Violência entre mulheres? Isso existe. Confira a orientação feita à leitora S., vítima de uma namorada violenta.
Sapas no Divã agora é respondido por uma Psicóloga profissional!
Quer compartilhar seu dilema sem revelar sua identidade? Confira a página da coluna e nos escreva. Mas não deixe de verificar os temas antigos, às vezes seu problema já foi respondido.
S. escreveu:
Sei que, pra qualquer pessoa que eu contasse, me chamariam de burra e me mandariam terminar o namoro. Namoro há um ano, com uma garota que foi minha melhor amiga. Depositei todas as minhas forças, minha fé nesse namoro.
Somos muito unidas, as vezes até demais. Passamos pelas mais loucas dificuldades, que toda lésbica adolescente com seus 18, 19 anos passa. Mas minha namorada, tem mudança de humor repentina.
Demorou pra que eu percebesse. E quando eu vi, ela já estava me apertando os braços e me dando empurrões. Eu acabei guardando isso para outras brigas, que viriam com certeza.
A auto-estima dela é muito baixa, ela é mais gordinha, e eu sou magrela, do cabelo liso. Ela cisma que eu tenho vontade de humilhá-la, enquanto eu faço de tudo pra que ela se sinta melhor. Descobri que a mãe dela, tem bipolaridade, e estudando, descobri que 90% dos casos são genéticos.
Ela custou a aceitar a idéia, de ir ao psicólogo, e depois que aceitou, me enrola todo dia, dizendo que nem ela, nem os pais têm dinheiro. Mas as brigas violentas, não pararam. Às vezes, davam uma trégua, mas logo ela estava me dando empurrões.
Hoje, aconteceu a pior delas. Eu sabia que ela viria até minha casa, então saí, porque meus pais estavam aqui e ela daria um barraco. Os motivos são os mais fúteis do mundo. Ela havia perdido o emprego, eu dei atenção demais aos meus pais (que são homofóbicos, e ela os odeia) e eu estava planejando uma festa surpresa de aniversário pra ela, e ela descobriu. Tudo se juntou.
Ela foi atrás de mim, me jogou coisas no meio da rua, puxou meu cabelo, rasgou minha bolsa, jogou tudo no chão. Eu perdi as estribeiras e dei um murro na boca dela, que sangrou. Até o pai dela veio conversar com a gente, pois depois eu acabei indo até a casa dela.
Disse que a maior decepção pra ele é esse namoro. Já aconteceu outras vezes, de empurrões, e apertões no braço, mas dessa vez, foi muito. E eu tenho que me portar bem em casa, pois meus pais já me mandaram terminar faz tempos.
Não sei porque, não consigo sentir raiva dela. Parece ridículo, eu sei. Mas todo o bairro vê nossas brigas, já se acostumaram. Ela deve fazer um tratamento agora e eu também vou procurar ajuda. Mas sinto muita vergonha, por ter perdoado tantas vezes, esperando que ela melhorasse.
A gente deu um tempo, mas acho que na prática, as coisas vão acabar sendo como antes. Só torço pra não me machucar mais. Sei que ela me ama muito. Na mesma hora que bate, ela tenta me abraçar, pede perdão, me implora pra que eu não a deixe. E eu não sei se consigo mesmo, deixá-la. Tenho medo e não duvido, de que, na hora do ódio, ela me mate um dia.
Estou totalmente confusa.
A Psicóloga Lilian Mendes responde:
S. querida!
Inicialmente, preciso explicar que por questões óbvias e éticas não comentarei sobre a namorada da leitora S., uma vez que ela está em tratamento psicológico e aqui não cabe, comentar sobre ela, mas sim e tão somente sobre a leitora em questão. Portanto, todos os comentários do texto referem-se a leitora e a violência entre lésbicas.
O tema é muito triste, mas infelizmente real! E precisa ser exposto, pois servirá para ajudar muitas mulheres que se encontram na mesma situação.
S.,
Já pensou em buscar ajuda psicológica também? Não só para uma transformação e crescimento pessoal, mas para entender o porquê ainda mantém um relacionamento como este?
Quero aqui falar não só com você S., mas com todas as mulheres que neste momento estão sofrendo caladas em seus lares, sozinhas, sem saber nem ao certo a quem recorrer.
Venho percebendo uma crescente nos e-mails que recebo com pedidos de ajuda, da agressividade entre lésbicas.
Não somente pelos e-mails que recebo, mas vira e mexe sempre surgem notícias, algumas até muito pesadas, como por exemplo uma jogou a outra pela janela… Imagine o que aconteceu na relação ao ponto que a pessoa resolveu jogar o seu amor pela janela…
Primeiro que não era amor! Quem ama não mata! Quem ama não bate! Quem ama não agride! Não destrói a vida da outra…
E não é só de suas parceiras que algumas lésbicas estão sendo submetidas à violência, existem as que moram com seus pais e eles estão cometendo verdadeiras atrocidades com suas filhas em nome de religiões, de seus ideais dilacerados pela verdade nua e crua que suas filhas não desejam ter uma vida hetero, em nome da vergonha que sentem de vizinhos e familiares… Em nome de que? De suas próprias crueldades, de uma imensa falta de amor. Acreditam que se usarem de violência conseguirão extinguir tais desejos… Lamentável, jamais conseguirão!
