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	<title>Parada Lésbica - O Portal das Lésbicas. &#187; Tate &#8211; Cotidiana</title>
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	<description>Notícias, músicas, televisão, cinema, reflexão, discussão, o ponto de encontro para mulheres que amam mulheres.</description>
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		<title>mas-tur-ba-ção: quem tem medo de si mesma?</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 02:35:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária querida,
hoje decidi escrever sobre masturbação. nunca é demais falar sobre isso, né não? vivemos num pedaço de mundo que interdita o prazer a nós, mulheres: servimos muito bem como objetos do prazer de um outro (e até mesmo de uma outra), mas calaboca quando é pra falar da própria buceta, de como a gente gosta de gozar com ela.
enquanto o patriarcado for a norma social, vamos ter que fazer um esforço pra romper tabus. masturbação é um deles. eu demorei um tempão pra me encontrar nessa bela arte ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a><span id="more-14287"></span></p>
<p style="text-align: justify;">diária querida,</p>
<p style="text-align: justify;">hoje decidi escrever sobre masturbação. nunca é demais falar sobre isso, né não? vivemos num pedaço de mundo que interdita o prazer a nós, mulheres: servimos muito bem como objetos do prazer de um outro (e até mesmo de uma outra), mas <em>calaboca</em> quando é pra falar da própria buceta, de como a gente gosta de gozar com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">enquanto o patriarcado for a norma social, vamos ter que fazer um esforço pra romper tabus. masturbação é um deles. eu demorei um tempão pra me encontrar nessa bela arte do auto-encontro, e, na verdade mesmo, só depois que me entendi lésbica e descobri que era capaz de dar prazer pra outra mulher é que aprendi a dar prazer pra mim mesma.</p>
<p style="text-align: justify;">a primeira vez que toquei uma mulher e ela gozou, fiquei maravilhada/espantada! maravilhada porque é um dos momentos mais lindos possíveis de viver, pra mim: compartilhar o orgasmo de outra mulher. e espantada porque, se eu tinha conseguido com ela, por que nunca conseguia comigo?</p>
<p style="text-align: justify;">eu até tentava me masturbar, mas não rolava aquela gana&#8230; pensava em alguma coisa que me excitasse, mas geralmente parecia mais interessante estar com outra pessoa do que pensar em estar com outra pessoa. a primeira vez que gozei me masturbando foi pensando em como tinha sido uma delícia estar com determinada guria. e como eu queria muito estar com ela, mas não tava, foi ótimo me masturbar.</p>
<p style="text-align: justify;">depois tive que aprender a gostar de me dar prazer por mim mesma, sem precisar das fantasias ou lembranças. que podem ser legais, ótimas – sem problemas em fantasiar. mas não dava pra ficar escrava disso, porque nem sempre eu tô super a fim de alguém. então essa parte foi mais difícil, mas foi um processo muuuito importante, porque culminou na consolidação de um outro processo: entender que eu vivo melhor comigo mesma estando bem apaixonada por mim.</p>
<p style="text-align: justify;">porque amar eu já me amava fazia tempo, me respeitava, me cuidava etc. mas não era APAIXONADA por mim. me achava muito bonita, mas não necessariamente muito gostosa. me sabia muito interessante, mas não necessariamente muito SENSUAL. a primeira coisa que eu entendi como muito sensual, em mim, foram minhas <em>pálpebras</em>. diária, vamo combinar que não é muito fácil ser uma mulher gorda e se achar linda E gostosa quando todo mundo te diz coisas como “nossa, você tá mais bonita, o que houve? emagreceu?”, ou “gente, ela tem um rosto tão lindo&#8230; pena que não emagrece” etc.</p>
<p style="text-align: justify;">mas, eventualmente, assumi minha gostosice. aprendi também uma outra coisa muito importante, que eu já sabia mas ainda não tinha experimentado de verdade eu mesma: a gente <strong>não tem</strong> que aprender a se gostar pra que outras pessoas gostem da gente. a gente tem que aprender a se gostar porque se não, não sobrevive. outras pessoas gostarem da gente é uma experiência maravilhosa, e amplificada quando nós mesmas nos gostamos, mas não tem que ser a meta (nem o passo seguinte à meta, justificando ela!).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/cotidiana29_01.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-14289" title="cotidiana29_01" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/cotidiana29_01-300x157.jpg" alt="cotidiana29_01" width="300" height="157" /></a>bom, tenho pensado de forma parecida sobre masturbação. não aprendi a gozar comigo mesma pra poder dizer, pra outra mulher, como eu gosto de gozar quando estamos juntas. aprendi porque acho tão gostoso estar comigo mesma e experimentar esse tipo de auto-contato e derramamento de/em mim mesma, que não admito mais viver sem esse tipo de experiência de plenitude e mergulho íntimo. gozar é uma questão de saúde sexual, mental, física&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">obviamente, quem me conhece sabe que tenho essa pala de “<strong><span style="text-decoration: underline;">a</span></strong> experiência”, “<strong><span style="text-decoration: underline;">o</span></strong> mais profundo”, “<strong><span style="text-decoration: underline;">o</span></strong> mais especial”, “<strong><span style="text-decoration: underline;">a</span></strong> mais bonita” – então, nem sempre que me masturbo eu gozo. às vezes fico um tempão experimentando as texturas, as velocidades, os tipos de toque&#8230; só clitorianamente, clitorianamente e vaginalmente, com penetração ou sem, com estímulo anal ou sem&#8230; e quando vou quase gozar, experimento outra forma, outro toque, outro jeito.</p>
<p style="text-align: justify;">às vezes fantasio alguma coisa, às vezes não. quando não fantasio é muito mágico, porque a sensação que tenho é que o orgasmo é uma ponte de carinho, membranas e umidade me levando até eu mesma, num lugar em que me deito sobre mim pra me esparramar&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">depois fico vários minutos bem quieta e em silêncio gozando da cabeça aos pés. ali comigo mesma. me vendo e me sentindo desde dentro. é muito louco, porque agora reconheço isso como orgasmo, mas tenho essa experiência, esse conjunto de sensações e arrepios, faz muito tempo, mesmo sem me estimular sexualmente. e eu chamava isso de “dançar sem me mexer”.</p>
<p style="text-align: justify;">acho muito bonito eu ter achado essa possibilidade de auto-contato depois de conhecer e me apaixonar por outra mulher, e pra mim faz muito sentido que ambas sermos negras é outra fonte de laços. por achar ela tão importante e especial, ainda que tenhamos nos afastado, eu me entendi mais especial e importante. e esse encontro, breve, confuso, intenso e referencial, me trouxe ao encontro dessa mulher que, cada vez mais, <strong><span style="text-decoration: underline;">eu sou</span></strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">lembro que antes de me entender lésbica eu achava masturbação uma chatice! não “dava certo”, parecia que não funcionava: eu não sentia prazer. e ainda achava que era, de alguma forma, errado e egoísta ter prazer comigo mesma. veja bem, diária, que o dispositivo da moral judaico-cristã, de abominação do feminino e que o condena como sujo, pecaminoso, errado, funciona até com pessoas não-cristãs, como eu.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/cotidiana29_02.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-14290" title="cotidiana29_02" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/cotidiana29_02-300x150.jpg" alt="cotidiana29_02" width="300" height="150" /></a>hoje, olhando com essa sabedoria que comecei a abraçar, entendo com bastante nitidez, e também serenidade, que eu tinha medo de gozar, da mesma forma que tinha medo de ser lésbica, porque tinha medo de ser eu mesma: intensa, profunda, abissal. internalizando, obviamente, o medo que o patriarcado tem do gozo e do prazer das mulheres, porque o erótico é, afinal, uma de nossas grandes fontes de poder, conexão e integridade.</p>
<p style="text-align: justify;">lembrei de Audre Lorde, no lindo <a href="http://sandramichelli.wordpress.com/category/textos-de-colaboradores/">“Os usos do erótico: o erótico como poder”</a>, quando ela diz  que o erótico</p>
<p style="text-align: justify;"><em>“é um lugar entre a incipiente consciência de nosso próprio ser e o caos de nossos sentimentos mais fortes. É um senso íntimo de satisfação ao qual, uma vez que o tenhamos vivido, sabemos que podemos almejar. Porque uma vez tendo vivido a completude dessa profundidade de sentimento e reconhecido seu poder, não podemos, por nossa honra e respeito próprio, exigir menos que isso de nós mesmas.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">não estou dizendo que toda mulher que não se masturba e/ou goza tem medo de si mesma. talvez a gente não precise ficar procurando motivos e explicando tudo tão minuciosamente. provavelmente algumas mulheres ainda têm medo delas mesmas, de ser plenas em seus desejos, mas se masturbam e gozam maravilhosamente. vai saber? não estou querendo dar fórmula de nada, só compartilhar com vocês como fiquei mais inteira comigo mesma depois que aprendi a gozar comigo mesma, me derramar.</p>
<p style="text-align: justify;">(recentemente, uma amiga com seus quase 60 anos disse, numa roda de conversa, que tava tomando seu banho quando deu ‘umas coisas na cabeça’ e foi atrás de achar ‘seu ponto’. e achou! esse texto é uma homenagem pra ela, e pra primeira mulher que compartilhou seu orgasmo comigo, me ajudando a aprender sobre nosso poder erótico, “fêmeo e auto-afirmativo”, nas palavras lindas de Audre Lorde. axé! vida longa de litros de gozo às negras feministas! as imagens desse texto são do site <a href="http://www.ifeelmyself.com/">ifeelmyself.com</a>, que tem vários vídeos bonitos de mulheres gozando, apesar de serem muito produzidos e terem poucas pessoas não-brancas)</p>
]]></content:encoded>
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		<title>feminismos</title>
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		<pubDate>Thu, 18 Feb 2010 22:19:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.
POR QUE FEMINISMO?
“Sermos mulheres juntas não era o suficiente.
Éramos diferentes.
Sermos lésbicas juntas não era suficiente. Éramos diferentes.
Sermos Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.
Sermos mulheres Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.
Sermos sapatões Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes&#8230;
Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.”
