Homofobia Internalizada

Lúcia Facco 31/01/2011 21

Afinal o que é isso?

Dia desses, passei por uma situação estranha. Presenciei um ato de homofobia internalizada. Poderia dizer assim? Ou seria melhor chamar de “auto-homofobia”?

Vi uma lésbica negar, de pés juntos, sua homossexualidade, como se isso fosse uma grande vergonha. Daí, fiquei pensando que, como ela, existem muit@s homossexuais homofóbicos e podemos ver isso em várias situações. Desde a lésbica “feminina” que diz não entender as lésbicas “masculinas” até a lésbica que se relaciona sexualmente e afetivamente apenas com homens e está constantemente infeliz por isso.

É impressionante, mas esse tipo de coisa acontece muito. O motivo? É fácil entender. Nascemos, crescemos e vivemos em uma sociedade heterossexual. Desde pequen@s somos induzid@s à heterossexualidade e a pensar que qualquer coisa diferente disso é “anormal”.

Quando pequen@s somos direcionad@s em nossas brincadeiras, nas cores de nossas roupas, das paredes de nossos quartos. “Menina brinca de boneca e usa rosa; menino brinca de bola e carrinho e veste azul”.

Na maioria das escolas ainda praticamos esportes separad@s: meninas jogam vôlei, meninos futebol; essa indefectível construção de gênero nos diz o que podemos, não podemos, devemos e não devemos fazer.

Quando a professora lê (ou nos manda ler) alguma história em que haja namoro, este sempre é heterossexual. Na hora do recreio, podemos ouvir os xingamentos mais comuns: “Viado!” “Boiola!” Ou seja, qualquer referência à homossexualidade, ou apenas a comportamentos considerados inadequados para nosso sexo biológico, é feita de maneira extremamente pejorativa.

Podemos concluir que seria um espanto se conseguíssemos considerar a homossexualidade como algo natural. Pois é! Não conseguimos. Pelo menos não imediatamente. Precisamos, antes de nos sentirmos completamente à vontade com o nosso desejo “diferente”, nos libertar de séculos de influência cultural. E isso definitivamente não é nada fácil.

A mídia nos massacra diariamente com suas imposições. Precisamos ser lind@s. Precisamos ser magr@s. Precisamos comer porcaria (como ser linda e magra, então?). Precisamos estudar para “vencer na vida”. A mulher precisa aprender as 20 novas dicas para segurar seu homem, enquanto o homem precisa ter uma conta super especial no banco para ter sucesso com as mulheres.

Precisamos disso, daquilo; precisamos consumir e produzir. Precisamos cumprir nosso papel e não faz parte dele um comportamento sexual diferente dos padrões estabelecidos há séculos atrás.

As mudanças são leeeentas, muito leeeeeentas. Como exemplo cristalino, podemos citar o fato de as mulheres terem se libertado do serviço do lar. Mas elas se libertaram mesmo? Óbvio que não. Tantos anos após o início do Movimento Feminista, ainda vemos muitas mulheres (lamento dizer que ainda é a maioria) trabalhando fora, mas mantendo a responsabilidade sobre todas as tarefas da casa e dos cuidados com os filhos.

A imposição cultural é muito forte. Os discursos femininos ainda estão completamente atrelados aos ideais machistas, assim como os discursos d@s homossexuais ainda estão atrelados aos ideais heterossexuais.

As consequências disso são terríveis. Podem ser, inclusive, fatais. Muit@s homossexuais acabam se suicidando, ou matando outros homossexuais em crimes de ódio contra si mesmos, ou melhor, contra seus desejos indesejados/indesejáveis.

Nenhuma teoria a respeito de crimes contra homossexuais me convenceria de que o motivo que leva a esses crimes é a homofobia internalizada. Jovens que saem por aí batendo em homossexuais desconhecidos, certamente sofrem de homofobia internalizada. Sentem desejo por outr@s iguais e odeiam aquel@s que, ao contrário del@s, têm a coragem de realizar esse desejo.

Quando se falou em “Orgulho Gay”, há tantos anos, havia a intenção clara de se retrabalhar essa homofobia internalizada, essa “vergonha” de algo que não deveria envergonhar ninguém.

A intenção política é clara e coerente. Cada vez que se fala em “orgulho gay” não se quer convencer os heterossexuais da naturalidade de nossos desejos; o que se deseja é convencer os próprios homossexuais.

