por Lúcia Facco em Frente e Verso
A péssima mania de confundir militância política com grosseria.
Dedico a coluna de hoje ao meu filho, aniversariante do dia 23 de abril, desejando que ele seja sempre solidário, bom e feliz
.
Eu ia escrever sobre outra coisa, mas, devido a acontecimentos recentes com a minha pessoa, decidi mudar o tema desta semana.
Detesto discussões virtuais. No mundo mediado por teclados e monitores, nunca sabemos ao certo com que estamos falando, portanto ficamos à mercê de ouvirmos (lermos) palavras desagradáveis. Pois eu acabei entrando em uma dessas discussões e, mesmo tentando amenizar a discussão, colocando “panos quentes”, acabei recebendo respostas “atravessadas” e fiquei bastante incomodada.
Com isso, não quero que pensem que sou uma “bundinha de neném”, sempre educadíssima e delicada. Por diversas vezes já entrei em discussões acirradas sobre uma e outra coisa, mas sempre mantendo a educação e a paciência com o meu interlocutor.
Mas isso, infelizmente, não acontece sempre nas nossas relações sociais, incluindo dentro da militância. Isso é muito louco, pois os grupos considerados “minorias” criam “quilombos” que são, na definição de Miriam Alves, espaços onde as pessoas se reúnem para organizarem uma estratégia de luta contra o preconceito e, ao invés de dialogarem de maneira inteligente, acabam destruindo o trabalho, jogando fora todos os esforços, muitas vezes por questões de vaidade e prepotência.
Vamos pensar no por quê disso… Conheço gays e lésbicas que mantém uma postura enfrentativa o tempo todo. Ser enfrentativ@ pode ser legal e até necessário em diversas situações, mas é preciso ter discernimento para escolher o momento de brigar e o momento de conversar. O fato de alguém viver na militância reforça ainda mais essa necessidade.
Na história do Movimento Homossexual no Brasil, podemos ver que vários grupos de apoio fecharam por motivo de brigas, desentendimentos e “rachas” entre seus membros. Isso é uma pena.
Há algumas semanas, escrevi sobre “delicadeza”, questionando a ideia fixada no imaginário social, segundo a qual as relações lésbicas precisam ser, necessariamente, diáfanas, fofas e cor-de-rosa. Pois agora estou questionando uma outra ideia, segundo a qual gays e lésbicas precisam ter sempre uma postura agressiva. E isso não se refere a todos os tipos de militância, pois os vegans, por exemplo, têm fama de serem “zens”.
Tudo bem que algumas lésbicas e alguns gays assumem essa postura por ser a única maneira que encontraram de se protegerem diante de situações de violência (seja física ou psicológica). Mas nem todos @s enfrentativ@s vivenciaram experiências traumáticas que @s levaram a isso.
Talvez falte uma confiança em si mesm@, no seu valor, na amizade e solidariedade daquel@s que estão na luta juntos com el@. Acho que o momento de “brigar” ainda não acabou, mas o tipo de “briga” precisa ser repensado. Precisamos abolir essa figura ultrapassada d@ homossexual agressiv@ e colocar, em seu lugar, a figura d@ homossexual inteligente, solidári@ e consciente de sua importância como ser social.
Meu ex-orientador, Ítalo Moriconi, me disse, certa vez, que eu sou muito tolerante com as pessoas homofóbicas e que ele achava isso bacana. Na ocasião, fiquei pensando que a minha tolerância se deve à conclusão de que não adianta “meter o pé no peito” das pessoas, pois, ao invés de conquistar aliados, você acaba criando inimigos ainda mais radicais. Se, ao contrário, você for tolerante, com paciência acabará levando @ homofóbic@ à reflexão e, a partir do momento em que os pré-conceitos são repensados com um olhar mais crítico, ele acaba se desfazendo, pois não são sustentados por lógica e inteligência.
Trata-se de “educar”, informar, ajudar o sujeito a se livrar de um pesado ranço cultural que o faz ser infeliz (pois tenho certeza de que as pessoas amargas e preconceituosas são muito infelizes). E, afinal de contas, não é isso que queremos, ou que deveríamos querer: Ver cada um como nosso espelho e, portanto, desejar a felicidade de todos?






















Grande beijo.
A cada 2 dias um homossexual morro vitima de homofobia no Brasil.
Não é questão de ir lá e revidar, mas essa noção de “não-ação” que se tem (ler se informar e ficar em casa escrevendo texto) não adianta nada.
