Partidos, ideologias e os nossos direitos

Carla Garcia 02/05/2011 13

Há uma ligação?

No contexto de uma importante abertura política às discussões acerca dos direitos civis da comunidade LGBT, casos como o protagonizado pelo deputado federal do PP (Partido Progressista), Jair Bolsonaro, que recentemente voltou a fazer declarações públicas de cunho homofóbico e racista, devem servir de reflexão a respeito da dinâmica adotada pelo eleitorado brasileiro para escolher seus representantes.

Se a existência de partidos políticos é uma dos principais fundamentos da democracia, uma vez que expressam a opinião pública de determinadas parcelas da população e oferecem aos eleitores modelos de agenda que atendam às suas necessidades, o Brasil, que adota um sistema eleitoral multipartidário, contando hoje com 27 partidos políticos registrados no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), certamente poderia ser considerado uma das maiores e mais justas democracias existentes.

O problema é que quando há um número tão alto de partidos, cada um contando com um estatuto próprio, torna-se ao eleitor particularmente difícil conhecer a todos e definir aquele cuja posição política mais se assemelha às suas aspirações pessoais. Como consequência, acabamos ficando reféns de personalismos, votando em figuras públicas simpáticas que conseguem chamar a nossa atenção para si com artimanhas publicitárias bem elaboradas.

Esquecemos que o jogo político é partidário, não individual, e que, portanto, os candidatos estão amarrados ao estatuto da legenda que integram. Ao fazê-lo, jogamos no lixo o nosso direito civil de sermos representados por organizações que entendam e lutem pelas nossas necessidades, retardando conquistas que já deveríamos ter obtido, como o direito ao casamento homoafetivo.

É preciso que nos esforcemos, que busquemos formas de perceber as nuances ideológicas dos partidos aos quais nossos representantes políticos se filiam. É preciso que nos interessemos, que sejamos parte integrante da voz da opinião pública que cobra resultados e não esquece a história e, principalmente, é preciso que façamos as ligações do passado com o presente, afim de que outro Bolsonaro jamais possa gozar de imunidades parlamentares para nos diminuir e desrespeitar.

Declarações de Jair Bolsonaro:

“Estou me lixando para o movimento gay. O que eles têm para oferecer? Casamento gay? Adoção de filho por gay? Nada disso acrescenta nada” (Revista Época online).

“Reitero que não sou apologista do homossexualismo, por entender que tal prática não seja motivo de orgulho” (Em nota de esclarecimento divulgada no site do deputado).

“Eu defendo a tortura” (IstoÉ Gente).

Evolução histórica do Partido Progressista (PP)

Façamos as ligações!

13 Comentários »

  1. Lylla 02/05/2011 at 00:24 - Reply
    Bem-Vinda, mto bom o texto, parabéns!
    Nada melor do que entender sobre uma questão, para poder debatê-la com segurança….estrei atenda às sua informações sempre !
    Grande beijo
    • Carla 02/05/2011 at 16:14 - Reply
      Lylla,

      Obrigada pelas palavras gentis.

  2. Bárbara 02/05/2011 at 15:11 - Reply
    O q atrapalha para a aprovação d muitos projetos, é a maioria dos deputados serem evangélicos. Para muitos, o termo casamento homoafetivo fica muito “pesado”, gostaria d sugerir q usassemos o termo união.
    • Carla 02/05/2011 at 16:12 - Reply
      Bárbara,

      Entendo o que você quis dizer sobre o termo “casamento homoafetivo”. Escolhi “casamento”, ao invés de “união”, porque me parece que “casamento” trás consigo uma conotação de direito civil mais crua, sem distinção de opção sexual, enquanto “união” me dá a impressão de pretender separar em uma categoria a parte os casais gays.

      Espero que eu tenha me feito compreender :-)

      De qualquer forma, vou sempre levar em consideração a sua sugestão ao tratar do tema.

