Cassandra Rios foi uma figura polêmica. Esteve sempre no meio das discussões a respeito de baixa literatura, alta literatura, erotismo ou pornografia. Alguns a classificam como homofóbica, outros como a “Papisa da homossexualidade”.
Os textos de Cassandra ainda são considerados ousados, em pleno século XXI, imaginem então para o público leitor da época em que seus livros foram publicados! Ela começou a escrever em 1948, aos dezesseis anos, e apesar de seus livros terem alcançado um enorme sucesso de vendas, eles acabaram desaparecendo do mercado. O motivo é fácil adivinhar: ela denunciava as convenções falocráticas colocando a mulher como sujeito autônomo do desejo, e não apenas como objeto de cobiça do homem. Por trás desse discurso, que deslocava o papel social da mulher, havia, obviamente, um discurso subversivo que convidava as pessoas a repensarem seus papéis sociais dentro da sociedade capitalista.
Contudo, a justificativa dada ao público para que Cassandra fosse silenciada foi que seus textos eram pornográficos. Para poder voltar a publicar, ela, em um determinado momento, criou dois pseudônimos (masculinos) e passou a escrever textos que retratavam relações heterossexuais. Estes textos eram tão ousados como os outros, mas passaram pela censura. A única explicação possível é que esses podiam ser publicados porque não interferiam com a ordem patriarcal.
Já ouvi alguns comentários dizendo que Cassandra Rios passou uma imagem muito negativa das lésbicas, pois em suas obras elas eram retratadas sempre como taradas, pervertidas. Respeito todo e qualquer tipo de opinião, porém devo dizer que as pessoas que pensam assim, deveriam atentar para alguns detalhes. Cassandra Rios começou a escrever sobre o lesbianismo na década de 40, quando as mulheres sequer sabiam o que era orgasmo, não trabalhavam fora (a maioria delas, de classe média pelo menos), não ousavam desafiar os maridos, os chefes de família, donos das casas, das famílias e de seus destinos. As mulheres não tinham direito à voz nem ao prazer. Aliás, este não era nem reconhecido, sendo considerada a realização única e máxima para a mulher, casar e ter filhos. As mulheres que sentiam estranhos desejos por outras mulheres, consideravam-se doentes, anormais.
Se, em um primeiro momento, podemos crer que os textos de Cassandra Rios compactuam com o sistema falocêntrico, ao analisarmos melhor sua produção literária, percebemos que ela, na verdade, denunciava a vulnerabilidade deste sistema, que legitimava apenas as relações heterossexuais, fornecendo às mulheres, através da literatura, a informação que existiam outras mulheres que sentiam desejos homossexuais.
Penso que a alcunha “Papisa da homossexualidade” encaixa-se muito bem em Cassandra Rios, pois ela ousou trazer a figura da lésbica para a literatura brasileira em plena ditadura militar, tendo sido lida por milhões de pessoas.
O mais impressionante, porém, é perceber que ainda hoje, quando já existem diversas autoras que retratam o mundo lésbico (com detalhes, inclusive), quando editoras como a Summus, a Brasiliense etc vêm publicando títulos de temática lésbica, quando já existe até a Editora Malagueta, que publica APENAS livros com esta temática, Cassandra Rios continua sendo lida e admirada.
Sua obra permanece através dos tempos e permanecerá sempre no coração das leitoras, pois sua contribuição para a Literatura Brasileira e para a visibilidade lésbica são inestimáveis. E isso ninguém pode negar.



















“Eu sou uma lésbica” provocou em mim uma multiplicidade de sensações… Da identificação até uma espécie de tensão e angústia quanto à personagem principal do romance.
Cassandra Rios possui minha admiração eterna, tanto por sua escrita erótica e envolvente, sua libertação literária da mulher, como também por sua audácia de escrever sobre este tema em plena ditadura!
Interessantíssima a sua abordagem, Lúcia! Parabéns!
.
Kyara: Pelo que sei, ela nunca utilizou pseudônimos masculinos, e sim um único e feminino, Odete Rios. Mas talvez seja ignorância minha, se alguém puder colaborar, agradeço.
E Jessi: é bem fácil encontrar os livros da Cassandra Rios em sebos. Eu sempre encontro.
Jessi e Barbara, a Brasiliense relançou alguns livros dela, se não me engano agora, em 2008. Quem organizou a coleção foi o pesquisador e professor doutor da Universidade Estadual de New York Rick Santos. Escrevi a quarta capa de um deles (As Traças). Mas em sebos também podemos encontrá-los.
Obrigada, meninas, pelos comentários e elogios.
Beijos a todas.
ANASTÁCIA
ARIELA, A PARANÓICA
O GAMO E A GAZELA
MARIA PADILHA
A NOITE TEM MAIS LUZES
A SERPENTE E A FLOR
UM ESCORPIÃO NA BALANÇA
UMA AVENTURA DENTRO DA NOITE
AS VEDETES
A VOLÚPIA DO PECADO
MUTRETA
e os meus favoritos MACÁRIA e TARA
Um abraço.
Admiro muito a Cassandra Rios . Nós da Malagueta inclusive já fizemos uma homenagem no site da editora a pioneira da literatura lésbica brasileira, que escreveu histórias vibrantes ,peitando as convenções e hipocrisias. Gosto muito do Eu sou uma lésbica , um dos últimos livros publicados , é muito bom! recomendo . Hanna.
abraço
Muito ousada ao tratar de um tempo que ainda hoje com toda liberdade de expressão e tantas mudanças sociais ainda é Tabu!
Não tenho certeza mas pelo que pesquisei a respeito seriam esses outros pseudônimos de Odete Rios: RIOS, SAMANTHA, e o masculino ÉSIO ANTONIO PEZZATO.
Estou procurando mais livros dela e nao enconto, eu consegui baixar apenas ‘ Carne em delírio’ e gostaria de saber se alguem sabe algum site que eu possa encontrar outras obras.
Obrigada
Boa sorte!