por Tate em cotidiana
cotidiana 34, julho de 2010.
homens matam mulheres. alegam: “crime passional”, “legítima defesa da honra”, “violenta emoção”. o sistema jurídico, patriarcal como os homens, endossa as alegações, reduz penas, criminaliza as vitimizadas. a sociedade em geral, também patriarcal como os homens e o sistema jurídico, justifica o assassinato: “mas também, ela procurou”, “mas também, ela mereceu”, “mas também, ela era uma puta”. mulheres quaisquer são desumanizadas: uma vida que merece a morte é humana? dentro dos padrões especistas de uma sociedade que mata pessoas não-humanas pra comer, pra vestir, pra pintar, pra perfurmar, não, vidas que merecem a morte não são humanas. então as mulheres viram bicho: “piranha”, viram uma coisa: “maria-chuteira”, pra que mereça mais indignamente ainda sua morte procurada. as mulheres viram uma categoria de pessoas que é enormemente depreciada pela moral patriarcal dos mesmos homens que recrutam os serviços prostituídos pra “aliviar seus instintos”. instintos que dizem animais. animais como cães. cães que recebem restos matados de mulheres que são desumanizadas enquanto putas que são coisificadas como objeto de desejo e despejo de homens e sua moralidade assassina, cínica, sádica. O PATRIARCADO MATA MULHERES PELAS MÃOS DOS HOMENS!
no dia seguinte, vira piada. que outros homens repetem, na identificação sádica de sua figura com aquela do assassino. só consigo entender assim que uma pessoa consiga rir da morte de outra. ou que consiga fazer lista de piadas e enviar por listas de emails. só consigo entender isso assim: eles se identificam com o assassino, por isso acham tão engraçado. porque quando assassinarem, ficarão impunes. porque quando assassinarem, não é a vida deles que vai ser julgada. mas mulheres também dizem as piadas. mulheres criadas, conformadas, controladas pela mesma sociedade patriarcal que estabelece a violação, o assassinato, a ameaça, o silenciamento, o descrédito, a segunda categoria como norma de conduta pra quem nasce com buceta. penso, com algum alívio, que isso é mais um bom sinal que uma maldição: se as mulheres podem ser ensinadas a ser patriarcais, a rir de piadas sobre o assassinato de outras mulheres, pode ser que os homens possam desaprender a ser patriarcais. mas penso com aflição: com quem elas tão se identificando? como podem rir o riso sádico do assassino se a próxima poderia ser qualquer uma de nós? mas a próxima não pode ser nenhuma de nós! CHEGA DE CRIMES PASSIONAIS SEXISTAS, A PAIXÃO NÃO É PATOLÓGICA! CHEGA DE TRANSFORMAR O FEMICÍDIO EM PIADA!
diária e leitoras,
isso é o máximo que consigo escrever sobre isso.
transcrevo o texto “vergonha” da lice, minha grande amiga, publicado na fofoqueira dela, porque me senti representada.
vergonha
alice gabriel
Julho 8, 2010
há alguns dias tenho pensado em fazer um post sobre o caso eliza samudio… sem muito bem saber por onde começar. sem muitas palavras para articular essa mistura peculiar de revolta, nojo e medo… e vergonha também. porque dá vergonha de ser flamenguista, sabia? (eu que engrosso o coro de não sou brasileira, sou da nação rubro-negra) aliás, desde março com a declaração escrota (não há palavra melhor) do bruno sobre violência contra mulher bem na semana do dia internacional das mulheres… dá vergonha de ser ser humano, na verdade. e dá um ódio saber que esse caso não é isolado, não é resultado de um problema específico personalizado na figura do agressor, é uma “doença” social… dê o nome que quiser, eu continuarei chamando de patriarcado essa desvalorização sistemática da vida das mulheres. e daí o medo. as vezes fico pensando que essa brutal exposição de casos como esse na mídia serve, entre outras coisas, para aterrorizar coletivamente as mulheres… mas isso dá pano para manga de outro post.
