O movimento LGBT brasileiro: da influência de Stonewall ao 17 de Maio de 1990.
Se é possível apontar um evento histórico como sendo o marco inicial do movimento homossexual moderno, ele com certeza é a Rebelião de Stonewall, quando, em Greenwich Village, Nova York, depois de diversos episódios de excessos praticados por militares contra os frequentadores homossexuais do bar Stonewall Inn, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros finalmente decidiram reagir, resistindo a uma violenta batida policial ocorrida no dia 28 de Julho de 1969. Começava então, uma intensa rebelião que duraria quatro dias. A repercussão do episódio deu ao movimento gay uma nova identidade e senso de coletividade, criando as bases para o ativismo político da causa ao redor do mundo. Essa nova unidade foi evidenciada um ano depois de Stonewall, quando cerca de 10 mil pessoas foram às ruas de Nova York para comemorar o primeiro aniversário do evento e reafirmar a luta homossexual por respeito e direitos civis. A partir daí, o dia 28 de Julho, passou a ser celebrado como o Dia Internacional do Orgulho Gay.
No Brasil, a articulação dos movimentos LGBT teve início no começo da década de 1970, quando, no contexto da ditadura, buscou construir uma identidade própria e livre de autoritarismos. Através da associação com os movimentos artísticos da época, que testavam os limites sócio-históricos dos conceitos de masculino e feminino por meio da androginia (com grupos como Secos e Molhados), a causa LBGT fez seus voos iniciais.
Após um período de internalização e amadurecimento político, o movimento gay deixa o isolamento para, em 1978 (ano que data o inicio da reabertura política do Brasil), criar, através de uma parceria entre paulistanos e cariocas, o jornal Lampião. O intuito do projeto era o de, com uma linguagem popular, estabelecer uma conexão entre os leitores e oferecer espaço para a expressão de diversas vertentes da homossexualidade. No mesmo período, é fundado em São Paulo o Somos – Grupo de Afirmação Homossexual, que no ano seguinte fez sua primeira participação em um debate público. Ocorrido no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP), o encontro tinha por objetivo argumentar sobre a mobilização das minorias brasileiras.
Posteriormente, em 16 de Dezembro de 1979, com o patrocínio do Somos, realizou-se, no Rio de Janeiro, o I Encontro Nacional do Povo Gay, contando com a participação de grupos LGBT de vários estados. Nesta reunião foi idealizada a organização de um congresso nacional para a discussão de temas ligados à homossexualidade, que ocorreria no ano seguinte.
A década de 1980 inicia-se e trás consigo eventos significativos para a para história homossexual. Nos dias 8 e 9 de Março aconteceu o II Congresso da Mulher Paulistana (CMP), que debateu assuntos como feminismo, lesbianismo e o machismo patriarcal, colocando em lados opostos da mesa os militantes da esquerda, que viam a luta como sendo uma questão mais ampla, ligada à exploração da mão de obra operária, e os homossexuais, que expunham a importância de se tratar de temas específicos como a violência e o preconceito contra a mulher.
Ainda em 1980, entre os dias 4 e 6 de Abril, ocorreu, em São Paulo, o I Encontro Nacional de Grupos Homossexuais Organizados (EGHO) que, para evitar os entraves políticos enfrentados na CMP, restringiu-se apenas aos grupos homossexuais nos dois primeiros dias (cerca de 200 pessoas), abrindo-se completamente à participação coletiva no dia do seu encerramento, quando atraiu mais de 1000 participantes. O encontro acabou evidenciando a posição política mais radical dos membros do grupo Somos ligados à Convergência Socialista, que pretendiam estabelecer uma aliança com o movimento operário. As discussões acerca da relevância da participação do Somos em um evento promovido pelos trabalhadores causaram uma ruptura no grupo, o que fez com que aqueles que discordavam da associação entre a causa LGBT e a esquerda, fundassem um novo coletivo, o Outra Coisa – Ação Homossexualista.
