A dimensão política da Parada Gay

Carla Garcia 02/07/2011 14

Para além da função mercadológica

Com apenas 15 anos de idade, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo, segundo evento mais lucrativo da cidade, já é reconhecida como a maior manifestação de orgulho LGBT do mundo, tendo reunido em média 3,3 milhões de pessoas em suas três últimas edições.

A importância da Parada Gay, entretanto, transcende os fatores numéricos e mercadológicos. Sua verdadeira identidade é a de palco de reivindicações político-sociais. A ideia é a de tirar a população LGBT dos guetos urbanos e levá-la para o espaço público, levantando as bandeiras da visibilidade e da aceitação.

O início do evento remonta a década de 1990, quando o movimento homossexual ainda adotava a sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), cujo objetivo era denotar o convívio pluralista entre gays e heterossexuais que apoiavam a luta pela isonomia de direitos. Esse caráter de integração permitiu que, em 1997, cerca de 2 mil pessoas se reunissem na Avenida Paulista, sob o tema “Somos muitos e estamos em todas as profissões!”, para marchar em protesto contra a discriminação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros.

A passagem do século XX para o XXI trouxe uma mudança gradativa nos parâmetros de convívio social, e a hierarquização de gêneros e identidades passou a ser cada vez mais questionada. Nesse sentido, os movimentos (como o das Drag Queens) que conspiravam para demonstrar a artificialidade de valores normativos pré-fixados assumiram uma importância enorme.

Esses movimentos garantiram que na pós-modernidade ficasse mais evidente a multiplicidade humana. Com o tempo, aprendemos que uma transformação exterior não era mandatória para ser gay e, infelizmente, essa dissolução entre o ser e o parecer contribuiu de forma negativa para a isenção de alguns homossexuais da sua responsabilidade sociopolítica. Fomos atingimos pela era das incertezas e do esvaziamento ativista, o que fez com que a imagem da Parada Gay ficasse mais atrelada a um caráter festivo do que ao seu fundamento reivindicador.

A APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo) divide a história da Parada em três momentos: de 1997 a 1999, quando o foco era a visibilidade; de 2000 a 2002, quando tratava da diversidade; a partir de 2003, como forma de pressão política. Hoje, quando marcharmos pela 15ª vez sobre a Av. Paulista, lembremo-nos dos nossos papéis como cidadãos homossexuais e de ter na garganta o grito “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia!”; lembremo-nos que sim, o evento é uma festa, mas que ele existe para que todos saibam que merecemos ser respeitamos e que temos direitos.

14 Comentários »

  1. happy 02/07/2011 at 15:20 - Reply
    Eu gosto mto dos seus textos. Vc escreve muito bem.
    So que neste voce deixou algo pessoal, a sua realidade homossexual, intervir na importancia de um evento que para a grande maioria e sinonimo de festa, so isso.
    Nao adianta escolher um tema, e a partir disso dizer q a parada tem alguma importancia politica por causa de uma frase de efeito.
    Acho que pelo menos o fato de nao ser proibida no Brasil ja e uma grande coisa, agora, achar q uma festa e mais do que uma festa e uma visao mto positiva.
    A Parada e uma micareta para homossexuais, e uma carnaval para homos. Ja o Carnaval e uma festa para todos: heteros, homos, pobres, ricos, etc.
    E a palavra orgulho, neste caso, nao tem mto a ver. Eu nao sinto orgulho por so desejar mulheres, eu sinto prazer porque so consigo amar e desejar mulheres. Mas minha sexulaidade e uma caracteristica, apenas isso.
    Dizer: “Tenho orgulho de ser gay”, e a mesma coisa de dizer: “Tenho orgulho de ser alta e morena”. Nao tenho orgulho de caracteristicas que sao minhas e que nao posso mudar.
    • Francy 02/07/2011 at 20:14 - Reply
      Concordo com você.
  2. elizabeth 02/07/2011 at 15:26 - Reply
    Eu só não entendi porque a Parada Gay desse ano resolveu envolver Santo. Eu acho que isso fez com que a Igreja ganhasse força. Porque todos nós estamos cansados de saber que todas as vezes que alguém meche com algum santo, vira uma bagunça.
    Ou seja,”O tiro sai pela culatra”.
    Não que eu seja contra. Mesmo porque não sou adepta à nem um “Santo”. Costumo acreditar em coisas que possam fazer algo por mim.
    Bem, eu quero dizer que o objetivo da “Parada Gay” é concientisar a sociedade que os homossexuais querem é direitos como todo cidadão brasileiro. Mas agora sairam do foco e mecheram com “Casa de Abelhas”.
    Bem, essa é minha opinião. Me acho no direito de dar os meus palpites, já que estou na “minha praia”.
  3. Ana Clara 02/07/2011 at 21:54 - Reply
    Não sei, fiquei com a impressão que o texto foi escrito antes da Parada e era para ser publicado no dia, corrija-me se estiver enganada.
    De qualquer modo gostei muito deste texto, assim como os outros que venho acompanhando. Acho que o PL necessitava de um espaço para a discussão sociopolítica.