Cada gay, cada lésbica que deixa de se sentir diminuíd@ por ser homossexual, passa a ser um ser humano mais completo e verdadeiro. Cada vez que alguém sai do armário de cabeça erguida, algum homofóbico para e pensa se a homossexualidade é errada mesmo, ou se apenas fomos adestrados para achar isso.

Antes de querermos que o nosso desejo seja encarado de maneira natural, nós devemos fazer isso, pois quando deixarmos de pedir desculpas por sermos homossexuais, certamente as coisas mudarão. E para melhor.

21 Comentários »

  1. Vanessa 31/01/2011 at 22:20 - Reply
    ‘ E se continuuar assim,como essa garoota q escondeu sua Homossexualidade, a sociedadee só vaai crescendo em vez de diminuiir esse preconceito besta.!–’

    ..Maaas enfiim..Muiito boa a coluna.! (;

    Beijô

  2. Pamela 31/01/2011 at 22:22 - Reply
    Concordo plenamente.
    Acredito que enquanto nós mesmos não nos aceitarmos e reconheceremos, não poderemos jamais requerer essa postura de outros.
    Acredito que já não é sem tempo dos homossexuais colocarem a cara a tapa e dizer: “eu sou lésbica/gay e me orgulho por isso”.
    A felicidade que aquela pessoa nos causa independente do sexo, é o que nos moverá a lutar por nosso espaço, e porque eu digi isso? Simples retratação: como você se sentiria vendo a sua namorada ser chamadas de sapatão nojenta? o que voce faria? bateria? xingaria?
    Eu já estive nessa situação e como eu reagi? Simplesmente a lembrei do quanto ela é esssencial pra minha vida e que aquela pessoa jamais teria a sorte que nós temos de ter alguem para amar.

    Acredito que tanto quanto o movimento feminista fez diferenças, é chegada a hora do movimento lésbico reivindicar o seu lugar e principalmente, respeito.

  3. aninhaaruen 31/01/2011 at 23:32 - Reply
    vejo isso direto,um monte de gente negando ser gay(sendo que é obvio que é…) o estranho é quando até os pais aceitam mas a pessoa continua negando…ótimo texto!! bjss
  4. Paty Regina 01/02/2011 at 01:41 - Reply
    Enquanto lia esse belo texto comecei a me perguntar pq eu quis me assumir e enfretar todo e qualquer desafio?

    Logo veio a minha mente: para aquelas pessoas que sempre conviveram comigo, ou me viram crescer, ou convivem comigo abram suas mentes e percebam que HOMOSSEXUAIS SÃO “NORMAIS” que isso não muda, não altera e não faz de mim uma pessoa “anormal”. Lembro que passei um bom tempo tendo que convencer a minha mãe que nada mudou, que a educação que ela me deu continua comigo, que meus gostos, desejos, defeitos continuam os mesmos, que eu sou a pessoa que sempre fui, sendo que agora com muito mais transparência, sinceridade.

    Essa parte diz tudo: “…Quando se falou em “Orgulho Gay”, há tantos anos, havia a intenção clara de se retrabalhar essa homofobia internalizada, essa “vergonha” de algo que não deveria envergonhar ninguém.
    A intenção política é clara e coerente. Cada vez que se fala em “orgulho gay” não se quer convencer os heterossexuais da naturalidade de nossos desejos; o que se deseja é convencer os próprios homossexuais…”

    É isso mesmo é tão bom ser quem somos, viver com as consciência tranquila, sermos sinceros conosco, como diz o slogan de uma boate aqui em recife é muito bom sermos “LIVRES E MODERNOS”

    Bjo Lúcia, ótimo texto

  5. Jackie 01/02/2011 at 09:38 - Reply
    Auto-Aceitação…Como ser “normal” quando o mundo te diz o contrário? A homofobia internalizada provém não só da não auto-Aceitação como também da supervalorização que se dá á sexualidade das pessoas em nossa sociedade como se o que desejamos interferisse no caráter e na nossa personalidade…

    Certo dia na universidade debatíamos um assunto envolvendo o movimento feminista e o movimento lésbico, eu sempre muito cabeça aberta e defensora dos direitos humanos e tralálá, saí com algum comentário que já não me lembro, mas a resposta de uma colega (naquela época, ainda no armário e com a homofobia internalizadissíma) respondeu: Ah mas vc não pode nem falar nada, afinal vc é lésbica…

