A homossexualidade e o estigma

Aline S. 31/07/2011 8

Porque somos pessoas tão lutadoras?

Olá leitoras do PL,

Estava nas minhas reflexões a cerca da vida e me deparei com essa indagação: Porque nós gays somos pessoas tão lutadoras?

É incrível como vejo pessoas bi e gays com mais garra, luta, com empregos melhores, estudiosos, depois de passar a etapa do enfrentamento da família, tem boas relações com a família e etc.

Por que será que isso acontece? Parece meio obvio, mas nem tanto. Claro que o fato de termos que enfrentar tantos problemas com nossa sexualidade já nos faz mais preparados para vida. Mas será que tem a ver com o fato de sermos mais bem resolvidos com a nossa sexualidade? Acho que isso também contribui. Um peso a menos dentro de uma pessoa ajuda na luta contra os outros pesos.

E alguém que se reprime, ou não sabe o que quer na vida sexual realmente tem algo mal resolvido.

Fico muito feliz de ver pessoas gays e bi bem sucedidas e parecem mais do que a média. Mesmo assim vi uma reportagem outro dia falando exatamente dessa estatística, que tira esse falso estigma em relação a condição financeira dos homossexuais, segundo essa reportagem das nossas colegas do site Dykerama:

http://dykerama.uol.com.br/src/?mI=5&cID=23&iID=2325&nome=Pesquisa_derruba_mito_de_gays_bem-sucedidos

Porém, algo bom o IBGE nos informou com o censo do ano passado (http://bastahomofobiaa.blogspot.com/2011/04/censo-ibge-60-mil-casais-gays.html), que temos 60 mil casais gays declarados, eu mesma fui uma que respondi o censo, não estou com a mesma pessoa, mas ainda moro com uma companheira, rs.

Nesse sentido me instiguei para colocar aqui um texto do Professor Francisco Albuquerque, pós-graduado em Educação e presidente do Grupo LGBTs @BastaHomofobia. É um pouco grandinho, mas muito instrutivo. Boa leitura!

O estigma é, sem dúvidas nenhuma, uma das principais formas de violência a gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e outras pessoas que vivem de forma sexual diferente da heteronormatividade. A estigmatização não é uma violência isolada, mas um processo que está sempre ligado a outras formas de opressão, ligada a conceitos prévios de normalidade x anormalidade e semelhança x diferença.

O termo estigma é referido a marcas que não se apagam, cicatrizes perduráveis nos corpos, a manchas morais na reputação de alguém, a algo que marca alguém como indigno, imoral, indecente e desonroso. A estigmatização é um processo de construção generalizante de marcas sociais na desumanização, tornando o estigmatizado um ser desabilitado de aceitação social e, com isso, passivo de várias formas de agressão, pois, é um indivíduo diferente, menos humano, anormal. E tudo aquilo não é humano, pode ser minorizado e violentado.

A produção do estigma é sempre algo alicerçado nos preconceitos e nas ideologias discriminatórias e vem, sempre, seguida da ideia de naturalização da opressão, pois, imobiliza a pessoa estigmatizada, afirmando que a razão da sua opressão é o fato da sua diferença.

Desumanizar alguém pelo estigma é reduzi-la a algo inferior ao ser humano, isto é, transformá-la em objeto ou um animal. No caso dos homossexuais, ou serás heterossexual ou não existirás. Será tratado com toda a violência que o próprio estigma permite por não ser humano e, assim, não merece respeito. Daí, vêm as violências verbais, tratando os homossexuais como animais ou objetos, utilizando os termos veado, sapatão, bicha (neste caso, feminino de bicho), frutinha, sandalinha entre outros. Desumanizar alguém é perceber como “natural” que este alguém não precisa de afeto, atenção e carinho, porque não é humano. E tudo que não é humano deve ser isolado, excluído de alguma forma. Quando alguém se refere que um garoto é efeminado, é uma forma de desumanizá-lo, pois ele não é homem nem mulher, mas, uma aberração que de alguma forma deve ser corrigida.