    Concordo quando você diz que a Parada de São Paulo sofre de um contínuo esvaziamento político, decorrente de uma falta de conscientização dos próprios gays. Conversando com pessoas do meio, frequentemente me deparo com expressões como “homossexualismo”, “opção sexual”, ou pensamentos como “sou gay/lésbica, mas sou…” e assim por diante. Eu acho que é um ponto para se repensar dentro do próprio movimento.

    Sobre a discussão de ter ou não orgulho de ser gay. Obviamente que a orientação sexual e as características físicas são “elementos” imutáveis na vida das pessoas e mesmo que não fossem seriam capazes de produzir uma “identidade social”. Ao longo da vida, as pessoas tendem a acumular várias “identidades latentes” que nos aproximam, nos afastam, ou são irrelevantes para o convívio social. Podemos ser várias coisas ao mesmo tempo: mulher, brasileira, nordestina, negra, professora, flamenguista, leonina e lésbica, mas enfatizamos uma (ou mais) identidade a cada situação.

    Ter orgulho de ser gay não significa que somos superiores, é algo muito mais afirmativo. É dizer que você não tem vergonha de se identificar como gay, quando necessário. E isso, por si só, é um enorme passo. Eu tenho algumas amigas lésbicas, por exemplo, que defendem com unhas e dentes seus times de futebol, falam que são corinthianas, palmerenses mas quando o assunto é homossexualidade fogem pela tangente.

    • Carla Garcia 03/07/2011 at 12:31 - Reply
      Ana Clara,

      Você está correta. A coluna foi escrita para ser publicada no dia da Parada, mas houve um atraso. Peço desculpas por isso =)

      Acho que sua explicação a respeito do que é orgulho gay foi perfeita. Eu não teria dito melhor.

      Obrigada

    • nat 05/07/2011 at 02:53 - Reply
      acredito que realmente exista um esvaziamento politico na parada… e justamento por isso fica essa ideia de que a parada é só festa e um carnaval gay… acredito realmente que esteja se tornando isso…
      mas o objetivo, e principalmente, o objetivo que deu inicio não foi esse….
      as conquistas que temos e o preconceito que não sofremos (sofremos muito sim, mas já foi muito pior, então sim, conquistamos bastante coisa, ainda que não em direitos propriamente ditos) vem muito dessas pessoas que deram inicio a esse tipo de movimento, deram a cara a tapa e lutaram pela nossa visibilidade e reconhecimento…
      quem acha que a parada é só festa, se informe sobre stonewall, assista ao filme milk por exemplo, ou documentarios sobre isso, ou se informe sobre como era a situação dos gays na sociedade ha anos atras…
      temos muito a conquistar ainda, mas devemos muito a quem lutou antes de nós, quando a situação era bem pior…
      e por isso mesmo, deveriamos nos conscientizar mais e trazer a tona o sentido politco da parada, novamente, para continuarmos lutando pelos nossos direitos e visibilidade…

      e concordo com o uso de orgulho, no sentido de não sentir vergonha, se dizer, sou gay sim, e não me envergonho disso…
      entendo mais como orgulho de quem eu sou, independente de sexualidade… mas infelizmente, a maneira de se colocar isso é dessa forma..

  4. happy 03/07/2011 at 00:47 - Reply
    Ana Clara,
    A Parada nunca teve como objetivo principal a conscientizacao politica. Nao acho que esteja havendo um esvaziamento politico. O que houve e que a festa cresceu, foi so isso. Entao mais pessoas, gays ou nao, se interessam em participar de um evento gratuito, de um carnaval fora de epoca. Se cobrassem apenas R$5,00 de ingresso, pode ter certeza que heteros e simpatizantes, e mtos homos nem apareceriam na Paulista. E olha, tem muita gente que vai la para tirar sarro…
    Reivindicacoes nao sao feitas em ritmo de dance music e pessoas dancando em cima de um trio semi nuas ou vestidas de Mulher Maravilha ou de Chapeuzinho Vermelho. Sinceramente, JAMAIS um grupo de pessoas alcancara algo (seus direitos) assim.
    De qquer maneira, ja conseguimos alguns avancos no Brasil, mas isso nao tem nada a ver com festas de rua.
    Abracos!
    • Carla Garcia 03/07/2011 at 12:25 - Reply
      Happy,

      Discordo completamente. A Parada, desde sua primeira edição, teve e tem fundamento político e de conscientização. Ela existe justamente porque um grupo (grande) de pessoas sentiu que seus direitos civis não eram respeitados no trabalho exclusivamente por serem gays.

      Hoje, a questão aqui é visibilidade. Em que outra época do ano ouvimos falar tanto dos gays e das nossas causas? Quando se discute o que é ser gay?

      A Parada vem sim sob o arquétipo da micareta ou da festa popular. A ideia é essa mesmo. O que se quer é oferecer um espaço de convivência no qual todas as classes e identidades se encontrem… e se choquem, por vezes. A discussão precisa ficar viva e isso só acontece através da dialética.

      No mais, lembre-se que a Parada é o evento de encerramento da verdadeira arena política, o ciclo de debates que a antecede.