(Audre Lorde, poetisa negra lesbo-feminista)
QUE FEMINISMO?
tem ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/feminism1.png"><img class="alignright size-medium wp-image-14181" title="feminism1" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/feminism1-240x300.png" alt="feminism1" width="240" height="300" /></a>por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.<span id="more-14180"></span></em></p>
<p style="text-align: justify;">POR QUE FEMINISMO?</p>
<p style="text-align: justify;">“Sermos mulheres juntas não era o suficiente.<br />
Éramos diferentes.<br />
Sermos lésbicas juntas não era suficiente. Éramos diferentes.<br />
Sermos Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.<br />
Sermos mulheres Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes.<br />
Sermos sapatões Negras juntas não era suficiente. Éramos diferentes&#8230;<br />
Levou um tempo para percebermos que nosso lugar era não a segurança de uma diferença em particular, mas a própria casa da diferença.”<br />
(Audre Lorde, poetisa negra lesbo-feminista)</p>
<p style="text-align: justify;">QUE FEMINISMO?</p>
<p style="text-align: justify;">tem muitas maneiras de agir/pensar feminismos. como corrente filosófica, são várias escolas, epistemologias, hipóteses. como movimento social, há muitas formas de organização-ação-prática-pensamento-cotidiano-vivência-projetos. sendo que, pra gente, de onde agimos/pensamos como feministas negras lésbicas, não dá pra separar  movimento (práticas) de pensamento (teorias).</p>
<p style="text-align: right;"><em>“Acredito que os significados do ‘pessoal’ (como na minha história) não são estáticos, mas que mudam através da experiência, e com o conhecimento. Não estou falando do pessoal como “sentimentos imediatos expressos confessionalmente”, mas de algo que é profundamente histórico e coletivo – por ser determinado por nosso envolvimento em coletivos e comunidades e pelo engajamento político. Efetivamente, é essa compreensão da experiência e do pessoal que faz a teoria possível. Então, para mim, a teoria é um aprofundamento do político, e não um distanciamento dele: uma destilação da experiência, e uma intensificação do pessoal</em>.” (Chandra Mohanty, feminista indiana)</p>
<p style="text-align: justify;">de maneira simples, o feminismo é um projeto pra acabar com a dominação masculina sobre as mulheres (sexismo), não simplesmente invertendo a ordem desse poder, mas repensando até mesmo o que ele significa, por quais formas de opressão opera pra nos impedir de viver livremente (lesbofobia, racismo, gayfobia, especismo, capitalismo, travestifobia&#8230;) e como elas se articulam, pra nos oprimir de maneira mais forte – o que demanda, então, formas variadas e articuladas de resistência.</p>
<p style="text-align: justify;">dentro dos movimentos feministas há muitas demandas, desejos, vontades, lutas (afinal, esses movimentos têm como protagonistas diversas mulheres, de lugares diferentes, línguas, vozes, cores, jeitos, formas de viver diferentes). no entanto, algumas dessas bandeiras de luta são importantes pra nossa atuação em comum. algumas delas:</p>
<p style="text-align: justify;">- luta pelo fim do silenciamento e da submissão impostas às mulheres: combate à naturalização de uma passividade atribuída, dos papéis fixos de existência; luta pelo direito à auto-representação, ao protagonismo em nossas vidas &#8230;;</p>
<p style="text-align: justify;">luta pelo fim da violência sexista/de gênero: violências física, sexual, simbólica, conjugal, doméstica, geracional, moral, psicológica;</p>
<p style="text-align: justify;">- luta pela garantia da autonomia sexual e soberania reprodutiva: direito à livre expressão sexual e identidade de gênero; direito de escolher por uma interrupção voluntária de gravidez (aborto); a condições dignas, seguras e assistidas de levar uma gravidez desejada adiante; ao não-confinamento no papel de mães, esposas, filhas, cuidadoras; a viver livre de violência lesbofóbica&#8230;;</p>
<p style="text-align: justify;">- combate à exploração capitalista: precarização do trabalho, exploração sexual de mulheres e crianças, fim do trabalho escravo, combate à pornografia;</p>
<p style="text-align: justify;">- politizar a vida privada e tornar as lutas políticas parte do cotidiano: o vegetarianismo, por exemplo, não é só prática de saúde, mas vivemos isso como uma maneira de diminuir a exploração de pessoas não-humanas baseada em modelos de exploração sexistas.</p>
<p style="text-align: justify;">as formas de expressão e organização também são muitas. podemos fazer músicas, escrever textos (verbais ou não-verbais: de desenhos a fotos a histórias a zines, como esse), fazer cartazes, manifestações, oficinas, grupos de conversa, grupos de intervenção&#8230; colocar nossas idéias pra jogo, deixar os sonhos fluírem, desmontar mundos que não nos cabem pra plantar mundos em que caibamos todas!</p>
<p style="text-align: justify;">PORQUE FEMINISMO NÃO É O CONTRÁRIO DE MACHISMO.</p>
<p style="text-align: justify;">algumas pessoas acusam mulheres feministas, ou aquelas que não se submetem à dominação masculina mesmo sem se falar ou se achar feministas, de querer “inverter as coisas”, e acham que feminismo é o oposto de machismo. machismo é um tipo de <strong><span style="text-decoration: underline;">sexismo</span></strong>, que é um <strong>sistema ideológico</strong> (assim como o racismo, o capitalismo, o heterossexismo) que instaura grupos sexuais, criando hierarquia entre eles. grupos sexuais podem ser homens e mulheres hetero, bissexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, trangêneros, intersexo – em ordem de distribuição de poder! como no racismo, o vetor do poder sexista vai do pólo masculinidade (branquitude) pro feminilidade (negritude). e como a dominação de pessoas não-brancas tem sido executada pelas brancas, o racismo é um sistema de hegemonia branca, como o sexismo é um sistema de hegemonia masculina e heterossexual. por isso é que pessoas negras não podem ser racistas com pessoas brancas, e mulheres não podem ser sexistas com homens (mas sim com elas mesmas ou outras, internalizando o sexismo).</p>
<p style="text-align: justify;">por que no topo da hierarquia está o homem hetero, e na base uma travesti? porque as sociedades ocidentais tecnocratas se organizaram em prol de um modelo heterossexual de famílias nucleares patriarcais, em que a célula mínima da economia de relações e afetos é voltada para reprodução, monogamia, heterossexualidade. convém lembrar que essa economia conversa intimamente com uma moral cristã de acumulação de bens, o que explica seu sistema de valores e implica que quem estiver fora do molde de funcionalidade social, rompendo minimamente o modelo prévio de interação (“homem e mulher se apaixonam, casam, procriam, vivem juntxs até que a morte separe”), não <em>serve</em> socialmente.</p>
<p style="text-align: justify;">criminalizar a homoafetividade e a livre expressão da identidade de gênero obedece ao <strong><span style="text-decoration: underline;">heterossexismo,</span></strong> uma crença na heterossexualidade como orientação afetivo-sexual mais natural, correta ou normal em relação a outras, que portanto só podem ser desvios, doenças, pecado, erradas. no movimento lgbt – lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais – muito se fala em “sair do armário” (falar abertamente da orientação afetivo-sexual). só não podemos esquecer que a heterossexualidade também tem que sair do armário, e sai de forma violenta, repetitiva e naturalizada. por exemplo, qual é a primeira pergunta que se faz a uma grávida? “é menina ou menino?”, o que vai definir a cor das roupas, o tipo de brinquedos escolhidos, o comportamento esperado em relação àquela futura criança, ou seja, todo um conjunto de expectativas relacionadas à leitura cultural (gênero) feita sobre um dado biológico (genitália).</p>
<p style="text-align: justify;">PORQUE FEMINISMO É PRA TODO MUNDO!</p>
<p style="text-align: justify;">um homem pode ler isso aqui e se perguntar “ok, mas eu não sou mulher, o que tenho a ver com isso?”. primeiro, não podemos esquecer que vivemos comunitariamente. depois, é bom SEMPRE lembrar que os grandes beneficiados pelo sistema de privilégios que o sexismo estabelece são os homens. só que, apesar disso, eles também são prejudicados, já que a construção da masculinidade é um processo de violência não só dirigido às mulheres, mas que também violenta os homens, estabelecendo regras e obrigações que, quando não são violentas em si (“segura o choro que homem não chora!”), precisam ser aplicadas violentamente (“homem não usa brinco e nem usa cabelo grande”).</p>
<p style="text-align: justify;">o foco imediato da <strong>ação feminista</strong>, contudo, é o protagonismo das mulheres. Chandra Mohanty a define como “integridade pessoal, práticas cotidianamente políticas e pessoais, e a luta por justiça, eqüidade e autonomia das mulheres”. e se um dos grandes entraves a nossa autonomia é a violência sexista, geralmente exercida por homens, então há um movimento duplo: 1º o de empoderar as mulheres, pra que sejamos sujeitas de nossas próprias vidas; 2º construir um espaço de solidariedade masculina a nossa luta. o segundo passo demanda que os homens analisem suas práticas e valores, e estejam dispostos a abrir mão de muitos dos benefícios que recebem por serem homens, e que às vezes nem percebem como privilégio. por exemplo, em coletivos mistos, é comum os homens responderem, às queixas das mulheres de que eles falam mais, que nós é que precisamos nos impor, e falar mais alto – e que a voz deles é “naturalmente” mais alta que a nossa.</p>
<p style="text-align: justify;">quanto à violência física e sexual, enquanto os homens não pararem de nos enxergar como algo a ser possuído e objetificado, enquanto associarem seu prazer e gozo à subjugação do nosso prazer e do nosso gozo, vamos estar sujeitas às violações, estupros, insistências&#8230; e apesar de ser muito importante e primordial o auto-reconhecimento de nossa soberania (somos donas de nosso próprio corpo e gozo), esse entendimento vai ser questionado, ameaçado e violado enquanto houver homens que não nos respeitem. apesar de haver muitos feminismos separatistas (lesbianos ou não), algumas feministas (lésbicas ou não) apostam num projeto político feminista pras pessoas não-mulheres também.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">montamos esse material pra compartilhar com vocês algumas idéias que movem nosso coração. se quiser compartilhar  o que te move, escreva pra gente! corpuscrisis@gmail.com http://confabulando.naxanta.org</p>
<p style="text-align: justify;">diária querida,</p>
<p style="text-align: justify;">esse textinho foi elaborado pela primeira vez em 2008, e agora recebeu uma guaribada. agradeço à lice e ludmila gaudad pelas sugestões, colaborações e parceria, à poli preta pela paciência de fazer os testes de formatação e pelo incentivo, elogios, e o doce presente de aniversário. esse textinho é uma tentativa de colocar em termos utilizáveis por muitas pessoas diferentes o que temos conversado, discutido, pensado e produzido em termos de vida, academia, experiências, trocas&#8230; espero que muitas mulheres se apropriem, e que muitos homens prestem atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">a versão mais bonita dele tá num zine que pode ser baixado <a href="http://www.4shared.com/file/223389008/4ce96ba1/EIV_zine.html">aqui</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>29</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Feb 2010 01:25:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária, fiz 29 no domingo passado.
foi um dia muito feliz.
estou lacônica. acho que é cansaço, tô fazendo verão na unb. última avaliação é amanhã.
estou lacônica. hoje mais um poema.