A despeito da ruptura no grupo, no dia 1 de Maio de 1980, durante as comemorações do Dia do Trabalho, a Facção Homossexual da Convergência Socialista do Somos organizou o primeiro encontro do movimento homossexual com os trabalhadores do ABC paulista, resultando que, quando cerca de 50 gays entraram no estádio de futebol da Vila Euclides (São Bernardo do Campo), portando as bandeiras com os dizeres “Contra a intervenção dos sindicatos” e “Contra a discriminação do trabalhador homossexual”, foram profundamente aplaudidos e apoiados pela grande maioria dos 100 mil participantes do evento.
Outra manifestação do ativismo político LGBT que obteve grande visibilidade ocorreu no dia 13 de Julho de 1980, quando aproximadamente 1000 manifestantes foram às ruas de São Paulo para protestar contra a forma violenta como a polícia paulistana, sob o comando do então delegado José Wilson Richeti, comportava-se em relação às minorias, como negros, gays e prostitutas. Como reflexo dessa mobilização, o delegado e o Secretário de Segurança do estado foram convocados a depor na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Estadual e denuncias públicas contra eles foram apresentadas, ocasionando também uma representação judicial.
Nos anos seguintes, a violência contras as minorias continuou e o ativismo LGBT começou a perder força. O jornal Lampião encerrou suas atividades em 1981 e, três anos mais tarde, o grupo Somos foi dissolvido. Com a descoberta do vírus da AIDS, em 1983, doença que ficou conhecida na época como a “peste-gay”, a crise do movimento se intensificou e as demonstrações públicas de preconceito passaram a ser mais comuns e em maior número.
Nos final da década, com a iminência da Assembleia Nacional Constituinte, muitos militantes gays institucionalizaram sua luta nos partidos políticos. Ao longo dos trabalhos da Assembleia, o Triângulo Rosa, grupo do RJ pela libertação sexual presidido por João Antônio Mascarenhas, foi designado representante das minorias na elaboração das novas diretrizes legais do país. Apesar das tentativas de incluir a opção sexual no capítulo sobre direitos individuais da nova constituição, o Triângulo Rosa não obteve sucesso, uma vez que grande parte dos membros da Constituinte era de partidos conservadores.
Com a democracia já reestabelecida, os anos 1990 dão novo fôlego aos movimentos das minorias brasileiras. Internacionalmente, uma passo importante para a comunidade homossexual foi dado em 17 de Maio, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças, diretriz adotada 4 anos mais tarde pelos países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU), entre eles o Brasil. Deste então, a data é comemorada internacionalmente como o Dia da Luta Contra a Homofobia.
Essa tem sido uma longa jornada, com percalços árduos e inimigos implacáveis, mas se a história nos serve de alguma coisa, é para provar que unidos podemos mudar estruturas sociais retrógradas. Que nesse 21º aniversário, a luta contra a homofobia esteja viva e forte e que a promessa da igualdade de direitos e do respeito ao homossexual seja renovada.
Há diversos outros grupos que participaram da história do movimento LGBT e também merecem ser citados, entre eles:
- Grupo Gay da Bahia
- Dialogay (SE)
- Atobá (RJ)
- Grupo Lésbico Feminista (SP)
- Grupo Dignidade (PR)
- Grupo Gay do Amazonas
- Grupo Lésbico da Bahia


















gostaria de fazer um post sobre o dia 17 de maio…
se quiser dar uma olhada o link do blog é http://doceentrega.blogspot.com/
assino minhas postagens como Apple
grata, Jackline Joplin
Autorizo sim. Sem o menor problema.
Informação é pra ser disseminada sempre!
^_^
Conhecendo tudo isso fica muito mais fácil, instigante e estimulante lutar contra estereótipos e a discriminação…
Parabéns….
Obrigada pelos elogios =)
Vamos continuar lutando….
muito bom o texto a nossa história tem q ser contada…
Obs: queria saber (se ñ for pedir de mais) quais fontes q vc usou para escrever o seu texto se puder mande pra mim.
daianetatu@hotmail.com
Obrigada
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