Cassandra Rios

Lúcia Facco 04/09/2010 15

A pioneira

Cassandra Rios foi uma figura polêmica. Esteve sempre no meio das discussões a respeito de baixa literatura, alta literatura, erotismo ou pornografia. Alguns a classificam como homofóbica, outros como a “Papisa da homossexualidade”.

Os textos de Cassandra ainda são considerados ousados, em pleno século XXI, imaginem então para o público leitor da época em que seus livros foram publicados! Ela começou a escrever em 1948, aos dezesseis anos, e apesar de seus livros terem alcançado um enorme sucesso de vendas, eles acabaram desaparecendo do mercado. O motivo é fácil adivinhar: ela denunciava as convenções falocráticas colocando a mulher como sujeito autônomo do desejo, e não apenas como objeto de cobiça do homem. Por trás desse discurso, que deslocava o papel social da mulher, havia, obviamente, um discurso subversivo que convidava as pessoas a repensarem seus papéis sociais dentro da sociedade capitalista.

Contudo, a justificativa dada ao público para que Cassandra fosse silenciada foi que seus textos eram pornográficos. Para poder voltar a publicar, ela, em um determinado momento, criou dois pseudônimos (masculinos) e passou a escrever textos que retratavam relações heterossexuais. Estes textos eram tão ousados como os outros, mas passaram pela censura. A única explicação possível é que esses podiam ser publicados porque não interferiam com a ordem patriarcal.

Já ouvi alguns comentários dizendo que Cassandra Rios passou uma imagem muito negativa das lésbicas, pois em suas obras elas eram retratadas sempre como taradas, pervertidas. Respeito todo e qualquer tipo de opinião, porém devo dizer que as pessoas que pensam assim, deveriam atentar para alguns detalhes. Cassandra Rios começou a escrever sobre o lesbianismo na década de 40, quando as mulheres sequer sabiam o que era orgasmo, não trabalhavam fora (a maioria delas, de classe média pelo menos), não ousavam desafiar os maridos, os chefes de família, donos das casas, das famílias e de seus destinos. As mulheres não tinham direito à voz nem ao prazer. Aliás, este não era nem reconhecido, sendo considerada a realização única e máxima para a mulher, casar e ter filhos. As mulheres que sentiam estranhos desejos por outras mulheres, consideravam-se doentes, anormais.

Se, em um primeiro momento, podemos crer que os textos de Cassandra Rios compactuam com o sistema falocêntrico, ao analisarmos melhor sua produção literária, percebemos que ela, na verdade,  denunciava a vulnerabilidade deste sistema, que legitimava apenas as relações heterossexuais, fornecendo às mulheres, através da literatura, a informação que existiam outras mulheres que sentiam desejos homossexuais.

Penso que a alcunha “Papisa da homossexualidade” encaixa-se muito bem em Cassandra Rios, pois ela ousou trazer a figura da lésbica para a literatura brasileira em plena ditadura militar, tendo sido lida por milhões de pessoas.

O mais impressionante, porém, é perceber que ainda hoje, quando já existem diversas autoras que retratam o mundo lésbico (com detalhes, inclusive), quando editoras como a Summus, a Brasiliense etc vêm publicando títulos de temática lésbica, quando já existe até a Editora Malagueta, que publica APENAS livros com esta temática, Cassandra Rios continua sendo lida e admirada.

Sua obra permanece através dos tempos e permanecerá sempre no coração das leitoras, pois sua contribuição para a Literatura Brasileira e para a visibilidade lésbica são inestimáveis. E isso ninguém pode negar.

15 Comentários »

  1. Kyara 04/09/2010 at 15:07 - Reply
    Olá Lúcia. Sou a pessoa q te mandou e-mail pedindo ajuda para minha pesquisa de doutorado que é sobre Cassandra. Fico muito feliz sempre q alguém lembra da importância dessa autora p a literatura brasileira. Voce sabe quais são os dois pseudônimos masculinos criados por Cassandra? A única coisa que consegui saber sobre eles até agora é q os sobrenomes sempre tinha “rios” em outros idiomas.
  2. Jessi 05/09/2010 at 00:33 - Reply
    Oi Lúcia. Te confesso que descobri Cassandra Rios uns anos atrás sem querer, gosto muito de ler e um amigo tinha o livro dela e me emprestou e que grata surpresa viu, romance bem turbulento… mas concordo com você, é difícil achar os livros dela, só li dois até agora e nunca mais, é raridade. bjo
  3. Barbara Tenfen 08/09/2010 at 17:23 - Reply
    Que bom encontrar Cassandra Rios por aqui! Lembro-me bem do dia em que distraída com os milhares de títulos presentes na livraria, de autores consagrados, deparei-me com um intitulado “Eu Sou Uma Lésbica”. Fiquei curiosa e comprei o livro. Só mais tarde, fui de fato entender quem foi esta mulher tantas vezes ignorada na literatura brasileira.
    “Eu sou uma lésbica” provocou em mim uma multiplicidade de sensações… Da identificação até uma espécie de tensão e angústia quanto à personagem principal do romance.
    Cassandra Rios possui minha admiração eterna, tanto por sua escrita erótica e envolvente, sua libertação literária da mulher, como também por sua audácia de escrever sobre este tema em plena ditadura!

