por Lúcia Facco em Frente e Verso
A lésbica diáfana
Meninas, antes de qualquer coisa, quero dizer que li a coluna da Karina Dias e adorei uma idéia que ela teve de pedir sugestões às leitoras sobre assuntos a serem tratados na coluna.
Normalmente o ofício de escrever, para mim, é um ato solitário, quase como uma masturbação. Por isso, escrever em uma coluna onde posso dialogar com as leitoras (e estou falando de uma quantidade enorme) soa para mim como uma experiência nova. Logo, vou aprender com a experiência no mundo virtual de Karina e vou “plagiá-la”. Tenho certeza que ela irá me perdoar.
A partir de agora, peço às meninas que acessam a minha coluna, que mandem sugestões de tema para o meu e-mail: lufacco@oi.com.br. Vai ser muito bacana poder falar sobre o que vocês gostariam de ouvir.
Lembrem-se de que a minha coluna fala sobre literatura e cotidiano das lésbicas, ok?
Bem, mas esta semana falarei sobre um assunto que considero muito curioso: a lésbica “delicada”. Como assim? Bem, lendo uma coluna que escrevi para o extinto site do Grupo Umas & Outras, lembrei que, na época da novela Senhora do destino (2004), o autor Aguinaldo Silva disse, em uma entrevista, referindo-se ao casal lésbico da novela global (Eleonora – Mylla Christie e Jenifer – Bárbara Borges), que abordaria a relação das moças com muita “delicadeza”.
Muito tempo já se passou, mas não vi muita mudança em relação a essa questão. E a pergunta que não quer calar é: Por que diabos a relação lésbica sempre tem que ser tratada com a tal “delicadeza” para que a mesma seja aceita pelo público heterossexual?
Tenho algumas reflexões a respeito. Em primeiro lugar, a figura feminina sempre foi, historicamente, tratada como um ser suave, diáfano, sensível DELICADO. Um ser passivo que necessariamente, para sobreviver, necessita de um outro ser forte, corajoso, que a proteja e defenda dos percalços da vida (para quem ainda não sabe quem é: o homem).
Em segundo lugar, ainda é difícil para muitas pessoas conceber a existência do sexo sem a presença do pênis, logo, muitos ainda imaginam a transa entre duas mulheres como uma enooooooooorme preliminar, com as carícias, carinhos e beijos suaves, que teriam como função não o sexo em si, mas apenas a preparação para ele.
Tenho a certeza de que, mesmo que em um breve futuro os beijos entre mulheres sejam figurinha fácil nas novelas, as cenas de cama e beijos mais calientes continuarão reservadas aos casais heterossexuais por muito tempo ainda. Digo isso porque mesmo em textos literários onde as relações lésbicas aparecem de maneira clara, as cenas de sexo surgem, geralmente, de maneira velada, suave e “delicada”.
Apesar de algumas escritoras virem colocando as relações lésbicas de maneira mais explícita (graças a iniciativas como a da Editora Malagueta – que publica apenas textos lésbicos – e a do selo GLS da Editora Summus – que publica textos gays e lésbicos), até nas publicações voltadas para o público homossexual, ainda há uma grande diferença entre a maneira pela qual o sexo é colocado nos textos gays e na maioria dos textos lésbicos.
Nos textos escritos por homens, onde aparecem as relações gays, há uma presença marcante e “abusada” de paus, porras e cia. Já nos escritos por mulheres, a lésbica coloca a mão no (discreto e poético) “seio” da outra, beija seus lábios delicadamente, sob uma luz diáfana e por aí vai.
Outra coisa interessante é o fato de que as lésbicas literárias geralmente se relacionam sexualmente apenas quando estão apaixonadas. Lendo livros sobre gays, podemos ver muitos relacionamentos apenas sexuais, sem paixão. Puro tesão.
Daí quem observa se pergunta: Por que é assim? Por que esse pudor em representar o sexo entre mulheres como ele é? Algumas vezes suave e delicado sim, mas outras forte, agressivo até (no bom sentido), descontrolado, sem-vergonha; por vezes feito entre mulheres que se amam e por outras entre mulheres que apenas se desejam, sem nenhum envolvimento mais profundo.
Pensam que é fácil? Nem um pouco. É muito difícil ainda para nós mulheres nomearmos nosso sexo, nosso prazer, na medida em que fomos encarceradas durante séculos em uma posição de frigidez, de castidade, e, mais recentemente, em uma situação em que só se admite o sexo (feminino, é claro!) por amor. É difícil sim, afirmo. Agora já estou até ficando acostumada, embora muitas vezes ainda me pegue falando “delicadamente” das relações sexuais entre as moças. Mas quando comecei a nomear meu sexo e meu prazer usando, para isso, o corpo de minhas personagens, fiquei verdadeiramente assustada e constrangida ao ver palavras como “boceta”, “orgasmo”, impressas em todas as letras escritas por mim.
