Nada ficou no lugar
Depois de anos e anos de piadinhas e insinuações a respeito da homossexualidade de diversas cantoras brasileiras, finalmente uma delas – nada menos que Adriana Calcanhoto – saiu do armário e assumiu publicamente sua relação homoafetiva com a cineasta carioca Suzana de Moraes, filha do famoso compositor e escritor Vinícus de Moraes.
Ele, que sempre cantou e decantou as mulheres em seus poemas, deve estar orgulhoso da filha, que seguiu seus passos no quesito amor.
Elas já vivem juntas há anos, em Paris, onde oficializaram a união por meio de um procedimento já permitido por lá: a “ação de conhecimento voluntário”.
No dia 6 de setembro de 2010 elas realizaram o procedimento mais parecido com o que conhecemos como casamento no Brasil. Ajuizaram, na Justiça, uma declaração de união estável e fizeram uma festa para comemorar em sua casa no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro.
Há alguns anos, eu e minha companheira fizemos a mesma coisa, como já comentei em outro artigo (tirando a festa no chiquérrimo bairro). Há diferenças legais entre esse tipo de procedimento e o casamento? Sim. Há muitas, mas não é disso que desejo falar aqui.
Independente das questões legais, o que eu gostaria de ressaltar é a importância de uma mulher pública, respeitada no cenário musical, para adultos e crianças (quem não conhece a maravilhosa Adriana Partimpim?), ter assumido a homossexualidade, contrariando a prática da imensa maioria das mulheres que circulam em palcos, capas de revistas, programas de televisão etc, que preferem se manter dentro de armários apertados (alguns com portas de vidro) com medo de “prejudicarem a imagem” junto ao público.
Sempre fico me perguntando se elas não desconfiam que sua saída do armário poderia contribuir de forma extremamente positiva para a sociedade, mostrando a tod@s que existem mulheres lindas, famosas, bem sucedidas profissionalmente, que são homossexuais. Falta-lhes o sentido de solidariedade com tantas mulheres que vivem oprimidas pelo preconceito homofóbico. Como estão em uma posição confortável, encasteladas em seu sucesso, preferem se manter na moita, com medo de perderem sua fama, seus fãs, seus shows.
Moral da história: falta-lhes mesmo é confiança na qualidade de seu trabalho. Falta-lhes coragem para serem verdadeiras, o que, diga-se de passagem, deve ser bastante desconfortável e complicado. Sempre na mira de fotógrafos buscando fotos “quentes” e comprometedoras, devem “rebolar” para ocultar seus relacionamentos amorosos.
Adriana, ao contrário, segura do seu talento, mostrou ao público que ama outra igual e que isso é lindo.
Nenhuma mudança ocorreu em sua vida profissional. Ela continua discreta, simpática e agradável, arrastando fãs grandes e pequenos para seus shows. Continua agradando adultos e crianças com seu trabalho e sua simplicidade.
Agora, em relação ao cenário musical brasileiro, como diz, em uma de suas gravações, “nada ficou no lugar”. Nada mais será igual. Ela “quebrou as xícaras” ao ter a coragem de declarar publicamente seu amor por Suzana.
Em relação à sociedade brasileira, muito mais conservadora do que desejaríamos (ainda), ela “publicou seus segredos”. Mas eram segredos mesmo? Ela mentiu alguma vez? Que eu saiba, ela nunca declarou ser heterossexual. Nunca inventou um relacionamento com algum rapaz.
Segredos? Não. Ela, simplesmente, mostrou sua felicidade a quem quisesse ver.
Se eu já era sua fã, agora, além de admirar seu trabalho, admiro sua honestidade e coragem.
Espero que outras lésbicas influentes na mídia sigam os passos de Adriana e finalmente “entreguem suas mentiras”, saindo de seus confortáveis armários (que por mais confortáveis que sejam, ainda são prisões sufocantes) por reconhecerem que podem aproveitar a posição de destaque para ajudar a construir uma sociedade menos preconceituosa e mais solidária.






















Realmente, não cabe publicizar quem se leva pra cama. Mas, aqui, estamos falando de um relacionamento que vai muito além disso. Trata-se de relação afetiva, familiar, de compartilhamento. E, aí, cabe levar a público, sim, para se pleitear direitos que o Estado nos nega: desde o simples acompanhamento do(a) companheiro(a) em um hospital até o direito de adoção conjunta, de herança, de previdência, de divisão de bens, de financiamento conjunto, e tantos outros.
Abraços em todas vcs
Fiquei feliz por mais uma grande mulher falar abertamente da sua vida.
