A liberdade de ler e escrever
De uns anos para cá um fenômeno interessante tomou vulto: jovens autoras, certamente com muita destreza na manipulação de espaços jovens como elas, como sites especializados voltados para o público lésbico/gay, blogs, e outros sobre os quais eu nunca nem ouvi falar, têm publicado textos que procuram traduzir suas experiências homoeróticas/homoafetivas.
Há algum tempo, era praticamente impossível conseguir publicar textos que trouxessem essa temática, já que não havia editoras dispostas a investir em uma literatura tão “estranha”. Baseadas em conceitos conservadores, preferiam a cômoda e segura posição de publicar textos onde as relações fossem as heterossexuais.
Hoje, algo parecido ocorre em relação a livros infantis e juvenis. Raras são as editoras que estão investindo em histórias que mostrem às crianças e jovens a existência de relações homossexuais, alegando tratar-se de textos muito sexualizados para crianças. Mesmo que não haja sequer um beijinho entre os personagens, como já comentei em artigo anterior, a tendência é sempre a de considerar as relações homossexuais baseadas exclusivamente em sexo. O que, como podemos atestar, não é absolutamente verdade.
O aumento do número de escritoras que se dedicaram a essa prática pode ser explicado por alguns fatores: em primeiro lugar, ao escrever para um blog a autora tem mais liberdade, pois entre o ato de produzir o texto e postá-lo em seu blog não há uma avaliação crítica de outra pessoa, que lhe pedirá para mudar isso ou aquilo. A escrita, consequentemente, fluirá livremente. A moça está escrevendo principalmente para se agradar. Por sentir essa liberdade, o texto acaba ficando mais natural, tendo “a cara” da autora. Por isso, as autoras de internet acabam criando um grupo de fãs que as acompanharão fielmente em todas as suas expedições literárias.
Em segundo lugar, na escrita da internet barreiras quase intransponíveis simplesmente deixam de existir. Se as editoras já hesitam em publicar textos de autores/as novos/as quando o tema não é controverso, imaginem quando se trata de um texto de temática lésbica. Em primeiro lugar, corre-se o risco de ninguém da editora dar bola para o seu original. Ele, nesse caso, ficaria sobre uma mesa (sob vários outros originais) durante algum tempo, para depois acabar sendo descartado (eufemismo para “jogado no lixo). E, caso alguém se dispusesse a folheá-lo, ao detectar o assunto “proibido”, descartaria (já sabem o que isso quer dizer) o original, sem dó nem piedade.
Mas esse panorama vem se modificando. No final do século passado algumas editoras resolveram apostar na temática homossexual, baseadas em experiências, que deram certo, feitas na Europa e nos EUA. Surgiu o selo GLS, do Grupo Editorial Summus, que publicava livros gays e lésbicos, e o selo Alethéa, da Editora Brasiliense, que publicava livros de temática lésbica. Depois disso, mais recentemente (já no século XXI) Laura Bacellar fundou, em parceria com Hanna Korich, a Editora Malagueta, voltada exclusivamente para lésbicas.
Essas iniciativas foram um alívio para as meninas-autoras, que agora podem contar com editoras para onde podem enviar seus textos, sabendo que não serão descartados por serem textos lésbicos.
Autoras, originalmente da internet (como Karina Dias e Lara Lunna, por exemplo), vêm publicando livros como os “de antigamente”: no papel. Eu, como autora da “velha guarda”, nunca tive a experiência de publicar ficção na internet. Mas, sem dúvida, afirmo que ver seu texto lindinho, com uma capa maravilhosa, pegá-lo, cheirá-lo (sim. Sou viciada em cheirar livros novos.), autografá-lo no dia do lançamento, é uma experiência maravilhosa.
Quanto a textos não-ficcionais, digo que sinto muita satisfação em ver esta coluna recebendo comentários, provocando reflexões entre as leitoras mais diversas, dos lugares mais longínquos do meu bairro. Posso fazer uma leve ideia da sensação de publicar ficção desta maneira.
Claro que muitas autoras ainda estão apenas na internet. Obviamente nem todas desejam publicar em papel, preferindo o meio eletrônico; muitas ainda estão aprimorando seu estilo, sua escrita, ensaiando em blogs mais descompromissados, deixando para enviar seus textos quando sentirem segurança; outras, ainda, mesmo tendo publicado em papel, continuam a fazê-lo em meio eletrônico.