um poema bem bonito simples
que hoje é meu aniversário
hoje é meu aniversário e ganhei da minha mãe muitos livros
que eu mesma escolhi
de negras feministas poetisas lesbianas
chicanas fronteiriças
amazonas incoercíveis
hoje é meu aniversário
e
finalmente
estou feliz
não tenho nada angustiado pra ser escrito então
fico sem escrever
fico olhando pro céu
fico vendo os tons de verde do por-do-sol
festa nos olhos
vem uma brisa fina e arrepia a ponta da ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/los_anillos_de_saturno.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-14102" title="los_anillos_de_saturno" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/02/los_anillos_de_saturno-300x236.jpg" alt="los_anillos_de_saturno" width="300" height="236" /></a>por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p>diária, fiz 29 no domingo passado.<span id="more-14101"></span></p>
<p>foi um dia muito feliz.</p>
<p>estou lacônica. acho que é cansaço, tô fazendo verão na unb. última avaliação é amanhã.</p>
<p>estou lacônica. hoje mais um poema.</p>
<p>um poema bem <span style="text-decoration: line-through;">bonito</span> simples</p>
<p>que hoje é meu aniversário</p>
<p>hoje é meu aniversário e ganhei da minha mãe muitos livros</p>
<p>que eu mesma escolhi</p>
<p>de negras feministas poetisas lesbianas</p>
<p>chicanas fronteiriças</p>
<p>amazonas incoercíveis</p>
<p>hoje é meu aniversário</p>
<p>e</p>
<p>finalmente</p>
<p>estou feliz</p>
<p>não tenho nada angustiado pra ser escrito então</p>
<p>fico sem escrever</p>
<p>fico olhando pro céu</p>
<p>fico vendo os tons de verde do por-do-sol</p>
<p>festa nos olhos</p>
<p>vem uma brisa fina e arrepia a ponta da pele</p>
<p>hoje choveu &#8220;a qualquer momento&#8221; e fez muito sol também</p>
<p>hoje revisitei em totalidade meus desejos</p>
<p>hoje me enxerguei pelo tato</p>
<p>no meu aniversário encontrei muitas amigas</p>
<p>encontrei alguns amigos</p>
<p>entendi que gosto de ter amigos</p>
<p>conversei com um amigo que esse vício no estar mal</p>
<p>pra produzir bem</p>
<p>é um vício meio tosco né não?</p>
<p>ele acha glorioso</p>
<p>eu acho que não</p>
<p>mas ao mesmo tempo não consigo escrever nada <span style="text-decoration: line-through;">que preste</span> mostrável há alguns meses</p>
<p>a não ser coisas do tipo:</p>
<p>1) um imeio pra um amigo meu dizendo,</p>
<p>depois de meses,</p>
<p>&#8220;estou ótima.</p>
<p>felicidade é uma parada egoísta pra caralho&#8221;</p>
<p>porque quando eu tava triste escrevia sempre pra ele</p>
<p>etc</p>
<p>2) um imeio pra uma amiga dizendo que “é, vacilei mesmo”</p>
<p>pedindo desculpa e explicitando estar ciente da necessidade de afastamento dela, porque</p>
<p>estou feliz, não quero dor de cabeça</p>
<p>então quando tiver tudo bem que ela saiba que vou estar aqui, ainda displicente</p>
<p>mas muito amável</p>
<p>etc</p>
<p>no meu aniversário também vi meu pai, mas foi só no final do dia</p>
<p>que ele tinha ido pra um retiro espiritual</p>
<p>recebi telefonemas</p>
<p>ganhei presentes, poemas, receitas, projetos, risadas, carinho, declarações,</p>
<p>uma foto do céu no fim daquele dia todo meu,</p>
<p>ganhei abraços com desejos maravilhosos que esquentavam o abraço e</p>
<p>me deixaram feliz.</p>
<p>também briguei com meu irmão e chorei muito e conversei com minha mãe sobre como ela é importante mas não pode se sentir responsável por tudo o tempo inteiro, porque é justamente isso que esperam e fazem com as mulheres pra que a gente não dê conta de tudo e se ache culpada por tudo</p>
<p>no meu aniversário fiquei apaixonada por alguns segundos, aí mandei uma mensagem</p>
<p>que foi respondida de uma forma engraçada,</p>
<p>não exatamente como eu queria</p>
<p>(bem diferente na verdade)</p>
<p>então aprendi pela trocentésima vez a valiosa lição</p>
<p>de que apesar de ser muito massa desejar y fazer planos</p>
<p>o inesperado da vida é um presente bem maravilhoso</p>
<p>não é difícil imaginar que muitas coisas aconteceram nos milhares de dias anteriores ao dia em que completei</p>
<p>29 anos</p>
<p>não é difícil imaginar que:</p>
<p>gozei</p>
<p>sorri</p>
<p>chorei</p>
<p>sofri</p>
<p>quase morri</p>
<p>ressuscitei</p>
<p>me apaixonei</p>
<p>me fodi</p>
<p>larguei algumas coisas</p>
<p>completei outras</p>
<p>aprendi</p>
<p>errei</p>
<p>me perdi</p>
<p>perdi pessoas</p>
<p>perdi a noção</p>
<p>e finalmente perdi o medo</p>
<p>não é difícil de imaginar que na vida de uma mulher preta de 29 anos cada dia tenha sido uma vida inteira</p>
<p>às vezes carregada</p>
<p>às vezes uma farra</p>
<p>às vezes um tédio</p>
<p>às vezes cansada</p>
<p>comigo foi assim mesmo</p>
<p>&amp; enquanto ia saturno se ajustando com seus bambolês</p>
<p>eu ia me ajustando comigo mesma</p>
<p>me encontrando</p>
<p>me perdoando</p>
<p>me apaixonando tanto por mim mesma que aprendi uma maneira muito cabulosa de ser feliz apesar e a partir de muita coisa que tinha me feito pouco feliz ou que eu mesma fiz pra me deixar nada feliz</p>
<p>e aí resolvi escrever um poema assim simples<br />
de presente pra mim mesma por ter chegado inteira y plena<br />
aos 29 anos em sete de fevereiro do ano de dois mil &amp; dez, século vinte-um de alguma dessas contagens confusas ocidentais</p>
<p>que até tem feito sentido para: mim,<br />
essa menina antiga.</p>
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		<title>lá são tod@s pret@s</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Jan 2010 20:32:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
mais de 200 mil mortes. outras tantas centenas de milhares de pessoas machucadas, desabrigadas. na primeira república negra do mundo. república do povo negro que brigava contra o parasitismo do capital internacional devastador de mentes, corações, corpos, florestas&#8230; há alguns meses, o exército brasileiro tava lá estuprando e matando em nome do capital internacional, consagrando a invasão militar que fez 5 anos em 2009 e lá protegia os interesses da pequena e poderosíssima elite local, que por sua vez funcionava a serviço e com o aval ($) de empresas ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/01/biscoito-de-farinha-de-poeira.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-13850" title="biscoito-de-farinha-de-poeira" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/01/biscoito-de-farinha-de-poeira-300x200.jpg" alt="biscoito-de-farinha-de-poeira" width="300" height="200" /></a>por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p style="text-align: justify;">mais de 200 mil mortes. outras tantas centenas de milhares de pessoas machucadas, desabrigadas. <span id="more-13849"></span>na primeira república negra do mundo. república do povo negro que brigava contra o parasitismo do capital internacional devastador de mentes, corações, corpos, florestas&#8230; há alguns meses, o exército brasileiro tava lá estuprando e matando em nome do capital internacional, consagrando a invasão militar que fez 5 anos em 2009 e lá protegia os interesses da pequena e poderosíssima elite local, que por sua vez funcionava a serviço e com o aval ($) de empresas brasileiras (pasmem!) e gringas que sugavam trabalhadorxs que recebiam o menor salário da américa que&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">agora as tropas brasileiras vão prestar &#8220;ajuda humanitária&#8221; e choram seus mortos&#8230; e o povo haitiano troca a luta por direitos trabalhistas pela luta por sobreviver a um terremoto&#8230;<br />
humanidade cabulosa.</p>
<p style="text-align: justify;">mas passo a palavra, agradeço Luciane Rocha.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Haiti – Sim, Lá São Tod@s Pret@s</strong><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Primeira república negra do mundo<br />
Revolução<br />
Inspiração</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Bloqueio, Controle<br />
Imposição<br />
Opressão</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Sim, São todas pretas<br />
Mas não, não foi porque são todas pretas<br />
Nem coisa de preta<br />
Irmãs pretas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Tropas, Treinamento<br />
Favelas, Baixada Fluminense<br />
Repletas de pretas<br />
e pretos</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Sim, São todos pretos<br />
Mas não, não foi porque são todos pretos<br />
Nem coisa de preto<br />
Irmãos pretos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
Tragédia<br />
Tristeza<br />
milhares de mortos</p>
<p style="text-align: justify;">Eu sufoco</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti</p>
<p style="text-align: justify;">Penso</p>
<p style="text-align: justify;">Vejo</p>
<p style="text-align: justify;">Agonio</p>
<p style="text-align: justify;">Enraiveço</p>
<p style="text-align: justify;">Choro</p>
<p style="text-align: justify;">Haiti<br />
São pretas, são pretos<br />
Irmãs pretas<br />
Irmãos pretos</p>
<p style="text-align: justify;">Sim, lá são tod@s pret@s<br />
Irm@s Pret@s.</p>
<p style="text-align: justify;">(Luciane O. Rocha &#8211; 16/01/10)</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
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		<title>palavra desordem!</title>
		<link>http://paradalesbica.com.br/2010/01/palavra-desordem/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Jan 2010 00:41:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[1. uma palavra que dê abrigo
ando num processo muito curioso de introspecção extrema. um tanto melancólica. sem muita perspectiva, confesso. mas com muito desejo. a falta de perspectiva tem também a ver com trabalho e vida acadêmica, mas são apêndices. e, por outro lado, a urgência de compromissos que não são só comigo não me permite ficar em casa no silêncio e isolamento, aprendendo meus silêncios e lacunas.