Engraçado, ontem mesmo conversando com minha mulher, falei sobre esse assunto. Não sou militante, não sou de levantar bandeiras, mas uma coisa eu faço questão de fazer, de falar de forma absolutamente natural do assunto que é como desejo ser tratada pelos outros, de forma natural.
Achei uma atitude linda e digna de alguém tão grande quanto a Adriana.
Eu não sabia que ela era lésbica. o.O”
Pôoo! rsrsrs
Eu simplesmente falei um “com certeza” na parte do texto e que diz: “Moral da história: falta-lhes mesmo é confiança na qualidade de seu trabalho.”
Se elas tivessem confiança em si memas, se também não ficassem “atrás do armário”, o preconceito viria abaixo pois, não há propagação melhor que a mídia; ainda mais vindo de um famoso conceituado!
Parabéns Lúcia, você como sempre com textos objetivos!
Na verdade não entrei pra dizer isso…
Aproveitando o “sair do armário”, tenho mostrado à minha sobrinha como o relacionamento homo. femin. é possível! As bonecas dela “tem relaçoes amorosas” umas com as outras. Mostro que elas podem se beijar e se abraçar como podem os casais mulher/homem. Ela tem 2 anos. Estou agindo de forma precipitada??
Obrigada!
Um beijo!
Falam do “eu” , da “outra”…de forma poética!
Ora, é óbvio que acho ótimo que uma pessoa da categoria da genial Adriana Calcanhoto não esconda seu relacionamento com a igualmente ótima cineasta Suzana de Moraes. É bom para a causa? Claro! Ajuda a acabar com o estranhamento que a lesbianidade ainda gera? Certamente! Mas a Adriana, assim como qualquer outra artista, não tem obrigação em nos carregar nas costas.
Em questão de relacionamento amoroso, temos obrigações com nós mesmas! Imagino que a elegante Adriana Calcanhoto não saiu do armário para “ajudar outras lésbicas oprimidas”, o fez por pura sinceridade consigo mesma. A pergunta ideal me parece: “Por que esconder a mulher que ela ama?” em lugar de “Por que esconder que ela é lésbica se pode ajudar outras mulheres que amam mulheres?”
Acho um tédio essa cobrança que fazemos para os artistas se assumirem.
Agradeço a todas pelos comentários.
Realmente, a vida sexual de cada um não é do interesse de ninguém, porém, isso é muito mais do que sexualidade. É afetividade, é vivenciar a própria homoafetividade com naturalidade.
Não “assumir” publicamente a homossexualidade, geralmente, implica em mentir e não apenas em omitir.
As pessoas que se projetam socialmente, seja por sua arte, ou por outras questões, estão em uma posição em que precisam tomar muito cuidado com suas atitudes, pois, queiram ou não, elas exercem muita influência sobre o público (esse é um dos preços da fama).
Eu acho que ninguém tem a obrigação de sair do armário, mas ficaria muito feliz se a maioria dos artistas não tivesse tanta preocupação de ocultar sua homoafetividade, pois isso é um sinal claro de que consideram sua própria preferência afetivo-sexual como algo errado, já que precisa ser escondido do público.
Concordo plenamente com vc. Ela não saiu do armário “pela causa”, mas sim por não considerar sua homossexualidade como uma aberração que precisa ser “disfarçada”.
É justamente aí que está a beleza da sua atitude. Ela foi sincera consigo mesma.
Há muitos artistas heterossexuais extremamente discretos, mas o público sabe se eles são casados, se têm filhos, se estão namorando alguém. Por outro lado, a maioria dos artistas homossexuais é vista como assexuada, já que nunca namora, ou casa. Isso deixa margem para que as pessoas fofoqueiras (leitoras de lixos como a Caras ou a Quem) desconfiem da homossexualidade desses artistas.
Na verdade, eles vivem em cristaleiras e não em armários, já que as portas são de vidro bem transparente.
Logo, o público conclui que se Fulano ou Sicrana finge ser heterossexual, é pq ser homossexual não é algo legal, bacana, entendeu?
Infelizmente (para elas) ao se destacar na multidão, as pessoas passam a ter uma responsabilidade muito maior do que a minha ou a sua. Tudo oq elas fazem é observado, comentado, e, muitas vezes, seguido.
Para mim tanto faz quem assume ou deixa de assumir, porque eu acho, sinceramente, que, apesar da questão da influência sobre o público, viver se escondendo é muito pior para quem se esconde.
Mas cada vez que alguma pessoa pública sai do armário, acho que é um motivo de comemorarmos.
Acho tão bonito ver um relacionamento duradouro! Hj em dia isso eh tão dificil <3
Ihihi, acho engraçado dizer que o relacionamento das duas eh "homoafetivo" …me soa como se um relacionamento homossexual não fosse só um relacionamento, igual a qualquer outro…
É só amor <3
Nhoun, felicidades pra Adriana