diária querida,
hoje decidi escrever sobre masturbação. nunca é demais falar sobre isso, né não? vivemos num pedaço de mundo que interdita o prazer a nós, mulheres: servimos muito bem como objetos do prazer de um outro (e até mesmo de uma outra), mas calaboca quando é pra falar da própria buceta, de como a gente gosta de gozar com ela.
enquanto o patriarcado for a norma social, vamos ter que fazer um esforço pra romper tabus. masturbação é um deles. eu demorei um tempão pra me encontrar nessa bela arte do auto-encontro, e, na verdade mesmo, só depois que me entendi lésbica e descobri que era capaz de dar prazer pra outra mulher é que aprendi a dar prazer pra mim mesma.
a primeira vez que toquei uma mulher e ela gozou, fiquei maravilhada/espantada! maravilhada porque é um dos momentos mais lindos possíveis de viver, pra mim: compartilhar o orgasmo de outra mulher. e espantada porque, se eu tinha conseguido com ela, por que nunca conseguia comigo?
eu até tentava me masturbar, mas não rolava aquela gana… pensava em alguma coisa que me excitasse, mas geralmente parecia mais interessante estar com outra pessoa do que pensar em estar com outra pessoa. a primeira vez que gozei me masturbando foi pensando em como tinha sido uma delícia estar com determinada guria. e como eu queria muito estar com ela, mas não tava, foi ótimo me masturbar.
depois tive que aprender a gostar de me dar prazer por mim mesma, sem precisar das fantasias ou lembranças. que podem ser legais, ótimas – sem problemas em fantasiar. mas não dava pra ficar escrava disso, porque nem sempre eu tô super a fim de alguém. então essa parte foi mais difícil, mas foi um processo muuuito importante, porque culminou na consolidação de um outro processo: entender que eu vivo melhor comigo mesma estando bem apaixonada por mim.
porque amar eu já me amava fazia tempo, me respeitava, me cuidava etc. mas não era APAIXONADA por mim. me achava muito bonita, mas não necessariamente muito gostosa. me sabia muito interessante, mas não necessariamente muito SENSUAL. a primeira coisa que eu entendi como muito sensual, em mim, foram minhas pálpebras. diária, vamo combinar que não é muito fácil ser uma mulher gorda e se achar linda E gostosa quando todo mundo te diz coisas como “nossa, você tá mais bonita, o que houve? emagreceu?”, ou “gente, ela tem um rosto tão lindo… pena que não emagrece” etc.
mas, eventualmente, assumi minha gostosice. aprendi também uma outra coisa muito importante, que eu já sabia mas ainda não tinha experimentado de verdade eu mesma: a gente não tem que aprender a se gostar pra que outras pessoas gostem da gente. a gente tem que aprender a se gostar porque se não, não sobrevive. outras pessoas gostarem da gente é uma experiência maravilhosa, e amplificada quando nós mesmas nos gostamos, mas não tem que ser a meta (nem o passo seguinte à meta, justificando ela!).
bom, tenho pensado de forma parecida sobre masturbação. não aprendi a gozar comigo mesma pra poder dizer, pra outra mulher, como eu gosto de gozar quando estamos juntas. aprendi porque acho tão gostoso estar comigo mesma e experimentar esse tipo de auto-contato e derramamento de/em mim mesma, que não admito mais viver sem esse tipo de experiência de plenitude e mergulho íntimo. gozar é uma questão de saúde sexual, mental, física…
obviamente, quem me conhece sabe que tenho essa pala de “a experiência”, “o mais profundo”, “o mais especial”, “a mais bonita” – então, nem sempre que me masturbo eu gozo. às vezes fico um tempão experimentando as texturas, as velocidades, os tipos de toque… só clitorianamente, clitorianamente e vaginalmente, com penetração ou sem, com estímulo anal ou sem… e quando vou quase gozar, experimento outra forma, outro toque, outro jeito.