Muitas vezes, há a conexão entre diferentes estigmas. Nos homossexuais, um exemplo que foi marco dos anos 80’, foi a relação entre o grupo LGBTs e o HIV/AIDS. Isto porque, uma doença desconhecida é sempre relacionada a erros morais e sociais. No caso do HIV/AIDS, pela falta de conhecimento desta doença e estar relacionada ao sexo, já houve a relação que é uma doença de gays e, por isso, foi cruelmente chamada, nesta época, como Peste Gay, em que a Igreja coloca como castigo divino contra os homossexuais. Mesmo nos anos 90’, ainda se relacionavam O HIV/AIDS à população LGBTs e houve um grande aumento de piadas por conta disso. Estas piadas deixam claras as condições da opressão, ou seja, quem pode e quem não pode falar.

Com isso, o homossexual sempre não pode falar. Somente sofrer passivamente ouvindo as piadas referentes a ele próprio. E foi nestas piadas relacionando o homossexual à AIDS, que os processos de estigmatização se fortaleceram em si mesmos, cada vez mais violentas e opressoras. E isso fez com que, muitas pessoas ao conhecerem um homossexual, já ligarem à AIDS e ao verem uma pessoa vivendo com HIV/AIDS já suporem que se tratava de um homossexual. Criou-se o mito que só os LGBTs pegam HIV/AIDS e os heterossexuais deixaram-se de se cuidar. Principalmente as mulheres heterossexuais casadas. E, lembrando a todos que, não há grupos de risco em relação ao HIV/AIDS.

O estigma é tão cruel, que toma a parte pelo todo. Os heterossexuais não se relacionam pacificamente com os LGBTs por temerem o constante assédio sexual. Pois, ficou na ideia que, todo homossexual represente apenas o sexo. Isto é, todas as suas formas de expressão e de relação, estariam ligadas somente ao sexo. O que em tese, assusta os heterossexuais. Mas, pior que isso, impede a inserção social e a livre expressão de todas as potencialidades dos LGBTs. Assim como, há a tendência de se julgar todo o grupo a partir da atitude de alguma pessoa. Isto quer dizer, os heterossexuais não são julgados pela atitude de alguma pessoa heterossexual, diferentemente do que acontece com os LGBTs.

Observa-se que, as pessoas que estigmatizam as outras têm uma identidade frágil e que, o contato entre as pessoas estigmatizadas as deixam sempre em risco, como se pudessem ser destruídas pela presença dos estigmatizados. Isto é, se um heterossexual for visto próximo, amigo, apoiar ou mesmo se recusar a agir com violência com um homossexual, ele pode ter a sua identidade heterossexual questionada. Haverá sempre a ideia do contágio. Somente em estar, de alguma forma, amistosa ou indiferente a um homossexual, o heterossexual corre o risco de se tornar homossexual também. E, é com esta premissa, que muitos heterossexuais sentem a necessidade de agredir os homossexuais como uma forma de defesa. Este caráter agressor se torna mais “explicável” porque é apenas uma forma de defender-se do contágio.

Nisso, os homossexuais perdem apoio público de alguém, que mesmo sendo contrário a esta violência, tem medo de ser “confundido” como um homossexual. Já que, os homossexuais são algo contaminante, aparecem, assim, as noções de eliminação, sujeira e limpeza. Quer dizer, elimina-se tudo o que está em desacordo com a noção de sociedade limpa. Esta ideia, nada mais é que, um conceito moral. Então, heterossexuais seriam pessoas limpas, decentes, dignas e morais, em contraposição dos homossexuais, que seriam pessoas sujas, indecentes, indignas e imorais. Com este embasamento, se justificam as várias formas de se “limpar” a sociedade, violentando os homossexuais para eliminá-los, pois são uma ameaça à moralidade.

Outro fato, bastante decorrente da estigmatização é a tentativa do ilsolamento das pessoas estigmatizadas. Quer dizer, exclui-se o homossexual do meio da sociedade e o coloca em espaços isolados, onde só existem pessoas como ele. Geralmente, estes espaços são abertos em locais distantes da visibilidade social, para que se coloquem debaixo do tapete a “sujeira” social. Um homossexual fica, assim sendo, quase que proibido de frequentar locais públicos, pois é uma pessoa indigna daquele lugar.