São pais que reprovam a homossexualidade de suas filhas e procuram impor uma vida hetero como “normalização” da prática sexual. Filhas que por serem destituídas de qualquer poder e em muitos casos por depender financeiramente, sujeitam-se a pais, que procuram controlar o corpo das filhas lésbicas, lançando mão de diferentes formas de violência, como os maus tratos, negligência, agressões físicas e psicológicas. Utilizando de acusações, ameaças, e inclusive, a expulsão de casa. A violência com o sentido de dominação do exercício do poder, punição e controle, violência que vem camuflada como ferramenta de ensino.
A mulher na sociedade enfrenta várias formas de violência (doméstica, familiar, física, moral, patrimonial, psicológica, sexual…), são tantas que ficaria horas e horas para elencá-las e explicar todas as dinâmicas.
A violência contra a mulher, além de ser uma questão cultural, policial e jurídica é também caso de saúde pública, muitas adoecem a partir de situações de violência sofrida em casa, recorrem a serviços de saúde com reclamações de enxaquecas, gastrites, dores difusas… Que na maioria dos casos, também precisam de assistência psicológica e orientação jurídica.
A violência não tem preconceitos nem discriminações, ela bate a porta sem qualquer distinção seja das mais humildes até as mais poderosas mulheres, não diferencia as de pouca ou muita cultura, as de vida mais modesta ou as muito bem sucedidas e muito menos as que sabem ou não que tem forças para defender-se.
O problema é intensificado ao considerarmos que além de agressão física há outras formas de violência que a mulher vem sendo submetida, como a sexual, psicológica, moral e até patrimonial.
O fato de ser lésbica torna muitas mulheres ainda mais vulneráveis às diversas formas de violência.
As dificuldades na vida de uma lésbica são inúmeras, desde assumir-se para si mesma, para a família e amigos, como devem se portar no trabalho (muitas vezes chefes e colegas que resolvem persegui-las, humilhá-las…), nas escolas ou nas universidades…
Socialmente muitas precisam esconder-se, fingir, disfarçar, lutar contra a dor de não poder ao menos demonstrar publicamente um carinho a suas parceiras, por mais simples que seja e ainda ter que tolerar todas as formas de agressão, verbal, não verbal, psicológica e até mesmo a física.
Há em muitos casos a dificuldade para se acertar com uma parceira… E quando finalmente a encontra… Surge a violência que destrói todos os sonhos que um dia tiveram… Afinal quem sonha em encontrar a pessoa amada e ser agredida por ela?
A violência doméstica divide-se em fases e ciclos que podem se tornar viciosos, repetindo-se ao longo de meses ou anos.
Primeiramente surge a fase da tensão – Que vai se acumulando e se manifestando por meio de atritos, insultos e ameaças, muitas vezes recíprocos.
Em seguida, vem a fase da agressão – Com a descarga descontrolada de toda aquela tensão acumulada. A agressora atinge a vítima com empurrões, socos e pontapés e às vezes usa objetos…
A seguir vem o momento da reconciliação – A agressora pede perdão e promete mudar de comportamento ou finge que não houve nada, mas fica mais carinhosa, leva presentes, fazendo a mulher acreditar que aquilo não vai mais voltar a acontecer, mas acontece!
É muito provável que o ciclo se repita, cada vez mais, com maior violência e em intervalos menores. Podendo repetir-se indefinidamente, por muitas vezes chegando a uma tragédia, com uma lesão grave ou até o assassinato da mulher.
Para a agressora, a prática de atos cruéis é a única forma de se impor. Tudo ocorre em um contexto muito complexo, que às vezes até pode parecer que se transforma em uma espécie de jogo em que a vítima passa a ser “cúmplice”.
Isto ocorre porque muitas mulheres agredidas e vitimizadas, normalmente sofrem caladas, sentem-se sozinhas, com medo e vergonha. Para elas é difícil dar um basta na situação, além da vergonha, muitas dependem financeiramente da agressora, outras acreditam que “foi só daquela vez”; outras por mais incrível que pareça pensam que são elas as culpadas pela violência; outras porque tem medo de sofrer mais violência ao denunciar ou tentar sair da relação; ou porque não querem prejudicar a agressora, temendo que ela seja presa e condenada.
Violência só gera violência e esta não é somente uma frase antiga e manjada, é fato!
A maior prova que um relacionamento está doente ou quando já não há mais amor é quando não há mais respeito e, violência é um grande sinal de desrespeito não acha?
A pior lágrima é aquela que não escorre, é aquela que é só sentida marcando a alma, marca esta que normalmente demora cicatrizar.
