Distrito 9

Lúcia Facco 06/12/2009 10
distrito-9por Lúcia Facco em Frente e Verso

Preconceito e solidariedade

Ontem tive o prazer de assistir Distrito 9. Meu filho de 15 anos afirma que é um dos melhores filmes que ele já viu. Minha companheira amou. Eu não apenas amei. Fiquei desde ontem, pensando sem parar em várias questões que este filme suscita.

É um filme fantástico! Agrada aos apreciadores de filmes de ação e de ficção científica e, ao mesmo tempo, nos leva a reflexões profundas a respeito, não apenas de xenofobia, mas em relação a todos os tipos de preconceito. Eu, é claro, estabeleci a relação com a homofobia. Trata-se de uma comunidade de aliens (chamados, pejorativamente, de ”camarões”) que é assentada em uma espécie de gueto em plena Johanesburgo. Sobre a cidade paira, há 20 anos, uma gigantesca nave desativada, na qual foram encontrados os estranhos seres.

Os habitantes da cidade demonstram profunda aversão pelos “camarões”, na medida em que eles devoram tudo, revolvem os lixões, praticam roubos e alimentam um mercado negro de comida de gato e carne.

Se, em princípio, o espectador chega a sentir náuseas diante dos hábitos dos aliens, no desenrolar do filme vamos compreendendo e criando empatia com eles. Tanto o espectador, como o personagem protagonista. Não vou contar o filme para não estragar o prazer de quem vai assisti-lo(eu “super recomendo”), mas o fato é que nesse meu brevíssimo resumo, já podemos ver alguns pontos bastante interessantes.

Em primeiro lugar, temos a clara questão do preconceito. À primeira vista, infelizmente, a sociedade tem a tendência a rejeitar o que ela considera como “diferente”, mas, após a criação de uma relação pessoal com o estigmatizado, passa-se a ter uma visão mais solidária com o ”estrangeiro”. Algumas de nós já experimentaram na própria pele a dor de ser considerada “anormal”, doente”, “estranha”, “pecadora” e diversos outros adjetivos que nos atribuem. Mas, pelo menos comigo sempre foi assim, ao estabelecer uma relação mais íntima (de amizade, ou até de coleguismo no ambiente de estudo ou trabalho), mesmo as pessoas mais reticentes, acabaram desenvolvendo comigo uma relação amigável. Para mim, isso tem uma explicação bastante óbvia: uma coisa é odiar as lésbicas, outra coisa é odiar Lúcia Facco, aquela lésbica que trabalha comigo, que tem um filho, que é casada com uma mulher há 10 anos, que gosta de cinema e de ioga, que não come carne etc, etc e tal. A partir do momento em que eu passo a ser uma pessoa com anseios, sonhos, problemas, dificuldades, como aquel@ que “me odeia”, ou seja, no momento em que eu deixo de ser “uma lésbica” e adquiro identidade, personalidade, e, o mais importante, “humanidade”, passa a ser difícil manter o ódio, a não ser que eu seja uma fdp.

Em resumo, a aproximação torna mais fácil a compreensão, pois é despertado o sentimento de solidariedade que temos por todos os seres que se assemelham a nós, que têm a capacidade de sofrer. Fica realmente difícil ser o responsável pelo sofrimento de um ser igual a nós.

Em segundo lugar, é muito interessante o fato de o filme se passar na África do Sul, onde os habitantes sofreram tanto (e ainda sofrem) com questões de racismo e, mesmo sentindo na pele o que é o preconceito, são, também eles, preconceituosos.

Há entrevistas, no começo do filme, com cidadãos sul-africanos, nas quais eles afirmam que os “aliens” deveriam ser expulsos. Ao pesquisar sobre o filme, fiquei estarrecida ao saber que algumas dessas entrevistas foram reais, com cidadãos que se referiam a imigrantes nigerianos e de outros países, também chamados de “aliens” por eles.

Moral da história, eles realmente pensam assim em relação ao “outro”, ao ”estrangeiro”. Daí podemos pensar que a minha teoria sobre a solidariedade cai por terra, mas neste caso, uma outra questão se coloca acima da primeira: a necessidade que aqueles que se sentem inferiorizados pelo mundo, precisam descarregar o seu recalque, a sua frustração sobre outros, considerados “mais inferiores ainda”.

