por Lúcia Facco em Frente e Verso
Preconceito e solidariedade
Ontem tive o prazer de assistir Distrito 9. Meu filho de 15 anos afirma que é um dos melhores filmes que ele já viu. Minha companheira amou. Eu não apenas amei. Fiquei desde ontem, pensando sem parar em várias questões que este filme suscita.
É um filme fantástico! Agrada aos apreciadores de filmes de ação e de ficção científica e, ao mesmo tempo, nos leva a reflexões profundas a respeito, não apenas de xenofobia, mas em relação a todos os tipos de preconceito. Eu, é claro, estabeleci a relação com a homofobia. Trata-se de uma comunidade de aliens (chamados, pejorativamente, de ”camarões”) que é assentada em uma espécie de gueto em plena Johanesburgo. Sobre a cidade paira, há 20 anos, uma gigantesca nave desativada, na qual foram encontrados os estranhos seres.
Os habitantes da cidade demonstram profunda aversão pelos “camarões”, na medida em que eles devoram tudo, revolvem os lixões, praticam roubos e alimentam um mercado negro de comida de gato e carne.
Se, em princípio, o espectador chega a sentir náuseas diante dos hábitos dos aliens, no desenrolar do filme vamos compreendendo e criando empatia com eles. Tanto o espectador, como o personagem protagonista. Não vou contar o filme para não estragar o prazer de quem vai assisti-lo(eu “super recomendo”), mas o fato é que nesse meu brevíssimo resumo, já podemos ver alguns pontos bastante interessantes.
Em primeiro lugar, temos a clara questão do preconceito. À primeira vista, infelizmente, a sociedade tem a tendência a rejeitar o que ela considera como “diferente”, mas, após a criação de uma relação pessoal com o estigmatizado, passa-se a ter uma visão mais solidária com o ”estrangeiro”. Algumas de nós já experimentaram na própria pele a dor de ser considerada “anormal”, doente”, “estranha”, “pecadora” e diversos outros adjetivos que nos atribuem. Mas, pelo menos comigo sempre foi assim, ao estabelecer uma relação mais íntima (de amizade, ou até de coleguismo no ambiente de estudo ou trabalho), mesmo as pessoas mais reticentes, acabaram desenvolvendo comigo uma relação amigável. Para mim, isso tem uma explicação bastante óbvia: uma coisa é odiar as lésbicas, outra coisa é odiar Lúcia Facco, aquela lésbica que trabalha comigo, que tem um filho, que é casada com uma mulher há 10 anos, que gosta de cinema e de ioga, que não come carne etc, etc e tal. A partir do momento em que eu passo a ser uma pessoa com anseios, sonhos, problemas, dificuldades, como aquel@ que “me odeia”, ou seja, no momento em que eu deixo de ser “uma lésbica” e adquiro identidade, personalidade, e, o mais importante, “humanidade”, passa a ser difícil manter o ódio, a não ser que eu seja uma fdp.
Em resumo, a aproximação torna mais fácil a compreensão, pois é despertado o sentimento de solidariedade que temos por todos os seres que se assemelham a nós, que têm a capacidade de sofrer. Fica realmente difícil ser o responsável pelo sofrimento de um ser igual a nós.
Em segundo lugar, é muito interessante o fato de o filme se passar na África do Sul, onde os habitantes sofreram tanto (e ainda sofrem) com questões de racismo e, mesmo sentindo na pele o que é o preconceito, são, também eles, preconceituosos.
Há entrevistas, no começo do filme, com cidadãos sul-africanos, nas quais eles afirmam que os “aliens” deveriam ser expulsos. Ao pesquisar sobre o filme, fiquei estarrecida ao saber que algumas dessas entrevistas foram reais, com cidadãos que se referiam a imigrantes nigerianos e de outros países, também chamados de “aliens” por eles.
Moral da história, eles realmente pensam assim em relação ao “outro”, ao ”estrangeiro”. Daí podemos pensar que a minha teoria sobre a solidariedade cai por terra, mas neste caso, uma outra questão se coloca acima da primeira: a necessidade que aqueles que se sentem inferiorizados pelo mundo, precisam descarregar o seu recalque, a sua frustração sobre outros, considerados “mais inferiores ainda”.
Isso realmente ocorre com os grupos considerados “minorias”. Há preconceito dentro de todos os segmentos. Já tive a infelicidade de ouvir gays e lésbicas “metendo o malho” em outros gays e lésbicas, dizendo coisas do tipo: “Odeio esse cara! Ele devia ser mais discreto. Assim parece uma bicha louca”, ou “Caraca! Ela parece uma caminhoneira”, ou ainda “Ela é mulherzinha demais para ser lésbica. Deve ser para disfarçar. Não é lésbica de verdade.”
Muito triste essa constatação. Tod@s, mas especialmente aquel@s que sofrem com preconceito, deveriam ser @s primeir@s a procurar estabelecer uma relação de solidariedade com o “outro”, seja ele quem for, da maneira que for, contanto que não prejudique ninguém.
Este é, na minha opinião, o único caminho para a formação de uma sociedade melhor. Não a tão falada “tolerância”, mas a verdadeira capacidade de se reconhecer no outro, de compreendê-lo e de desejar sua felicidade, assim como desejamos a nossa.
Distrito 9 abre essa discussão. Realmente imperdível.


















Compartilho com tua visão sobre reconhecer-se no outro, acredito que o que falta na humanidade é que internalizemos que somos todos merecedores de respeito… Acho que é a falta disso que abre espaço pra tantas coisas absurdas.
