Hoje acordei nostálgica. Deve ser porque estou com saudade de ver o sol. Por aqui a chuva não cessa há três dias e o mar insiste na cor cinza. Nesses momentos temos preferência por cobertor aconchegante, pela leitura de um bom livro, por escutar uma boa música e por remexer reminiscências.
Lembrei-me que na minha juventude na cidade de São Paulo tive muitos amigos homens gays. Era uma turma grande, tipo aquelas que a mesa do barzinho vai inflando – começa com duas e termina com vinte pessoas sentadas e mais dez em pé, sabem bem disso, não? Pois é, quando retornei à cidade, trinta anos depois, não encontrei mais ninguém. A AIDS havia levado todos sem piedade. Em vista dessa lembrança, fiquei com vontade de contar para vocês uma historinha marcante em minha vida.
Em 1984, como sempre fazia no mês de maio, preparei-me para fazer uma viagem a São Paulo. Há algum tempo, desde quando decidi transformar Brasília em minha terra, a coisa funcionava do mesmo jeito. Eram datas que coloquei como imprescindíveis para eu rever os atores da minha história de vida – natal ou ano novo e aniversário dos medalhões da família, e, principalmente, o aniversário do Kiño. Afinal, ele foi muito importante na minha vida quando optei em escancarar a porta do armário.
Confesso que teve muita paciência comigo. Primeiro, foi se chegando bem de mansinho na imensa repartição que trabalhávamos. Ofereceu ajuda burocrática. Aceitei, foi confortável. Depois me convidou para almoços, assistir jogos no Pacaembu, festas na casa dele e tudo que pudesse nos aproximar cada vez mais.
Eu tentava simular o padrão da época, isto é, mentia o tempo todo. Vinha com histórias espetaculares sobre namorado do interior, rapazes interessantes e outras desculpas esfarrapadas.
Naquele dia da viagem eu estava eufórica porque iria revê-lo. No avião fiquei pensando quais amigos estariam na festa. Apertei a campainha da casa com uma expectativa muito grande. Como de hábito, quando a porta se abriu vieram exclamações ruidosas de todos os presentes. Abraços, beijos e comidas gostosas, que o dono da casa sabia fazer e que sempre surpreendia com alguma receita nova que a mãe havia lhe ensinado.
Aquela festa já trazia uma novidade para mim e eu tinha que trabalhar com cuidado essa novidade. Enquanto eu já havia me comprometido com uma dezena de pessoas, o Kiño jamais havia namorado alguém. Namorar nesse caso significa: ficar, ao menos, seis meses com alguém, ter compromissos de férias, traçar alguns planos para o futuro, e, quem sabe, morar juntos dividindo banheiro e pasta de dente. Pois naquele dia eu iria conhecer aquele a quem resolvera dar a sua mão.
Tracei muitas possibilidades de perfis, como por exemplo, é alto, tem bigode, usa óculos, entende de teatro, cinema e música, características indispensáveis para quem quer ser seu namorado. Afinal, ele não tinha tido ninguém porque sua triagem era rigorosa. Com certeza o novo namorado preenchia essas características todas, pois do contrário não teria resistido uns catorze meses até aquela data.
Foi então que conheci Adailton. Tudo começou quando Kiño fazia a conhecida peregrinação na Rua Vieira de Carvalho, aquela rua que liga a Praça da República com o Largo do Arouche, que, há muito tempo, se traduziu em trajeto daqueles que necessitavam de companhia para uma noite. Adailton era do Paraná, casado e com filhos, mas um dia resolveu mudar a sua história e tomou um ônibus com destino a cidade dos sonhos. Com todo o ciúme de amiga, à primeira vista, como era de se esperar, não fui com a cara de Adailton.
Enfim, a festa se transcorreu como sempre. Quando o aniversariante sentiu que ia começar a dar o cansaço natural nos presentes, pois já estávamos por volta da uma da madrugada, resolveu pedir a atenção de todos porque precisava comunicar alguma coisa importante. Risos, piadas, alguém tentou adivinhar o que poderia ser e lançou a ideia que ele teria comprado um carro, uma vez que odiava dirigir.
