Agora eu tenho uma família

Lúcia Facco 06/05/2011 14

Que alívio!

Ontem, dia 5 de maio de 2011, em uma votação histórica, com o placar de 10 votos a zero, os Ministros do Supremo Tribunal Federal equipararam a união estável entre heterossexuais à união estável entre homossexuais

Talvez essa notícia “passe batida” para a maioria das pessoas heterossexuais que não têm problemas em relação à homossexualidade. É fácil entender por que. Os homossexuais estão eufóricos, já que isso fala diretamente a seus interesses e os heterossexuais homofóbicos estão, neste momento, se sentindo mortalmente ofendidos por verem que alguns dos membros mais conceituados (e poderosos) do país estabeleceram que os homossexuais têm os mesmos direitos que os heterossexuais (não todos, mas pelo menos 112). Portanto, esses dois grupos não podem ficar indiferentes ao fato histórico de ontem.

Agora posso dizer que tenho uma família. Até algumas horas atrás, pelos olhos da lei, eu não tinha uma família. Incrível pensar nisso, hein? Onze anos passados em comum, dividindo todos os ônus e bônus de um casamento, não valiam muito diante de uma lei retrógrada e homofóbica, calcada em conceitos estabelecidos em uma época longínqua em que os casamentos tinham como principal (se não único) motivo a procriação, a fabricação de filhos, que seriam uma futura mão-de-obra produtiva.

A partilha da responsabilidade de criar um filho, procurando educá-lo para ser um homem de bem (por mais piegas que isso possa parecer, é o que é), as contas a vencer, as férias a planejar, os problemas a resolver, tudo em conjunto, nada disso significava algo muito sério. Éramos duas mulheres vivendo juntas sabe-se lá por que cargas d’água.

Mas ontem tudo mudou. Ontem 10 Ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram que temos o direito de dizer que somos uma família. Obrigada aos dez. Obrigada por seus votos, por suas falas, todas muito bem articuladas, todas incontestáveis. É lógico que as vozes desses dez não expressam os sentimentos de todos. Há muitos que continuarão nos condenando, nos vendo como doentes, nos tratando como anormais. Mas quem se importa? Eu. Eu me importo. Eu continuarei me importando enquanto filhos e filhas
não puderem dizer a seus pais que são homossexuais. Continuarei reclamando enquanto homossexuais forem agredidos nas ruas, nos bares, nas escolas, dentro de suas próprias casas. Continuarei me incomodando ao perceber que, mesmo que a lei seja obrigada a engolir a minha homossexualidade, os vendedores da joalheria na qual eu e minha companheira formos comprar nossas alianças continuarão a nos olhar como se fôssemos aberrações.

Engraçado o sentimento que me toma agora: uma espécie de frustração. Eu deveria estar duplamente feliz, pois ontem foi meu aniversário de “casamento” e ontem o Supremo Tribunal Federal passou a ver a minha família como uma família de verdade. No entanto, vocês repararam que eu tive que colocar a palavra casamento entre aspas? Pois é. Não sou casada perante a lei. Quando preencho formulários tenho que marcar um X onde diz: “divorciada”.
Ora bolas! Não sou divorciada. Nunca estive tão casada em minha vida.

Mas tudo bem, diz um lado meu, é melhor isso do que nada, estamos caminhando, etc, etc e tal. Mas o outro lado, teimoso como ele só, diz, ou melhor, berra: “Não está bom nada! Quero casar! Ou melhor, quero ter o direito de casar, se desejar.”

Mas então eu olho a minha companheira por sobre a taça de vinho que tomamos em comemoração ao nosso “casamento” (novamente as aspas), olho o meu filho e penso: “A partir de ontem, ninguém, nem o mais ilustre desconhecido poderá dizer que não somos uma família.”

Que pena que ainda vivemos em um tempo em que os sentimentos não são captados e respeitados pelas pessoas. Triste a época em que convenções estabelecidas há tanto tempo ainda importam mais do que sentimentos. Lamentável que tantos ainda se incomodem com a afetividade de tantos outros, apenas por ser diferente da considerada “normal” pela sociedade.

Mas tudo certo. Desde ontem tenho uma família. Amanhã também terei e daqui para frente, como sempre fiz, não admitirei que ninguém duvide do fato de que pessoas que se amam e decidem compartilhar suas vidas formam famílias, sejam ou não do mesmo sexo.

Estou feliz. Muito feliz. E divido sorrisos com minha companheira e com o meu filho. E, por mais amargos que esses sorrisos ainda possam ser, eu os compartilho com aqueles que amo. Com os que mais amo. Com a minha família pequena, mas muito feliz.