Voce está SE educando e não educando os outros. Na verdade é uma postura defensiva. Voce se informa pra responder a algum ataque verbal de homofobia, mas a iniciativa fica da parte de quem te ataca.
Sou do tipo que age e fico revoltada, quando vejo um homossexual, simplesmente “estático”.
A militancia gay no Brasil é “rachada” justamente por que hj, é inoperante.
Sugestçao: Além de ler e se informar, voto conscientemente, proteste,perturbe o cara que voce votou.
Não é necessário entrar numa ONG gay, mas faça alguma coisa!
Só pra lembrar manifestantes passifistas morreram de forma agressiva, deixaram um legado, mas a não ação deles, a posição de ficar na defensiva, lhes custou a vida. Exemplo: Dali Lama, Martin Luther king.
São pelos atos agressivos e outros atos – como por exemplo a promíscuidade – que eu ouço todos os dias que homossexuais não prestão.
Vocês podem até pensar que é exagero, mas aqui em recife não é. vcs já ouviram o ditado que diz: “Quem anda com porcos, farelo come.”?
pois é, para os homofóbicos só precisa de um mal exemplo para julgarem todos.
Eu acredito muito nisso: “… a minha tolerância se deve à conclusão de que não adianta “METER O PÉ NO PEITO” das pessoas, pois, ao invés de conquistar aliados, você acaba criando inimigos ainda mais radicais. Se, ao contrário, você for tolerante, com paciência acabará levando @ homofóbic@ à reflexão e, a partir do momento em que os pré-conceitos são repensados com um olhar mais crítico, ele acaba se desfazendo, pois não são sustentados por lógica e inteligência.”
e já vi muitas pessoas mudarem depois de refletirem,como por exemplo, meu irmão.
abraços, Lúcia!
Concordo totalmente! O preconceito, já diz… Pré-conceito, opinião/repulsa que se tem antes de conhecer. Eu tenho certeza que se homossexuais fossem mais abertos (no sentido de se relacionar normalmente com todos) e mais compreensivos com a falta de informação e conhecimento das pessoas sobre o assunto, o preconceito estaria menor. Acho que a gente tem que mostrar p/ eles o quão natural é ser homossexual, que amamos, que somos solidários, enfim, mostrar que o fato de sermos homossexuais nao nos faz melhor nem pior que eles… É apenas uma característica dentre tantas outras nossas.
E também, alguns homossexuais simplesmente tem preconceito contra heteros, ou seja, agem da mesma forma que agem com eles. Não é batendo de frente e agindo dessa mesma forma que vamos resolver algo… A revolta só vai piorar o nosso lado.
Por causa do preconceito, os homossexuais se juntaram em grupinhos e se distanciaram das outras pessoas… Lógico que é ótimo vc encontrar sempre pessoas que vão te entender, mas nós temos o direito de participar e estar na sociedade, a mesma que todos os heteros participam.. Nao precisamos nos isolar. Tem boate gay, tem bate papo só para gays… Nao julgando essas formas de interação feitas para gays, mas se tivesse ‘boate hetero’ ‘bate-papo só para hetero’ (nao sei se tem), íamos ficar chateados com tal limitação.
Lúcia, como vc falou… Acho que em muitas pessoas, talvez de tanto sofrerem preconceito e ficarem sempre à margem, falta confiança em si mesmo, no seu valor. Precisamos acreditar que não é pq estamos em “minoria” que estamos errados, que somos inferiores ou estranhos na sociedade…
É isso.. Queria muito mesmo que todo mundo parasse pra pensar nisso, tentasse ser mais compreensivo e rebater os preconceitos de uma forma inteligente e nao batendo de frente ou ficando na defensiva sempre.
Beijos
Isa e Erika, em nenhum momento eu defendo a aceitação, muito menos acho que as pessoas precisam ficar “estáticas”. Só defendo a ideia de que a luta deve ser inteligente e não violenta.
Não fico apenas sentada escrevendo e me educando. Quem conhece meu trabalho sabe muito bem disso.
Enfrentei a Academia escrevendo sobre um assunto tabu e de uma maneira totalmente heterodoxa, me arriscando a perder 2 anos de estudos. Escrevi sobre Literatura Lésbica, fazendo Literatura Lésbica.
Fico super orgulhosa e feliz por ter meu nome reconhecido em vários setores, tanto da militância, quanto da Academia, inclusive fora do Brasil.
Erika, a Literatura é uma arma poderosíssima na mudança do pensamento social. Minha tese de Doutorado foi publicada e trata do uso da Literatura infanto-juvenil nas escolas, no combate à homofobia.