quem dá uma googlada básica no nome da garota, acha sites chamando eliza de maria chuteira, aproveitadora, que tava dandoo ‘golpe da barriga’, afirmando que ela era atriz pornô e daí pra baixo. esse tipo de afirmação tenta desqualificar moralmente (moralisticamente?) e portanto depositar parte da culpa na pessoa vitimizada: “ela mereceu”, “ela procurou”, blá (inversão típica que ocorre em muitos crimes sexistas e ações misóginas). e não é diferente na mídia institucional. o portal da universidade livre feminista lançou uma matéria falando sobre o tratamento da imprensa ao caso! vale a pena conferir [vou fazer desse post uma coleção de links para outros sítios que tratam de forma interessante o assunto. pilantragem o nome disso? talvez]
e que dizer a recente propagação de piadinhas sobre o caso? putz. outro dia tive que ouvir uma da boca da minha sobrinha mais velha… cara, eu levo muita coisa na brincadeira, mas com violência contra mulheres- e mais, com femicídio - não se brinca! esse tipo de coisa ajuda a trivializar ainda mais os atos violentos misóginos, o que reforça o desvalor da vida das mulheres…
termino o post repassando o link da petição online de repúdio à violência contra mulheres , pedindo que (quem quer que leia esse blog) assinem. não creio muito em petições, mas pode ser uma forma de pressão, né?


















eu acho que é muio o riso d humilhação alheia; que usa uma lógica meio estranha de que a outra pessoa é ridícula, eu não sou a outra pessoa então eu não sou ridícula. já ouvi muitos desses risos em questões racistas, classistas, sexistas, e milhões de outras coisas. mas uma parada palha que se diz, quando por baixo da coberta da ‘piada’ não é mais uma parada palha, porque uma piada não é controlada por questões morais (me parece que é assim que as pessoas entendem)…
por isso é ‘de boa’ falar uma piada por uma guria ser gorda e todo mundo rir disso, é ‘de boa’ falar uma piada de que o guri é viado, é ‘de boa’ fazer piada com o black power do moleque da sala (essa piada quase me fez desistir da matéria que eu tô fazendo), é ‘de boa’ fazer piada dos ‘djences’, é ‘de boa’ fazer piada de estupro (também perdi amigxs por causa dessa), e ‘de boa’ fazer piada com assassinato…
o engraçado também é que todas as pessoas sempre vão estar no papel de ‘humilhadas’ em pelo menos algumas dessas piadas; mas aí será que dá força pra fazer mais piadas pra mostrar que não, elas estão do lado das que riem, não das que se sentem mal? delimitar perfeitamente qual o seu ponto de fala opressor…
acho que são essas coisas que tiram muito de delícia do riso pra mim também, e hoje em dia ele não vem mais tão fácil.
ps. acho um coco isso de ter que colocar e-mail pra comentar aqui! ¬¬
Mas precisamos ser mais fortes do que já somos, porque só assim poderemos encarar este mundo tão cheio de injustiças, preconceitos, humilhações e todo tipo de maldade que tanto violenta nossas mulheres.
Precisamos encarar e discutir isso pra encontrarmos uma solução realmente definitiva pra acabar de vez com estas atrocidades.
É inconcebível que nos dias de hoje ainda ocorrão tantas violações de direitos, principalmente com a vida da mulher.
Belo texto!
Entendo a revolta das mulheres diante de tanta crueldade com uma semelhante, aliás várias! Mas esse texto não agrada muito por analizar o problema só em relação ás mulheres. Há discriminação e até hipocresia. Lamentável que de tanto as mulheres sofrerem, surgiu uma palavra como femicidio.
Em primeiro lugar, reforço minha indignação com esse e vários casos de violência contra a mulher. Além do caso Eliza, tem o caso Mércia, o da cabeleleira que foi brutalmente assassinada no salão depois de denunciar o “companheiro” e um caso mais distante no tempo, mas vivo em alguns: Daniela Perez. São barbáres comparáveis ao holocausto, por tamanha falta de respeito pela vida humana.
Em segundo lugar, o texto tenta achar desculpas para esses crimes como questão “patriarcal”. Quer dizer que casos em que a mulher comete crimes como espancar crianças e idosos pode ser chamado de “matriarcal”? Pessoal, a causa não é gênero mas sim falta de AMOR ao próximo. Quem ama não mata, não mutila, não ameaça, não prejudica seu próximo. Essa é a questão que falei de discriminação ao homem, passando a idéias que somos verdadeiros monstros por darem a impressão de generalização. Ou vcs acham que nós também não nos horrorizamos com tanta crueldade?