      Muito obrigada pelos comentários. A intenção da coluna é justamento que nós possamos debater impressões pessoais sobre o que envolve ser homossexual. Fico muito feliz quando isso acontece.

      =)

  5. happy 03/07/2011 at 13:06 - Reply
    Carla,
    Olha… o proprio organizador da Parada, ha uns dois ou tres anos, disse claramente que a Parada e uma festa, e que era, basicamente, um evento comercial. Estou certa do que li, mas nao tenho como te passar a data da entrevista dele e para quem ele disse isso. Eu so sei que ele disse isso mto claramente.
    A visibilidade nessa epoca do ano e evidente, colocar mais de 10.000 pessoas nas ruas da maior e mais importante cidade do pais ja e algo extraordinario, agora, imagina colocar milhoes. A visibilidade vem dai, ja a conquista de direitos nao vem desse evento ou de outras paradas/festas.
    Eu queria ver milhoes na Paulisrta exigindo mais investimento em educacao. Queria ver se o governo iria continuar investindo tao pouco em educacao. Em paises onde a educacao e prioridade as pessoas sao menos preconceituosas…
    A Folha de Sao Paulo mandou jornalistas para la. Sabe o que aconteceu? Mais da metade se recusou a dar uma entrevista, ja mtos outros disseram que estavam ali so para assistir, nao quiseram se declarar homos nem simpatizantes.
    Passeata e uma coisa, festa e outra bem diferente.
    Respeito sua opiniao, e claro.
    Abraco!
    • Carla Garcia 03/07/2011 at 13:45 - Reply
      Happy,

      Eu entendo completamente o que você quer dizer. Não acho que a Parada como existe hoje seja o ideal. Infelizmente, a função de mercado tomou uma proporção tão grande que tende a desvirtuar o caráter original do projeto. Declarações como a que você citou do organizador do evento são extremamente infelizes, justamente porque corroboram com essa deturpação.

      Acho que visibilidade e direitos são coisas que caminham juntas. Obviamente que a Parada não pode servir por si só como arma para a conquista de direitos, mas ela nos dá espaço nas ruas pra que possamos dizer “existimos e estamos aqui”.

      Concordo que passeata e festa são coisas diferentes. Por isso temos os dois. Na marcha pela aprovação da PLC 122 (Fevereiro em São Paulo) havia mais de 4 mil pessoas. Dessas, grande parte também frequenta a Parada Gay. O ideal é isso, que ocupemos os espaços públicos com uma frequência cada vez maior.

      Respeito muito sua opinião também. Essa conversa me dá uma perspectiva bem interessante sobre o assunto. Muito obrigada por isso.

      Beijos :-)

  6. Ivana 06/07/2011 at 11:33 - Reply
    Concordo em parte com as críticas a parada, mas acho que também precisamos mudar um pouco nossa visão sobre a mobilização de rua. Não é porque é festa que não tem importancia política. Adorei o texto.
  7. happy 06/07/2011 at 12:11 - Reply
    Voce e mto inteligente. Eu gostei da nossa conversinha. ; )

    Talvez as primeiras edicoes (as primeiras mesmo) das paradas foram organizadas para protestar e aumentar a conscientizacao das pessoas em geral. Mas, hoje, o objetivo principal nao e esse.

    Neste caso q estamos a “converasar” aqui, a parada e uma festa comercial. Ja as passeatas que vc mencionou, sao mais politicas.

    Qto a questao do argulho… eu nao tenho vergonha de ser homossexual. Mas dizer que tenho orgulho disso e outra coisa … Tavez a maneira como isso e verbalizado pode ate parecer uma afirmacao de superioridade, como se fizessemos parte de um grupo especial.
    E se alguns gays ou mtos, se acham no direito de dizer isso, entao acho melhor a grande maioria dos gays parar de dizer que qdo um hetero ou um branco diz a mesma coisa e sinal de preconceito e provocacao.

    Beijinhos!

  8. Débora 06/07/2011 at 13:08 - Reply
    Muitas pessoas até hoje reclamam do aspecto excessivamente lúdico da Parada LBGT. Eu também tenho minhas reservas quanto ao suposto esvaziamento do sentido político de que tanto falam. Só fico me perguntando se por acaso haveria outra maneira de chamar a atenção para a nossa causa se não fosse por meio da brincadeira, da fantasia e do trio elétrico… e não encontro respostas. Acho que as equipes organizadoras das Paradas de todo o Brasil devem continuar atentas ao aspecto político-pedagógico das mesmas, nem que seja apenas pra tentar conscientizar @s própri@s LGBTs de nossas reivindicações. E sem esquecer o lado lúdico, afinal, somos um povo bastante festeiro mesmo.
  9. becadylan 10/07/2011 at 00:42 - Reply
    O grau de censura tem que ser combatido no mesmo nível, chamando atenção que não vejo gays por ai batendo em heteros.
    Gostei muito quando liguei a tv e vi a foto dos santos com o use caminha em baixo.
    Se todos tem direito de ter crença, e ela implica em coesão social, essa é a nossa.
    Sou a favor de medidas cada vez mais enérgicas.

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