palavra desordem!
Avalie este texto:ando num processo muito curioso de introspecção extrema. um tanto melancólica. sem muita perspectiva, confesso. mas com muito desejo. a falta de perspectiva tem também a ver com trabalho e vida acadêmica, mas são apêndices. e, por outro lado, a urgência de compromissos que não são só comigo não me permite ficar em casa no silêncio e isolamento, aprendendo meus silêncios e lacunas.
uma dessas pequenas urgências é manter aqui uma coluna lesbiana feminista, plantada no chão da minha negritude, escrita semanalmente. recebo comentários que me encorajam a continuar escrevendo, como algumas amigas que não tão perto mas escrevem dizendo “oi, eu tava meio pra baixo e fui ler seus textos pra me animar”.
isso faz toda diferença não só pra continuar escrevendo, mas pra continuar escrevendo coisas sobre nós que não nos plasmem em lugares de sofrimento e angústia, mas que sejam lugares a partir dos quais escrevamos a história de nossas vidas de maneira poderosa, forte, auto-centrada. o lugar do feminino, e do feminino negro especialmente, não cabe no mito da passividade patriarcal sobre as mulheres.
criando nossos espelhos a partir de nós mesmas e pelo combate ao racismo, ao sexismo, à lesbofobia, a esses sistemas de opressão e tortura que esperam que nós, mulheres (negras e/ou lésbicas ou outras mulheridades), sejamos todas mortas de pancada ou estupradas ou silenciadas ou humilhadas.
a responsabilidade de fazer minha voz ecoar não é só com meu bem-estar, minha plenitude, minha alegria, minha super-vivência (porque realmente queremos muito mais que sobreviver)… mas com a vida de outras amigas e mulheres negras que enxergam nessas palavras um espelho da vida de todas nós.
espelho que seja caminho, que seja ponte pra nos levar até umas às outras, e nos mostrar como compartilhar formas de viver combativamente e felizes. tendo segurança ao andar na rua, e também tendo tranqüilidade ao nos apaixonar, ao gozar, ao entender como a expropriação de nossa sexualidade super-exposta pro deleite alheio se relaciona com a dificuldade que temos de gozar.
é uma dificuldade que bebe na fonte da masturbação como interdito pra gente. nos ensinam o “tiramãodaí, menina indecente”; nos ensinam a ter nojo e medo de nossa menstruação. e é porque a eficiência desses treinamentos é tamanha que eu, uma feminista, liberada, ciente de muitas das minhas potencialidades, forças e poderes, tenho mais dificuldade em gozar me masturbando que quando trepando com uma mulher.
mas como condicionamentos são quebráveis, um dos processos pra minha conquista (me conquistar de volta) é justamente o de aprender a gozar me masturbando mais livremente, com mais freqüência.
e isso tem sido um treinamento valioso de auto-conhecimento. não é só pelo derramamento que é o gozo, em si, mas pelo que esse experimentar me proporciona de contato comigo mesma, de me sentir e me saber. uma delícia. tão confortante quanto me olhar no espelho e me saber tão bonita.
aí, quando encontro alguém que comenta isso, “nossa tati, você tá tão linda”, posso responder tranqüila: “é de nascença”.
2. uma palavra que não permita esvaziamento
voltando do 1º encontro nacional de jovens negras feministas, cheguei em brasília com uma bomba da macro-política explodida. ou o famoso “alguém jogou merda no ventilador”. tem sido notícia freqüente no jornal um esquema de desvio de verba pública pelo governador da cidade, josé roberto arruda, junto ao vice-governador paulo octávio e uma dúzia de outras pessoas envolvidas com o governo, entre deputados distritais, secretários, conselheiros e, óbvio, empresários não-governalizados.
diante das acusações, filmagens e fotografias dos corruptos enfiando dinheiro em sacos plásticos, cuecas e meias, o governador arruda afirmou que era pra comprar panetone pros pobres. depois da explosão das acusações, foi vistoriar uma das obras mais assassinas de seu mandato: a expansão da eptg – estrada parque taguatinga guará, uma das mais engarrafadas nos horários de pico, que incluem sábados, no df –, que tem sido apelidada de ‘linha verde’. deve ser porque, pra ampliar a pista, a obra derrubou quase todas as árvores do canteiro que ficava entre as duas mãos da já larga via.
