“bicho não é lixo!”

tate 11/11/2011 3

diária, leitoras, bom dia!estou em brasília pra passar uns dias com a família (aniversário do meu pai), e acabei encontrando essas duas pessoinhas aí na foto. eu e a lhu (amiga querida) chamamos de Alice e Jorge. estavam na casa da namorada; foram resgatadxs de não-sabemos-onde e estavam bem doentinhxs, com verme. fizemos uma articulação grande primeiro entre nós duas, pra bancar os cuidados veterinários que não foram baratos (apesar do descontão da clínica – Empório dos Bichos, na asa sul); e depois mandando email pra todo mundo que conhecíamos e não conhecíamos, pra ongs de resgate, adoção e posse responsável, pra gente que ama bicho de forma cuidadosa e comprometida…, à procura de uma casa temporária (porque na casa da namorada já tem 5 gatxs, 3 cachorrxs, galinhas, coelhos) e de uma casa permanente com cuidado, respeito, compromisso (depois explico porque estou insistindo nessas palavras).

acabamos conhecendo a Zezé, da ong Salvando Vidas Protetores Independentes, uma mulher incrível, muito guerreira, ética, afetuosa e com uma energia muito pra cima. ela nos convidou pra levarmos Alice e Jorge na feira de adoção que ia acontecer numa universidade privada. fomos. a feira aconteceria pela manhã e pela noite, só podíamos ir à noite. quando passamos em frente, havia essa tenda gigante, bem iluminada, com muita gente ao redor e flash flash flash. a namorada perguntou se seria ali e eu achei que não, porque tava muito bombação. mas era ali mesmo. estávamos com Alice e Jorge no colo, e uma caixa a tiracolo pra deixá-las “pra exposição”. nem conseguimos entrar na tenda e já apareceu gente pegando Alice e Jorge, levando pra lá e pra cá, dizendo “quero esse, quero essa”, e fazendo mimos e vozes engraçadinhas que, depois da 5ª pessoa, deixaram as filhotes nitidamente nervosas.

ficávamos pegando elas de volta, explicando pras pessoas quem eram, de onde tinham aparecido, em que condições. algumas perguntavam se eram “de raça”. algumas perguntavam se iam crescer muito. algumas pegavam no colo e diziam que queriam apertá-lxs “até virar suco”. eu já tava tensa desde que cheguei, e a coisa foi piorando. imaginem as filhotes! a Alice, que é mais extrovertida, até se divertia às vezes, mas o Jorge tava cada vez mais ranzinza. eu também.

enfim chegou uma mulher e seu filho, um adolescente de seus sei lá 19 anos, com um cachorrinho muito fofo no colo. era um viralata de porte grande, e devia ter uns 4-5 meses. todo pretinho com mancha branca no focinho, e pontinhas das patas brancas. e olhos castanhos bem expressivos. tranquilos, mas cansados também. fiquei imaginando como é esperar um tempão por uma pessoa humana que te ache bacana e queira te levar pra casa e cuidar mesmo de você, te respeitar, não achar que você é uma coisa que deve ficar parada, calada, quieta, e só dar atenção e fazer festa quando requisitada a isso.

quando a mulher e o filho viram os filhotes, decidiram trocar o cachorro que já tinham escolhido por um dos filhotes. fiquei profundamente irritada, e falei pra ela que nenhuma daquelas três pessoas ali eram coisas. que ela já tinha feito um compromisso, inclusive afetivo, com o cão escolhido, e não podia simplesmente abandonar ele de novo agora que tinha visto pessoas que pareciam mais interessantes aos propósitos dela (ter um filhotinho bem filhote mesmo que crescesse junto com a filha também filhote dela).

fiquei horrorizada, com raiva, nervosa, briguei com ela. tentei usar argumentos que fizessem sentido pra uma pessoa que, obviamente, entendia pessoas não-humanas como coisa, como objeto, como descartáveis e trocáveis. enquanto isso, uma outra adolescente ficava acompanhando ela e o filho. ela tinha querido adotar o pretinho, mas mãe e filho tavam na frente. ela ficou esperando alguma coisa mudar. e mudou. porque depois dessa discussão a mulher e o filho decidiram ir embora, porque estavam atrasadxs pra algum compromisso muito importante, e desistiram da adoção do pretinho.

achei ÓTIMO. fiquei aliviada. a outra menina parecia muito mais amorosa, compromissada, e não desesperada. tinha gente, na feira (que tava muito bem organizada, tinha uma fila pra entrar e ver os bichos), que reclamou comigo, ao ouvir que eu não concordava que elas adotassem Alice e/ou Jorge: “mas eu tô aqui desde 07 da manhã esperando um filhote pra adotar!”. eu apontava todxs outrxs cachorrxs que estavam ali esperando adoção, e elas diziam que queriam filhote, ou alguém que não fosse ficar muito grande. eu contava que tínhamos sido adotadxs, na casa da minha mãe, por uma suposta viralatinha de cerca de 4 anos, e que no apartamento já morava um weimaraner quando ela chegou. e explicava que a rotina de todo mundo mudou, porque Cacá e Logan descem pelo menos 4 vezes por dia, correm soltxs pelo menos 2, dessas 4, e vivem num apartamento, e foram ambxs adotadxs, e são ambxs muito legais, queridxs, preciosxs, engraçadxs… pessoas inteiras, enfim, cheias de qualidades fofas, defeitos irritantes, e disposição de aguentar a nossa rotina, nossa humanidade que objetifica, controla e oprime a cachorridade delxs…

cacá y logan dão as costas pra humanidade

mas não, tem o fetiche do filhote.

