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sem calcinha

14 de janeiro de 2011.
cotidiana #40, “sem calcinha”

oi diária,

estamos em 2011, 2011 feliz pra gente né? pra mim vai começar mesmo no aquariano fevereiro, mas ainda assim tenho desejado muitas coisas boas y gloriosas pra todo mundo em 2011. todo mundo mesmo!

mesmo assim, com tantos desejos de felicidade, dei uma parada de escrever porque ando bastante reflexiva e pra dentro (afinal, é primeiro dentro que a gente tem que olhar, e desde aí pra fora, e tudo vai se acertar). mas tô guardada o suficiente pra que a palavra, minha boa amiga, tenha decidido respeitar minha quietuda, ficando então sentada, em silêncio, a meu lado, observando. a palavra é muito observadora.

mas resolvi fazer esse texto aqui rapidamente pra comentar que outro dia fui no aniversário da pólen, também conhecida como dona da palavra, capricorniana, e saí com um vestido longo, preto, que ganhei da tatu. veio do méxico.

em casa, antes de voltar pra casa da minha mãe (e irmã, pai, irmão, cachorrinhxs), eu ficava muito sem calcinha, até porque todo mundo sabe que a calcinha pode ser inimiga da vagina. especialmente aquelas que não são de algodão. por isso que é bom dormir sem calcinha, mas também evitar calça jeans e outras roupas apertadas: deixa sua amiga respirar. aprendi essas y outras coisas no “fique amiga dela”, um site muito bacana sobre bucetas.

aí que agora, morando em casa com pessoas que não têm a mesma noção de corporalidade que tenho, fico mais tempo usando calcinha/vestida, mas nesse dia do aniversário da pólen, aproveitando o longo vestido, fui sem calcinha pra casa dela.

é incrível o que a diferenciação doméstico x público faz com nossa cabeça! mesmo que pra muitas mulheres o espaço doméstico seja o reino da violência, ainda assim há essa construção histórica de que é nosso lugar (e inclusive, por paradoxal que possa parecer, a violência é uma das maneiras de marcar isso). como eu sempre vivi em casas amigáveis, me sinto absolutamente confortável em ficar sem calcinha em casa, e dependendo da casa fico confortável estando pelada, mas andar até o metrô sem calcinha, entrar no metrô sem calcinha, descer do metrô sem calcinha, pegar o ônibus sem calcinha e descer do ônibus sem calcinha, e andar até a casa das meninas sem calcinha, e subir as escadas sem calcinha foi muito estranho, e me senti um bocado acuada, oprimida, vigiada!

eu ficava pensando coisas do tipo “e se eu cair, o vestido rasgar, alguém vir que estou sem calcinha e achar que isso justifica que uma mulher seja estuprada na rua?”, e aí acho que gostosa vivência de ficar sem calcinha, gostosa e saudável, se tornou um pesadelozinho.

fiquei bem incomodada. quando cheguei e entrei na casa das meninas, voltei a me sentir confortável e esquecer que tava sem calcinha. aí lembrei que, quando 2009 se transformou em 2010, eu tava usando uma calcinha costurada por mim mesma, em salvador, numa viagem maravilhosa com amigas y amantes amadas demais. aí lembrei que quando 2010 se transformou em 2011, eu tava sem calcinha (mas de pijama) assistindo filme com minha mãe e a cachorrada, e fiquei muito feliz pensando que essa simpatia era a melhor de todas (relacionadas a calcinha e ano novo): passar a virada sem calcinha chamaria um ano bem ventilado, bem amigo da buceta.

lembrei disso e pensei que, quando desse, convidaria a palavra pra me acompanhar em mais esse relato. acho que a palavra gosta de ficar sem calcinha, deitada na varanda ou no gramado, de perna aberta tomando sol na buceta.

e pela saúde integral de bucetas não sufocadas em anos não sufocantes, estou aprendendo a dessufocar (inclusive é urgente, as tireóides ordenam), e vamos continuar silentes pelo tempo que precisarmos, eu y a palavra (o que significa que minha licença por aqui continua. mas quem quiser mandar textos pra coluna, sinta-se convidada!)

Sobre tate

a vida sementeia plantas secretas..

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