Ontem, dia 5 de maio de 2011, em uma votação histórica, com o placar de 10 votos a zero, os Ministros do Supremo Tribunal Federal equipararam a união estável entre heterossexuais à união estável entre homossexuais
Talvez essa notícia “passe batida” para a maioria das pessoas heterossexuais que não têm problemas em relação à homossexualidade. É fácil entender por que. Os homossexuais estão eufóricos, já que isso fala diretamente a seus interesses e os heterossexuais homofóbicos estão, neste momento, se sentindo mortalmente ofendidos por verem que alguns dos membros mais conceituados (e poderosos) do país estabeleceram que os homossexuais têm os mesmos direitos que os heterossexuais (não todos, mas pelo menos 112). Portanto, esses dois grupos não podem ficar indiferentes ao fato histórico de ontem.
Agora posso dizer que tenho uma família. Até algumas horas atrás, pelos olhos da lei, eu não tinha uma família. Incrível pensar nisso, hein? Onze anos passados em comum, dividindo todos os ônus e bônus de um casamento, não valiam muito diante de uma lei retrógrada e homofóbica, calcada em conceitos estabelecidos em uma época longínqua em que os casamentos tinham como principal (se não único) motivo a procriação, a fabricação de filhos, que seriam uma futura mão-de-obra produtiva.
A partilha da responsabilidade de criar um filho, procurando educá-lo para ser um homem de bem (por mais piegas que isso possa parecer, é o que é), as contas a vencer, as férias a planejar, os problemas a resolver, tudo em conjunto, nada disso significava algo muito sério. Éramos duas mulheres vivendo juntas sabe-se lá por que cargas d’água.
Mas ontem tudo mudou. Ontem 10 Ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que temos o direito de dizer que somos uma família. Obrigada aos dez. Obrigada por seus votos, por suas falas, todas muito bem articuladas, todas incontestáveis. É lógico que as vozes desses dez não expressam os sentimentos de todos. Há muitos que continuarão nos condenando, nos vendo como doentes, nos tratando como anormais. Mas quem se importa? Eu. Eu me importo. Eu continuarei me importando enquanto filhos e filhas
não puderem dizer a seus pais que são homossexuais. Continuarei reclamando enquanto homossexuais forem agredidos nas ruas, nos bares, nas escolas, dentro de suas próprias casas. Continuarei me incomodando ao perceber que, mesmo que a lei seja obrigada a engolir a minha homossexualidade, os vendedores da joalheria na qual eu e minha companheira formos comprar nossas alianças continuarão a nos olhar como se fôssemos aberrações.
Engraçado o sentimento que me toma agora: uma espécie de frustração. Eu deveria estar duplamente feliz, pois ontem foi meu aniversário de “casamento” e ontem o Supremo Tribunal Federal passou a ver a minha família como uma família de verdade. No entanto, vocês repararam que eu tive que colocar a palavra casamento entre aspas? Pois é. Não sou casada perante a lei. Quando preencho formulários tenho que marcar um X onde diz: “divorciada”.
Ora bolas! Não sou divorciada. Nunca estive tão casada em minha vida.
Mas tudo bem, diz um lado meu, é melhor isso do que nada, estamos caminhando, etc, etc e tal. Mas o outro lado, teimoso como ele só, diz, ou melhor, berra: “Não está bom nada! Quero casar! Ou melhor, quero ter o direito de casar, se desejar.”
Mas então eu olho a minha companheira por sobre a taça de vinho que tomamos em comemoração ao nosso “casamento” (novamente as aspas), olho o meu filho e penso: “A partir de ontem, ninguém, nem o mais ilustre desconhecido poderá dizer que não somos uma família.”
Que pena que ainda vivemos em um tempo em que os sentimentos não são captados e respeitados pelas pessoas. Triste a época em que convenções estabelecidas há tanto tempo ainda importam mais do que sentimentos. Lamentável que tantos ainda se incomodem com a afetividade de tantos outros, apenas por ser diferente da considerada “normal” pela sociedade.
Mas tudo certo. Desde ontem tenho uma família. Amanhã também terei e daqui para frente, como sempre fiz, não admitirei que ninguém duvide do fato de que pessoas que se amam e decidem compartilhar suas vidas formam famílias, sejam ou não do mesmo sexo.
Estou feliz. Muito feliz. E divido sorrisos com minha companheira e com o meu filho. E, por mais amargos que esses sorrisos ainda possam ser, eu os compartilho com aqueles que amo. Com os que mais amo. Com a minha família pequena, mas muito feliz.























E assim presenciamos um estado laico se estruturando aos poucos…
Penso minha família futuramente e é ótimo saber que minha mãe, por exemplo, se sentirá mais “segura” com essa legalização.
É realmente muito importante, pelo reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, parece que tiram um peso de nossas costas,né? Não todo, mas me sinto mais leve.
Obrigada pelo texto, gostei e estou repassando em meu facebook
Tenho um casal de amigas com filha, que sempre conta na escola de suas mães, e fico muito feliz por elas, que todos os casia possam se sentir assim, livres e iguais.
Um abraço,
Aline.
Mais uma vez, parabéns!!!!!!
Bjus
Que a humanidade caminhe para um lugar em comum, um bom lugar em comum!
Beijos.. adorei sua coluna!
Abraços.