Em terceiro lugar, a questão da hipocrizia. Ora, se a Eliza engravidou propositalmente para benefício próprio, essa irresponsabilidade dela se configura desumana por envolver uma criança que acabou sendo a maior vítima dessa história toda. Por que o texto não condenou essa prática covarde de envolver um inocente dessa forma? Tanto ele como ela são os únicos responsáveis por gerar essa criança, então ambos tem culpa no cartório referente á gestação. Agora o filho deles é uma criança sem “mãe” e com “pai” criminoso; totalmente desestruturada. A criança foi gerada sem amor pessoal! A criança passou a ser uma carta na manga dela. Que defesa esse bebê podia oferecer desse golpe sendo que nem se conhece ainda? Em nenhum momento desse texto vejo vcs falarem em defesa do filho dela, preferem se preocupar com o flamengo. E que tem a ver o clube com isso? Que história é essa de sentir vergonha de ser um ser humano?
Eu não tenho vergonha de ser homem porque o tal bruno diz que é normal bater em mulher, sendo que sou totalmente contra á qualquer tipo de violência seja contra quem for, incluindo animais. Mas, em hipótese alguma considero esse desrespeito dela em relação ao próprio filho como justificativa para sua morte, como nada justifica tal fim por mãos de outra pessoa.
Em todos os casos o que falta é AMOR.
tate,
seu texto e da lice compartilhados, me mostra o mínimo que posso fazer: falar, dizer, denunciar! e por isso que vou repassá-los e tantos outros em medida maior que os anexos de piadas que temos recebido ou ouvido.
contra o femicídio, implica ser contra o racismo e especismo.
Primeiramente, desculpe o texto enorme rs
Entendo que você entenda dessa maneira, não discordo, a qualquer pessoa que seja capaz de tamanha brutalidade com outro ser humano não falta apenas amor, falta respeito, empatia, falta humanidade.
Mas acontece que a violência contra a mulher é fato, e é sim, um legado da sociedade patriarcal na qual vivemos. Isso não é apenas um discurso politico. Com isso, não estamos dizendo que todos os homens são monstros…mas sim que a violência contra a mulher é JUSTIFICADA na sociedade. Me diga, o que é mais frequente? Casos de mulheres agredindo um homem, ou vice versa? Qual dos dois olha receoso por trás dos ombros ao sair de casa sozinho(a) ou a noite? Pense nisso.
Mas, a discussão está ai para isso mesmo, para abrir espaço para conscientização de que, como você mesmo disse, somos todos seres humanos, com responsabilidades e direitos. E não deveriamos ser tratados como nada mais.
tratar este crime como de gênero não significa negar que esse crime é realizado sem o amor e o respeito ao próximo, a questão é que esta negação é direcionada à mulher, especificamente, e justificado pelo simples fato de se ter uma vagina e as fragilidade que a sociedade impõe à esta categoria.
a sociedade patriarcal e androcentrica permite e até incentiva certas atitudes que num grau máximo se desenha em mortes.
vale lembrar q o dito assassino é o mesmo que acha normal numa briga de casal descer a mão na mulher.
ps: tate,
mais uma vez um texto no ponto.
um grande Abraço!
O seu texto è perfeito pra levantar discussão em relação a violencia contra as mulheres.Pensar e ler sobre essa questão faz agente a cada dia rever os nossos relacionamentos seja com homens ou mulheres,pois tb existe mulheres lesb que batem em suas parceiras,como ja li uma reportagem aqui no site do parada.