às vezes fantasio alguma coisa, às vezes não. quando não fantasio é muito mágico, porque a sensação que tenho é que o orgasmo é uma ponte de carinho, membranas e umidade me levando até eu mesma, num lugar em que me deito sobre mim pra me esparramar…
depois fico vários minutos bem quieta e em silêncio gozando da cabeça aos pés. ali comigo mesma. me vendo e me sentindo desde dentro. é muito louco, porque agora reconheço isso como orgasmo, mas tenho essa experiência, esse conjunto de sensações e arrepios, faz muito tempo, mesmo sem me estimular sexualmente. e eu chamava isso de “dançar sem me mexer”.
acho muito bonito eu ter achado essa possibilidade de auto-contato depois de conhecer e me apaixonar por outra mulher, e pra mim faz muito sentido que ambas sermos negras é outra fonte de laços. por achar ela tão importante e especial, ainda que tenhamos nos afastado, eu me entendi mais especial e importante. e esse encontro, breve, confuso, intenso e referencial, me trouxe ao encontro dessa mulher que, cada vez mais, eu sou.
lembro que antes de me entender lésbica eu achava masturbação uma chatice! não “dava certo”, parecia que não funcionava: eu não sentia prazer. e ainda achava que era, de alguma forma, errado e egoísta ter prazer comigo mesma. veja bem, diária, que o dispositivo da moral judaico-cristã, de abominação do feminino e que o condena como sujo, pecaminoso, errado, funciona até com pessoas não-cristãs, como eu.
hoje, olhando com essa sabedoria que comecei a abraçar, entendo com bastante nitidez, e também serenidade, que eu tinha medo de gozar, da mesma forma que tinha medo de ser lésbica, porque tinha medo de ser eu mesma: intensa, profunda, abissal. internalizando, obviamente, o medo que o patriarcado tem do gozo e do prazer das mulheres, porque o erótico é, afinal, uma de nossas grandes fontes de poder, conexão e integridade.
lembrei de Audre Lorde, no lindo “Os usos do erótico: o erótico como poder”, quando ela diz que o erótico
“é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso íntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.”
não estou dizendo que toda mulher que não se masturba e/ou goza tem medo de si mesma. talvez a gente não precise ficar procurando motivos e explicando tudo tão minuciosamente. provavelmente algumas mulheres ainda têm medo delas mesmas, de ser plenas em seus desejos, mas se masturbam e gozam maravilhosamente. vai saber? não estou querendo dar fórmula de nada, só compartilhar com vocês como fiquei mais inteira comigo mesma depois que aprendi a gozar comigo mesma, me derramar.
(recentemente, uma amiga com seus quase 60 anos disse, numa roda de conversa, que tava tomando seu banho quando deu ‘umas coisas na cabeça’ e foi atrás de achar ‘seu ponto’. e achou! esse texto é uma homenagem pra ela, e pra primeira mulher que compartilhou seu orgasmo comigo, me ajudando a aprender sobre nosso poder erótico, “fêmeo e auto-afirmativo”, nas palavras lindas de Audre Lorde. axé! vida longa de litros de gozo às negras feministas! as imagens desse texto são do site ifeelmyself.com, que tem vários vídeos bonitos de mulheres gozando, apesar de serem muito produzidos e terem poucas pessoas não-brancas)


















E acho que expressas um sentimento intenso ao dizer que, “é um dos momentos mais lindos possíveis de viver, pra mim: compartilhar o orgasmo de outra mulher”.
Sigo no twitter o parada e percebi que esse post não deu muitos RTs, que apesar da quantidade grande de visualizações ninguém comentou (ainda temos vergonha?)
Parabéns, beijos.
Eu começei a me masturbar mais ou menos com 16 anos(tenho 25 agora),por causa de um programa da Monique Evans!!!!!!!rs
Eu a via falando q as mulheres tinham de se conhecer mais,tinham de perder o medo de si próprias e tal,e eu me deixei levar pelas palavras dela…no início foi bem complicado,mas depois fui meio q perdendo o medo e me soltando!!!!!!rs
Mas confesso q em conversas com mulheres heteros(em maioria) q não fazem eu fico com vergonha de assumir q faço,pq é exatamente como foi dito no texto,o mundo dos homens colocou na cabeça das mulheres q é feio se tocar,e q a mulher tem o homem pra isso,então ela não precisa fazer sozinha!!!!!!!!!
Não há mistérios e sim receio! Mulheres tocando outas mulheres, ou a si mesmas, é virtude, que isso seja dito!
Não há do que nos envergonharmos, somos e podemos realmente alcançar tudo o que desejamos ser e/ou ter.