Por mais que seja muito difícil aceitar é preciso reconhecer que a pessoa amada está doente e que os transtornos psíquicos também existem. E que em muitos momentos é algo que nada se pode fazer e somente palavras não adiantam é preciso de ajuda profissional, principalmente a psicológica.
É importante saber quando uma etapa chega ao final, insistir em permanecer, mais do que o tempo necessário, perde-se a alegria, o sentido da vida e das etapas que ainda estão por vir e que é preciso vivenciar. É preciso encerrar ciclos, fechar portas, terminar capítulos, fechar gestalts… Não importa o nome dado, é preciso sentir, admitir e deixar o passado passar e principalmente deixar no passado o que já acabou.
É preciso perceber que há vida do lado de fora, só depende de você. Estenda a mão pedindo ajuda, dê o primeiro passo para o lado de fora, ou ao menos, sonhe com um dia melhor… Não quero aqui ser poética, mas o sonhar com um dia melhor é um dos mecanismos mais importantes que ajudam pessoas que estão passando por momentos tão sofridos a suportar o peso que cada dia tem, em viver algo que não se sabe até quando vai durar. Algumas pessoas conseguem viver sem Deus, mas sem esperança não há como viver!
É preciso também, descobrir que não é porque estão inseridas em uma sociedade preconceituosa, atrasada, machista e cruel… Por ser lésbica tenha que internalizar esses preconceitos ao ponto de sofrerem absurdamente e ficarem caladas! Admitir o inadmissível tolerar o intolerável, por medo de expor o que verdadeiramente são – apenas mulheres que amam mulheres!
Viver com medo? Você acha que merece isso? Se você sente e teme que algo de pior possa acontecer por que esperar passivamente por este dia?
Se ame minha querida e saiba que sua vida é muito preciosa e importante para que seja jogada fora desta maneira. Desculpe, mas é preciso que você acorde, é preciso indignar-se diante dos preconceitos e lutar para defender a pessoa mais importante para você! Você mesma!
Não só para você S., mas a todas as mulheres que estão em situação similar, digo, busque ajuda psicológica para elaborar corretamente tudo que acontece, para que sejam acolhidas e orientadas a encontrar os caminhos de saída desta situação tão triste!
Boa sorte e mande notícias quando puder!
Lilian M. Mendes
P.S. Só mais um e importante comentário:
Às leitoras que não sabem como funciona a ajuda psicológica: são psicólogos que tem como campo de atuação pessoas que estão com dificuldades para elaborar sozinhas assuntos complexos, não pensem que fazer terapia é algo para loucos o que muitos leigos acreditam erroneamente. Loucos são atendidos por médicos psiquiatras, que podem medicar e internar, dependendo do caso obviamente.
Saibam também, que mesmo algumas pessoas que um dia precisaram de um psiquiatra não são ou estão necessariamente loucas.
Por incrível que pareça até pessoas muito cultas tem este preconceito o que não tem nada a ver com a realidade!
Lilian Maria Mendes – Psicóloga Clínica – CRP 06/41736
E-mail: lilianmariamendes@yahoo.com.br
Atendimentos ON-Line e em São Paulo – Capital.






















Felicidades
feilicidades pra voce!!
Demorei pra reconhecer essa violência que sofria.E aconselho a todas a procurarem ajuda eu conversava muito mas não adiantava nada.Aprendi muito com essa experiência e graças a D
Namoro a mais de 1 ano com uma menina bipolar, ela sempre briga comigo por besteiras, já me deu empurrões, me enforcou deixando o meu pescoço roxo, já deixou hematomas nos meus braços, dentre outros. Ela sempre dá xiliques e bota a culpa em mim, acaba comigo e vai pra farra com as amigas, e no outro dia volta chorando pedindo pra eu perdoá-la, dizendo que eu sou o amor da vida dela, que eu sou a única que cuida dela e que ela quer ficar só comigo. Ela sempre provoca as coisas e no final dá um jeito de botar a culpa em mim, de virar o jogo, ameaçar me bater ou acabar com o nosso relacionamento. Durante esse 1 ano todas as minhas amigas falaram pra eu acabar com esse relacionamento destrutivo, que eu mereço coisa melhor, mereço ser tratada bem. E hje depois de mais uma briga, que ela me expulsou da casa dela a ponta pés ameaçando me bater, eu estou decidida a dar um fim, espero ter forças pra continuar firme nessa decisão. Eu a amo muito, passei esse ano inteiro tentando fazê-la mudar, perdoando, acreditando nela, achando que ela mudaria por mim. Eu faria de tudo pra que ela corresse atrás de mim agora, mas como sempre, ela acha que está com a razão e depois de me expulsar desligou o celular. Espero que um dia eu ache alguém que me trate bem e me fala feliz, assim como eu tentei fazê-la e me retribua tudo o que eu dei, em vão.
Muita força meninas, não é fácil. Mas um dia melhor chegará e todo sofrimento se fará valer.