uma dessas pequenas urgências é manter aqui uma coluna lesbiana feminista, plantada no chão da minha negritude, escrita semanalmente. recebo comentários que me ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cotidiana25_destaque.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-13536" title="cotidiana25_destaque" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2010/01/cotidiana25_destaque-300x201.jpg" alt="cotidiana25_destaque" width="300" height="201" /></a>1. uma palavra que dê abrigo<span id="more-13535"></span></span></p>
<p>ando num processo muito curioso de introspecção extrema. um tanto melancólica. sem muita perspectiva, confesso. mas com muito desejo. a falta de perspectiva tem também a ver com trabalho e vida acadêmica, mas são apêndices. e, por outro lado, a urgência de compromissos que não são só comigo não me permite ficar em casa no silêncio e isolamento, aprendendo meus silêncios e lacunas.</p>
<p>uma dessas pequenas urgências é manter aqui uma coluna lesbiana feminista, plantada no chão da minha negritude, escrita semanalmente. recebo comentários que me encorajam a continuar escrevendo, como algumas amigas que não tão perto mas escrevem dizendo “oi, eu tava meio pra baixo e fui ler seus textos pra me animar”.</p>
<p>isso faz toda diferença não só pra continuar escrevendo, mas pra continuar escrevendo coisas sobre nós que não nos plasmem em lugares de sofrimento e angústia, mas que sejam lugares a partir dos quais escrevamos a história de nossas vidas de maneira poderosa, forte, auto-centrada. o lugar do feminino, e do feminino negro especialmente, não cabe no mito da passividade patriarcal sobre as mulheres.</p>
<p>criando nossos espelhos a partir de nós mesmas e pelo combate ao racismo, ao sexismo, à lesbofobia, a esses sistemas de opressão e tortura que esperam que nós, mulheres (negras e/ou lésbicas ou outras mulheridades), sejamos todas mortas de pancada ou estupradas ou silenciadas ou humilhadas.</p>
<p>a responsabilidade de fazer minha voz ecoar não é só com meu bem-estar, minha plenitude, minha alegria, minha super-vivência (porque realmente queremos muito mais que sobreviver)… mas com a vida de outras amigas e mulheres negras que enxergam nessas palavras um espelho da vida de todas nós.</p>
<p>espelho que seja caminho, que seja ponte pra nos levar até umas às outras, e nos mostrar como compartilhar formas de viver combativamente e felizes. tendo segurança ao andar na rua, e também tendo tranqüilidade ao nos apaixonar, ao gozar, ao entender como a expropriação de nossa sexualidade super-exposta pro deleite alheio se relaciona com a dificuldade que temos de gozar.</p>
<p>é uma dificuldade que bebe na fonte da masturbação como interdito pra gente. nos ensinam o “tiramãodaí, menina indecente”; nos ensinam a ter nojo e medo de nossa menstruação. e é porque a eficiência desses treinamentos é tamanha que eu, uma feminista, liberada, ciente de muitas das minhas potencialidades, forças e poderes, tenho mais dificuldade em gozar me masturbando que quando trepando com uma mulher.</p>
<p>mas como condicionamentos são quebráveis, um dos processos pra minha conquista (me conquistar de volta) é justamente o de aprender a gozar me masturbando mais livremente, com mais freqüência.</p>
<p>e isso tem sido um treinamento valioso de auto-conhecimento. não é só pelo derramamento que é o gozo, em si, mas pelo que esse experimentar me proporciona de contato comigo mesma, de me sentir e me saber. uma delícia. tão confortante quanto me olhar no espelho e me saber tão bonita.</p>
<p>aí, quando encontro alguém que comenta isso, “nossa tati, você tá tão linda”, posso responder tranqüila: “é de nascença”.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">2. uma palavra que não permita esvaziamento</span></p>
<p>voltando do 1º encontro nacional de jovens negras feministas, cheguei em brasília com uma bomba da macro-política explodida. ou o famoso “alguém jogou merda no ventilador”. tem sido notícia freqüente no jornal um esquema de desvio de verba pública pelo governador da cidade, josé roberto arruda, junto ao vice-governador paulo octávio e uma dúzia de outras pessoas envolvidas com o governo, entre deputados distritais, secretários, conselheiros e, óbvio, empresários não-governalizados.</p>
<p>diante das acusações, filmagens e fotografias dos corruptos enfiando dinheiro em sacos plásticos, cuecas e meias, o governador arruda afirmou que era pra comprar panetone pros pobres. depois da explosão das acusações, foi vistoriar uma das obras mais assassinas de seu mandato: a expansão da eptg – estrada parque taguatinga guará, uma das mais engarrafadas nos horários de pico, que incluem sábados, no df –, que tem sido apelidada de ‘linha verde’. deve ser porque, pra ampliar a pista, a obra derrubou quase todas as árvores do canteiro que ficava entre as duas mãos da já larga via.</p>
<p>a população, entre estudantes, partidos, sindicatos, grupos autônomos e pessoas autônomas, ocupou a câmara legislativa do df pra exigir que o governador e sua laia sejam renunciados; o mpdft questionou a constitucionalidade da revisão do pdot, o plano diretor de ordenamento territorial do distrito federal. Isso acontece quando as primeiras kits do que é chamado setor noroeste, vulgo “o primeiro bairro ecológico de brasília”, construído sobre a reserva ambiental tombada historica e culturalmente como Santuário dos Pajés – uma reserva habitada por comunidade indígena tradicional de antes da construção de brasília –, começam a ser vendidas por cerca de 400 mil reais.</p>
<p>não custa lembrar, nunca, que o dono da maior empreiteira do df é o vice-governador, paulo octávio. e também é importante dizer que as alterações climáticas que a mídia local – também monopolizada por paulo octávio – vem alardeando há alguns anos (aqui é muito comum ver manchetes de jornal avisando que “daqui a 50 anos df terá falta permanente de água”), já tão rolando e são obviamente sentidas por quem mora aqui há mais de 10 anos, como eu.</p>
<p>mas, diferentemente do que o refrão popular tem dito, não acho que o lugar de “roriz, paulo octávio e arruda” seja na papuda – rima óbvia e nome do presídio masculino do df. porque sistemas carcerários não deviam existir; o sistema penal no brasil foi criado pra marginalizar e criminalizar a população negra – não é coincidência que a maior parte das pessoas encarceradas sejam negras, nem é coincidência que sejamos maioria também entre as/os pobres – e não é demais lembrar a sabedoria de Racionais: “miséria traz tristeza e vice-versa”, parafraseando pra “pobreza traz violência e vice-versa”.</p>
<p>e, no brasil, quem cria a pobreza é o racismo – não o contrário.</p>
<p>enfim, diária, muitas dobras pra um só assunto. muitos caminhos pra poucas palavras. e nenhuma fé num sistema de democracia e representação política em que uma pessoa se acha capaz de governar a organização coletiva e comunitária de várias; a democracia indireta representativa é uma farsa em si, e quem herdar a cadeira que arruda herdou de roriz vai herdar esse karma. pago, obviamente, mais por nós do que por eles – mesmo que sejam punidos com papuda. e ano que vem é de eleição… a farsa continua, companheiras.</p>
<p>qual alternativas de auto-gestão e participação coletiva nos processos decisórios temos num estado de coisas regrado pelo corporativismo do capital embranquecedor e asfaltante comandado pelos machos? brechas e ruídos, fissuras e boicotes. abaixo, à esquerda e tangencialmente é que bate o coração. roxo das feministas negras autônomas que amam mulheres. ma jah, estou tão poética, não? <strong>palavra-desordem:</strong></p>
<p>poesia é política, pela política da poesia e contra a burocracia! micro-políticas do faça-você-mesma-com-as/os-amig@s! alastradas macrofagicamente y magicamente, saravá! (agora prometo que acabou)</p>
<p><em>pós-escrito:</em></p>
<p><em>esse texto foi feito no começo de dezembro. às leitoras comentantes e às silenciosas, um abração de final de dezembro, com muita esperança no Axé de 2010 – com muito carinho mas sem muito alarde, que pra mim o ano começa mesmo é em 07 de fevereiro…</em></p>
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		<title>cotidiana 24</title>
		<link>http://paradalesbica.com.br/2009/12/cotidiana-24/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 00:36:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
de que matéria é feito esse silêncio que come dentro de mim
e me come por dentro fazendo-me sentir
calada?
se tudo que é vivo come e se esse silêncio me come às custas de me fazer parecer
deixada de viver,
se esse silêncio come crescendo por dentro minhas palavras e se engorda dentro de mim até me fazer querer vomitar
silêncio,
que forças eu vou ter de me alimentar de palavras?
e quanto mais me nutro delas mais ele as devora
crescendo dentro de mim
e viro uma consumidora de palavras como homens consomem pornografia porque
pensam que existe ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/12/dani_por_pmatallo.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-13267" title="dani_por_pmatallo" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/12/dani_por_pmatallo-300x199.jpg" alt="dani_por_pmatallo" width="300" height="199" /></a>por <a href="http://paradalesbica.com.br/colunas/tate/">Tate</a> em <a href="http://paradalesbica.com.br/category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p style="text-align: justify;">de que matéria é feito esse silêncio que come dentro de mim<span id="more-13266"></span></p>
<p style="text-align: justify;">e me come por dentro fazendo-me sentir<br />
calada?<br />
se tudo que é vivo come e se esse silêncio me come às custas de me fazer parecer<br />
deixada de viver,<br />
se esse silêncio come crescendo por dentro minhas palavras e se engorda dentro de mim até me fazer querer vomitar<br />
silêncio,<br />
que forças eu vou ter de me alimentar de palavras?<br />
e quanto mais me nutro delas mais ele as devora<br />
crescendo dentro de mim<br />
e viro uma consumidora de palavras como homens consomem pornografia porque<br />
pensam que existe alguma distinção entre fantasia e realidade e que isso os impede de<br />
sair por aí violentando a todas nós, mais ou menos parecidas com aquelas que ele compra<br />
silêncio que me derrota<br />
derrota meu desejo<br />
não um silêncio de paz de desejo saciado<br />
ou apaziguado<br />
(que é desejo não-realizado mas que senta satisfeito só por existir, satisfeito em-si, sobre os próprios joelhos<br />
dobrados)<br />
mas um silêncio de derrota<br />
de querer que eu me renda<br />
e me arraste sob o peso dos costumes etiquetais e a maneira adequada de me vestir e me portar e sentar<br />
de pernas fechadas porque estou de saia mas<br />
se estou de calça<br />
também de pernas fechadas porque senão diminui a distância entre a mulher da película<br />
e a mulher de pele que sou</p>
<p style="text-align: justify;">quando eu era mais nova um medo que eu tinha era deitar à noite em cima do meu ombro esquerdo porque<br />
tinha medo de ouvir meu coração parar de bater caso tivesse um ataque cardíaco à noite<br />
agora sou ainda mais nova mas acho a glória da vida ouvir o silêncio das batidas tranqüilas do meu coração<br />
antes de dormir<br />
ou se acalmando se vou dormir logo depois<br />
de me divertir</p>
<p style="text-align: justify;">quando eu era mais nova eu tinha mais medo era do silêncio do meu coração<br />
achando que a pausa era Silêncio</p>
<p style="text-align: justify;">e que a pausa podia durar mais tempo que eu poderia agüentar sem respirar</p>
<p style="text-align: justify;">agora sou uma velha criança remoçando,<br />
aprendendo coisas como se fosse uma menina<br />
vendo de sentir saturno chegando cada vez mais perto com seus bambolês</p>
<p style="text-align: justify;">mas agora,</p>
