O que não escolhemos

Silvia Kiss 30/01/2011 9
Muitas questões podem ser escolhidas e alteradas ao longo do tempo, das coisas mais simples, como a cor do cabelo, o estilo da roupa que vamos vestir, até questões mais complexas como escolher os amigos que nos acompanharão pela vida, o marido ou a esposa, se vamos querer ter filhos, a profissão que vamos seguir, a religião que mais nos agrada, se vamos ser honestos ou desonestos, se vamos ser mentirosos ou verdadeiros, se vamos ter bom caráter ou não e por aí vai.

A homossexualidade, assim como a bissexualidade, a transexualidade e a heterossexualidade não é algo que escolhemos desenvolver ao longo da vida. Trata-se de uma característica nata, isto é, nascemos com um tipo de orientação sexual e só a descobriremos durante o nosso crescimento, com a ajuda das experiências que tivermos. O que pode ser escolhido, neste caso, é se vamos aceitar ou não a nossa orientação sexual e que tipo de relações afetivas teremos.

As pessoas costumam generalizar e atribuir problemas psicológicos e sociais aos homossexuais e transexuais, pois muitos ainda acreditam ser algum tipo de desvio moral,  de personalidade, falta de uma boa educação, traumas de infância e outros absurdos, mas o que poucos conseguem perceber é que o maior causador de transtornos psicológicos e sociais entre os homossexuais é a discriminação.

O grande mal é deixar que as pessoas julguem o que é melhor para os outros, baseando-se em idéias e escritos antiquados, em religiões que cegam, em arrogância e fobias infundadas. São essas concepções que devem ser alteradas para uma aceitação maior, um respeito pela vida e sua diversidade cultural, racial, social, sexual, entre tantas outras.

Não estamos violando nada, não prejudicamos a ninguém, não estamos revolucionando coisa alguma, pois a diversidade sexual existe, sempre existiu e sempre existirá. Este é um fato que sociedade alguma tem como negar, então o que resta é aceitar e reparar um erro que tem se repetido por séculos, que é negar a igualdade de direitos  aos homossexuais e criminalizar a homofobia.

Criar um novo conceito dá trabalho e leva tempo, mas se não começarmos de algum modo, estaremos perpetuando crimes bárbaros como os de “estupro corretivo” que vem acontecendo na África do Sul, por exemplo. No Brasil ainda é comum ver gays e lésbicas apanhando nas ruas, fazendo com que um simples beijo em público ou andar de mãos dadas seja algo arriscadíssimo de se fazer.

A homossexualidade é tão natural e espontânea quanto a heterossexualidade, isto é, fomos concebidos assim e educação alguma altera a orientação sexual de uma pessoa. Heterossexuais que possuem segurança no que sentem, que tem a convicção de que nasceram assim e que não irão mudar sua orientação sexual, conseguem entender que o mesmo ocorre com os homossexuais e sabem respeitá-los mesmo não entendendo como ocorre essa diferença.

Quem acredita que é possível “curar” um homossexual, deve acreditar que é possível um heterossexual adquirir a homossexualidade um dia, isto é, não possuem segurança alguma quanto ao seu gosto pelo sexo oposto.

Ser homossexual, bissexual, transexual, heterossexual, branco, negro, oriental, homem ou mulher, não é uma questão de escolha, mas respeitar ou discriminar o outro, é. Saibamos sempre vigiar as nossas próprias escolhas, os nossos atos, pois é isso que determinará o quanto evoluímos no final das nossas jornadas.

Que todas as pessoas saibam, acima de tudo, respeitar sua própria natureza e fazer dessa experiência algo engrandecedor para si mesmo e para a sociedade que ainda tem muito o que aprender.