a população, entre estudantes, partidos, sindicatos, grupos autônomos e pessoas autônomas, ocupou a câmara legislativa do df pra exigir que o governador e sua laia sejam renunciados; o mpdft questionou a constitucionalidade da revisão do pdot, o plano diretor de ordenamento territorial do distrito federal. Isso acontece quando as primeiras kits do que é chamado setor noroeste, vulgo “o primeiro bairro ecológico de brasília”, construído sobre a reserva ambiental tombada historica e culturalmente como Santuário dos Pajés – uma reserva habitada por comunidade indígena tradicional de antes da construção de brasília –, começam a ser vendidas por cerca de 400 mil reais.
não custa lembrar, nunca, que o dono da maior empreiteira do df é o vice-governador, paulo octávio. e também é importante dizer que as alterações climáticas que a mídia local – também monopolizada por paulo octávio – vem alardeando há alguns anos (aqui é muito comum ver manchetes de jornal avisando que “daqui a 50 anos df terá falta permanente de água”), já tão rolando e são obviamente sentidas por quem mora aqui há mais de 10 anos, como eu.
mas, diferentemente do que o refrão popular tem dito, não acho que o lugar de “roriz, paulo octávio e arruda” seja na papuda – rima óbvia e nome do presídio masculino do df. porque sistemas carcerários não deviam existir; o sistema penal no brasil foi criado pra marginalizar e criminalizar a população negra – não é coincidência que a maior parte das pessoas encarceradas sejam negras, nem é coincidência que sejamos maioria também entre as/os pobres – e não é demais lembrar a sabedoria de Racionais: “miséria traz tristeza e vice-versa”, parafraseando pra “pobreza traz violência e vice-versa”.
e, no brasil, quem cria a pobreza é o racismo – não o contrário.
enfim, diária, muitas dobras pra um só assunto. muitos caminhos pra poucas palavras. e nenhuma fé num sistema de democracia e representação política em que uma pessoa se acha capaz de governar a organização coletiva e comunitária de várias; a democracia indireta representativa é uma farsa em si, e quem herdar a cadeira que arruda herdou de roriz vai herdar esse karma. pago, obviamente, mais por nós do que por eles – mesmo que sejam punidos com papuda. e ano que vem é de eleição… a farsa continua, companheiras.
qual alternativas de auto-gestão e participação coletiva nos processos decisórios temos num estado de coisas regrado pelo corporativismo do capital embranquecedor e asfaltante comandado pelos machos? brechas e ruídos, fissuras e boicotes. abaixo, à esquerda e tangencialmente é que bate o coração. roxo das feministas negras autônomas que amam mulheres. ma jah, estou tão poética, não? palavra-desordem:
poesia é política, pela política da poesia e contra a burocracia! micro-políticas do faça-você-mesma-com-as/os-amig@s! alastradas macrofagicamente y magicamente, saravá! (agora prometo que acabou)
pós-escrito:
esse texto foi feito no começo de dezembro. às leitoras comentantes e às silenciosas, um abração de final de dezembro, com muita esperança no Axé de 2010 – com muito carinho mas sem muito alarde, que pra mim o ano começa mesmo é em 07 de fevereiro…
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contagem regressiva para o fim do patriarcado?
:*
Vou começar 2010 protestando!
=]
contra a burocracia insípida, avante!
Um olhar mais profundo diante da crise que abala o DF, crise esta que esta de alguma servindo para o próprio estado se ligar e rever a forma como vem funcionando. E gosto de ler essas palavras que não querem exigir que o “estado funcione direito” (muita gente não parou ainda pra pensar o que isso representa…), mas que a gente se organize de outra forma, para além do Estado e suas instiuições. Sinto nas palavras desse artigo meus anseios também. Feliz ano pra vc também, arrasa!! Sexa vc mesma, arrasa!
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