Dia desses, passei por uma situação estranha. Presenciei um ato de homofobia internalizada. Poderia dizer assim? Ou seria melhor chamar de “auto-homofobia”?
Vi uma lésbica negar, de pés juntos, sua homossexualidade, como se isso fosse uma grande vergonha. Daí, fiquei pensando que, como ela, existem muit@s homossexuais homofóbicos e podemos ver isso em várias situações. Desde a lésbica “feminina” que diz não entender as lésbicas “masculinas” até a lésbica que se relaciona sexualmente e afetivamente apenas com homens e está constantemente infeliz por isso.
É impressionante, mas esse tipo de coisa acontece muito. O motivo? É fácil entender. Nascemos, crescemos e vivemos em uma sociedade heterossexual. Desde pequen@s somos induzid@s à heterossexualidade e a pensar que qualquer coisa diferente disso é “anormal”.
Quando pequen@s somos direcionad@s em nossas brincadeiras, nas cores de nossas roupas, das paredes de nossos quartos. “Menina brinca de boneca e usa rosa; menino brinca de bola e carrinho e veste azul”.
Na maioria das escolas ainda praticamos esportes separad@s: meninas jogam vôlei, meninos futebol; essa indefectível construção de gênero nos diz o que podemos, não podemos, devemos e não devemos fazer.
Quando a professora lê (ou nos manda ler) alguma história em que haja namoro, este sempre é heterossexual. Na hora do recreio, podemos ouvir os xingamentos mais comuns: “Viado!” “Boiola!” Ou seja, qualquer referência à homossexualidade, ou apenas a comportamentos considerados inadequados para nosso sexo biológico, é feita de maneira extremamente pejorativa.
Podemos concluir que seria um espanto se conseguíssemos considerar a homossexualidade como algo natural. Pois é! Não conseguimos. Pelo menos não imediatamente. Precisamos, antes de nos sentirmos completamente à vontade com o nosso desejo “diferente”, nos libertar de séculos de influência cultural. E isso definitivamente não é nada fácil.
A mídia nos massacra diariamente com suas imposições. Precisamos ser lind@s. Precisamos ser magr@s. Precisamos comer porcaria (como ser linda e magra, então?). Precisamos estudar para “vencer na vida”. A mulher precisa aprender as 20 novas dicas para segurar seu homem, enquanto o homem precisa ter uma conta super especial no banco para ter sucesso com as mulheres.
Precisamos disso, daquilo; precisamos consumir e produzir. Precisamos cumprir nosso papel e não faz parte dele um comportamento sexual diferente dos padrões estabelecidos há séculos atrás.
As mudanças são leeeentas, muito leeeeeentas. Como exemplo cristalino, podemos citar o fato de as mulheres terem se libertado do serviço do lar. Mas elas se libertaram mesmo? Óbvio que não. Tantos anos após o início do Movimento Feminista, ainda vemos muitas mulheres (lamento dizer que ainda é a maioria) trabalhando fora, mas mantendo a responsabilidade sobre todas as tarefas da casa e dos cuidados com os filhos.
A imposição cultural é muito forte. Os discursos femininos ainda estão completamente atrelados aos ideais machistas, assim como os discursos d@s homossexuais ainda estão atrelados aos ideais heterossexuais.
As consequências disso são terríveis. Podem ser, inclusive, fatais. Muit@s homossexuais acabam se suicidando, ou matando outros homossexuais em crimes de ódio contra si mesmos, ou melhor, contra seus desejos indesejados/indesejáveis.
Nenhuma teoria a respeito de crimes contra homossexuais me convenceria de que o motivo que leva a esses crimes é a homofobia internalizada. Jovens que saem por aí batendo em homossexuais desconhecidos, certamente sofrem de homofobia internalizada. Sentem desejo por outr@s iguais e odeiam aquel@s que, ao contrário del@s, têm a coragem de realizar esse desejo.
Quando se falou em “Orgulho Gay”, há tantos anos, havia a intenção clara de se retrabalhar essa homofobia internalizada, essa “vergonha” de algo que não deveria envergonhar ninguém.