Kiño tentou algumas palavras. Não conseguiu formar nenhuma frase. Passados alguns minutos, lentamente levantou a cabeça e disse: “aquela senhora resolveu se hospedar aqui”. Ninguém entendeu e o silêncio tomou conta de todos. Então, declarou firme, como sempre fazia quando queria chocar: “sou soropositivo”. Definitivamente, não havia o que dizer…
Então, ele foi enfático: “Sou soropositivo com algumas manifestações. Vocês estão lembradas quando voltei da Bahia e passei mal durante um tempo? Foi ali que tudo começou. Adailton também é soropositivo, só que até agora nada foi manifestado. Quero que vocês saibam o quanto ele tem sido importante para mim. Meu amor, meu enfermeiro, meu companheiro, meu irmão, meu médico e meu amante. Peço-lhes que todo amor que me deram até hoje seja dado para ele também”.
Olhou mais uma vez para todas nós, esperou um pouco para ver se alguém tentaria alguma frase piegas, mas como ninguém ousou, encheu o pulmão e disse mais uma vez com sua voz firme: “afinal, vamos ou não vamos comer o bolo de aniversário? Eu lhes asseguro que esse não será o último”.
Realmente não foi o último bolo de aniversário. Administrou a doença com a cabeça na terra e muito amor na vida de forma a ficar conosco mais dez anos. Alguns se foram nesse período por muitas outras causas. Quando ia aos velórios sempre encarava os presentes com um sorriso de forma a dizer: “não adianta se assustar que eu ainda estou por aqui”. Adailton não sobreviveu nem um ano após a morte de Kiño.
Serenidade a todas
Em tempo: coloquei a foto com o símbolo que caracteriza o feminino porque à época dessa história havia nove homens contaminados para cada mulher. Hoje o perfil de contaminados pela AIDS mudou, há uma mulher para cada homem.



















Obrigada por dividir conosco essa realidade
Prefiro mesmo é não ficar trocando de namorada, além de ser mais seguro, é o estilo de vida que quero prá mim.
E o triste de morrer com Aids, não é propriamente “morrer com Aids”, mas a forma como se morre.
Ou seja, sozinho. A pessoa também fica muito disfigurada…
Realmente muito triste.
Morte e solidão, prá mim é a mesma coisa.
O que muda na minha opinião é a lealdade que se tem dentro de um relacionamento. E ser leal não é o mesmo que ser fiel, ter o compromisso com a vida da outra pessoa é o mais importante. Não vai ser fiel? Seja leal com a pessoa que você esta, ao menos a mantenha protegida de uma possível contaminação.
Sei que pode parecer meio frio, mas se as pessoas pensassem um pouco mais sobre essas coisas, haveria uma estatítica bem menos triste.
Obviamente o desejo de todas nós é conseguir um relacionamento leal e fiel, onde possamos confiar de verdade na nossa parceira, mas o maior compromisso, amor, e respeito deve ser conosco mesmo.
Se você atribui isso ao fato de eu não gostar de usar preservativos, se engana. Porque tanto eu quanto minha “gata” temos a mesma opinião. E é um direito que nós temos.
Se há mulheres héteros sujeitas à se contaminar, essa possibilidade existe porque um dos dois pulam a cerca e também não é só através do sexo que somos contaminados.
Todos nós estamos sujeitos.
Eu também já fui uma mulher com um casamento hétero e estava mais propícia à contrair doenças do que agora, pois o meu adorável esposo andava por aí.
Isso prá você é casamento?
Prá mim não!
E a questão é que eu amo ter só uma e amo amar minha gata.
Prá mim é simples.
E que bonito uma história em que a amizade fica acima de tudo numa época em que reinava o preconceito e a discriminação.
Perdoem-me a minha ignorância
beijos lindinhas e desde já obrigada :*