Esta publicação me rendeu, inclusive, críticas bastante agressivas por parte de evangélicos que alegaram que eu estou tentando “converter” as crianças à homossexualidade. Na ocasião, exigi uma retratação pública por parte do cara que escreveu isso, o que de fato ocorreu. Caso contrário, abriria um processo contra o mesmo.
Isso, para mim, não é ficar estática, não é aceitar calada, não é ficar me educando e brincando de escrever. Isso é lutar com inteligência, é brigar para mudar o pensamento social, e não exercer meu direito de ser ignorante e bater em um idiota que tenha me agredido.
Agora, nunca me verão dando porrada em alguém, seja pq motivo for. Detesto violência e acho que violência é a arma das crianças (que ainda não conseguem verbalizar), dos animais e dos tolos.
Não me defendo apenas. Pelo contrário, levanto a discussão, provoco.
E quanto aos pacifistas, Dalai Lama não morreu e Gandhi, o maior pregador da não-violência, conseguiu a independência da Índia, o que foi um feito extraordinário.
Se ele morreu, deixou um legado maravilhoso e eu, sinceramente, o respeito infinitamente mais, do que um/a panaca que dê porrada nos outros, por alegar, de maneira infantil, que “não aceita levar desaforo para casa.”
O ser humano é dotado de inteligência, portanto não precisa agredir.
Brincadeiras a parte, penso que é uma busca constante por evolução pessoal, para poder responder as grosserias e ignorâncias, com argumentos e conservando a urbanidade com que devemos nos tratar mutuamente, em qualquer esfera do relacionamento humano.
Sei que para algumas pessoas é difícil tolerar certas coisas, mas se pensar bem, realmente não vale a pena responder no mesmo tom, melhor é manter a calma e os argumentos, e, quando ainda assim não der certo, aí tenho a seguinte opinião: certas coisas ou pessoas, simplesmente não valem a pena, melhor deixar de lado mesmo e direcionar as energias para pessoas e coisas que mereçam atenção.
às vzs vejo algumas pessoas tão inflamadas em suas militâncias, que não se permitem ver as outras cores, só o preto ou o branco, nenhuma das outras milhares de nuances de cinza…
O tema é bem sério! A violência convivida diariamente por nós brasileiros nos deixa aprisionados em um país intolerante e covarde, na verdade o mundo em si. Acredito que quem agride gratuitamente é porque quer se mostrar superior á vítima, seja homem ou mulher. Isto também é uma demostração de egoísmo, que por sua vez é antagônico ao amor. É muito difícil ouvirmos e lermos a palavra AMOR nos dias de hoje.
Vcs lésbicas, e homos em geral, são pessoas como qualquer outra (quero dizer, alguns são excêntricos rsrs), não quer dizer que tenham que ter sangue de barata. É só imaginar esse mesmo tratamento á um cadeirante: não seria desumano agredir fisica e moralmente um deficiente por viver nesse estado? Para que vcs entendam o que eu quero dizer com esse exemplo, falei dos cadeirantes por ser um grupo que também não tem muito de seus direitos respeitados e a reclamação é o único escudo que eles dispõem para que tenham cidadania. Se eles deixarem de protestar vão continuar andando em calçadas esboracadas, sem infraestrutura como rampas ou elevador de acesso e transporte compatível etc.
Para cada ação á uma reação contrária, ninguém foi feito para apanhar e ficar quieto, ainda mais quando seu direito é violado. Não é um incentivo á violência, mas sim uma forma de dizer que seu direito termina onde começa o meu e vice versa. E todos tem o direito de ter a integridade física e moral respeitada, e por isso a tolerância tem limites.
bj
Pôxa achei muito legal seu texto memso, uma amiga me indicou e eu indicarei também!
Sabe, eu sou pavio curto, não sempre, não com tudo, mas não agüento gente preconceituosa e com elas não tenho paciência. Mas sabe do q mais? Eu admito isso, admito e por isso memso tento não fazer confrontos desnecessários, pq sei q fico muito puta, com o perdão da palavra, e que isso só vai piroar a visão da gente. Claro q em casos de violência física ou verbal aqu do RS geralmente é grave a coisa, e acho q a gente tem mais é q xingar, maaaaaaaaas o fato é: eu entendo seu ponto e concordo CEM POR CENTO!
Temos q aprender a lidar com eles e tentar desarmá-los, como diz meu pai “matá-los com gentileza”, rsrsrs É isso aí =)