Transgressão

Tia Mahlou 21/06/2011 16

A história de Lota

Eu tenho um sentimento que na juventude nós achamos que estamos transgredindo o tempo todo. Passa pela minha cabeça, sem muita segurança da afirmação, que muitos jovens gays, homens e mulheres, indiscriminadamente, pensam que foram eles que inventaram a homossexualidade e que, dessa forma, são transgressores.

Uma vez eu estava admirando as emoções da montanha russa no Hopi Hari, em Vinhedo, São Paulo, por ocasião do Gay Day, quando fui surpreendida por dois jovens, aparentando uns dezesseis anos, que vieram com muito carinho me explicar o que estava ocorrendo no tal parque. Eles me explicaram sobre o dia dedicado ao público GLBTT naquele centro de recreação, na semana da Parada. Ao sair, não deixaram de dizer: “não se preocupe vovó, aqui todo mundo é de paz”… Logo para mim? É ser muito sem noção, concordam? O que será que eles acharam que eu estava fazendo lá?

Acredito mesmo, que alguns nem se dão ao trabalho de procurar conhecer pessoas que assumiram sua homossexualidade em épocas passadas, épocas essas muito mais adversas socialmente falando.

Assim, pensei ser interessante refrescar a memória de todos. Não sei se vocês conhecem ou já ouviram falar de Lota Macedo Soares.  É provável que poucos a conheçam.

Pois é, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, mais conhecida por Lota Macedo – brasileira, paisagista, lésbica, teve um relacionamento aberto com Elizabeth Bishop, nascida em Worcester, nos Estados Unidos, vencedora de premio Pulitzer e poeta ainda hoje influente na literatura americana.

Esse romance teve início nos idos de 1951, quando a poeta desembarcou no Porto de Santos, foi parar no Rio de Janeiro, conheceu Lota e, amando sua companheira, aprendeu a amar do seu jeito o Brasil, onde permaneceu por 14 anos.

Vejam sobrinhos meus que falo aqui de uma brasileira que nasceu na França em 1910, filha de um Ministro de Getúlio Vargas e dono do jornal “Diário Carioca”. Tentem imaginar como era a sociedade carioca nos anos 50, do século XX.

Infelizmente, talvez esse tenha sido o motivo dos brasileiros terem banido da memória e da história do país o nome de Lota. Da história? Isso mesmo, pois quem mora no Rio de Janeiro ou quem já passou por lá algum dia, conhece certamente o Aterro do Flamengo. Pois saibam que a obra do parque foi idealizada e construída por ela que apostou tudo no projeto. Apostou tanto que dedicou a própria vida para a realização do seu sonho: a construção de um parque onde se localizava um enorme aterro resultante do desmonte do Morro de Santo Antônio.  Mesmo os sites que falam do Aterro dificilmente citam o nome de sua idealizadora e construtora. Curiosamente, o famoso parque localizado no aterro do Flamengo tem como nome oficial – Parque Brigadeiro Eduardo Gomes. Não há nenhuma menção no local sobre os trabalhos de Lota.

Tamanha dedicação culminou no fim do relacionamento com Elizabeth Bishop. Um fato pitoresco da relação é que embora Bishop fosse venerada em seu país, aqui no Brasil dos anos 60, era simplesmente a amiga que cozinhava e fazia sala aos amigos e convidados de sua amante brasileira.

Em 2010 Lota Macedo faria 100 anos. O Brasil não comemorou. Em 2011 é o centenário de nascimento de Elizabeth, que certamente será bem comemorado não só nos Estados Unidos como em todos os países anglófilos, quem sabe até em terras brasileiras.

Sugiro que vocês conheçam um pouco mais de Elizabeth Bishop, como por exemplo, “Esforços do Afeto e outras Histórias” e “Uma Arte – Cartas selecionadas e editadas por André Giroux”.

Com relação às duas amantes, em “Flores Raras e Banalíssimas”, Carmen Lucia Oliveira (Editora Rocco, 1995) nos conta a história do relacionamento com dados curiosos da época, onde vocês poderão conferir com mais detalhes os pequenos flashes desse artigo.

Para quem está em São Paulo, vale assistir Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes, encenado, com muita empatia com o público, por Regina Braga, no Teatro Eva Herz da Paulista.

Lota Soares criou um verdadeiro cartão-postal para o Rio de Janeiro, sem ser remunerada por seus trabalhos, por opção dela, e viveu com uma escritora considerada ícone nos Estados Unidos. Haja transgressão!

Serenidade a todas!