tem a ideia de que o cachorro que não cresce muito pode ficar preso dentro do apartamento o dia inteiro, não precisa descer, não precisa sair, não precisa de terra pra cavar, não precisa ver outras pessoas caninas pra sacar quem ele mesmo é… a feira tava muito cheia e agitada, então não dava tempo de explicar, pra todo mundo que tinha a frustração/fetiche do filhote, que o Logan ficou bem mais cachorro depois que a Cacá chegou, e que a Cacá, que já tem seus quase 04 anos vividos na rua, aprendeu em 04 dias – QUATRO – que pra mijar e cagar ia descer do apartamento.

o que deu tempo foi de ficar frustrada, envergonhada por ser humana, irritada com a noção estranha de amor & cuidado que nossa espécie precária tem. comida, brinquedo, um canto, carinhos esporádicos quando tem alguém em casa – isso é cuidado? isso é respeito? isso é entender o bicho como bicho? vendo uns blogs de adoção, vi essa campanha “bicho não é lixo”, e vou dividir com vocês alguns episódios:

- uma amiga adotou um gato, o Jeremias, e a vizinha dela vive querendo o Jeremias, que o Jeremias é muito inteligente e isso e aquilo. mas a vizinha já mora com 2 gatos. e não gosta deles porque os acha “preguiçosos”. inclusive um morreu recentemente, porque ela colocou veneno pra rato;

- ontem, a feira aconteceu de manhã e à noite. alguém adotou um cachorro de manhã. e na tarde de ontem o mesmo cachorro foi encontrado abandonado na rua;

- duas amigas perguntaram, pro vizinho de baixo, se a cachorrinha já era castrada. ele disse que não, meio enjuriado com a pergunta, e disse ainda que a cachorra tinha que dar algum lucro a ele.

são só os mais imediatos, e menos pesados. porque tá muito cedo ainda, nem comi nada, não quero má-notícia tão cedo. mas é fato que a espécie humana tem criado e especializado vários graus de especismo, que é a crença de que essa espécie é melhor e mais importante que as outras, e portanto tem direito de dominá-las (parafraseando Audre Lorde, que conceituou racismo, sexismo e heterossexismo nessas bases). e esse ora paternalismo ora coisificação das espécies entendidas como “animais domésticos” é um dos tipos dessa especialização:

a recusa cínica coletiva mascara de paternalismo fetichista, objetivicante, o entendimento de que:

- somos sim responsáveis pelo número gigante de cães e gatos, principalmente, mas também preás, coelhos, pássaros enjaulados, peixes “ornamentais”;
- cuidado responsável (“posse responsável”) não se limita a lacinhos, brinquedos, vacinas, um canto com jornal/areia pra mijar e cagar;
- a castração é sim violação dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos de outras espécies, mas é uma medida urgente de redução dos danos que nós é que causamos imediatamente a essas espécies entendidas como “domésticas”. esse tópico merece um texto inteiro, mas não sei se dou conta de escrever. só que acho importante terminar com outro lema que aprendi com o ativismo pelos direitos das pessoas não-humanas: “amigo não se compra e não se vende”. o esquema de criação de filhotes pra vender é uma mistura sinistra de prostituição animal com barriga de aluguel. já tem bicho demais no mundo que pode ser adotado. arrumem outra forma de fazer dinheiro!

blé.

e podem me acusar de panfletária, não me importo.

 

[esse texto foi escrito em 08/10/2011, mas só consegui publicar agora]

3 Comentários »

  1. Ana 12/11/2011 at 00:01 - Reply
    Muito bom o texto. Adorei!
    E já que o assunto é bicho.. gostaria de compartilhar uma notícia que só vi agora:
    http://g1.globo.com/natureza/noticia/2011/11/casal-de-pinguins-gays-do-canada-recebe-nome-de-brokeback-iceberg.html
    Olha que coisa mais fofa gente! E ainda tem gente que não acredita que homossexualidade é natural.. vê se pode. ;)

    Bjos ;*

  2. Gi 20/11/2011 at 10:01 - Reply
    Concordo o mundo já está cheio de animais e ainda ficam usando animais para ganhar dinheiro deveria ter uma lei contra isso….
    Eu tenho 10 meninas q amo era tdas abandonadas eu peguei da rua cuidei com muito carinho, a poucos meses adotei uma da feira em santa catarina q é minha cia sempre, embora minha vida seja corrida sempre saio com ela e ela é bem velhinha feiaaa pra tdos e linda pra mim, os animais sofrem demais desse mundo por causa dos er humanos q é cruel e injusto q busca só beleza e mais nda se é SRD não qer despreza e isso é muito triste, já peguei animais com situações terriveis com muito bicho no corpo mas hj encontrei uma familia q realmente cuida e fui adotado se cada um de nós fizesse sua parte ainda q pequena mas ajudaria e muito
  3. Lívia Castanheira 20/11/2011 at 17:47 - Reply
    Eu sou totalmente contra o especismo, o conceito de que a espécie humana é superior às outras pelo simples fato de possuir “razão” (embora o que temos visto por aí prove exatamente o contrário).
    Todos os animais, sem exceção, sentem frio, fome, amor, raiva, carinho, alegria, abandono… Assim como nós.
    Então, porque julgar o outro inferior? Só porque é diferente de mim?
    Quem faz isso é tão burro e intolerante quanto qualquer nazista.
    Tenho 6 gatos e 2 cães, todos resgatados das ruas. São todos muito companheiros e fofinhos comigo.
    E outra coisa: não existe animal feio, existe animal mal cuidado…
    Adorei o texto!

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