Desmistificar para evoluir
Em 29 de Junho deste ano, uma votação no Conselho de Ética da Câmara pôs fim, por dez votos a sete, à representação disciplinar contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) no processo que se referia às declarações homofóbicas e racistas do político desferidas alguns meses atrás. Durante a reunião, Bolsonaro reinterou sua posição preconceituosa ao declarar que considerava “um asco” ser obrigado a participar de uma comissão por “motivos como esse”. Em ofensiva direta aos representantes do PSOL, o deputado declarou ainda: “a grande preocupação do pessoal do PSOL é eu falar qual o pai que tem orgulho de ter um filho gay? Não vou me calar com essa representação sem vergonha, com esse lixo. Sou parlamentar com P maiúsculo, não com H minúsculo de homossexual”.
Em resposta aos ataques de Jair Bolsonaro, o deputado Jean Wyllys (PSOL), conhecido, entre outras coisas, pela defesa da causa LGBT, e que estava presente na votação, defendeu-se dizendo: “aparentemente o senhor não deve ter ouvido falar do movimento ‘Black is Beautiful’. Eu tenho orgulho de ser chamado de veado por outro veado, sim, mas não pelo senhor. O senhor tem que lavar a boca antes de falar isso. Eu sou Homossexual com H maiúsculo de homem…”.
A partir disso, podemos aprender uma lição importante sobre a forma como nos comportamos em relação à nossa sexualidade e de onde vem a noção de orgulho gay. Antes, é necessário compreender o que foi e em que contexto o movimento citado pelo deputado Wyllys nos influenciou.
Na década de 1960, auge do apartheid americano, o movimento negro iniciou uma crítica discursiva e ideológica ao padrão estético branco nas suas mais diversas vertentes. A ideia era a de afirmar que sim, ser negro é bonito e que os afro-americanos não deviam se sentir feios comparados às características inatas dos brancos.
Nascia o “Black is Beautiful”, não apenas como lema, mas como instrumento de transformação dos paradigmas sociais e do discurso depreciativo sedimentado na sociedade da época. O conceito era resgatar a palavra “negro” (no inglês, black) da sua utilização pejorativa e trazê-la para dentro do movimento como forma de autoafirmação, pertencimento e, por consequência, de orgulho.
O alcance que os movimentos negros civis tiveram serviu de inspiração para que outras minorias, entre elas a dos homossexuais, buscassem vias semelhantes de identificação social. O fator orgulho passou a assumir uma posição cada vez mais central nas reivindicações e a técnica de desmistificar para evoluir pôde ser observada em diversos apelos. Cito como exemplos o Jornal Lampião da Esquina, que se dirigia aos seus leitores por chamamentos populares, como bicha e veado, e a música de ordem “Funk da solução”, que trás em seus versos a expressão “revolução das sapatão”.
Analisar as nomenclaturas externas, aprender que elas não nos impõem valores, extirpá-las de todo o seu significado prévio, assumi-las e, enfim, ter orgulho. Não um orgulho cego com crença de superioridade, mas a autoaceitação pública de que somos o que somos e não desejaríamos ser qualquer outra coisa. Esse é um processo longo e que exige um amadurecimento enorme, mas do qual, felizmente, temos exemplos concretos para seguir.


















No caso dos nós homossexuais vai acontecer a mesma coisa. Dentro de pouco tempo, vai ser ri-dí-cu-lo alguém com preconceito escancarado contra a gente. A própria sociedade vai olhar com pena pra esses ‘haters’.
Isso não vai demorar muito não.
Tem um monte de gente lutando diariamente pra que as coisas melhorem.
Só temos que escolher se faremos parte do ‘problema’ ou da solução.
Que bom que gostaram do texto.
Obrigada =)