Isso realmente ocorre com os grupos considerados “minorias”. Há preconceito dentro de todos os segmentos. Já tive a infelicidade de ouvir gays e lésbicas “metendo o malho” em outros gays e lésbicas, dizendo coisas do tipo: “Odeio esse cara! Ele devia ser mais discreto. Assim parece uma bicha louca”, ou “Caraca! Ela parece uma caminhoneira”, ou ainda “Ela é mulherzinha demais para ser lésbica. Deve ser para disfarçar. Não é lésbica de verdade.”

Muito triste essa constatação. Tod@s, mas especialmente aquel@s que sofrem com preconceito, deveriam ser @s primeir@s a procurar estabelecer uma relação de solidariedade com o “outro”, seja ele quem for, da maneira que for, contanto que não prejudique ninguém.

Este é, na minha opinião, o único caminho para a formação de uma sociedade melhor. Não a tão falada “tolerância”, mas a verdadeira capacidade de se reconhecer no outro, de compreendê-lo e de desejar sua felicidade, assim como desejamos a nossa.

Distrito 9 abre essa discussão. Realmente imperdível.

10 Comentários »

  1. Juliana 06/12/2009 at 15:36 - Reply
    O filme também me deixou bastante reflexiva…

    Compartilho com tua visão sobre reconhecer-se no outro, acredito que o que falta na humanidade é que internalizemos que somos todos merecedores de respeito… Acho que é a falta disso que abre espaço pra tantas coisas absurdas.

  2. Del. 06/12/2009 at 18:22 - Reply
    Este filme é realmente bom, uma lição sobre preconceito.
  3. Beth 06/12/2009 at 22:54 - Reply
    Reconheci nessa temática uma questão cultural, de absoluta intolerância xenofóbica, e não de abordagem meramente preconceituosa. Toscamente falando e apenas para exemplificar, digamos que eu recebesse em minha casa alguns imigrantes de terras longínquas, que estivessem impedidos de voltar à terra de origem. Continuaria com minha rotina e como faço todos os dias, sairia para trabalhar pela manhã e retornaria somente à noite. E então… tchan tchan tchan tchaaaannn!!! Surpreeeesaaaa!!! Meu cachorrinho gordinho lhes servira como jantar. E aí? Meu repudio, minha indignação, minha raiva, minha vontade de trucidar aqueles malditos que mataram meu dog, comeram e chuparam os ossinhos, deveria ser encarado como preconceito? O que eu saquei, é que o filme faz alusão ao antigo regime segregacionista do “apartheid” e da atual onda de violência xenófoba registrada na África do Sul contra “imigrantes ilegais”, os zimbabuanos/nigerianos. Os caras fugiram da ditadura, foram para o País vizinho e formaram guetos gigantescos, onde acontece de tudo e indigna os nativos. Vi alguns documentários a respeito e a situação é complicadíssima. Não dá pra ser solidário com quem está destruindo sua casa. Quanto a homossexuais preconceituosos, isso lá são “outros quinhentos”. Como exigir que uma mente curta pense grande?
  4. Lúcia Facco 07/12/2009 at 06:51 - Reply
    Beth,
    Tudo é uma questão de ponto de vista. Se não podemos ser solídários com quem destrói nossa casa, temos que nos matar uns aos outros, pois a humanidade não está precisando que outros venham destruir o planeta, nós mesmos estamos nos encarregando disso.
    Quanto à sua observação sobre comerem seu cachorrinho, digo novamente que é uma questão cultural. Os humanos não comem bois, porcos, frangos, cabritos, carneirinhos, filhotes de boi (vitela, apreciada por tanta gente), fígado de ganso (considerado um acepipe), obtido à base de tortura animal. Usam pedaços de bichos mortos para se calçar, vestir etc.
    Eu sou vegetariana, não uso nada de couro e nem por isso desejo que os carnívoros morram.
    Não sei se você viu o filme, mas se não tivesse sido criado um mercado negro, com preços absurdos, para que os “camarões” pudessem se alimentar (eles tinham uma fome exagerada, no nosso conceito), eles não precisariam roubar e até matar.
    Tudo é cultural e insisto em dizer que todos os seres sencientes têm o direito a uma vida digna e feliz, inclusive bois, porcos, galinhas e perus que se fazem tão presentes (mortos e devidamente temperados e assados) nessa época do ano em que as pessoas dizem celebrar o amor e a solidariedade.
  5. Beth 07/12/2009 at 20:01 - Reply
    Oi Lucia!! Boa noite!! Bom saber que vc é vegetariana. Sou vegano!!! Inclusive, essa é uma época que odeio, pois é quando ocorre a matança indiscriminada, e com requintes de crueldade, de milhares de animais. Como sou muito cruel, muito má mesmo, tenho mandado como sugestão aos meus amigos, via e-mail, o link do documentário Earthlings-Terráqueos(eu não consegui nem começar a ver). Se eu conseguir sensibilizar pelo menos uma pessoa, já me darei por feliz. O exemplo(tosco, como falei) do meu cachorrinho, foi só pra exemplificar as discrepâncias culturais, pois identifiquei no filme justamente isso: intolerância cultural, xenofobia brava!!No mais, concordo plenamente contigo.
  6. Rosana 07/12/2009 at 20:05 - Reply
    Oi Lúcia, parabéns pelo texto, pela grande reflexão. Eu lhe confesso q ainda não assisti o filme (eu nem sabia desse filme), mas fiquei curiosa e qdo eu tiver a oportunidade assistirei. Obrigada pela dica de filme.

