Ainda a história do tal armário
Quando li a notícia sobre o primeiro casamento gay do Brasil imediatamente veio a minha cabeça outro assunto relacionado – o da saída do armário em cidades não muito populosas, embora Jacareí seja uma cidade do interior de São Paulo com aproximadamente 200 mil habitantes.
Recentemente, conversando com uma amiga, ela me contava sua experiência de menina lésbica em uma cidade com 30 mil habitantes. Será que nesses locais a saia fica mais justa?
É claro que quando você anda na rua em uma cidade desse porte a maioria das pessoas que você encontra ou é parente, ou é parente de parente, ou é amigo de parente ou são seus pais mesmo. Disfarçar exige muita arte. Conversar com o médico de confiança, com o padre, com a professora, nem pensar. Tudo se torna mais complicado. Em quem confiar, não é?
Atualmente com a entrada das mídias diversificadas no ambiente doméstico, conversas sobre homossexualismo se tornaram mais comum. Todavia, para mim, não passa de pura fachada. As pessoas falam porque todo mundo está falando, mas jamais acreditam que o raio cairá naquela casa. Para muitos, isso é coisa que só acontece em novela.
Coleciono relatos hilários de fatos que ocorreram nessas situações. É uma correria só quando as pessoas são surpreendidas em atitudes suspeitas. Depois começa a temporada de caça às bruxas. As saídas de cada um variam no estilo. Muitos optam por um casamento heterossexual para manter os laços com a família e com a cidade, até quando podem se aguentar. Ou levam vida dupla ou quebram as amarras quando estão com mais idade. Alguns conseguem detectar a tempo um amigo do outro sexo, também homossexual, e simulam namoro eterno. Há os que buscam cidades maiores e distantes e até mesmo outros países. Outros permanecem solteiros para o resto da vida carregando a marca de “um filho ligeiramente estranho”. Para lembrar meu tempo de menina, naquela época, a opção era também os conventos e os seminários.
Para não ficar só no espectro de São Paulo tenho duas amigas que fugiram de São Luís do Maranhão com o armário nas costas para só abrir as portas em Brasília. Aliás, Brasília recebe muitos exilados do armário – vem gente de Fortaleza/Ceará, tenho muitos conhecidos de lá – meninos e meninas, Anápolis/Goiás, Teresina/Piauí e de todas as cidades de Minas, apenas para citar uns poucos exemplos.
Nas minhas viagens para o interior de São Paulo tenho notado pequenas alterações nas manifestações da comunidade homo. Há cidades que já ostentam bares ou espaços para baladas dedicados ao público gay, entretanto não percebo uma mudança na mentalidade coletiva. A hostilidade, de certa forma, ainda permanece. Já me aconteceu de participar de uma roda com senhoras da sociedade em uma cidade dessas e quando uma das convidadas se retirou lá veio o comentário baixinho: “Coitada, da fulaninha, o filho dela é gay. Ela sofre tanto…”.
Às vezes, fico pensando se a mesma situação não ocorre nas metrópoles. Afinal, cada um de nós vive em um microcosmo, onde a parentada e os amigos da parentada frequentam.
Voltando àquela primeira amiga citada, o curioso é que ela, na primeira oportunidade que apareceu, saiu da cidade. Estudou, triunfou, teve várias parceiras, está realizada financeira e profissionalmente e feliz com sua companheira atual. Mas, quando retorna à sua cidade de origem se tranca no armário com muitos cadeados e quando abre o computador nem passa perto da “Parada Lésbica” para não correr o risco de ser identificada.
Ainda viveremos muito para nos livrar do estigma do tal armário.
Serenidade a todas





















Só pra corrigir, você escreveu homossexualismo, o certo é homossexualidade.
Excelente texto!
Bjo!
Então, concordo em plenitude com o que foi colocado no texto, embora eu já tenha sido muito mais severa em relação às pessoas que não conseguem se sentir efetivamente donas dos seus narizes, mesmo que, objetivamente, tenham tudo para sê-lo.
É aquela velha história do auto-preconceito, ao meu ver. Acredito que fica muito mais fácil agir de forma natural quando de fato naturalizamos as nossas escolhas para nós mesmos, certo?
Quanto ao microcósmo, puxa, eu havia pensado nisso há poucos dias, quando presenciei uma conversa em um salão de beleza entre duas mulheres grávidas que colocavam “nas mãos de Deus” a “boa índole” dos seus futuros filhos quanto à escolha da sexualidade. Minha cidade tem 4 milhões de habitantes. Doi, né? Ou melhor: Assusta.
Obrigada por mais esse texto! Estava saudosa.
Perfeito o texto… Acredito que a Arte de disfarçar é Minha rsrs…
Moro em Cidade Pequena Interior de Pernambuco…
e Viver negando o que vc realmente é não é nada facil…
Por Varias vezes pensei em sair do Armario e Contar pra Minha Mãe Mais tenho medo da reação dela… Tenho uma mera impressão que ela desconfia da Minha Homosexualidade… Mais vou Deixar as Coisas Fluirem Naturalmente… Tou em Um Relacionamento estavel a 4 Mesês e Sempre Frequento a ksa da Minha Namorada e Sinto um peso enorme em Não poder Trazer ela na minha ksa pra Minha Familiia… Peço Sempre a Deus q me Der forças para superar isso e peço tmb muita paciencia pra Minha Namorada e que ela entenda esse meu meedo…
Te Amo Muito Amoor B.K
rsrsrs
Parabéns Pelo Texto belissimo…
Sou assumida para minha família mas super reservada no trabalho. Sou casada com uma mulher
a 5 anos e nós gostaríamos de casar no papel mas acho que nossa cidade ainda não está evoluída para isto. Sei lá mas acho que em cidades pequenas as coisas são mais difíceis mesmo!!!!!
ADORO O PL!!!!!!!!!!!!!!
A situação é muito mais complicada em cidade pequena…na minha situação então…eu sou filha de uma família super conhecida e meu pai é conhecido por todos, logo, eu também sou…já não basta passar pelo nosso próprio período aceitação, ainda tenho que me preocupar com os fofoqueiros de plantão, sim é verdade, tem gente aqui que senta no banquinho da esquina pra vigiar a vida alheia…seria cômico se não fosse trágico…rsrsrs
Se não fosse por morar em cidade pequena onde as pessoas se preocupam tanto em agradar os outros, já teria jogado no ventilador, pois meus amigos sabem, minha irmã e minha MÃE também…pessoas de mentes evoluídas num mundo particular que tem como base o preconceito e regras tão arcáicas…
Pelo menos para a maioria das pessoas que realmente me importam, posso ser eu mesma, mas infelizmente, por causa de pessoas que não tem o que fazer da vida, por causa de falsos moralistas, eu ainda tenho que fingir…
mas por pouco tempo.