Tudo é uma questão de ponto de vista. Se não podemos ser solídários com quem destrói nossa casa, temos que nos matar uns aos outros, pois a humanidade não está precisando que outros venham destruir o planeta, nós mesmos estamos nos encarregando disso.
Quanto à sua observação sobre comerem seu cachorrinho, digo novamente que é uma questão cultural. Os humanos não comem bois, porcos, frangos, cabritos, carneirinhos, filhotes de boi (vitela, apreciada por tanta gente), fígado de ganso (considerado um acepipe), obtido à base de tortura animal. Usam pedaços de bichos mortos para se calçar, vestir etc.
Eu sou vegetariana, não uso nada de couro e nem por isso desejo que os carnívoros morram.
Não sei se você viu o filme, mas se não tivesse sido criado um mercado negro, com preços absurdos, para que os “camarões” pudessem se alimentar (eles tinham uma fome exagerada, no nosso conceito), eles não precisariam roubar e até matar.
Tudo é cultural e insisto em dizer que todos os seres sencientes têm o direito a uma vida digna e feliz, inclusive bois, porcos, galinhas e perus que se fazem tão presentes (mortos e devidamente temperados e assados) nessa época do ano em que as pessoas dizem celebrar o amor e a solidariedade.
Você fez um breve resumo onde o filme retrata os aliens chamados pejorativamente de “camarões” e q sofrem constantes violências por outro povo considerado superior. Depois fez uma grande reflexão sobre essa questão da violência, sobre o preconceito estabelecendo à relação com a homofobia. É nesse ponto q eu queria chegar, assim, fazer uma reflexão da sua reflexão. bjo
Homofobia prende-se a falsa ideia que a pessoa hetero é superior, ou seja, é discriminação com base na orientação sexual. Já o preconceito racial prende-se a falsa ideia que a pele é superior, ou seja, é discriminação com base na cor da pele. E a violência contra a mulher prende-se a idéia q o homem é superior. Certo? Entendo q tanto o racismo, a violência contra a mulher quanto a homofobia são violência (de todos os tipos) e que não são recentes, que, às vezes, podem ser silenciosas onde a sociedade não vê pq pode acontecer dentro de casa e a pessoa pode levar anos p/ denunciar (qual violência é mais cruel: a visível ou a invisível?), enfim, por isso mesmo, entendo que essas violências não mereçam perdão mas merecem uma pena. Tanto o racismo, a violência contra a mulher quanto a homofobia devem ser combatidos através da CF, e se necessário através de leis específicas, como já acontece com a lei do racismo e a lei Maria da Penha, c/ punições eficientes.
Eu acredito que atuar contra a homofobia, a violência contra a mulher e o racismo, além do q já foi colocado, deve ser pela conscientização também, mas que parte não apenas da família (p/ reflexão: entendo q a cultura machista teve a sua formação desde o começo de casa, q passou pela escola e seguiu pelo trabalho – mas em nenhuma dessas instituições ajudou a pessoa? entendo que influências legais, políticas e econômicas são mto importantes no aumento da violência, porque as leis determinam quais os atos lícitos e ilícitos, se a pessoa é criminosa ou apenas omissa, bem como a intensidade e o tipo de punição a que estão sujeitos).
Sabemos que os pais são educadores diretos, mas os professores e a sociedade são educadores tbm. Vários profissionais já foram alunos, os pais já foram alunos e os professores outrora foram alunos também. Alunos de seus pais, professores e sociedade. Então cd um de nós somos responsáveis neste processo. Assim, tenhamos em mente que é responsabilidade de cd um de nós o combate ao racismo, a violência contra a mulher e a homofobia, e q devemos fazer de nossos atos jus a um mundo sem racismo, sem violência contra a mulher e sem homofobia.
Essa questão da homofobia tbém pode ser vista de outra forma. Veja só, a homofobia é maior no Brasil porque o povo brasileiro, em geral, tem um nível educacional baixo, um povo q se deixa influenciar facilmente, inclusive mtos gays são assim…
É mais fácil lutar pela melhoria na educação pública do que lutar contra a homofobia…
Qto a solidariedade, é mto comum ver um pobre humilhar (ou não querer ajudar) um miserável ou uma pessoa de classe média humilhar(ou não querer ajudar) um pobre… Falo isso, porque é isso o q acontece nos países mais desenvolvidos. O gov mtas vezes é criticado por pessoas q sairam de seus países por causa da pobreza, mas qdo eles ouvem q o gov vai ajudar os novos estrangeiros, refugiados de guerra etc, eles criticam o gov pois acreditam q o gov está tirando deles p/ dar p/ os outros. Esse é o problema do mundo, quem já esteve lá embaixo, qdo sobre um pouco não quer ver outro ser ajudado a chegar aonde ele está.
Entretanto, o que mais me chamou a atenção no filme foi o papel dado aos aliens, pq a maioria dos filmes de aliens que já assiti tratam-os como uma raça super avançada tecnologicamente e malignos que querem matar toda a população terrestre; e nesse não, eles acabaram botando-os como uma raça facilmente dominada, que aparentemente tem pouca inteligência e acabam sendo um fardo para nós, terrestres.
É um filme forte, e acho que a sua interpretação foi bem elaborada… na verdade, só assisti até o fim porque fiquei curiosa em ver o final. Achei tão tão tão… nem sei como descrever. rs!