Dentes, rachas e bicicleta
Capítulo 09
Para piorar, a partir de hoje Anne está “fora da área de cobertura”. Trancada pelo menos dez horas por dia em uma sala no subsolo, ou algo assim. Mas eu tomei uma decisão: vou cuidar de mim! Dentista, ginecologista, exercícios na ergométrica… Comecemos pelos dentes.
Imaginem a cena! Mariana e eu entrando no consultório (ar condicionado com defeito, mas limpo), salinha da dentista depois de uma meia hora de espera, Mariana começa a tremer ao ouvir aquele barulhinho irritante (vai só fazer limpeza, mas pelo jeito com que agarra a cadeira poderia ser um transplante de cérebro!); enfim, tudo como de costume…
Acaba a limpeza da “crionça” e ela sai carregando minha bolsa – vai ver TV na sala de espera – enquanto eu fico a sós com meu orçamento de 700 reais por fazer. Vinte canais, sete pontes e quatro rodovias na boca, todas obras de políticos: mal feitas, atrasadas e inflacionadas! Enfim…
- Ela é quietinha, né? – pergunta a dentista.
- É – respondo, pensando “só em público”.
- Vocês moram sozinhas?
- Moramos eu, ela e minha esposa.
(Silêncio. Dor da injeção da anestesia – tá doendo até agora e já se passaram oito horas! Mais silêncio)
- Posso perguntar uma coisa? – a dentista, em tom de “não posso deixar essa passar”.
- Pode.
- Como é que ela lida com isso?
Claro que eu tive vontade de falar horrores: “Como ela lida com o quê? A catástr0fe das chuvas, o preço do dentista, o ar condicionado quebrado lá fora?” Mas fui bondosa.
- Com o fato de eu ter uma esposa?
- Sim.
- Super bem. Na verdade, quando eu contei, ela só quis saber se a Anne era legal.
- Nossa! Você tem sorte!
Claro que eu tive vontade de comentar: “Por quê? Você não teve?” ou “Claro! Ela nasceu com todos os membros!”. Mas, novamente, fui bondosa (quase uma santa!):
- É, fiquei muito orgulhosa com isso.
Com isso quis deixar claro que a educação que dei para ela tinha grande parcela da responsabilidade pela atitude cabeça aberta.
Sorte! Sei!
Menos uma coisa…
Capítulo 10
Então, lá estou eu babando com cara de boba – anestesia! – quando chego ao consultório do gineco. O meu é o mesmo desde antes de eu nascer… Explica-se: foi o da minha avó, da minha mãe e depois o meu desde os doze anos. Ele fica falando sobre o meu marido, mas como nunca fez uma pergunta direta que levasse a “Anne, o nome dele é Anne”, eu fico quieta. É um senhor tão inocente…
Imaginem: “É, senhor, eu sei que fui casada. Sim, tive uma filha, mas agora sou lésbica. Sim, sou casada com uma mulher”. Quando fiz meu último preventivo e perguntei sobre um termo médico, por curiosidade, ele me disse que eu não precisava saber sobre aquilo.
Ele também não precisa saber!
Já com a Anne – que sabe que é lésbica desde sempre – foi mais interessante.
- Você tem uma vida sexual ativa? – perguntou a médica dela.
- Sim – respondeu Anne, do alto de seus quinze anos.
- E você toma anticoncepcional?
- Não.
- Mas seria importante…E se você acabar…
- É que eu sou lésbica.
- Ahhhh, que ótimo! Menos uma coisa para se preocupar, então!
Isso, segundo consta, rindo e batendo com as mãos nas pernas.
Boa reação!


















Ela é do Rio sim Mariana
=]
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Tem coisa mais gostosa do que fazer amor, bem descontraída; sem medos; sem grilos…com quem amamos?
Sinceramente?
Eu tenho certeza que não!
Embora a grande maioria considere essa forma de amar um absurdo. Ficam só fazendo cara de espanto quando vêem duas namoradas, ou dois namorados…Fazem mil perguntas…
Sabem o que eu descobri hoje?
Nós viemos à esse mundo prá fazer diferente.
Esse mundo não teria graça sem nós.
Então, talvez a dentista realmente não tenha dado sorte com a esposa dela neh… vai saber, talvez ela precisasse de dicas
(após minha mulher sair do consultório eu entrei)
-Você tem vida sexual ativa?
-Sim.
-Toma anticoncepcional?
-Não.
-Usa preservativo?
-Não necessariamente.
-Então…(cara de intrigada/preocupada) o que vc faz para se prevenir???!!!
- Namoro aquela moça que acabou de sair.
(riso amarelo – dela.)