14 Comentários »

  1. Dhieine 06/05/2011 at 20:53 - Reply
    Para mim, para minha mulher, e para o nosso amor nada mudará, mas agora não terei que discutir com ninguém a ” legalidade” de minha família.
    E assim presenciamos um estado laico se estruturando aos poucos…
  2. Kety 06/05/2011 at 22:07 - Reply
    Já estava passando da hora! Você não sabe o quanto esperei por isso, pos mais uma batalha vencida. Aos poucos vamos conquistando nosso espaço na sociedade. Isso me deixa imensamente feliz.
  3. blog: casinha rosa - oficina de pensamentos 06/05/2011 at 22:44 - Reply
    Que nesse dia tão especial para toda a sociedade Brasileira, em busca de um crescimento verdadeiro e democrático, possamos beijar nosso amor, olhar nos olhos e saber que temos a escolha de formarmos com essa pessoa especial uma família, indepentente de sermos homo ou hetero. Hoje, posso dizer com orgulho: TODOS os brasileiros tem o Direito Legal de ter o seu “mundo particular”, isso é maravilhoso! Não acham? bjus de carinho a todos
  4. Aline Miranda 06/05/2011 at 23:52 - Reply
    Adorei o texto. Também senti essa pequena frustração que vc relata mas o importante é que agora está tudo “legal”.
    Penso minha família futuramente e é ótimo saber que minha mãe, por exemplo, se sentirá mais “segura” com essa legalização.
    É realmente muito importante, pelo reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, parece que tiram um peso de nossas costas,né? Não todo, mas me sinto mais leve.
    Obrigada pelo texto, gostei e estou repassando em meu facebook :)
    Tenho um casal de amigas com filha, que sempre conta na escola de suas mães, e fico muito feliz por elas, que todos os casia possam se sentir assim, livres e iguais.
    Um abraço,
    Aline.
  5. Iêda-SSA 07/05/2011 at 13:10 - Reply
    Enfim, FAMÍLIA HOMOAFETIVA RECONHECIDA. Ufa! Já não era sem tempo! Pois é, acabei de repassar para o meu FACEBOOK. o teu texo. Perfeito!
    Mais uma vez, parabéns!!!!!!
    Bjus
  6. ALISSON BOTELHO 07/05/2011 at 19:04 - Reply
    PARABÉNS A TODOS QUE APOIARAM E DERAM ESSE EMPURRÃO PARA QUE POSSAMOS EXPOR NOSSOS ” …” SENTIMENTO EM PLUBLICO SEM PASSAR POR CONSTRAGIMENTO…AGORA SIM ,TODOS SE ANTES RESPEITAVA ,AGORA MUITO MAIS. ABRAÇOS A TODOS HOMOX BRASILEIRO
  7. Ana 08/05/2011 at 10:32 - Reply
    Ótimas palavras Lúcia. Faço das tuas, as minhas. Divido igualmente a felicidade de quatro anos de união, sobre o mesmo teto e compartilhando a mesma vida, e agora sabendo que temos o respaldo da lei. Mas que não nos aquietemos com isso, outras lutas ainda precisam ser travadas e vencidas. Abraços a todas nestes dias de conquista e realização.
  8. Nathalia Motta 08/05/2011 at 12:06 - Reply
    Me sinto infinitamente feliz pelo reconhecimento no STF. Mas ainda há muito a fazer como bem foi lembrado… Deus abençoe este dia!
  9. monike 08/05/2011 at 18:58 - Reply
    estou muito feliz porque exatamente no dia 05/05/11 em que eu e minha namorada fizemos um ano de namoro essa lei foi aprovada,e noivamos…ainda tem muito pela frente para que os casais homos sejam tratados igualmente pela sociedade mais já é um grande passo. +)
  10. L. 08/05/2011 at 22:30 - Reply
    Me emocionei! Entendo seus sentimentos… eles com certeza são mais intensos que os meus, pois vc já tem uma família, e eu sonho com a minha futura. Mas, sei que compartilhamos o mesmo sentimento. Todas nós. Todos nós, homosexuais. Na verdade todos nós seres humanos que entendemos a intencidade e profundidade dos sentimentos. Foi pouco… essa decisão foi muito pouco perto do que tantos e tantas já sofreram em nome de um ideal, em nome de um direito humano. Mas, foi um passo… um passo que deve nos dar sede e força para lutarmos por mais.
    Que a humanidade caminhe para um lugar em comum, um bom lugar em comum!
    Beijos.. adorei sua coluna!
  11. B. 09/05/2011 at 20:33 - Reply
    Sei lá se me casarei um dia, mas é ótima a sensação de saber que posso fazê-lo.
    • D. 02/04/2012 at 17:50 - Reply
      sinto o mesmo
  12. Léa Ferro 10/05/2011 at 13:56 - Reply
    Agora eu também tenho uma família, perante os olhos da lei, claro, embora eu já a tivesse muito antes da tardia lei ser votada. Só não tenho uma família diante os olhos de boa parte da sociedade, que continuará a me olhar de mãos dadas com a minha companheira pelas ruas, como se fossemos aberrações pecaminosas… Mas não tem problema, porque sei que somos uma família bonita, que se ama, se respeita… Um dia estes olhares também irão mudar, como as leis. Vamos comemorar, mas não podemos nos desligar, porque ainda falta votar a lei que criminaliza a homofobia.

    Abraços.

  13. D. 02/04/2012 at 17:52 - Reply
    um texto que toca fundo na alma e faz questionar como sempre… obrigada por escrever e compartilhar seus pensamentos e sentimentos.

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