<p style="text-align: justify;">se tivesse que responder numa entrevista,<br />
o que eu teria mais medo seria<br />
”o silenciamento do racismo patriarcal”<br />
- essa seria a resposta quase politicamente correta<br />
mas na verdade,<br />
conversando com a dani depois dela ter sobrevivido a um<br />
seqüestro-relâmpago</p>
<p style="text-align: justify;">(<em>miséria </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>traz tristeza</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>e vice-versa<a href="file:///D:/Downloads/Luna/cotidiana24.doc#_ftn1"><strong>[1]</strong></a></em>)<br />
precisamos encarar o fato de que</p>
<p style="text-align: justify;">o silêncio patriarcal não dá medo</p>
<p style="text-align: justify;">dá é raiva</p>
<p style="text-align: justify;">e o que temos mais medo</p>
<p style="text-align: justify;">mesmo<br />
é de morrer com a enormidade do vazio cheio de saudade<br />
que é, também,<br />
um tipo de silêncio<br />
nos comendo pelas bordas<br />
e se engordando por dentro de nós.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>pra daniela marques, que eu amo, e que sentou no meu colo pra chorarmos enquanto ellen, que eu amo, cantava dos abacateiros inexistentes na avenida das palmeiras. e a saudade resistente de nossas amores semi-inexistentes lá, sentada no nosso colo, batendo palmas pra música. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>salve, ellen oléria, 27 anos contrariando as estatísticas no 12 de novembro! </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>axé a todas as outras pretas que amam como nós: “desmedidamente”.</em></p>
<p style="text-align: justify;">
<hr style="text-align: justify;" size="1" />
<p style="text-align: justify;"><a href="file:///D:/Downloads/Luna/cotidiana24.doc#_ftnref1">[1]</a> racionais, na música vida loka 2: não é questão de luxo / não é questão de cor / é questão que fartura / alegra o sofredor / não é questão de preza, nego / a idéia é essa: / miséria / traz tristeza / e vice-versa</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>o pólen púrpura da palavra</title>
		<link>http://paradalesbica.com.br/2009/11/o-polen-purpura-da-palavra/</link>
		<comments>http://paradalesbica.com.br/2009/11/o-polen-purpura-da-palavra/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 27 Nov 2009 01:17:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária querida,
nesta semana acontece, de 27  a 29 de novembro, o 1º encontro nacional de negras jovens feministas em salvador. na lista de pré-inscritas tive uma surpresa feliz de ver os nomes de algumas amigas do df, especialmente o da póli. esse texto é uma homenagem a ela, poliana preta, que é amante da poesia, guerreira no mundo, amiga no coração, que tem, como nós, um romance com a palavra. &#38; que escreveu: “Eu é que sei de mim, dessa coisa que é a palavra no meu íntimo”. ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/cotidiana23_01_nsimone.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-13050" title="cotidiana23_01_nsimone" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/cotidiana23_01_nsimone.jpg" alt="cotidiana23_01_nsimone" width="250" height="328" /></a>por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p>diária querida,</p>
<p>nesta semana acontece, de 27  a 29 de novembro, o <a href="http://www.negrasjovensfeministas.blogspot.com/">1º encontro nacional de negras jovens feministas<span id="more-13049"></span></a> em salvador. na lista de pré-inscritas tive uma surpresa feliz de ver os nomes de algumas amigas do df, especialmente o da póli. esse texto é uma homenagem a ela, poliana preta, que é amante da poesia, guerreira no mundo, amiga no coração, que tem, como nós, um romance com a palavra. &amp; que escreveu: <a href="http://www.dapalavraaopoema.blogspot.com/">“Eu é que sei de mim, dessa coisa que é a palavra no meu íntimo”</a>. e está escrita. um texto que postei antes, o <a href="../../../../../2009/10/calaboca-ja-morreu/">calaboca já morreu</a>, eu também dedicaria pra ela. pra ela y pra <strong>Nina Simone</strong>, nessa foto linda em que ela tá com uma expressão bem <em>quem manda na minha boca sou eu!, o microfone é meu</em>. a palavra é nossa, pretas!</p>
<p align="center"><strong> </strong></p>
<p align="center"><strong> </strong></p>
<p align="right"><em>tem sempre alguma coisa pra ser dita</em></p>
<p align="right"><em>e a palavra é mágica:</em></p>
<p align="right"><em>uma vez a terra pronta,</em></p>
<p align="right"><em>ela cresce que nem capim</em></p>
<p align="right"><em>diz o que tem que ser dito</em></p>
<p align="right"><em>abre portas emperradas</em></p>
<p align="right"><em>tira poeira escondida nos tapetes</em></p>
<p align="right"><em>dos bons-costumes, da vergonha, do medo</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>a palavra arrebata</em></p>
<p align="right"><em>quando corta a carne da mentira abrindo um rasgo que nem navalha</em></p>
<p align="right"><em>de dentro da mentira, jorra o lindo sangue da verdade em vermelho</em></p>
<p align="right"><em>ou da profundidade</em></p>
<p align="right"><em>ou da absurda mentira</em></p>
<p align="right"><em>(se a carne for de rasidão</em></p>
<p align="right"><em>se a carne for de honesteza</em></p>
<p align="right"><em>etc)</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>aí vem a palavra &amp; toca</em></p>
<p align="right"><em>como um sopro de vento bem fino que conta no tato da pele</em></p>
<p align="right"><em>uma história pequena, quase sussurada</em></p>
<p align="right"><em>a palavra é ousada</em></p>
<p align="right"><em>mas finge discrição</em></p>
<p align="right"><em>e nesse tocar tão de-leve que parece de-mentira</em></p>
<p align="right"><em>fica o assombro da impressão</em></p>
<p align="right"><em>a dúvida</em></p>
<p align="right"><em>será?</em></p>
<p align="right"><em>será que não?</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>lá vai ela, palavra</em></p>
<p align="right"><em>segue solta pelo mapa</em></p>
<p align="right"><em>plantando pontes entre as contas dos desejos, </em></p>
<p align="right"><em>dos discursos</em></p>
<p align="right"><em>dos não-ditos</em></p>
<p align="right"><em>procura o próximo pescoço em que vai</em></p>
<p align="right"><em>se fazer arrepio ambíguo</em></p>
<p align="right"><em>cada ponto eriçado de pele é</em></p>
<p align="right"><em>uma interrogação</em></p>
<p align="right"><em>será?</em></p>
<p align="right"><em>mas por que não?</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>pega o lápis pela mão</em></p>
<p align="right"><em>mancha os dedos com sua polpa de carvão</em></p>
<p align="right"><em>traz um brilho de grafite na pele de escuridão</em></p>
<p align="right"><em>se insinua bem alta pelas brechas e vãos</em></p>
<p align="right"><em>se espalha pegajosa como pó-de-condão</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>porque sempre tem alguma coisa esperando ser falada</em></p>
<p align="right"><em>e a palavra é mágica</em></p>
<p align="right"><em>etc</em></p>
<p align="right"><em>etc</em></p>
<p>mágica e também é desaforada. como eu. e como boa desaforada, não agüento desaforo. eis que hoje, 19 de novembro, falando sobre cotas étnico-raciais no ensino superior pra umas turmas de 1º ano na escola de uma amiga professora, me aparece um sujeito pra conversar sobre “vitimização”.</p>
<p>os debates sobre cotas costumam ter perguntas muito parecidas, principalmente aquelas que questionam o sistema de ação afirmativa. eu tava, basicamente, falando sobre os mesmos pontos que já apresentei aqui mesmo nessa coluna, no texto “<a href="../../../../../2009/08/chora-elite-branca-aprende-a-dividir/">chora, elite branca</a>”, lembram?</p>
<p>perguntas que já ouvi antes surgiram, eu respondi – pensando em coisas novas, outros argumentos, às vezes os mesmos. e eis que esse sujeito me aparece nos 47 do segundo, quando eu já arrumava minha trouxinha pra ir simbora almoçar, pra me falar que gostou muito da minha palestra, muito mesmo; que estaria mentindo se dissesse que não gostou.</p>
<p>MAS um incômodo, pra ele, era a maneira “vitimizada” com que nós, “negros”, sempre falávamos sobre racismo. “por que não falar sobre as coisas boas de vocês, negros?”, ele me perguntou. “por que não falar sobre a música&#8230;? sobre&#8230; sobre a voz do negro, que é tão linda? por que não falar sobre a dança?”, continuava ele.</p>
<p>e emendava essas perguntas com as críticas às “vitimizações”, que vinham com um ar pesaroooso, meio arrastaaado, compadeciiiido&#8230; fiquei chateada. “chateada” porra nenhuma, fiquei foi puta mesmo. pensei em responder do jeito desaforado que costumo responder essas coisas. pensei em responder: “ok, professor, da próxima vez que eu for convidada pra fazer uma palestra sobre cotas, trago umas amigas vestidas de mulata e a gente faz uma apresentação de samba, que tal?”</p>
<p>MAS tenho feito um treino interno de não ser tão ríspida. estrategicamente. então respondi a ele, de maneira polida, que eu sequer tinha usado os termos “vítima” ou “vitimização”, porque eles podem significar uma não-agência, uma receptividade inerte, uma falta de protagonismo, e eu tinha estado ali falando sobre nossa gloriosa história de luta e resistência, nós povo negro do brasil, com nossos 509 anos de história.</p>
<p>e lembrei que eu tinha SIM falado das “coisas boas”, que eu tinha sim apontado vários dos aspectos positivos, emocionantes e lindos de nossa trajetória desde o berço (nossa vanguarda na ciência – como no caso do povo egípcio, pioneiro na prática e registro de partos-cesariana; nas cosmovisões – com nossa espiritualidade inclusiva, nossa religiosidade ecológica; na epistemologia – com nossas culturas letradas seculares, por exemplo, ou na beleza fidedigna da força da palavra brotada na transmissão oral de cultura e tradição) até a contemporaneidade (a diáspora como redimensionamento cultural, seus reflexos na produção dos ‘novos mundos’, a profundidade da música negra seja no samba, no jazz, no axé, no blues, no maracatu, no jongo, no rap, vish, é coisa demais pra um parêntese)&#8230;</p>
<p>MAS que se nossa história tinha muita glória, também tinha muito sofrimento. sofrimento causado PELO RACISMO, que é um sistema de poder e privilégio que beneficia pessoas brancas em detrimento e às custas das não-brancas, expressivamente negras. lembrei, inclusive, que nossa cultura negra ensinava coisas como agregar e não o separar-pra-destruir do colonizador, e que mesmo entendendo que o racismo é o que nos mata, enlouquece e adoece, ainda assim nosso projeto de mundo é pra TODAS as pessoas, e não só pras que se parecem conosco. não queremos mandar ninguém pra campos de concentração ou senzalas invertidas e chicotear suas costas como as nossas foram chicoteadas.</p>
<p align="right"><em>toc</em></p>
<p align="right"><em>toc toc</em></p>
<p align="right"><em>toc</em></p>
<p align="right"><em>quem vem lá?</em></p>
<p align="right"><em>eu que não abria a porta se sabia que era pra você entrar</em></p>
<p align="right"><em>mas mesmo sem agô nem motumbá você ia passar</em></p>
<p align="right"><em>pra pisar no tapete mágico da minha língua</em></p>
<p align="right"><em>com suas botas de morte</em></p>
<p align="right"><em>pra sentar no céu encantado da minha boca</em></p>
<p align="right"><em>com suas ancas de chicote</em></p>
<p align="right"><em>rir do meu pranto</em></p>
<p align="right"><em>partir meu sorriso</em></p>
<p align="right"><em>e largar tudo rompido</em></p>
<p align="right"><em>eu ia caminhar</em></p>
<p align="right"><em>uma noite de 500 anos pra me remendar</em></p>
<p align="right"><em>mas uma hora você dorme,</em></p>
<p align="right"><em>não dorme?</em></p>
<p align="right"><em>ah, dorme&#8230;</em></p>
<p align="right"><em>uma hora você dorme</em></p>