A intenção política é clara e coerente. Cada vez que se fala em “orgulho gay” não se quer convencer os heterossexuais da naturalidade de nossos desejos; o que se deseja é convencer os próprios homossexuais.
Cada gay, cada lésbica que deixa de se sentir diminuíd@ por ser homossexual, passa a ser um ser humano mais completo e verdadeiro. Cada vez que alguém sai do armário de cabeça erguida, algum homofóbico para e pensa se a homossexualidade é errada mesmo, ou se apenas fomos adestrados para achar isso.
Antes de querermos que o nosso desejo seja encarado de maneira natural, nós devemos fazer isso, pois quando deixarmos de pedir desculpas por sermos homossexuais, certamente as coisas mudarão. E para melhor.



















..Maaas enfiim..Muiito boa a coluna.! (;
Beijô
Acredito que enquanto nós mesmos não nos aceitarmos e reconheceremos, não poderemos jamais requerer essa postura de outros.
Acredito que já não é sem tempo dos homossexuais colocarem a cara a tapa e dizer: “eu sou lésbica/gay e me orgulho por isso”.
A felicidade que aquela pessoa nos causa independente do sexo, é o que nos moverá a lutar por nosso espaço, e porque eu digi isso? Simples retratação: como você se sentiria vendo a sua namorada ser chamadas de sapatão nojenta? o que voce faria? bateria? xingaria?
Eu já estive nessa situação e como eu reagi? Simplesmente a lembrei do quanto ela é esssencial pra minha vida e que aquela pessoa jamais teria a sorte que nós temos de ter alguem para amar.
Acredito que tanto quanto o movimento feminista fez diferenças, é chegada a hora do movimento lésbico reivindicar o seu lugar e principalmente, respeito.
Logo veio a minha mente: para aquelas pessoas que sempre conviveram comigo, ou me viram crescer, ou convivem comigo abram suas mentes e percebam que HOMOSSEXUAIS SÃO “NORMAIS” que isso não muda, não altera e não faz de mim uma pessoa “anormal”. Lembro que passei um bom tempo tendo que convencer a minha mãe que nada mudou, que a educação que ela me deu continua comigo, que meus gostos, desejos, defeitos continuam os mesmos, que eu sou a pessoa que sempre fui, sendo que agora com muito mais transparência, sinceridade.
Essa parte diz tudo: “…Quando se falou em “Orgulho Gay”, há tantos anos, havia a intenção clara de se retrabalhar essa homofobia internalizada, essa “vergonha” de algo que não deveria envergonhar ninguém.
A intenção política é clara e coerente. Cada vez que se fala em “orgulho gay” não se quer convencer os heterossexuais da naturalidade de nossos desejos; o que se deseja é convencer os próprios homossexuais…”
É isso mesmo é tão bom ser quem somos, viver com as consciência tranquila, sermos sinceros conosco, como diz o slogan de uma boate aqui em recife é muito bom sermos “LIVRES E MODERNOS”
Bjo Lúcia, ótimo texto
Certo dia na universidade debatíamos um assunto envolvendo o movimento feminista e o movimento lésbico, eu sempre muito cabeça aberta e defensora dos direitos humanos e tralálá, saí com algum comentário que já não me lembro, mas a resposta de uma colega (naquela época, ainda no armário e com a homofobia internalizadissíma) respondeu: Ah mas vc não pode nem falar nada, afinal vc é lésbica…
Eu nunca havia dito á ela que eu era lésbica, eu nunca havia comentado nada a respeito da minha vida com ela, obviamente todos na minha sala sabiam, pois sou assumida, mas ela sentiu-se no direito de expor a minha condição sexual no tom mais negativo possível como se eu sendo lésbica não pudesse e nem tivesse direito de opinar… Mas e eu? As minhas idéias, os meus ideais, o meu modo de penser distinto da minha sexualidade… Onde ficam? Como se o único prisma da minha identidade fosse a sexualidade, e por isso não tinha o direito de opinar…
Calmamente respondi: Mesmo sendo lésbica ainda estou segurada pela constituição meu intenso direito de ser livre em todos os aspectos, inclusive o de opinar…
Deixo aqui uma simples conclusão, antes de sermos lésbicas ou hetero, mulheres ou homens, negr@s ou branc@s, somos seres humanos dotados de vidas que se igualam na diferença…
..ooow taalvez ela pode ter escondiidoo de algueem,pelo faato da pessoa conhecer ela,a Familiia dela,algueem conhecido q nao poderia saber q ela é homossexual..Isso acontece muiito msmo.