    Interessantíssima a sua abordagem, Lúcia! Parabéns!
    .
    Kyara: Pelo que sei, ela nunca utilizou pseudônimos masculinos, e sim um único e feminino, Odete Rios. Mas talvez seja ignorância minha, se alguém puder colaborar, agradeço.
    E Jessi: é bem fácil encontrar os livros da Cassandra Rios em sebos. Eu sempre encontro.

  4. Nirvana 08/09/2010 at 18:07 - Reply
    Realmente as obras de Cassandra são um achado!,depois que lí o primeiro( Nicoleta Ninfeta) passei a garimpar entre sebos e estou dando sorte ja possuo 4 obras originais! guardo-as como relíquias!…qto aos nomes pelo que já lí a respeito sei de River’s,Stram’s,Rivier e Fleuve.Não ví obras com esses pseudônimos mas lí que ela os usava…espero que tenha ajudado.
  5. Lúcia Facco 09/09/2010 at 08:28 - Reply
    Kyara e Nirvana, os pseudônimos masculinos usados por ela foram Clarence Rivier e Oliver Rivers.
    Jessi e Barbara, a Brasiliense relançou alguns livros dela, se não me engano agora, em 2008. Quem organizou a coleção foi o pesquisador e professor doutor da Universidade Estadual de New York Rick Santos. Escrevi a quarta capa de um deles (As Traças). Mas em sebos também podemos encontrá-los.
    Obrigada, meninas, pelos comentários e elogios.
    Beijos a todas.
  6. sonia 11/09/2010 at 19:38 - Reply
    Oi Lúcia,fico feliz de estar lendo um pouco sobre CASSANDRA RIOS eu comecei a ler CASSANDRA desde a década de 80 adoro os livros dessa autora, já li mais de 25 livros dela, e tenho alguns na minha pequena coleção que fui comprando ao longo desses anos como:

    ANASTÁCIA
    ARIELA, A PARANÓICA
    O GAMO E A GAZELA
    MARIA PADILHA
    A NOITE TEM MAIS LUZES
    A SERPENTE E A FLOR
    UM ESCORPIÃO NA BALANÇA
    UMA AVENTURA DENTRO DA NOITE
    AS VEDETES
    A VOLÚPIA DO PECADO
    MUTRETA
    e os meus favoritos MACÁRIA e TARA

    Um abraço.

  7. hanna korich 14/09/2010 at 15:35 - Reply
    Lúcia sempre escrevendo muito bem e com muita inteligência . Parabéns.
    Admiro muito a Cassandra Rios . Nós da Malagueta inclusive já fizemos uma homenagem no site da editora a pioneira da literatura lésbica brasileira, que escreveu histórias vibrantes ,peitando as convenções e hipocrisias. Gosto muito do Eu sou uma lésbica , um dos últimos livros publicados , é muito bom! recomendo . Hanna.
  8. Kyara 16/09/2010 at 16:06 - Reply
    Obrigada a Lúcia pela ajuda. Agora fica mais fácil garimpá-los.
    abraço
  9. kinha 21/09/2010 at 21:53 - Reply
    oi Lúcia,fico feliz em ouvir falar de Cassandra Rios a muito não ouvia falar sobre ela,sou fãzona da Cassandra, já li varios livros dela a maioria encontrado em sebos o que + gostei foi as traças.Beijos
  10. Jéssica 23/09/2010 at 19:51 - Reply
    Olá, tenho 16 anos e encontrei Cassandra Rios nas coisas da mãe da minha melhor amiga e ja li e re-li umas 10 vezes serpente e a flor parabéns Cassandra
  11. temp 04/04/2011 at 07:19 - Reply
    Li apenas uma obra de Cassandra Rio no ano ´passado, realmente fantástica para época,
    Muito ousada ao tratar de um tempo que ainda hoje com toda liberdade de expressão e tantas mudanças sociais ainda é Tabu!
    Não tenho certeza mas pelo que pesquisei a respeito seriam esses outros pseudônimos de Odete Rios: RIOS, SAMANTHA, e o masculino ÉSIO ANTONIO PEZZATO.
  12. Fernanda 01/05/2011 at 23:10 - Reply
    oii gente, eu por um acaso, encontrei um exemplar de ‘A Volupia do Pecado’ numa caixa de livros que iriam para o lixo, foi muuita sorte, li e reli milhares de vezes.
    Estou procurando mais livros dela e nao enconto, eu consegui baixar apenas ‘ Carne em delírio’ e gostaria de saber se alguem sabe algum site que eu possa encontrar outras obras.

    Obrigada

    • Léia Araújo 02/01/2012 at 18:35 - Reply
      Ola Fernanda você poderá encontrar livros da Cassandra na rede de sebos estante virtual.
      Boa sorte!
  13. Danielle 01/03/2012 at 04:35 - Reply
    Olá, tenho procurado tudo sobre Cassandra e consegui achar até agora 39 títulos de obras dela.
  14. Rosi 02/03/2012 at 12:27 - Reply
    Ótimo texto Lucia! Parabéns!

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