16 Comentários »

  1. Cristal 22/06/2011 at 07:34 - Reply
    Parabéns! obrigada, por compartilhar seus conhecimentos eu não sabia nada disso e achei muito bom e interessante.Quero mais. Bjssssssssss cristal.
    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 01:57 - Reply
      Aguarde que outras virão, Cristal. Obrigada por participar. Serenidade. Tia Mahlou
  2. Débora 22/06/2011 at 09:58 - Reply
    Muito legal mesmo. Adorei saber um pouco mais sobre Lota Macedo e Elisabeth Bishop. Abraços!
    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 01:58 - Reply
      Continue nos prestigiando, Débora. Serenidade. Tia Mahlou
  3. Ana Cláudia 22/06/2011 at 17:50 - Reply
    Talvez o espanto dos gays mais jovens seja referente a surpresa, quase incredulidade por parte deles relacionada ao fato de existirem gays mais velhos e ativos, sexual e afetivamente falando. Ou seja, revela um preconceito. Como se fosse prerrogativa somente dos mais jovens o flerte, o namoro, a transa, o tesão e todas as formas de expressão amorosa. Daí a importância de ter a memória refrescada continuamente com histórias como a de Lota e de Elizabeth, belas e atemporais. E a necessidade de se ter quem possa divulgá-las com precisão e talento. Abraços.
    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 01:59 - Reply
      Obrigada pelo carinho Ana Cláudia. Serenidade. Tia Mahlou
  4. elizabeth 23/06/2011 at 09:10 - Reply
    Se nos dias atuais revelar sua homossexualidade é quase que tomar veneno, imagine naquela época. Sinceramente, prá uma pessoa se revelar homo precisa ter muita coragem. E quanto à essas duas meninas, [eu na minha caretice] acho que se elas tivessem morrido juntas a estória seria mais bonita.
    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 02:00 - Reply
      É Elizabeth, nem sempre a vida corresponde aos sonhos. Serenidade. Tia Mahlou
  5. Izabel 23/06/2011 at 11:21 - Reply
    Querida Mahlou, da última vez que estive aqui li sobre Gertrude e Alice e fui buscar mais referências… Acabei chegando ao famigerado romance da Bishop com a Lota. Nessa ocasião fui tomada por reflexões como essas sucitades nesse texto de hoje. Entre tantos ícones de vidro atuais, que a nossa memória não desinteregre quem foi grande.
    Um dia desses, quando no Rio, desenterrava, passional, os capítulos da vida da poeta Ana Cristina César (outra dessas transgressoras fantásticas apenada pela nossa desmemória cruel).

    Abraços.

    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 02:01 - Reply
      Ana Cristina Cesar, excelente lembrança, Izabel. Serenidade. Tia Mahlou
  6. Mariana 26/06/2011 at 18:10 - Reply
    Tia, adoro seus textos. Sua serenidade, experiência e conhecimento deixam essa pequena sobrinha muito grata de poder entrar em contato com suas ideias. =)
    Conhecia a Bishop, mas não sabia do seu relacionamento com uma brasileira. Curioso como o vai e vem da história, às vezes, ignora as pessoas que mais mereceriam ser lembradas.
    Pesquisarei mais, e obrigada pelo texto lindo!
    • Tia Mahlou 30/06/2011 at 02:02 - Reply
      Obrigada por comparecer Mariana. Serenidade. Tia Mahlou
  7. Maria 30/06/2011 at 20:50 - Reply
    Seus artigos são ótimos! Sempre nos trazem “antigas novidades”.
    Eu também já recebi explicações de jovens sobre coisas que nós ajudamos a contruir. Coisas como o direito de ser o que somos, sem precisar justificativas. E eu também sempre me recusei a entender
    ( acho q é isso mesmo: a negação) o motivo do conveniente esquecimento de Lota Macedo na história do aterro do Flamengo.
    Um abraço!
    • Tia Mahlou 12/07/2011 at 00:17 - Reply
      É Maria, como dizim, a luta continua. Compareça sempre. Serenidade. Tia Mahlou
  8. Rúbia 10/07/2011 at 15:06 - Reply
    Não é que eu simplesmente goste dessa coluna, mas é que eu adoro, venero, acho fantástica a Tertúlia das tias. Você escreve com leveza e inteligencia, demonstra conhecimento teórico sem pedantismo. E devo admitir, eu sempre fui encantada pelas tias… Bjs e escreva sempre!
    • Tia Mahlou 12/07/2011 at 00:19 - Reply
      Obrigada sobrinha Rubia, muito obrigada. Compareça. Serenidade. Tia Mahlou

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