A diferença entre identidade sexual e orientação sexual.
Paula nasceu em um corpo de menina, sem nunca se sentir uma. Lutou durante toda a sua adolescência para fazer a readequação do seu corpo, tomando testosterona, consultando-se com psicólogos, até conseguir fazer a tão sonhada mastectomia, construindo um peitoral masculino. Parou de menstruar ao tomar a testosterona e passou a ter barba, pêlos, músculos e voz mais grossa. Entrou na justiça para mudar o seu nome nos documentos, afinal era um homem com nome de mulher. Tornou-se Paulo, conseguiu realizar-se ao olhar para o espelho e não mais enfrentou constrangimentos ao mostrar seus documentos. Porém, Paulo continuava causando estranhamento ao revelar sua preferência por homens. Nem mesmo os amigos gays e lésbicas entendiam como alguém que lutou tanto para readequar-se ao sexo oposto podia ser gay. Então, não era mais fácil continuar em um corpo de mulher, casar-se, e ter uma vida como uma heterossexual qualquer? Não, não era. Paulo sempre foi do sexo masculino e gay. Ele não queria ser a mulher da relação, não gostava do seu corpo de menina e definitivamente não se sentia atraído por mulheres.
Este é apenas um pequeno exemplo do que acontece com algumas pessoas e que simplesmente não costuma ser divulgado por tratar-se de uma pequena parcela da sociedade, que sofre calada por ser um dos piores tabus dentro da diversidade sexual.
Gays e lésbicas não desejam ser do sexo oposto, sentem-se bem com sua identidade sexual.
Quem não se sente bem com o próprio corpo, e tem a certeza de que nasceu com o físico errado, é um transexual. Trata-se da “disforia de gênero”, termo surgido em 1973 e adotado pela Associação Internacional que congrega os especialistas nesses assuntos, no mundo (a Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association-HBIGDA.
Conheço alguns FTM´s (Female-To-Male), isto é, homens transexuais. Todos eles fizeram a readequação do corpo com testosterona, mastectomia e apenas um conseguiu a troca do nome nos documentos. Um deles é transexual e gay (os outros são heterossexuais), e também conheci uma MTF (Male-To-Female) lésbica.
A vida de um transexual está muito longe de ser simples e fácil, pois nem mesmo os homossexuais conseguem entendê-los. Ser transexual e homossexual, então, nem se fala! O que quero mostrar aqui é que são pessoas normais, que estudam, trabalham, tem filhos(as), família, amam, têm os mesmos sentimentos que todos nós temos. Olhar para o espelho e sentir que nada ali faz sentido, que o próprio corpo não condiz com o que somos é, no mínimo, torturante. É algo que costuma aparecer desde criança, muito cedo, mas poucos são os pais que levam tais sinais à sério, o que acaba resultando em depressão e até mesmo em suicídio. Muitos acreditam ser um exagero modificar tanto o corpo, por não sofrerem na pele o que é acordar todos os dias e sentir que tudo está errado, e que não há como fugir dele mesmo.
Há um documentário fantástico que mostra bem o que quero dizer com esses sinais claros que as crianças transexuais dão:
My Secret Self – Meu Eu Secreto – Parte I: http://www.youtube.com/watch?v=-K_s7S3Bcsw
My Secret Self – Meu Eu Secreto – Parte II: http://www.youtube.com/watch?v=GgUkhedV5e0&feature=related
My Secret Self – Meu Eu Secreto – Parte Ill: http://www.youtube.com/watch?v=xR_M7_u8FyI&feature=related
My Secret Self – Meu Eu Secreto – Parte IV: http://www.youtube.com/watch?v=FFJmBh-lmA0&feature=related
My Secret Self – Meu Eu Secreto – Parte V: http://www.youtube.com/watch?v=uvbCpWs3Qkw&feature=relate
Se analisarmos detalhadamente a diversidade sexual humana, veremos muito mais tonalidades do que se pode imaginar. Além da transexualidade, da homossexualidade e da bissexualidade, há o travestismo (cross dresser) e a androginia. E mesmo dentro desses sub-grupos há diversas diferenças, graus, nuances.
É um erro muito grande tratar os transexuais como se fossem do sexo biológico deles, ou seja, como uma mulher que “quer ser homem”. Eles não querem “virar” homens, eles são homens, ponto e basta. O que não entendo é como pessoas que dizem que o amor não tem sexo, que sabem que o sexo tem muito mais a ver com a cabeça e com o coração do que com o que está entre as pernas, continuarem a achar estranho a transexualidade.
Aquilo que não acontece com você pode muito bem acontecer com outras pessoas e ainda assim ser normal. Essa minoria, dentro da diversidade, precisa de muita compreensão e não de mais discriminação. É como se houvesse uma escala em que nos colocamos como “mais normais” que outros. “Sou lésbica, mas sou feminina”. “Sou lésbica masculina, mas não quero ser um homem”. Sou um homem transexual, mas não sou gay”. E por aí vai…
É inadmissível (e vou tentar acabar com isso até o final dos meus dias) que haja preconceito entre nós, dentro de um grupo que já é discriminado. Se quisermos mudanças no mundo, devemos começá-la dentro de nós. Rever nossos conceitos, entender melhor o outro, abrir a nossa mente e o coração. Se você sofre discriminação por ser lésbica, bi, ou qualquer outra coisa, lembre-se de que há gente sofrendo bem mais e que você também pode estar contribuindo para aumentar a dor delas.
Temos muito mais semelhanças do que diferenças. Todo mundo aqui já chorou por um amor perdido, por um ente querido que morreu, já sentiu o coração palpitando por uma paixão correspondida, já realizou sonhos, já sofreu desilusões, já se sentiu traído, já sentiu ciúmes, já se sentiu menor e mais desprezível do que uma poeirinha embaixo do tapete, já sentiu raiva de algo ou alguém, já perdoou alguém especial que pisou na bola… Agora, imagine sentir tudo isso e com um “plus” que é sentir algo que quase ninguém mais sente, que ninguém consegue compreender, e que é visto como uma doença mental, perversão e falta de bons exemplos…
Minoria de uma minoria, com um detalhe diferente, mas ainda assim, gente como a gente.


















Muito obrigada por posta-los.
É muito bom e nos dá muita esperança ver um assunto que é geralmente tratado com descaso e até mesmo com chacota, de forma séria, positiva, encarando os fatos com o realismo necessário para que ao menos alguma pequena mudança ocorra no ponto de vista da sociedade!
Obrigada pela sua sempre preciosa contribuição e pela seriedade com que vc escreve sobre cada uma das nossas “causas”!
Muitos beijos orgulhosos,
Paula Bicev
Estudo Psicologia e existe um “Manual” o conhecido DSM que diagnostica doenças mentais, a transexualidade na sua próxima edição (que sai em média de 10 em 10 anos)com previsão para publicação em 2012 vai ser descartada… Até que enfim…
A sexualidade humana é tão imensa e intensa que não se pode fechá-la em algumas “categorias”…
RESPEITO É NECESSÁRIO!!!
o q mais me chamou a atenção é um ponto chave: comprender e não nomear como anormais o q não acontece conosco.
não sabemos o q é ser um transsexual e é um absurdo ditar como elas e eles podem e devem ser.
Muito bacana! parabéns para a autora. Só quero dizer que sobre as crianças dos vídeos, que é delicado afirmar com certeza que futuramente serão mesmo transexuais,não devemos negar que certas crianças nessa fase buscam uma identidade… Bom, é delicado diagnosticar ainda sendo crianças.
Abraços.
Parabéns por tocar no assunto!