9 Comentários »

  1. Cacau 30/01/2011 at 14:47 - Reply
    Muito show.
  2. ana 30/01/2011 at 14:53 - Reply
    Texto maravilhoso Silvia. Muito esclarecedor para aqueles que não compreendem a diversidade e assim para nós mesmo. Quantos de nós nos questionamos todos os dias, quanto ao que somos ou o que quermos ser. Muitos nos torturamos por termos feito a escolaha errada, quando muitas vezes não é uma questão de escolha, mas sim de auto-aceitação. Muitas vezes nos torturamos pela não aceitação da sociedade ou mesmo das nossa própria família, quando o problema maior pode estar internalizado. Enfim, leituras como esta auxiliam no entendimento de nós mesmos, assim como numa auto-descoberta.
  3. Gabe's Diniz 30/01/2011 at 16:30 - Reply
    Ótimo. Gostei muito do que vc escreveu. É o que as pessoas tem que entender, e mais do que isso, respeitar.
  4. Nique 30/01/2011 at 22:10 - Reply
    Excelente post.
  5. Dai Costa 30/01/2011 at 23:12 - Reply
    Lembrando que preconceito não é nato !
    È sempre bacana ler o que você escreve
    Não pare de escrever #Kiss… Por favor : )

    E reforçando
    peço que / quem ainda não assinou, assine e repasse
    esse é o link

    http://www.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/97.php?cl_tta_sign=f9c0d4dfbf585d13ef4256c5596bf502

    vamos acabar com esse Absurdo de “Estupro Corretivo”

  6. Nykha 30/01/2011 at 23:45 - Reply
    Lembrando q preconceito não é nato (2)!
  7. Dhieine 31/01/2011 at 10:58 - Reply
    Belo texto… Concordando com alguns pontos e discordando de outros, respeito tua opinião, porém levar a condição sexual ao inatismo é complicado…

    Não acredito que nascemos lésbicas, bi’s ou hetero’s, acredito pessoalmente que nos desenvolvemos durante nossas vidas, e assim nos constituimos e identificamos nossa “condição sexual”. Orientação está muito ligado ao sentido de ser orientado por… O que fica meio suspenso, em termos de sentido…

    Relacionar a condição sexual ao inato ficamos a mercê dos julgamentos preconceituosos e estereotipados de doença…

    Questiono o inato analisando certas situações, onde por exemplo, uma mulher que durante toda a sua vida, honestamente, se identificava como heterossexual, mas que em algum ponto de sua vida, se identificou como bi ou até mesmo lésbica… Muitas dirão: sempre foi mas não se aceitava, ou então, algumas pessoas preconceituosas dirão, não teve uma boa experiência com homens…

    Como rotular a condição sexual? Como dizer nascemos e pronto se somos seres mutáveis e estamos sempre em mudanças?

    Desenvolver-se enquanto lésbica, bi ou hetero não tem nada de anormal, não nos faz menos seres humanos, nem desqualifica nossa integralidade como ser desejante e ativamente sexual.

    Analisemos nossos próprios preconceitos antes de apontar o do outro, pois ainda existe em “nosso mundo” (detesto esse expressão), muitas pessoas que reclamam de ser alvo do preconceito mas o perpetuam…

  8. Jordana Lima 01/02/2011 at 22:05 - Reply
    Belo post!
  9. elizabeth 13/02/2011 at 01:41 - Reply
    Eu sempre tive atração por mulheres, mas não gostava muito da idéia. Achava que ia deixar minha mãe triste ou que envergonharia minha família. Então, pra fugir da realidade resolvi me casar com um homem, vivi com ele durante dez anos, tive duas filhas lindas, mas se fosse hoje eu não cometeria o mesmo erro. Acho que foi a pior coisa que fiz na vida. Dizem que filhos são frutos de amor entre um homem e uma mulher, no meu caso não foi. Vivi no inferno. Aí resolvi pensar mais em mim e nas minhas filhas e mandei o bonzão passear. O bom disso tudo é que eu agora posso dizer que ser lésbica não é uma opção, a gente já nasce assim. O problema é que a gente não se aceita por achar que não é natural. Quando um hetero comenta alguma coisa sobre o assunto, é uma perda de tempo; ele nunca vai conseguir explicar uma condição que não é sua. Só quem sabe é quem vive.

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