Amei a coluna! Parabéns!!
tem tudo haver com auto-confiança mesmo e auto-confiança tem haver com tanta coisa…
como uma vez me disse um amigo “é nessas hora que até o 1 é par”.
rsrsr
e antes, mais nova, tbm achava qe tava pecando asoaksoak’
Tão delicado e ao mesmo tempo tão intenso! Concordo contigo qdo diz que temos que aprendera nos amar primeiro antes de amar qq pessoa!
Parabéns pelo texto delicioso!!!
bjoo
Mas eu assumo que sem imaginação não vai alem de carinho!
Mas a masturbação em si, realmente descobrir o seu verdadeiro prazer!
Parabens pelo texto.
Um bjo.
=]
Confesso que nunca tive problemas com isto, nem para fazer nem para confidenciar à amigos, mas nestes momentos percebi que alguns de meus amigos e amigas tinham problemas sim…Engraçado isso neh…Como conseguimos nos doar tanto para alguém, mas por vezes, não para nós mesmas…
O problema que tive foi inverso…Não sei se ouviram falar nisso, ou conversaram já sobre isso, mas, o fato de me masturbar, fez com que eu tivesse uma certa dificuldade para conseguir chegar ao orgasmo com minha parceira algumas vezes… Como se só o meu jeito me suprisse, se ela não me tocasse exatamente igual, eu não conseguia…
Ja resolvemos (e melhor, eu, em mim, resolvi essa questão)é bem psicológico mesmo, a questão da entrega a outra pessoa e tudo mais…como se precisasse abrir minha mente para a doação a alguém, além de mim e que existiam outras maneiras de chegar ao final esperado, digamos. É a liberdade mesmo…
beijo
angelica
Então é isso aí se mastubar é vc se conhecer melhor, se amar mais como vc mesma disse Tate, é um momento de descoberta sobre vc, seu mundo, suas vontades e fantasias. Assim como Sy falou o meu problema é o inverso, é a integra.
Beijo! Ótimo texto!
Você é foda e muito obrigada por compartilhar suas idéais com nós mullheres negras!
Masturbação feminina ainda é tabu nesse século por mais incrível que isso possa parecer.. conheci a masturbação aos nove anos de idade e todas as vezes em que praticava, lavava minha mão com álcool no dia seguinte..acredita? não sei se pelo ato em si ou pq fazia com uma garota. Mas acho que era pelo ato mesmo uma vez que não sabia o que era ser lésbica nem nunca tinha conversado com alguém sobre . Tenho 46 anos e nessa época não se falava de sexo de forma nenhuma! Então eu lavava a mão com álcool pq acreditava q estava fazendo algo sujo, pecaminoso sem nem saber porquê.
Na adolescência praticava quase que diariamente ( rsrsrsrsr..), mas conhecer meu corpo com a masturbação demorou um pouco. Eu já havia me casado com um homem egoísta que me deixava sempre na mão. Hoje sou assumidamente lésbica, feliz e tenho uma companheira que me completa e mesmo assim me masturbo. Gosto da prática e pra mim masturbação feminina é mais um jogo, um elemento erótico. Um ótimo aliado para uma vida sexual prazerosa. Seu texto é DELICIOSO e tomara que sirva para muitas se conhecerem ” mulhermente”..
Beijus
Parabéns!
bjos,
Ju
Liberdade.
Porque eu não fui feita, como algo assim dado.
Eu me construo, sempre. Compartilho as talvez lágrimas derramadas antes do derramamento de mim mesma.
Demorei muito para poder chegar ao primeiro orgasmo clitoridiano, feito pelos meus próprios dedos- uma tentativa depois da descrença de necessariamente ter uma outra pessoa para me fazer sentir a mim mesma. E essa outra pessoa não conseguia- porque afinal quem me faz gozar sou eu, oras. Mesmo que com alguém.
Acho que os fantasmas e tabus terríveis da moral judaico-cristã me oprimem desde de dentro; e isso não tem muito a ver com minha crença espiritual. É algo que me lembro sentir culpa desde há muito, muito tempo.
Se o menino que mexia com o piu-piu era ameaçado de ser castrado, o horror da imundície recaía sobre a menina que tocava sua xoxota.
Lindo seu texto, tate.
Liberdade, nós.
Gozemos.