      Obrigada

  3. Natália 02/05/2011 at 18:40 - Reply
    O “legal” disto tudo é que ele está na Comissão de Direitos Humanos e Minorias
  4. Cris. 02/05/2011 at 20:23 - Reply
    O que esperar de um cidadão que diz se inspirar na ditadura militar?
  5. Dri 03/05/2011 at 11:18 - Reply
    Adoro o site e acho que as matérias säo sempre interessantes. Mas de verdade acho que a caricatura, näo deveria envolver o símbolo nazista. Eu moro na Alemanha e sou casada legalmente com uma alemä. Posso garantir pra vocês que o povo alemäo é totalmente tolerante e open mind. Aqui os homossexuais tem uma vida completamente livre. Frequentemente se pode ver casais de lésbicas e gays se abraçando e se beijando na rua.
    Em qualquer lugar você pode dizer que é lésbica e ninguém te olha com cara de espanto. Eles aceitam e respeitam as diferenças.

    Abraços
    Andresa

    • Débora 03/05/2011 at 13:47 - Reply
      Não acho que o símbolo nazista seja usado no sentido de ofender os atuais alemães ou pessoas que moram na Alemanha, apenas uma menção a uma realidade extremamente direitista, conservadora, semelhante à propagada por Adolf Hitler no passado, que continua muito viva aqui no Brasil.
  6. Aline 03/05/2011 at 14:46 - Reply
    Texto muito interessante. Poderia ser bem maior. Sugeriria uma continuação (o que deve ocorrer naturalmente). Várias vezes já tinha deparado com os dizeres funestos do sr.Bolsonaro ( e não tenho nem palavras pra descrever minha reação), mas nunca tinha parado para analisar como se deu a evolução histórica do seu partido, o PP.

    E na minha opinião, devemos continuar usando o termo casamento homoafetivo mesmo, ao invés de união. Como a própria autora já disse, o que buscamos é a igualdade em comparação ao casamento entre um homem e uma mulher. A grande bancada evangélica é sim um óbice(e dos grandes!) na hora da aprovação não só desse tema, mas de váaaarios outros relacionados aos avanços nos direitos do grupos LGBTTT (???. Sempre me atrapalho com a sigla correta,rs).

    Depois do que a Dri disse, acho que vou pra Alemanha pegar uma alemã pra mimkkkkk.

    Beijos, bem vinda Carla, espero poder sempre participar.

  7. Vivi 03/05/2011 at 18:50 - Reply
    Adorei o texto… e muito gatinha a colunista.
  8. elizabeth 03/05/2011 at 21:21 - Reply
    Ai, deve ser uma delícia morar na Alemanha. Eu não sabia que tinha um lugar assim. Nossa, poder andar livremente na rua de mãos dadas com minha gata sem aquele monte de gente me jogando praga, é bom demais. E quanto ao Bolsonaro, esse cara é um porre.
  9. Dri 04/05/2011 at 09:41 - Reply
    Sim, Elizabeth. É uma delícia morar na Alemanha. Eu mesma era cheia de preconceitos em relação a eles, mas felizmente tive a oportunidade de conhecer esse povo e te digo de boca cheia. Eles aprenderam muitos com os erros cometidos no passado e hoje são totalmente open mind.
    Se você quiser dá uma olhada no google em uma cidade que se chama Köln. Köln é a cidade mais gay da Alemanha.

    Eu sou casada legalmente com minha companheira faz muitos anos e aqui temos os mesmos direitos que os heterosexuais.
    ADORO! !!!
    =)

  10. Carla 06/05/2011 at 19:06 - Reply
    Uma informação pertinente ao tema:

    Em entrevista à Revista Veja de 09 de Março de 2005, o então Presidente da Câmara dos Deputados do Brasil e atual prefeito do município de João Alfredo (PE), Severino Cavalcanti, declarou:

    “O que é ruim é fácil de proliferar. Por que oficializar uma coisa dessas? [em referência ao projeto de casamento homoafetivo]. Podem debochar de mim, mas quem de bom senso defende a união de homem com homem e mulher com mulher?”.

    Importante destacar que Severino Cavalcanti também pertence ao PP (Partido Progressista).

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