
precisamos encarar o fato de que

o silêncio patriarcal não dá medo

dá é raiva

e o que temos mais medo

mesmo
é de morrer com a enormidade do vazio cheio de saudade
que é, também,
um tipo de silêncio
nos comendo pelas bordas
e se engordando por dentro de nós.

pra daniela marques, que eu amo, e que sentou no meu colo pra chorarmos enquanto ellen, que eu amo, cantava dos abacateiros inexistentes na avenida das palmeiras. e a saudade resistente de nossas amores semi-inexistentes lá, sentada no nosso colo, batendo palmas pra música.

salve, ellen oléria, 27 anos contrariando as estatísticas no 12 de novembro!

axé a todas as outras pretas que amam como nós: “desmedidamente”.


[1] racionais, na música vida loka 2: não é questão de luxo / não é questão de cor / é questão que fartura / alegra o sofredor / não é questão de preza, nego / a idéia é essa: / miséria / traz tristeza / e vice-versa


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10 Comentarios »

  • adhani disse:

    tate,tate, vc é uma das nobres e valorosas que chegou pra mim em 2009; e contrariando expectativas de “des-amor”,nos amamos.
    TMAMO,TATE!!!

  • adhani disse:

    chegar, chegou entes…na verdade, estes anos anteriores foram o prelúdio de um GRANDE encontro!

  • Sonia disse:

    Excelente! :)

  • francesa disse:

    muito bom o texto!
    PaRbEnS a doro esse tipo de texto.
    beijinhos

  • Valéria disse:

    Nunca parei pra escutar o silêncio..
    Excelente, criativo, profundo.
    Parabéns pelo artigo.

  • lice disse:

    e a imagem, hein? de onde veio pra onde vai?
    nem vou falar que o texto tá fooooooooda, porque você já sabia que eu ia falar isso, ser conde é isso ai.
    beijooooooo

  • Poli disse:

    Nossa tate, que lindo ver vc falando assim tão poeticamente do silêncio e do medo, duas coisas que me acompanham desde a mais tenra idade.

    Sua poesia aqui é avassaladora e sempre me tráz vontade de gritar, denunciar, escrever, registrar.

  • Carla Akotirene disse:

    Essa negona é muito competente, por isso orgulho-me de sua parceria feminista SEM MEDO.
    axé!

  • MARINA disse:

    texto lindo, tate.
    lindo.
    um beijo pra você.

  • marina disse:

    e desculpe as maiúsculas, eu também não gosto delas.

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