<p align="right"><em>e eu não te espero acordar pra lascar minha língua de açoite nas costas do seu roubo secular</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>retomar</em></p>
<p align="right"><em>o ar</em></p>
<p align="right"><em>cheio do pólen púrpura da palavra</em></p>
<p align="right"><em>te sufocando</em></p>
<p align="right"><em>minha garganta</em></p>
<p align="right"><em>me libertando</em></p>
<p>justamente porque esse sofrimento é uma dinâmica social, política, cultural, econômica, discursiva, do imaginário, e vem a tal ponto incrustada em almas, corações, corpos, condutas e instituições, é que precisa ser 1. denunciado, 2. combatido e 3. superado (há outras enumerações possíveis, e essa nem é a ordem “certa”). e quem tá acostumado com privilégio vai ter que pensar em desacostumar. e quem tá sentado num trono de ouro vai ter que pensar em levantar. derreter o trono. fazer outras coisas com o ouro além dessa acumulação bizarra.</p>
<p align="right"><em>tá com medo de quê?</em></p>
<p align="right"><em>nunca foi fácil.</em></p>
<p align="right"><em>junta seus pedaços</em></p>
<p align="right"><em>e desce pra arena</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>racionais, “sou + você”</em></p>
<p>mas esperei 3 segundos antes de responder. e o que disse a ele, com muita polidez, é que talvez ele tivesse que repensar a crítica que fazia a mim, uma MULHER NEGRA LÉSBICA FEMINISTA EMPODERADA, AFIRMADA, PLENA E COMBATIVA, que não me sinto coitadinha nem vitimizada. que sempre fui guerreira. que sempre sorri e dancei e cantei. e talvez o problema fosse dele, e da escuta dele. talvez fosse um problema antiiigo dos opressores, que ensinam vícios até pra quem não quer ser racista, como acho que ele, realmente, não quer – e um desses vícios bem conhecidos é esse de desmerecer nossas denúncias, menosprezá-las como vitimização,</p>
<p>o famoso “engole o choro!”</p>
<p>não, não mesmo, essa crítica eu não aceito, não me cabe, e só tenta me sufocar.</p>
<p>quer falar de samba? vamo nessa. mas vamos falar *de verdade*. inclusive que essa divisão entre “pagode” e “samba” é arbitrária, classista e racista. e cantemos samba, dancemos. mas não vou me fantasiar de mulata nem calar minha boca das denunciações. porque cada coisa com seu momento, e uma palestra numa escola pública de ensino médio, numa periferia com maioria negra, é tanto espaço de denúncia quanto de anunciação. e da minha boca mágica também saem palavras de anunciação.</p>
<p>posso até conversar de samba, mas é perverso pensar que isso resolve o racismo no brasil, um problema social, cultural e bem entranhado, antigo. arraigado. mas como minhas raízes são mais fundas, peço ajuda de Elisa Lucinda. me ajuda, Elisa Lucinda?</p>
<p align="right"><em>Mulata exportação</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>Elisa Lucinda</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>“Mas que nega linda<br />
E de olho verde ainda<br />
Olho de veneno e açúcar!<br />
Vem nega, vem ser minha desculpa<br />
Vem que aqui dentro ainda te cabe<br />
Vem ser meu álibi, minha bela conduta<br />
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!<br />
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)<br />
Minha tonteira minha história contundida<br />
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?<br />
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;<br />
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer<br />
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.<br />
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore<br />
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.<br />
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”<br />
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.<br />
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado&#8230;”<br />
E o delegado piscou.<br />
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena<br />
com cela especial por ser esse branco intelectual&#8230;<br />
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio<br />
nada disso se cura trepando com uma escura!”<br />
Ó minha máxima lei, deixai de asneira<br />
Não vai ser um branco mal resolvido<br />
que vai libertar uma negra:</em></p>
<p><em>Esse branco ardido está fadado<br />
porque não é com lábia de pseudo-oprimido<br />
que vai aliviar seu passado.<br />
Olha aqui meu senhor:<br />
Eu me lembro da senzala<br />
e tu te lembras da Casa-Grande<br />
e vamos juntos escrever sinceramente outra história<br />
Digo, repito e não minto:<br />
Vamos passar essa verdade a limpo<br />
porque não é dançando samba<br />
que eu te redimo ou te acredito:<br />
Vê se te afasta, não invista, não insista!<br />
Meu nojo!<br />
Meu engodo cultural!<br />
Minha lavagem de lata!</em></p>
<p><em>Porque deixar de ser racista, meu amor,<br />
não é comer uma mulata!</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p>me preocupa esse sujeito em sala de aula. o que vai fazer quando presenciar um caso de racismo na turma? vai falar pra pessoa atingida engolir o choro e parar de se fazer de coitadinha? vai fazer uma exposição, na semana da consciência negra, sobre comidas negras típicas e servir feijoada, acarajé? qual é o compromisso que a gente tem com o fim do racismo? é pra tratar o povo negro como macaco de zoológico?</p>
<p>se for assim, a rede globo ganha até prêmio. porque colocou uma atriz negra como protagonista da novela das oito! mas o prêmio que eu dou pra rede globo é de “excelência em racismo e sub-representação negra”, porque tem que ser muito racista pra colocar personagem negra de joelhos, tomando, da personagem branca, tapa na cara, em plena semana da consciência negra.</p>
<p>é isso que queremos? é disso que precisamos? é assim que o racismo é enfrentado?</p>
<p>não, obrigada. nem obrigada! chega de escravização!</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>20 de novembro &#8211; dia da consciência negra</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Nov 2009 20:21:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária querida,
dedico esse texto à querida feminista eco-queer Sandra Michelli, uma mulher negra que me presenteou, hoje, com uma notícia de justiça sendo feita (por ela!) e uma frase linda:
 
derrubar o Mato é um ato fundante da cultura heteropatriarcal &#8211; e o início da deserotização e defeminilização da Natureza Queer

são 22:35 da terça-feira 17 de novembro, 03 dias antes da sexta-feira 20, 20 de novembro, dia da consciência negra. tenho que escrever dois textos até amanhã, dia 18, e esse é o começo do primeiro.
faz uns 20 minutos ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/consciencia_negra02.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-12958" title="consciencia_negra02" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/consciencia_negra02.jpg" alt="consciencia_negra02" width="292" height="282" /></a>por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p>diária querida,</p>
<p align="right"><em>dedico esse texto à querida feminista eco-queer Sandra Michelli<span id="more-12957"></span>, uma mulher negra que me presenteou, hoje, com uma notícia de justiça sendo feita (por ela!) e uma frase linda:</em></p>
<p align="right"><em> </em></p>
<p align="right"><em>derrubar o Mato é um ato fundante da cultura heteropatriarcal &#8211; e o início da deserotização e defeminilização da Natureza Queer</em></p>
<p align="right">
<p style="text-align: justify;">são 22:35 da terça-feira 17 de novembro, 03 dias antes da sexta-feira 20, 20 de novembro, dia da consciência negra. tenho que escrever dois textos até amanhã, dia 18, e esse é o começo do primeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">faz uns 20 minutos que cheguei na casa da minha mãe, e hoje foi um dia que começou com uma oficina frustrada de leitura e produção de textos pra uma associação de travestis (elas não sabiam que era hoje); passou por uma ida rápida à unb pra tentar pegar caixas de camisinha feminina (ida também frustrada, porque o pólo de prevenção dst/aids tava fechado); continuou, depois do almoço, com uma oficina na contag pra umas 60 pessoas do movimento de trabalhador@s rurais (sobre direitos sexuais e direitos reprodutivos); e finalmente começou a se encerrar com uma reunião, no <a href="http://www.cfemea.org.br/">cfemea</a>, da recente e motivada articulação de mulheres no df, com rearticulação do fórum de mulheres do df.</p>
<p style="text-align: justify;">na ida rápida à unb encontrei a maravilhosa, inspiradora e companheira de luta Jacira da Silva, que ia fazer uma fala sobre mídia e comunicação na semana da consciência negra que a nova gestão do CASO, o c.a. de sociologia da unb, tá fazendo. a nova gestão tem a presença da querida Misha, parceira de <a href="http://www.sapatariadf.wordpress.com/">sapataria</a>, pretinha muito arretada y querida, feminista comunista, que ficou famosa recentemente no caso do <a href="http://www.youtube.com/watch?v=4NBsbqEZSQQ">ato nu</a> em solidariedade à estudante que foi ameaçada, por um monte de macho, de estupro.</p>
<p style="text-align: justify;">quando falei pra Jacira que ia, à tarde, dar essa oficina na contag, ela perguntou por quem a  contag tinha me chamado. tipo, que entidade a contag convidou, quando me convidou&#8230; eu fiquei sem saber o que responder mas depois lembrei que era &#8217;sapataria&#8217;, porque tá assim meu nome, na programação: &#8220;Tatiana &#8211; Sapataria&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">todas as vezes que faço uma fala pública em eventos como esse, começo minha apresentação dizendo que &#8220;sou tatiana, estou no <a href="http://www.forumdemulheresnegrasdf.blogspot.com/">Fórum de Mulheres Negras do DF</a>, na Sapataria &#8211; Coletivo de Lésbicas e Bissexuais do DF, na <a href="http://frentepelodireitoaoaborto.blogspot.com/">Frente contra a criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto</a>&#8220;, e às vezes, ainda, digo que estou no <a href="http://www.fe.unb.br/geraju/">Geraju</a>, o grupo de Educação e Políticas Públicas em Gênero, Raça/Etnia e Juventude, e outras vezes ainda mais escassas, digo que estou no nedig, o núcleo de estudos da diversidade afetivo-sexual e de gênero da unb.</p>
<p style="text-align: justify;">quando tô muuuito apaixonada naquele momento digo, ainda, que sou do <a href="http://www.corpuscrisis.net/">corpuscrisis</a>, o coletivo de micropolítica feminista que serve de terra fértil, preta, plantada de flores y verduras deliciosas, pra boa parte dos meus modos de pensar, sentir, agir y me movimentar, íntima-pessoalmente, pelo mundo. em tudo isso pensei, sem conseguir responder a tempo &#8211; porque Jacira já tinha que ir pro microfone.</p>
<p style="text-align: justify;">mais tarde, lembrei que na semana passada, quando estive em curitiba no IV Seminário &#8220;Mulheres Negras e Saúde&#8221;, promovido pela <a href="http://www.redemulheresnegraspr.org.br/">Rede de Mulheres Negras do Paraná</a>, tivemos uma discussão, em alguma das mesas, sobre as pontes de carne que existem entre nossas diversas militâncias &#8211; lá tinha muitas mulheres que militavam, ao mesmo tempo, no movimento lgbt, no movimento negro, no movimento de mulheres, no movimento sindical, em partidos&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">então falamos rapidamente sobre como é impossível desconectar os ativismos, as disposições, apesar de ser muito comum que os debates mais relacionados ao corpo fiquem do lado de fora da política (como é possível, ma jah?) &#8211; e aí a militância lgbt acaba perdendo espaço pra outras, em muitos casos. lá, por exemplo, muitas mulheres lésbicas não falaram, em momento algum, sobre sua lesbiandade. num evento sobre saúde de mulher preta, como é possível deixar de citar sua orientação afetivo-sexual?</p>
