direito de ficar triste, ou: cartografias de saudades

tate 20/08/2011 5
diária y queridas leitoras,

às vezes alguém me pergunta se abandonei a coluna, comenta que faz tempo desde o outro texto… e a verdade é que sei lá que tipo de silêncio comeu as palavras de mim. e ainda se junta a todas as razões razoáveis que tenho pra adiar a escrita, adiar a escrita. faz menos de duas semanas que mudei e já comecei a ficar com saudade. quem conhece meu espírito altamente desapegado entende a gravidade disso. e às vezes é uma saudade de não-sei-quê, também. geralmente é da mãe, da irmã, da cacá correndo pela casa quando chego, ou arranhando a porta do quarto de madrugada pra ir dormir perto da minha cama (“minha cama” é uma maneira simpática de fazer referência a um péssimo colchão que peguei, um desses de reserva, desde que decidi não comprar um colchão a não ser que seja feito de matéria-prima reciclável. um colchão desses custa mais de 1000 reais. tenho dormido profundo e direto em florianópolis, mas ainda sinto fisicamente – às vezes por meio de dores – a necessidade de um bom colchão)…

mas às vezes eu não sei do que sinto saudade. tem chovido muito aqui. e eu, amando chuva, me noto um pouco triste. evito encarar que estou triste, invento outras coisas: que bom, posso ter vários momentos de introspecção; que bom, posso adiantar aquela tradução; que bom, posso dar uma lida nos textos da semana que vem; que bom, posso lavar minhas roupas que ainda estão em malas; que bom etc. só que hoje foi o primeiro limite e me dei o direito de sentir tristeza. não dessa forma romântica de querer me acabar nisso, ficar sofrendo tristeza, mas sentindo tristeza, entendendo o que ela me diz sobre o que estou passando, e que mudanças, que novos processos demanda. mas também a que processos antigos se refere, coisas que não foram pra composteira e sim prum fundo de gaveta (falando nisso, a casa em que estou morando é bem legal nesse sentido – enterramos o lixo orgânico no jardim y outras medidas paliativas). no fundo de gaveta junta pó, teia, camadas de esquecimento que não esquecem, só adiam.

mandei uma mensagem pra uma amigona que anda meio triste y confusa também. desses processos de lesbiandades regidas por normas feitas pra casais ht no modelo romance romântico e que esbarram nas compreensões feministas de amor, de romance, de partilha… ela me lembrou de novo: calma, você está aí de passagem. essa recente condição de estrangeira geográfica tem sido simultaneamente maravilhosa y um pouquinho devastadora. me reconecto perguntando coisas ao tarot que ganhei de outra amadamiga. às vezes vem uma resposta engraçada, às vezes uma soturna. às vezes eu nem tinha perguntado nada mas aparece alguma coisa num sonho. aconteceu duas vezes, o que me deixou com um gosto (de) especial na boca y uma alegria daquelas bem quentinhas por dentro. daquelas amenas, daquelas. e é verdade, cada dia aprendo um pouco de alguma coisa. talvez desaprenda de outras, mas não tenho guardado essas na caderneta. eu trouxe algumas e até um livro mágico pra uma diária que ainda não comecei.

quem escreve poesia pra salvar a alma entende a falta que a poesia faz. faz meses que não escrevo poesia. às vezes antes de dormir penso em alguma coisa, escrevo com a luz apagada. no dia seguinte fico vendo que o caminho que a letra anda recebe palavras até no escuro. outras vezes penso alguma ideia fantástica pra um conto, mas durmo, e a ideia fica naqueles sonhos guardados em algum lugar que ainda nao aprendi acessar. e nem sobre o silêncio que come palavras eu tenho conseguido anotar qualquer linha, mas só reparei nisso outro dia que outra amiga fez uma homenagem ao 29 de agosto colando vários poemas de negras lésbicas poetisas e tinha um meu lá. um que achei bem bonito. aí percebi, eita, faz tempo que não faço um poema. o que é que se cala dentro da gente quando não aparece poesia nenhuma? a cidade tem muito vento, portanto não me sinto só. saudade não é o mesmo que solidão aqui. e quanto ao encerramento, peço que aceitem essas notícias como um tipo de comunicação hermética.

(o desenho incrível é da Eleanor Davis, uma ilustradora.)

5 Comentários »

  1. Fu 20/08/2011 at 02:09 - Reply
    “e nem sobre o silêncio que come palavras eu tenho conseguido anotar qualquer linha.”
    Licença pra salvar sua frase no meu arquivo de pensamentos preferidos, junto com a “nada mais triste do que um poeta sem palavras”.
  2. Fu 20/08/2011 at 02:14 - Reply
    Mas sobre o tema do artigo… pessoas orgulhosas têm dificuldade em aceitar que também sentem aquelas dores das quais os meros mortais vivem reclamando: saudade, solidão, vazio… O que essas pessoas orgulhosas se esquecem é que são humanas e como tais, têm o “direito de ficarem tristes”. Mas tristeza no sentido de aceitar que algo vai errado interiormente e que precisa ser reparado; não a tristeza de ouvir músicas de fossa e culpar deus e o mundo por conta das frustrações da vida.
    Por isso eu acho que Shakespeare foi perfeito quando disse “não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito”.
  3. Viviane Mota 22/08/2011 at 16:32 - Reply
    Beijas. E saudades.
  4. duda 23/08/2011 at 11:33 - Reply
    nossa que texto lindo me encontrei através de suas palavras mesmo que silenciosas.
    A poesia encontra – se dentro de você realmente faz parte de sua essência apenas encontra arquivada em alguma gaveta de sua memória a gaveta está fechada só precisa ser aberta, um acontecimento… em dias de chuva o sol é o mais esperado… talvez ai consiga abrir a sua gaveta novamente e deixar suas palavras se bordarem em uma linda poesia…
  5. polianapreta@gmail.com 31/08/2011 at 21:08 - Reply
    eu coleciono palavras e me dou ao direito de dar cada uma delas que o vento pedir.

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