    Eu nunca havia dito á ela que eu era lésbica, eu nunca havia comentado nada a respeito da minha vida com ela, obviamente todos na minha sala sabiam, pois sou assumida, mas ela sentiu-se no direito de expor a minha condição sexual no tom mais negativo possível como se eu sendo lésbica não pudesse e nem tivesse direito de opinar… Mas e eu? As minhas idéias, os meus ideais, o meu modo de penser distinto da minha sexualidade… Onde ficam? Como se o único prisma da minha identidade fosse a sexualidade, e por isso não tinha o direito de opinar…

    Calmamente respondi: Mesmo sendo lésbica ainda estou segurada pela constituição meu intenso direito de ser livre em todos os aspectos, inclusive o de opinar…

    Deixo aqui uma simples conclusão, antes de sermos lésbicas ou hetero, mulheres ou homens, negr@s ou branc@s, somos seres humanos dotados de vidas que se igualam na diferença…

  6. Vanessa 01/02/2011 at 09:41 - Reply
    ‘ Olha eu de novo..rsrs

    ..ooow taalvez ela pode ter escondiidoo de algueem,pelo faato da pessoa conhecer ela,a Familiia dela,algueem conhecido q nao poderia saber q ela é homossexual..Isso acontece muiito msmo.
    ‘ Ela poode teer medo de algueem descobrir e nao aceitaar,pelo fato grande do preconceiito.!!!

  7. Raphael 01/02/2011 at 12:37 - Reply
    Olá!
    Lucia, seu texto está demais! Ele é sincero e inspirador. Você conseguiu traduzir um desejo e uma missão, em que venho trabalhando. E mais, vejo que somos os únicos com poder de acabar com a homofobía. Portanto, vamos mostrar para todos aqueles que precisarem, a nossa melhor parte!
  8. Fabiana 01/02/2011 at 13:29 - Reply
    Bom, eu tenho 16 anos e estou a pouco tempo me relacionando com uma mulher. Como sou menor de idade atualmente não posso sair do armario sendo que moro com meus pais. porem não tenho vergonha de ser lesbica ou de amar minha namorada. Ainda não sei como contar com meus pais por que sei que eles são homofobicos e qual seria a reação deles. Acho que só vou sair do armario de fato quando tiver independicia financeira ou quando meus pais conseguirem entender que eu continuo sendo a filha deles, que não deixei de ser mulher só por amar outra.

    Adorei o texto, assim como os outros do PL.
    beijos.

  9. Débora 01/02/2011 at 15:21 - Reply
    Muito bom este texto. Conseguiu discernir muito bem essa delicada questão da homofobia interna.
    Eu só teria a acrescentar outro tipo de homofobia internalizada: a quase esquizofrenia que existe em relação a certos papeis de gênero. Existem várias meninas que só aceitariam ficar com outra se for uma guria tipo bonequinha barbie. Dessa forma, desprezam-se aquelas que tem algum traço de masculinidade, seja maior ou menor. A rejeição a pessoas que fogem do padrão de gênero ainda é muito presente, porque tem gente que não quer ter muita proximidade com alguem que é caminhoneira ou viadinho pintoso.
    Mas, se não me engano, esse tema já foi abordado em outra coluna daqui do PL.
    Beijos.
    • Dhieine 01/02/2011 at 16:15 - Reply
      Débora…
      Quase esquisofrenia?
      Não entendi muito bem essa analogia…
      Pois bem, acho que devemos evitar fazer esse tipo de comparação… Esquisofrenia é uma doença, uma pessoa que tem problemas com o padrão de gênero não é uma pessoa doente, e não existe uma “quase esquisofrenia”.
      Obviamente esse receio, preconceito ou aversão que certas mulheres tem em se envolver com mulheres que fogem do padrão pode ter vários outros motivos, mas certamente não se enquadra em doença ou qualquer coisa do genêro…

      Acho que devemos entender que nem todas as lésbicas são atraídas pelas mesmas características umas nas outras, assim como existem meninas que gostam de meninas masculinas existem aquelas que gostam de femininas…
      Porém quando se caí em extremos complica, isso é caso de preconceito e não de doença, e preconceito se “trata” com informação…