‘ Ela poode teer medo de algueem descobrir e nao aceitaar,pelo fato grande do preconceiito.!!!
Lucia, seu texto está demais! Ele é sincero e inspirador. Você conseguiu traduzir um desejo e uma missão, em que venho trabalhando. E mais, vejo que somos os únicos com poder de acabar com a homofobía. Portanto, vamos mostrar para todos aqueles que precisarem, a nossa melhor parte!
Adorei o texto, assim como os outros do PL.
beijos.
Eu só teria a acrescentar outro tipo de homofobia internalizada: a quase esquizofrenia que existe em relação a certos papeis de gênero. Existem várias meninas que só aceitariam ficar com outra se for uma guria tipo bonequinha barbie. Dessa forma, desprezam-se aquelas que tem algum traço de masculinidade, seja maior ou menor. A rejeição a pessoas que fogem do padrão de gênero ainda é muito presente, porque tem gente que não quer ter muita proximidade com alguem que é caminhoneira ou viadinho pintoso.
Mas, se não me engano, esse tema já foi abordado em outra coluna daqui do PL.
Beijos.
Quase esquisofrenia?
Não entendi muito bem essa analogia…
Pois bem, acho que devemos evitar fazer esse tipo de comparação… Esquisofrenia é uma doença, uma pessoa que tem problemas com o padrão de gênero não é uma pessoa doente, e não existe uma “quase esquisofrenia”.
Obviamente esse receio, preconceito ou aversão que certas mulheres tem em se envolver com mulheres que fogem do padrão pode ter vários outros motivos, mas certamente não se enquadra em doença ou qualquer coisa do genêro…
Acho que devemos entender que nem todas as lésbicas são atraídas pelas mesmas características umas nas outras, assim como existem meninas que gostam de meninas masculinas existem aquelas que gostam de femininas…
Porém quando se caí em extremos complica, isso é caso de preconceito e não de doença, e preconceito se “trata” com informação…
precisamos de mais textos assim! que relacionem explicitamente a sociedade com o “nosso mundo gay”. simplesmente porque muitos se deparam com o preconceito, mas não sabem daonde vem, como vem, e como isso é internalizado facilmente desde que nascemos.
parabens.
posso colocar no meu perfil do orkut?
hahaha.
Mas o fato é que existe muita homofobia internalizada. Quantas vezes eu não vi gays desmerecendo os “afeminados”, e lésbicas falando: Eu não fico com “butches” (em tom depreciativo). Não sei até que ponto isso faz parte do processo de aceitação de si próprio, porque muitos gays e lésbicas não superam essa fase. Penso que esse tipo de “preconceito intragays” tem também um pezinho no machismo, e no que a sociedade convencionou como correto para homens e mulheres. “Como assim um homem querendo se rebaixar ao papel de uma mulher?” (no caso de preconceito contra os gays “afeminados”).
Como já disseram é um belo texto, bastante inspirador. Não devemos ter vergonha do que somos, devemos ter orgulho; não devemos nos esconder, devemos ser sinceras. Se der vontade de beijar sua namorada em público, beije. Ao invés de ficarmos pensando no que os outros (que muitas vezes nem conhecemos) irão pensar, devíamos colocar nossa felicidade em primeiro lugar.
vídeo – http://www.youtube.com/watch?v=1CQg9f7z9eg&feature=youtu.be
letra – http://www.katiegoodman.com/Lyrics-Probably-Gay
bjus