Quando publiquei o conto “Diário” (no livro Todos os sentidos e no Lado B: histórias de mulheres), quis falar exatamente sobre uma mulher que quer “trepar”, no sentido mais sexual que se possa pensar. Recebi muitos comentários curiosos. Alguns diziam que era libertador ler sobre isso; outros, que ficaram desconfortáveis diante de uma mulher “predadora”. Em relação ao último tipo, achei engraçado o seguinte fato: como na nossa cultura o papel de caçador é sempre masculino, as próprias lésbicas (não todas, é claro) ficam desconcertadas diante de uma mulher como a minha personagem.
Penso que todas nós precisamos nos libertar desse ranço cultural para realizarmos o que Foucault chamou de “movimento de ultrapassagem”, que diz mais ou menos o seguinte: “Está bem. Se vocês querem nos nomear, nós mesmos nos nomearemos e diremos quem somos melhor que vocês!” Trocando em miúdos, enquanto nós mulheres tivermos esse pudor de nomear nossa “boceta”, e nos utilizarmos de subterfúgios para falarmos de nossos gozos, nossos prazeres, nossas penetrações (suaves ou nem tanto), os outros também o terão.
Claro que devemos poder apresentar o nosso sexo de maneira delicada, sim, pois também é muito bom ser suave e beijar seios sob luzes diáfanas, mas por opção e não por imposição, por falta de escolha.
Não preciso dizer que o sexo não é o único, nem o mais importante fator da homossexualidade feminina, mas, além de ser muito bom, é uma das peças que constroem a relação afetiva entre as mulheres e, portanto, pode e deve ser mostrado discursivamente na nossa busca pela visibilidade e reconhecimento social como seres absolutamente normais e, como tais, dotados de pulsão sexual. Ainda bem!


















Mulheres predadoras como as que Diedra Roiz sempre fez na web (a Marcela de Amor a Qualquer Preço é um grande exemplo), ganharam espaço nas páginas impressas com a Vic de O Livro Secreto das Mentiras e Medos.
Autoras como Nick, Wind Rose, Jackie de Sampa entre inúmeras outras, não deixam nada a desejar “na cama”, ou na vida. Criam personagens que são mulheres tão reais que você pode sentir até o cheiro, pode se espelhar, pode se inspirar. Mulheres que não tem medo de amar, de trepar, de ousar.
Parabéns pela coluna, seus textos são sempre ótimos.
Vou acompanhar seus textos, gostei muito.
Muitas vezes entro em altos debates e discussões com amigos sobre isso.
{Até porque, muitos não acreditam que acontece sexo entre mulheres sem o pênis e lálálá.}
Mas nem é o tempo que vai fazer isso mudar. Somos nós, as próprias mulheres, que faremos mudar. Por isso é importante sim, que se quebre esse “mito” da delicadeza.
Já conhecia esse seu ponto de vista depois de ler “As heroínas saem do armário” e depois de assistir a um debate na USP com escritoras de literatura lésbica em que vc estava e concordo com o que vc diz. E concordo tbm com a Carla quando ela fala que muitas escritoras não deixam nada a desejar na cama… Como o exemplo que ela deu, a Vic, do Livro Secreto das Mentiras e Medos, da Diedra (não vou comentar muito pra não estragar a surpresa de quem ainda não leu!)…
Ótima coluna! Muito bom refletir sobre isso mesmo!
Claro que devemos poder apresentar o nosso sexo de maneira delicada, sim, pois também é muito bom ser suave e beijar seios sob luzes diáfanas, mas por opção e não por imposição, por falta de escolha.”
Essa passagem reflete bem minha opinião…
Fico super feliz por ver que este assunto toca muitas moças e provoca reflexões.
Aimée, eu também prefiro, depois do sexo, olhar para a parceira e dizer: Vamos assistir àquele filme?, do que pensar: Oq eu estou fazendo aqui com essa mulher? Rsrsrsrs.
O sexo com envolvimento emocional é muito melhor. Contudo, se não estamos envolvidas com ninguém, o sexo apenas por desejo pode ser muito gratificante.
Estou aguardando sugestões de tema.
Beijos.
Meus parabéns.
É…um beijo Brokeback Mountain é algo raro entre mulheres.