<p style="text-align: justify;">às custas de que esse silenciamento isso é feito? e esse silêncio, protege quem? (salve, audre lorde. minha musa!)</p>
<p style="text-align: justify;">numa viagem anterior, aquela bem maravilhosa pro ceará em outubro, fiz uma oficina de &#8220;corpo, gênero e sexualidade&#8221; (acho que era esse o nome) com Neusa das Dores (<a href="http://www.coisademulher.org.br/">Coisa de Mulher</a>), grande, maravilhosa, plena referência, ancestralidade, fonte de sabedoria e aprendizado. era uma oficina bem parecida com aquelas de &#8220;ginecologia faça-você-mesma&#8221; que fazemos por aqui, com os espelhinhos, os papéis pra desenhar a buceta, os momentos de lembranças, confissões, desejos&#8230; num momento da oficina ela disse que tava de cara com a forma que tanto o movimento negro como o movimento feminista tinha conseguido expurgar o corpo de debates, agendas, movimentações políticas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">como fazer política feminista sem falar de vagina?</p>
<p style="text-align: justify;">ela falou, bem irritada mas de um jeito engraçado também, que o movimento agora só queria se falar, se saber, se pensar da boca pra cima. mas pensamento só se faz na cabeça? ou pensamento a gente sente pelo corpo inteiro, e muitas vezes pra além dele? heranças nefastas de um academicismo cartesiano, iluminista, racista, misógino, positivista&#8230; o que nós, feministas negras, vamos fazer com essa herança?</p>
<p align="right"><em>desmaterializar o Corpo é um ato fundante do racismo epistemológico – e o início da esterilização e embranquecimento da Natureza Negra</em></p>
<p style="text-align: justify;">tem esses pontos de recalque nos movimentos. esses lugares de onde, a partir dali, nada se fala. outra questão sensível pro movimento negro é a questão da morenice. morena não é cor, mulata não é raça! precisamos conversar seriamente sobre os efeitos nefandos da miscigenação, no que ela tem de roubar, de pessoas negras, a possibilidade de identificação racial porque somos não-pretas. daqui a pouco o censo 2010 taí, e ainda há uma pá de gente que se acha &#8220;morena&#8221;, &#8220;morena escura&#8221;, &#8220;cor de jambo&#8221;. somos negras, pessoas! vamos nos enxergar, sem máscaras! sem máscaras embranquecedoras sobre nossas peles negras! negritude é amplitude!</p>
<p style="text-align: justify;">tive essa conversa com uma das meninas que tava na oficina hoje. ela tem um professor que dá aula de africanidades na escola (i.e, a pessoa que se responsabilizou pela aplicação do artigo 26-A da ldb, conhecido como lei 10.639/03 e, um pouco depois, ampliada pela 11.645/08), e a proibiu de participar do desfile da beleza negra porque ela não é preta. ela é uma mulher negra parda, como eu. e ele negou a ela sua negritude. conversamos um bocado sobre isso, inclusive sobre essa noção de amplitude da negritude. amplitude que tem, obviamente, limites:</p>
<p style="text-align: justify;">como muito bem falou a queridíssima e referencíssima Guacira César, do cfemea, quando são limites que dizem respeito a auto-afirmação e percepção/experienciação do racismo por conta de sua cor, seu pertencimento racial. quer dizer que aquele cara, aquele que era presidente do brasil, e que disse que &#8220;todo mundo tem um pezinho na áfrica&#8221;, não é negro. nem aquelas pessoas loiras, de olhos azuis, que vão pras filas do sistema de cotas dizendo que têm uma avó negra. que a avó se inscreva pro vestibular, então. porque racismo tem a ver também principalmente com a percepção que outras pessoas fazem de sua cor, de sua raça, e de como vão usar isso pra violentar você. e é um sistema de poder que diz respeito às opressões que, historicamente, pessoas brancas impuseram às negras.</p>
<p style="text-align: justify;">e tem também aqueles outros casos, na contramão desses das pessoas brancas que se dizem negras pra tentar algum tipo de privilégio, benefício, ou mesmo só tentar desarticular nossa luta: às vezes a pessoa parece branca, diária, sabe? tem a pele bem clara mesmo. mas tem cabelo completamente crespo, tem boca carnuda, nariz largo, entre outros traços ditos negróides. e é óbvio que mesmo não sofrendo racismo com a mesma intensidade que uma pessoa negra preta, ainda assim ela sofre racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">minha outra mestra de feminismo lesbiano negro, Joelma Cezário, andou comentando recentemente que o racismo não poupa o povo sarará justamente por isso, por causa de certos traços que causam aversão racista. sarará é como chama, popularmente (eu não sei outro jeito), aquele povo menos preto, muitas vezes de olho claro, e cabelo crespão bem loiro &#8211; porque racismo também tem a ver, e muito, com aversão a nossos cabelos.</p>
<p align="right"><em>“sarará miolo”, salve, gilberto gil!:</em></p>
<p align="right"><em>sara, sara, sara, sarará<br />
sara, sara, sara, sarará<br />
sarará miolo</em></p>
<p align="right"><em>sara, sara, sara cura<br />
dessa doença de branco<br />
sara, sara, sara cura<br />
dessa doença de branco<br />
de querer cabelo liso<br />
já tendo cabelo louro<br />
cabelo duro é preciso<br />
que é para ser você, crioulo</em></p>
<p style="text-align: justify;">as artimanhas do racismo no brasil é que montaram esse esquema perverso de embranquecimento como prática eugenista social (&#8221;limpar o ventre&#8221;, &#8220;melhorar a espécie&#8221; e &#8220;expurgar a mácula negra&#8221; foram políticas de estado tanto no brasil colônia quanto na nova república), que ao mesmo tempo servem pra menosprezar a negritude e tudo a ela relacionado (aparências, costumes, sensibilidades, espiritualidades, intelectualidades, corporalidades) e elevar o ideal da branquitude como meta a ser alcançada, não importa o que isso custe (auto-mutilação em chapinhas, alisamentos permanentes, plásticas no nariz, fugir do sol; genocídio da população negra; estupros; casamentos inter-raciais como ferramenta etc).</p>
<p style="text-align: justify;">a branquitude como ideal, como meta, como exemplo e como espelho é que faz com que tanto pessoas negras-pretas quanto pessoas negras-pardas neguem sua negritude. eu &#8220;descobri&#8221; que era negra aos 23 anos. uma professora e mestra muito amada, querida e respeitada, negra como o escuro da noite, &#8220;descobriu&#8221; que era negra aos 21. e muitas outras histórias como essa podem ser contadas, recontadas, imaginadas&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">às vésperas do 20 de novembro, dia da consciência negra, acho que cabe a gente pensar sobre a consciência que temos de nossa negritude. como movimento negro e como pessoas negras se movimentando por um mundo muito racista que quer roubar de nós os significados amorosamente políticos de uma data como essa, entender melhor <strong>como</strong> somos quem somos pode ser uma das ferramentas que nos faça ser mais, melhor, de forma mais plena y feliz, quem somos: pra ser a gente, crioul@s</p>
<p style="text-align: justify;">salve Zumbi, mais lembrado, y salve Dandara, jamais esquecida. salve a luta do povo negro no brasil. essa história também corre no meu sangue, e transborda na minha pele! consciência negra é todo dia.</p>
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		<title>muito pra dentro</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Nov 2009 14:08:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária querida,
estou muito pra dentro.
não sei nem o que conversar com você.
estranhamente, apesar de estar pra dentro, tenho viajado muito. amanhã vou pro rio participar do encontro da diversidade sexual na universidade federal rural, e ainda no rio participar do seminário lgbt do complexo da maré.
também vou ver minha mãe fátima y minha amiga anie.
e o sol e o mar.
diária, eu amo o mar.
às vezes tô andando pela rua aqui no meio do cerrado e sinto um cheiro de mar me ocupando as narinas, a cabeça, o coração, tudo.
acho ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p style="text-align: justify;">diária querida,</p>
<p style="text-align: justify;">estou muito pra dentro.<span id="more-12751"></span></p>
<p style="text-align: justify;">não sei nem o que conversar com você.</p>
<p style="text-align: justify;">estranhamente, apesar de estar pra dentro, tenho viajado muito. amanhã vou pro rio participar do encontro da diversidade sexual na universidade federal rural, e ainda no rio participar do seminário lgbt do complexo da maré.</p>
<p style="text-align: justify;">também vou ver minha mãe fátima y minha amiga anie.</p>
<p style="text-align: justify;">e o sol e o mar.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/cotidiana21-dentro.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-12753" title="cotidiana21-dentro" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/11/cotidiana21-dentro-300x218.jpg" alt="cotidiana21-dentro" width="300" height="218" /></a>diária, eu amo o mar.</p>
<p style="text-align: justify;">às vezes tô andando pela rua aqui no meio do cerrado e sinto um cheiro de mar me ocupando as narinas, a cabeça, o coração, tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">acho que é como amar alguém que preferiu ir embora, mas o cheiro dela vem e me arrebata apesar da contagem dos dias crescendo sem ela. aumentando a distância física a cada dia. um mar como ponte.</p>
<p style="text-align: justify;">é estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">mas a vida é muito maravilhosa, então tenho sorrido muito e cuidado dos lírios na varanda agora mirrada de plantas na casa da minha mãe, esperando as flores voltarem. lírios passam por momentos muito interessantes, diárias, assim: depois daquela explosão de beleza e perfume, as flores caem e as folhas bem verdes vão caindo também, e a planta parece que morre.</p>
<p style="text-align: justify;">é que ela se deu tanto pra fazer as flores mais lindas e perfumadas que existiram, que agora precisa descansar. umas semanas depois as folhas vão nascer e crescer de novo. e algum outro tempo depois, mais flores, completamente entregues.</p>
<p style="text-align: justify;">pra si mesmas, pro seu próprio viver. não é pra mim, não é pra minhas lembranças de uma amor ida embora mais uma vez, não é pra encher minha alma (mesmo que encha), é porque elas existem.</p>
<p style="text-align: justify;">é apaixonante.</p>
<p style="text-align: justify;">e pra mim, mulher de Oyá que sou, a paixão é fundamental.</p>
<p style="text-align: justify;">tô aprendendo, diária, aprendendo a me aprender. como o encontro que encontra o encontro, desencontrada de tantos desencontros. mas cada vez mais achada.</p>
<p style="text-align: justify;">aí alguém pode perguntar:</p>
<p style="text-align: justify;">o que isso tem a ver com uma coluna pública sobre feminismo?</p>
<p style="text-align: justify;">respondam aí, leitoras queridas.</p>
<p style="text-align: justify;">o que isso tem a ver com feminismo?</p>
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		<title>Racismo faz mal à Saúde!</title>
		<link>http://paradalesbica.com.br/2009/10/racismo-faz-mal-a-saude/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 14:56:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Del.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunas]]></category>
		<category><![CDATA[Tate - Cotidiana]]></category>

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		<description><![CDATA[por Tate em cotidiana
diária querida, aqui estamos às vésperas de outro 27 de outubro – Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra. “mais uma no se passando, muita coletividade na quebrada&#8230;”