Na verdade, isso não importa. O que é muito bacana é o fato de que atualmente as leitoras lésbicas contam com uma fartura de textos inimaginável há tão pouco tempo.
Felizes são as meninas-leitoras de hoje que não precisam mais se utilizar de subterfúgios, colocando-se no lugar dos personagens masculinos, nem ler às escondidas os livros da única autora lésbica mais conhecida: Cassandra Rios.
Felizmente, por mais que a bancada evangélica permaneça no Governo, entra eleição, sai eleição, por mais que ainda exista muita gente homofóbica, os ventos estão soprando mais a nosso favor. A sociedade muda, a literatura muda, as pessoas mudam (não necessariamente nessa ordem) em uma relação dialógica, que tem nos favorecido. E quando digo “nos” favorecido, não me refiro somente às lésbicas, ou aos homossexuais. Esse “nos” se refere à sociedade em geral, pois onde os direitos individuais (seja de homossexuais ou de heterossexuais) são respeitados, há mais amor, mais dignidade, mais felicidade.


















Eu escrevo na internet, mas a história nem é original minha é uma “releitura” do casal Eleonora e Jenifer, da novela Senhora do Destino…
Peguei um amor imenso em escrever, tenho ideias para histórias minhas, mas Eleonora e Jenifer toma muito meu tempo ainda, rs
Quem sabe um dia alguma história minha não vá parar em alguma livraria por ai…
O primeiro “livro lésbico” que eu li foi “lado B” da propria Lucia, lembro que o livro abriu meus horizontes e inclusive me fez voltar a escrever e até a criar um blog onde eu escrevo as minhas impressoes do mundo gay diretamente do armário…rs
Leio e releio “lado b” todos os anos, é muito bom!
É muito saber que hoje nós temos acesso à literatura lésbica, na minha época, que não é uma época tão longíqua, realmente era mais dificil! Que bom que hoje é assim!
Um beijao para a autora!
Realmente, as portas e armários literários estão se abrindo…aliás, existe um livro bem gostosinho com o título: Armário sem portas, você já o leu?
Bj
Tenho um blog e quem quiser conferir meus textos, escrevo sobre o cotidiano e estou escrevendo um segundo livro que está disponível no blog para leitura free. O primeiro e o segundo, fiquem a vontade:
oamordealice.wordpress.com
Sem dúvida, os variados meios que propiciam a possibilidade de expressão escrita, escrita criativa, arte em suas múltiplas variações, libertação das almas, mentes, corações e abertura de novos caminhos e modos mais arejados no pensar e no sentir humano, são válidos e importantes!
Como tu, penso que nada é tão gostoso como ter e ver, sentir (e até cheirar!) o livro entre as mãos, poder tocar o papel, ver as letras impressas, apreciar a capa, curtir o lançamento e autografar!…
Também concordo que, antes de publicar livros impressos, vale a pena este exercício criativo feito nos blogs, na internet, no caderninho guardado na gaveta… para que haja lugar para o devido aprimoramento nesta arte, da literatura: também é importante buscar a qualidade da obra, do que se cria e oferece, além da liberdade!…
Hoje, o que se vê, tanto pensando na literatura com temática homoerótica quanto na literatura de todos os tipos, ou a Literatura, é uma grande diversidade de olhares mas, também, no nível dos escritos: pode-se encontrar de tudo, do banal ao realmente artístico e primoroso!…
Mais importante do que tudo, me parece, é perceber que a palavra , a arte, o amor continuam tendo lugar na vida das pessoas!
Abraços alados.
Ola Lucia! Seu texto pareceu estra descrevendo um sentimento (ou um sonho) que tenho de publicar um dia um livro. Disponibilizo meus textos no meu blog (almadecapitu.zip.net) e já estou no segundo, pois o primeiro (capitu-capitu.zip.net) ja nao tem mais espaço. Também sou viciada em cheiro de livro novo. Comprei vários títulos dessa nova geração de autoras de livros de papel, inclusive um teu. Espero um dia ter um livro meu publicado. PARABÉNS pelo teu talento!