Agora, mais cruel e implacável, é o momento em que a estigmatização é interiorizada pelo estigmatizado, sendo que, não é necessário de ninguém para oprimi-lo, pois, ele mesmo é opressor de si próprio. Isto se dá pela soma de violências causadas pelo estigma por quem é violentado. As recorrentes situações que fizeram o homossexual ser estigmatizado, os levaram a baixa autoestima e a auto desvalorização. Neste caso, o estigma destrói o que há de mais vivo na pessoa estigmatizada, a humanização. Isso é uma violência psicológica e não consciente. Quando um gay se recolhe em seu mundo particular, dentro de uma sala de aula, por exemplo, com medo de ser violentado por ser o que é, e colocando-se inferior ao heterossexual, aí, temos um fato de interiorização do estigma. Ele se culpa e se vê a partir dos conceitos e valores negativos atribuídos a ele por outras pessoas, por isso, se fecha como auto defesa. Ao homossexual, sempre foi ensinado a não se aceitar, quer dizer, não deve exercer a sua homossexualidade. E mais, quem quer ser identificado com o que é socialmente considerado negativo, constantemente utilizado como xingamento, o alvo de riso, humilhação e piadas, o que é considerado menos humano, o agredido, assassinado, exterminado? E o que estigma traz todas estas sensações desconfortáveis para o estigmatizado.

Então, a desconstrução do estigma deve ser um processo diário. Sabe-se que não é fácil desenraizar uma noção preconcebida por intermédio da falta de conhecimento.

Mas é necessário começar a empoderar-se da situação, criar e fazer valer os direitos aos homossexuais para que se consiga uma sociedade plena e sem a estigmatização relacionada ao homossexual.

E-mail para contato com o Francisco Albuquerque: bastahomofobia@hotmail.com

E nós homossexuais bem resolvidos e bem sucedidos que vivemos nossas vidas sem nos esconder tanto, porém mantendo certa descrição, fazemos com que esses estigmas sejam quebrados a nossa volta e mostramos que somos iguais e normais, só queremos viver nossas vidas e ser felizes.

Espero ter contribuído para nossa instrução a cerca do nosso mundo, quando estamos numa luta é importante saber exatamente o que nos cerca.

Felicidades a todas,

Beijos,

Namastê,

Aline S.

8 Comentários »

  1. Flávia 31/07/2011 at 21:51 - Reply
    Excelente texto redigido por Albuquerque, esclarecedor e bastante incentivador para nós LGBTS, xô estigmas, principalmente estigmas interiores,afinal de contas somos pessoas como as outras com sentimentos e pagadoras de nossos impostos.
    • Aline S. 21/08/2011 at 22:51 - Reply
      Isso mesmo Flavia. Obg pelo coment, bjos.
  2. Allyne 01/08/2011 at 10:22 - Reply
    Texto de alta qualidaesde e merecedor de muitas reflexões.., Até que ponto não porpagamos o estigma…?
    • Aline S. 21/08/2011 at 22:47 - Reply
      Olá chará, pois é, acho que muitos homossexuais realmente propagam o estigma, mas é uma situação dificil… beijos e obg pelo coment.
  3. elizabeth 01/08/2011 at 21:24 - Reply
    A sociedade trata os homossexuais como os leprosos eram tratados na época de Jesus.
    Sem exagero. E assim que eu me sinto onde moro.
    Ai de mim se elogiar alguma menina, já acham que e cantada ou assedio.
    E eu não sei se acontece com todas lés ou e coisa minha, mas eu adoro elogiar. Então, pra mim fica difícil me segurar.
    De fato, o sofrimento nos deixa mais resistentes…
    • Aline S. 21/08/2011 at 22:50 - Reply
      Oi Elizabeth, que triste a forma como se sente. Não me sinto assim, mas talvez eu tenha sorte com as pessoas a minha volta, ou talvez tb eu fiz por onde estar bem. E essa questão do elogio é complicado, tudo tem a ver com a intenção, vc tem q tomar cuidado com a forma que elogia, realmente pode parecer invasivo e pode gerar reações nagativas de volta pra vc. Cuidado! E sim, o sofrimento nos deixa resitente, mas muito sofrimento pode ser evitado qndo tomamos cuidado nas nossas condutas.
      Obg pelo comentario, beijos.
  4. Flor 03/08/2011 at 14:23 - Reply
    Excelente texto, esclarecedor …..

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