há um ano, o Fórum de Mulheres Negras do DF organizava, nessa data, uma coletiva com a imprensa local, visibilizando a data de luta e nossas demandas. isso que resultou, depois de algumas outras movimentações de controle social (como cobrança à secretaria de saúde do df que implementasse o Plano Nacional de Saúde Integral da População Negra aqui no quadradinho), na ...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="size-full wp-image-12377 alignleft" title="cotidiana20_01" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/10/cotidiana20_01.jpg" alt="cotidiana20_01" width="281" height="168" />por <a href="../colunas/tate/">Tate</a> em <a href="../category/colunas/tate-cotidiana/">cotidiana</a></p>
<p style="text-align: justify;">diária querida, aqui estamos às vésperas de outro 27 de outubro – Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra<span id="more-12376"></span>. “mais uma no se passando, muita coletividade na quebrada&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">há um ano, o <a href="http://www.forumdemulheresnegrasdf.blogspot.com/">Fórum de Mulheres Negras do DF</a> organizava, nessa data, uma coletiva com a imprensa local, visibilizando a data de luta e nossas demandas. isso que resultou, depois de algumas outras movimentações de controle social (como cobrança à secretaria de saúde do df que implementasse o Plano Nacional de Saúde Integral da População Negra aqui no quadradinho), na criação do Comitê Técnico de Saúde da População Negra no DF – publicada em 12 de maio de 2009, mas que ainda não saiu do papel e não foi efetuada. temos ligado desde maio na secretaria de saúde sem conseguir resposta, sem conseguir marcar uma reunião e finalmente passarmos nossas indicações de nome à composição do Comitê. “escorrega que nem quiabo”&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">agora, um ano depois de nossa primeira mobilização, vai acontecer uma nova etapa: o 1º Ovulário Saúde da População Negra, aderindo à mobilização nacional impulsionada pela <a href="http://redesaudedapopulacaonegra.blogspot.com/">Rede Nacional de Controle Social e Saúde da População Negra</a>. vai ser dia 27 de outubro, terça-feira, no auditório da Fundação Cultural Palmares. o evento é uma realização do Fórum de Mulheres Negras do DF, em parceria com o CDDN – Conselho de Defesa dos Direitos da(o) Negra(o) do DF.</p>
<p style="text-align: justify;">serão feitas duas mesas, uma sobre panorama geral da saúde negra no brasil, e outra sobre saúde de mulheres negras, das 8h às 12h, com abertura da Federação DF e Entorno de Umbanda e Candomblé. além das entidades e colectivas já citadas, tem participação da <a href="http://cojiradf.wordpress.com/">Cojira</a> – Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial/DF, <a href="http://sapatariadf.wordpress.com/">Sapataria</a> – Coletivo de Mulheres Lésbicas e Bissexuais/DF, <a href="http://grioproducoes.blogspot.com/">Griô Produções</a>, MNU – Movimento Negro Unificado/DF, Frente pelo fim da criminalização das Mulheres e pela Legalização do aborto e Sapatà – Rede Nacional da Promoção e Controle da Saúde das Lésbicas Negras.</p>
<p style="text-align: justify;">com tanta gente e demandas, esperemos que, dessa vez, o governo fascista e higienista do df, com sua carapuça de democrático e participativo, dê as caras e cumpra com o que se comprometeu. confesso, diária, que minha esperança é coletiva – já que estamos nos movimentando, no fórum, em direção a esses diálogos; porque individualmente condeno essas formas de governo falsamente representativas e indiretas.</p>
<p style="text-align: justify;">poder na mão do povo preto é o povo preto que anda fazendo, não o estado concedendo. é por discrepâncias assim – entre organizações políticas verticais, de um lado, e mobilização social horizontal, de outro, tendo que se debater naquele sistema – que vivemos num estado com quase metade da sua população sendo negra e estando desassistida de políticas públicas; e é por discrepâncias assim que esse mesmo estado, que espanca população de rua majoritariamente negra e preferencialmente criança, que expulsa travestis e transexuais prostituindo-se de seus locais de trabalho e as carrega em camburões, que expulsa comunidades tradicionais não-brancas (ou seja, negras e indígenas) de suas terras pra construir condomínios de classe média (chamando isso de “bairro verde”), que faz assepsia social perseguindo, criminalizando e fechando lugares lgbt, vai ter a cara de pau de dar as caras no evento, dizer que “criou” o comitê e que tá atuando forte na luta contra o racismo.</p>
<p style="text-align: justify;">e porque escolhemos fazer movimentação social pró-política pública temos que agüentar merdas desse tipo.</p>
<p style="text-align: justify;">racismo faz mal à saúde, diária; e o estado também. ainda não engoli a aprovação do estatuto da “igualdade” racial, e já tenho que lidar com essa&#8230; mas ninguém disse que era fácil. então vamo que vamo, continuar caminhando, porque nossos passos vêm de longe (como aprendi bem bonitinho no Livro da Saúde das Mulheres Negras).</p>
<p style="text-align: justify;">e é porque nossa continuidade só existe a partir de nossa ancestralidade que vou terminar minha diária dessa semana com a carta que enviamos, no 20 de novembro do ano passado, à secretaria de saúde do DF. quase um ano se passou, muita coletividade na nossa quebrada, mas as demandas continuam as mesmas e o estado? a mesma máquina de nos deixar doentes e tristes que sempre foi. mas lutar sorrindo e avançar dançando é mato pras mulherada preta. nossos passos vão longe!</p>
<p style="text-align: justify;">esse textinho é pra Jack, amiga da amada Natália, ambas pretas lindas de salvador. Jack me ensinou que “palha”, a gíria que a gente usa muito aqui em Brasília pra dizer que uma coisa é ruim, tosca ou boba, é uma ofensa a Obaluaê, o Orixá da Cura – com suas vestes de palha, como na imagem da Rede Sapatà. to tentando parar de falar “palha”, visse preta?</p>
<p style="text-align: justify;">muito axé pra todas nós, pretas e pretos e pretis e pretxs que sobrevivemos mais um dia, mais um mês, mais um ano de racismo institucional, adoecedor e mortificante. dia 04 de outubro foi aniversário do meu pai: 55 anos contrariando as estatíticas. outro preto vivão e vivendo. AXÉ!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/10/cotidiana20_02.JPG"><img class="alignright size-medium wp-image-12378" title="cotidiana20_02" src="http://paradalesbica.com.br/wp-content/uploads/2009/10/cotidiana20_02-154x300.jpg" alt="cotidiana20_02" width="154" height="300" /></a>Brasília, 20 de Novembro de 2008 – DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA</p>
<p style="text-align: justify;">À Sua Senhoria o Senhor</p>
<p style="text-align: justify;">Deputado Federal Augusto Carvalho</p>
<p style="text-align: justify;">Secretário de Saúde do Distrito Federal</p>
<p style="text-align: justify;">Senhor Secretário,</p>
<p style="text-align: justify;">Cientes de sua consciência política acerca da responsabilidade do Estado Brasileiro em efetivar garantias e direitos de condições dignas de saúde para toda a população, sem discriminação de raça/cor/etnia, gênero, religiosidade, origem social ou orientação sexual, nós, Fórum de Mulheres Negras do Distrito Federal, entidade da Sociedade Civil composta por trabalhadoras, jovens, intelectuais, lésbicas, ativistas, mães, idosas, hetero ou bissexuais, artistas, desempregadas, Yalorixás, vivendo com HIV/AIDS: mulheres negras, denunciamos que RACISMO FAZ MAL À SAÚDE e, portanto, demandamos a implementação, no Distrito Federal, da POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DA POPULAÇÃO NEGRA, aprovada em âmbito nacional pelo Conselho Nacional de Saúde em 2006 e em franca implementação em diversos Estados da Federação.</p>
<p style="text-align: justify;">A efetivação do Plano Nacional no Distrito Federal assegura o compromisso nacional em garantir a atenção específica necessária a este segmento que, apesar de apresentar com propriedade demandas singulares, tem sido historicamente alijado de políticas públicas efetivas que nos garantam viver com dignidade em muitas instâncias da vida social, especialmente aquelas onde o Estado deve apresentar maior atuação.</p>
<p style="text-align: justify;">Tais particularidades são próprias de nosso contingente populacional devido tanto a fatores de ordem genética quanto de ordem cultural/social, resultando em demandas de saúde (condições ou doenças) mais recorrentes, mas não exclusivas, em pessoas negras. A título de ilustração, no caso de mulheres negras as enfermidades que mais nos acometem são, para citar algumas, miomas uterinos, doença falciforme, hipertensão arterial, diabetes, doenças mentais adquiridas, DST/AIDS, glaucoma, câncer de vulva.</p>
<p style="text-align: justify;">Além da incidência dessas doenças, a existência do racismo institucional que permeia as relações sociais no Brasil, das quais não se excluem as interações que se dão nos serviços de saúde, é refletida em displicência e traumas para mulheres negras, submetidas a atendimento precarizado, maus-tratos em situação de parto ou abortamento, menor tempo de consulta (em comparação a mulheres brancas), menor acesso ao aparelho de saúde, entre outros fatores.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse sentido, o Fórum de Mulheres Negras do Distrito Federal compreende que:</p>
<p style="text-align: justify;">1. É imprescindível a adoção do quesito cor em todos os formulários de atendimento e internação da rede de saúde pública e particular do DF, o que resultará em aquisição de dados que permitam melhor delinear políticas públicas com atenção à população negra;</p>
<p style="text-align: justify;">2. Criação e manutenção do Comitê Técnico de Saúde da População Negra, formado por representantes do Governo e da Sociedade Civil, para o planejamento e fiscalização destas políticas;</p>
<p style="text-align: justify;">3. Estruturação de um sistema efetivo de prevenção e tratamento de doenças recorrentes na população negra;</p>
<p style="text-align: justify;">4. Especial atenção a políticas públicas que garantam a autonomia e soberania sexual e reprodutiva de nós, mulheres negras.</p>
<p style="text-align: justify;">Aguardamos um posicionamento sólido da Secretaria de Saúde do Distrito Federal no sentido de atender nossas demandas e garantir o diálogo entre nós, como Sociedade Civil, e a Secretaria, órgão responsável, no Distrito Federal, pela execução, em âmbito local, da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.</p>
<p style="text-align: justify;">ASSINAM ESSA CARTA:</p>
<p style="text-align: justify;">FÓRUM DE MULHERES NEGRAS DO DF</p>
<p style="text-align: justify;">COJIRA – COMISSÃO DE JORNALISTAS PARA A IGUALDADE RACIAL</p>
<p style="text-align: justify;">CORPUSCRISIS – COLETIVO DE MICROPOLÍTICA FEMINISTA</p>
<p style="text-align: justify;">AFROATITUDE</p>
<p style="text-align: justify;">ENEGRESER – COLETIVO NEGRO DO DF E ENTORNO</p>
<p style="text-align: justify;">COTURNO DE VÊNUS – ASSOCIAÇÃO LÉSBICA FEMINISTA DE BRASÍLIA</p>
<p style="text-align: justify;">SAPATARIA – COLETIVO DE MULHERES LÉSBICAS E BISSEXUAIS DE BRASÍLIA</p>
<p style="text-align: justify;">CFEMEA – CENTRO FEMINISTA DE ESTUDOS E ASSESSORIA</p>
<p style="text-align: justify;">MNU/DF &#8211; Movimento Negro Unificado/DF</p>
<p style="text-align: justify;">AQUILOMBANDO</p>
<p style="text-align: justify;">CENTRO DE CONVIVÊNCIA NEGRA (UnB)</p>
<p style="text-align: justify;">GERAJU – GRUPO DE PESQUISAS EM GÊNERO, RAÇA E JUVENTUDE</p>
<p style="text-align: justify;">ESPAÇO 35 – ESPAÇO AFRO-BRASILEIRO DE BRAZLÂNDIA</p>
<p style="text-align: justify;">CONSELHO DA/DO NEGRA/O DO DF</p>
<p style="text-align: justify;">NEAB – NÚCLEO DE ESTUDOS AFRO-BRASILEIROS (UnB)</p>
<p style="text-align: justify;">IROHÌN – Comunicação a serviço d@s Afrobrasileir@s</p>
<p style="text-align: justify;">FÓRUM DE MULHERES DO DISTRITO FEDERAL</p>
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