  10. Débora 01/02/2011 at 18:49 - Reply
    Calma, não quis ofender os esquizofrênicos. A expressão acabou saindo do meu pensamento na pressa e eu fui infeliz em colocá-la. Peço desculpas e reitero que não quis ofender nenhuma categoria.
    • Dhieine 03/02/2011 at 11:10 - Reply
      Fica tranquila, entendi ta colocação, só questionei pra ficar claro… Entende? Desculpe se não fui mais amena da minha colocação…
  11. Leticia 01/02/2011 at 20:10 - Reply
    olá! seu texto está demais!
    precisamos de mais textos assim! que relacionem explicitamente a sociedade com o “nosso mundo gay”. simplesmente porque muitos se deparam com o preconceito, mas não sabem daonde vem, como vem, e como isso é internalizado facilmente desde que nascemos.
    parabens.
    posso colocar no meu perfil do orkut?
    hahaha.
  12. Dani 01/02/2011 at 23:14 - Reply
    Me identifiquei muito com isso…eu não tenho nada contra lésbicas…já me relacionei com homens e hoje amo perdidamente uma mulher. Vamos nos casar esse ano. Mas ainda não me aceito completamente ou pelo menos, me sinto muito pressionada. Meus pais, amigos, parentes, colegas de trabalho….todo mundo fica perguntando porque não apareço com homens, ficam depreciando lésbicas qd veêm uma. Fico muito triste. E qd vejo um casal hetero feliz andando pela rua..fico pensando que isso nao vai acontecer comigo. É triste…hoje eu entendo porque tem gente que se mata por causa disso.
  13. Ana Clara 01/02/2011 at 23:50 - Reply
    Acho que a (re)afirmação da sexualidade a todo momento pode ser negativa. Ser gay ou lésbica não faz uma pessoa ser mais ou menos especial; nesse sentido concordo que existe uma hiperexpansão da importância da sexualidade na nossa sociedade. Penso que o ideal é se assumir (falar: eu sou gay!) com as pessoas mais próximas, sem que sua sexualidade se torne sua única característica.

    Mas o fato é que existe muita homofobia internalizada. Quantas vezes eu não vi gays desmerecendo os “afeminados”, e lésbicas falando: Eu não fico com “butches” (em tom depreciativo). Não sei até que ponto isso faz parte do processo de aceitação de si próprio, porque muitos gays e lésbicas não superam essa fase. Penso que esse tipo de “preconceito intragays” tem também um pezinho no machismo, e no que a sociedade convencionou como correto para homens e mulheres. “Como assim um homem querendo se rebaixar ao papel de uma mulher?” (no caso de preconceito contra os gays “afeminados”).

    Como já disseram é um belo texto, bastante inspirador. Não devemos ter vergonha do que somos, devemos ter orgulho; não devemos nos esconder, devemos ser sinceras. Se der vontade de beijar sua namorada em público, beije. Ao invés de ficarmos pensando no que os outros (que muitas vezes nem conhecemos) irão pensar, devíamos colocar nossa felicidade em primeiro lugar.

  14. 02/02/2011 at 01:19 - Reply
    Sempre adoro seus textos, Lúcia!
  15. Nykha 02/02/2011 at 17:31 - Reply
    Falou TUDO!
  16. Cy 04/02/2011 at 13:43 - Reply
    Não concordo que a lésbica que só aceita ter relacionamentos com mulheres femininas é preconceituosa. Eu sou feminina e me atraio exclusivamente por mulheres como eu, por isso vai ser muito difícil eu ter alguma coisa com uma menina mais masculinizada. Mas isso não significa que seja preconceituosa, é apenas o meu gosto/desejo e não vou passar por cima dele.
    • belisa 05/02/2011 at 00:05 - Reply
      Concordo com vc. Não é questão de preconceito no caso, e sim de preferência. Assim como heteros que não curtem determinados tipos de pessoas, não se sentem atraídos e fim.
  17. Tibet 06/02/2011 at 23:23 - Reply
    Lúcia, muito bom e preciso seu texto, fiquei aqui pensando que todo comportamento que aponte uma liberdade em relação aos padrões pré estabelecidos provocam reações muito radicais, principalmente nas pessoas que passaram a vida tentando se adequar… se adaptar, às vezes pagando preços altos por esta escolha! vejo um padrão reativo mas também inveja, e como muitas vezes é “inconsciente”… ( leia-se: não posso admitir!), um mundo de teorias e justificativas são engendradas…
  18. D. 02/04/2012 at 19:56 - Reply
    Sempre um ótimo texto… vou compartilhar então algo leve e engraçadinho sobre o mesmo assunto:

    vídeo – http://www.youtube.com/watch?v=1CQg9f7z9eg&feature=youtu.be

    letra – http://www.katiegoodman.com/Lyrics-Probably-Gay

    bjus

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