E,concordo com vc que esses crimes são reflexos de um sistema patriarcal ,que pra mim ja esta obsoleto a muito tempo.Que nos mulheres possamos a cada dia nos tornar mais conscientes de nossa vida,não permitindo assim controles ou dominações de quem quer que seja.
daniela
Caríssima scarlet, não fugi da questão. Sei que a abordagem se refere á covardias masculinas contra vcs mulheres, tanto que lamentei a definição femicidio de tanto as mulheres sofrerem nas mão de homens. Qual foi a parte que critiquei a brutalidade de homens que vc não entendeu? A da própria Eliza, da Mércia, da cabeleleira ou da Daniela Perez? Infelizmente existiu também o caso Eloá e do ônibus 174 que, em ambos casos, mulheres como sempre indefesas tanto por natureza quanto por covardia de quem ás intimida, foram dominadas e mortas por homens totalmente desequilibrados. Obrigado pela lembrança desse comentário machista e reprovável do Bruno, mas eu ja havia me lembrado disso no penúltimo parágrafo.
O que me surpreende Tate, Iara e Scarlet é tratarmos da violência contra a mulher e vcs fecharem os olhos para a violência contra uma criança causado por mulher. Da mesma forma que é inegável que existe homens covardes em relação á mulheres, vcs também não deveriam negar que existe mulheres igualmente covardes em relação á um bebê falsamente desejado. Quem nasce com buceta e tem o dom de gerar a vida e se aproveita dessa capacidade para fins lucrativos deve ter “conscientização”, né Iara, de que isso também é fato frequente e revoltante. De onde vcs tiraram a idéia que estou aqui defendendo vagabundo? Pelo amor de Deus!
=(
Mas o pior não é isso. As pessoas chamam de loucura, de psicopatia, o que é a mais pura demonstração do patriarcado. A questão não é se ele seja psicopata (pode até ser), mas a certeza que sentia de que não seria atingido em virtude da moça ser uma “maria chuteira”, uma “puta” e mais adjetivos a fim de desmoralizá-la. Trata-se da certeza de deter o direito de vida e morte sobre uma mulher por ser homem.
mas jana, vim aqui responder seu comentário porque uma amiga me falou dele. é parecido com o de alguns homens que postaram, mas ando com preguiça de debater com homens; faço questão de responder o seu porque acredito na solidariedade e na confiança entre mulheres e na importância de nossos diálogos.
quando você diz que “concorda com muito do texto” pra depois dizer que ele não lhe parece uma crítica sensata, fico curiosa de ver as artimanhas argumentativas de que usamos pra descredibilizar algo com uma aparência respeitosa.
sim, meu texto É um esbravejamento de uma lésbica feminista radical que sou, e por isso mesmo é sensato, contextualizado e referendado em muitas outras lésbicas radicais ou feministas radicais ou mulheres, a meu ver sensatas, que escolheram chamar o que você chama “crime passional” de “crime patriarcal”.
radical não é uma ofensa pra mim.
e ia ser bom se você falasse um pouco mais sobre “especialmente as mulheres são beneficiadas com o ‘crime passional’”, porque o que tenho visto em jornais, no cotidiano, reproduzido nos filmes… é que se você trocar o termo “beneficiadas” por “vitimizadas” faz mais sentido e é mais condizente com a realidade patriarcal de femicídios.
geralmente costumo gostar de divergências ideológicas e de percepção, mas não gostei de ler seu comentário. mostra que nós, feministas radicais, ainda temos muito trabalho entre nós, mulheres, pra fazer e compartilhar visões mais sensatas do patriarcado e seus ditames assassinos de mulheres.
Infelizmente os 8 mil anos de patriarcado não serão quebrados em meros 40 anos (contando-se desde os anos 70,auge da luta feminista). A mudança é lenta (infelizmente) mas não podemos desistir.
E sim André temos que nos preocupar também com a violência contra crianças, mas isto só prova a máxima de que “todo oprimido quando tem a oportunidade vira um opressor”. Focault fala sobre esses mecanismos de poder.
Mas o que eu realmente quero bater insistentemente na tecla é: Temos que mudar/quebrar os vícios de pensamentos, conhecidos como costumes. Não podemos deixar que as pessoas acreditem que é normal: violência psicológica dentro de casa, assédio moral no trabalho, violência física doméstica, nem que meninos podem jogar bola enquanto as meninas ajudam a mãe a limpar a casa…
Temos que começar das coisas pequenas e cotidianas, que acabamos reproduzindo apenas porque aprendemos com nossas mães que aprenderam com nossas vós, e que assim continuamos reproduzindo /disseminando a sociedade patriarcal.
ufa… desabafei
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