    Você fez um breve resumo onde o filme retrata os aliens chamados pejorativamente de “camarões” e q sofrem constantes violências por outro povo considerado superior. Depois fez uma grande reflexão sobre essa questão da violência, sobre o preconceito estabelecendo à relação com a homofobia. É nesse ponto q eu queria chegar, assim, fazer uma reflexão da sua reflexão. bjo

    Homofobia prende-se a falsa ideia que a pessoa hetero é superior, ou seja, é discriminação com base na orientação sexual. Já o preconceito racial prende-se a falsa ideia que a pele é superior, ou seja, é discriminação com base na cor da pele. E a violência contra a mulher prende-se a idéia q o homem é superior. Certo? Entendo q tanto o racismo, a violência contra a mulher quanto a homofobia são violência (de todos os tipos) e que não são recentes, que, às vezes, podem ser silenciosas onde a sociedade não vê pq pode acontecer dentro de casa e a pessoa pode levar anos p/ denunciar (qual violência é mais cruel: a visível ou a invisível?), enfim, por isso mesmo, entendo que essas violências não mereçam perdão mas merecem uma pena. Tanto o racismo, a violência contra a mulher quanto a homofobia devem ser combatidos através da CF, e se necessário através de leis específicas, como já acontece com a lei do racismo e a lei Maria da Penha, c/ punições eficientes.

    Eu acredito que atuar contra a homofobia, a violência contra a mulher e o racismo, além do q já foi colocado, deve ser pela conscientização também, mas que parte não apenas da família (p/ reflexão: entendo q a cultura machista teve a sua formação desde o começo de casa, q passou pela escola e seguiu pelo trabalho – mas em nenhuma dessas instituições ajudou a pessoa? entendo que influências legais, políticas e econômicas são mto importantes no aumento da violência, porque as leis determinam quais os atos lícitos e ilícitos, se a pessoa é criminosa ou apenas omissa, bem como a intensidade e o tipo de punição a que estão sujeitos).

    Sabemos que os pais são educadores diretos, mas os professores e a sociedade são educadores tbm. Vários profissionais já foram alunos, os pais já foram alunos e os professores outrora foram alunos também. Alunos de seus pais, professores e sociedade. Então cd um de nós somos responsáveis neste processo. Assim, tenhamos em mente que é responsabilidade de cd um de nós o combate ao racismo, a violência contra a mulher e a homofobia, e q devemos fazer de nossos atos jus a um mundo sem racismo, sem violência contra a mulher e sem homofobia.

  7. hk 09/12/2009 at 23:34 - Reply
    Eu ñ assisti ao filme, mas vou falar um pouco sobre o texto.
    Essa questão da homofobia tbém pode ser vista de outra forma. Veja só, a homofobia é maior no Brasil porque o povo brasileiro, em geral, tem um nível educacional baixo, um povo q se deixa influenciar facilmente, inclusive mtos gays são assim…
    É mais fácil lutar pela melhoria na educação pública do que lutar contra a homofobia…

    Qto a solidariedade, é mto comum ver um pobre humilhar (ou não querer ajudar) um miserável ou uma pessoa de classe média humilhar(ou não querer ajudar) um pobre… Falo isso, porque é isso o q acontece nos países mais desenvolvidos. O gov mtas vezes é criticado por pessoas q sairam de seus países por causa da pobreza, mas qdo eles ouvem q o gov vai ajudar os novos estrangeiros, refugiados de guerra etc, eles criticam o gov pois acreditam q o gov está tirando deles p/ dar p/ os outros. Esse é o problema do mundo, quem já esteve lá embaixo, qdo sobre um pouco não quer ver outro ser ajudado a chegar aonde ele está.

  8. Ana Kaminski 11/12/2009 at 21:20 - Reply
    Muito interessante e instigante teu texto, Lúcia! Concordo plenamente com tua colocação de que as pessoas que são alvo de preconceito deveriam ser as primeiras a evitar a discriminação do “diferente”… mas parece que nem sempre isto acontece: eu mesma descobri, recentemente, certo preconceito velado (às vezes, nem tanto) presente em certos grupos fechados, que sutilmente se limitam aos próprios pontos de vista, sendo incapazes de compreender idéias, opções ou comportamentos diversos dos próprios!… Para minha surpresa, descobri que, entre os grupos gays femininos, por exemplo, existem muitas pessoas que sequer conseguem cogitar que uma mulher que ama mulheres possa também sentir atração pelo sexo oposto, ou, em outras palavras, possa amar e desejar pessoas pelo que são sem se restringir ao gênero, tanto quanto não se restringiriam por causa de cor, credo, raça, religião, etc… Entretanto, para minha felicidade, sempre redescubro, também, que existem pessoas de mentes mais arejadas, com visões de mundo mais amplas e abertas, capazes de compreender que existe a diversidade, e não podemos esperar que outras almas e cabeças, corações, limitem-se àquilo que consideramos bom, correto, idéal ou desejável. Melhor quando as diferentes tribos conseguem conviver com respeito, paz, afeição e harmonia, o que geralmente observo entre grupos de artistas ou intelectuais. Se, ao contrário, acontece o pensamento ou atitude “xenófobo de qualquer tipo, parecem se erguer barreiras um tanto reducionistas, opressivas, até hostis, mesmo que invisíveis!… Que exista um mundo com lugar para as almas livres, é o meu desejo! Abraços alados.
  9. Fernanda R. 16/12/2009 at 13:59 - Reply
    O tratamento da agência é o mesmo que as nações desenvolvidas tratam as subdesenvolvidas, impõem o que elas acham melhor, sem consultar o outro; tratam os camarões como o câncer na sociedade, ostracizando-os para uma periferia bem longe de todos. Nada muito de novo no que acontece nos dias de hoje. Mas achei a transformação do personagem muito mais interessante do que ficar apontando dedos para quem odeia quem.

    Entretanto, o que mais me chamou a atenção no filme foi o papel dado aos aliens, pq a maioria dos filmes de aliens que já assiti tratam-os como uma raça super avançada tecnologicamente e malignos que querem matar toda a população terrestre; e nesse não, eles acabaram botando-os como uma raça facilmente dominada, que aparentemente tem pouca inteligência e acabam sendo um fardo para nós, terrestres.

  10. Gáb 19/12/2009 at 02:01 - Reply
    Acabei de ver o filme, e confesso que foi por ter lido o seu texto. Bem, o que dizer a respeito? A priore, com certeza, ele não faria parte da minha lista de filmes que eu teria interesse em ver.
    É um filme forte, e acho que a sua interpretação foi bem elaborada… na verdade, só assisti até o fim porque fiquei curiosa em ver o final. Achei tão tão tão… nem sei como descrever. rs!

Deixe um comentário »